terça-feira, 29 de março de 2011
Biografia sobre Gandhi o retrata como homossexual e xenófobo
Beto Volpe
Descrição da imagem: fotografia de Gandhi
Washington, 28 mar (EFE).- Uma polêmica biografia sobre o ícone pacifista e líder independentista hindu, Mahatma Gandhi, o retrata como homossexual e ressalta seus supostos comentários xenófobos, entre outros aspectos desconhecidos, informa a imprensa local nesta segunda-feira. O livro, intitulado "Great Soul: Mahatma Gandhi and his struggle with Índia" (Uma grande alma: Mahatma Gandhi e sua luta com a Índia, na tradução), foi escrito por Joseph Lelyveld, antigo editor do "The New York Times". De acordo com alguns trechos da biografia divulgados nesta segunda-feira no "The Wall Street Journal", Gandhi estava profundamente apaixonado pelo fisioterapeuta alemão Hermann Kallenbach, pelo qual deixou sua esposa em 1908. Segundo os mesmos trechos, Gandhi escreve para Kallenbach: "Como tomaste completamente posse do meu corpo? Isto é uma verdadeira escravidão". Além disso, explica que seu retrato "é o único que tem na estante" de seu dormitório.
O casal, no entanto, se viu obrigado a se separar em 1914 quando, após o início da Primeira Guerra Mundial, Gandhi retornou à Índia, para onde Kallenbach não pôde viajar por ser alemão. Lelyveld cita outras cartas nas quais Gandhi faz Kallenbach prometer-lhe que não olharia "com luxúria para nenhuma mulher". Em outra carta de 1933, o líder da independência da Índia reiterava sua lembrança de Kallenbach ao escrever: "Sempre estás em minha mente". O livro de Lelyveld, quem ganhou o prestigioso prêmio Pulitzer de Jornalismo em 1986, também semeia dúvidas sobre o humanismo de Gandhi, ao destacar supostos comentários xenófobos e racistas durante os anos que passou na África do Sul no início do século XX. "Podíamos entender não estar classificados como os brancos, mas situar-nos no mesmo nível que os nativos sul-africanos era demais. Kaffirs (como são chamados os nativos negros da África do Sul) são por norma incivilizados. São problemáticos, muito sujos e vivem como animais", escreve Lelyveld na biografia de Gandhi.
Além disso, Gandhi era consciente da importância de suas declarações e exigia que os jornalistas "não utilizassem as palavras que tinham saído de sua boca, se não uma versão autorizada por ele próprio após a profunda e frequente revisão das transcrições". A obra de Lelyveld é fruto de seu trabalho como jornalista na Índia durante a década de 1960 e na África do Sul, onde trabalhou para o "The New York Times" nos anos 1980. A biografia que, segundo o "The Wall Street Journal", não deixa de mostrar uma profunda admiração por Gandhi, é equilibrada e procura apresentar uma visão mais humana do personagem, embora seja mais provável que decepcione seus admiradores.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Usina de confusões - Revista Isto É - nº 2159
Governo demite toda a diretoria da CNEN após descobrir que reatores atômicos operam sem licenças e que Angra 2 não tem autorização definitiva para operar Por: Claudio Dantas Sequeira
Descrição da imagem: capa da falecida revista Manchete da década de setenta com visão aérea da então recém instalada usina nuclear brasileira.
Há exatamente uma semana chegou à mesa do ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, um relatório explosivo contra membros da cúpula do programa nuclear brasileiro. Com base nas denúncias do documento assinado pelas associações de servidores dos principais órgãos ligados ao programa (a CNEN e o Ipen), Mercadante pediu uma imediata investigação interna. Em poucos dias convenceu-se de que a situação era, de fato, grave e decidiu agir. A primeira medida será a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves, e de toda a direção do órgão. Gonçalves é responsabilizado, dentre outras coisas, pelo atraso no licenciamento da usina de Caetité que paralisou a extração de urânio e obrigou o Brasil a comprar 220 toneladas do minério no Exterior, ao custo de R$ 40 milhões.
Para Mercadante, trata-se de um constrangimento, já que o País detém uma das maiores reservas de urânio do mundo. Caetité, no entanto, é apenas a ponta de um enrolado novelo que se tornou o programa nuclear. Mercadante ficou chocado ao saber que quatro reatores nucleares utilizados para pesquisa funcionam sem licença em três campi universitários. O processo de certificação desses reatores foi engavetado pelo presidente da CNEN e por seu diretor de radioproteção e Segurança Nuclear, Laércio Vinhas. “Dá muito trabalho e os reatores estão muito bem”, teria dito Odair Gonçalves, segundo relato de funcionários. Gonçalves nega. “Nosso pessoal está sobrecarregado”, justifica. Mas a gota d’água, para Mercadante, foi saber que Angra 2 opera há mais de uma década sem a “autorização de operação permanente”.
Além das questões técnicas, há críticas sobre o suposto excesso de viagens internacionais de Gonçalves e de nomeações de amigos para cargos de chefia. Seria o caso da física Maria Cristina Lourenço, que chefia a área internacional da CNEN e acompanhou Gonçalves em 11 das 14 viagens que ele fez em 2010. Odair Dias Gonçalves está à frente da CNEN desde 2003. Nesse período, entrou em choque com autoridades do setor e com o corpo de fiscais nucleares. Nem o Itamaraty o tolera e pouco fez em defesa de sua candidatura para cargos na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Foram três tentativas frustradas em 2010. “É um caso raro de unanimidade às avessas”, afirma um assessor de Mercadante. No final do ano passado, Gonçalves filiou-se ao PT. Mas nega interesse na carreira política.
quinta-feira, 24 de março de 2011
GENI, O ZEPELLIN E OS TEMPOS DE INIQUIDADE
“Quando vi nessa cidade tanto horror e iniquidade, resolvi tudo explodir.”Chico Buarque de Hollanda em ‘A Ópera do Malandro’
Descrição da imagem: Geni, em atmosfera de névoa, observa o dirigível que se aproxima, em vôo rasante e ameaçador.
Desde que me maravilhei com a letra de Geni e o Zepellin, uma das músicas da desafiadora ópera brasileira nos anos de chumbo da ditadura militar, atribuí à tal iniquidade um sentido equivocado, eu a associava a desigualdade e ponto. Nas últimas eleições majoritárias eu recebi um vídeo de um pastor evangélico do Paraná onde o mesmo criticava duramente uma das candidaturas, mas o que me chamou a atenção foi a parte evangelizadora do vídeo na qual o pastor pregava contra a iniquidade. E aprendi que uma sociedade vive uma situação de iniquidade quando os valores por ela eleitos como norteadores do que é ou não aceito se deterioram a tal ponto que, além de passarem a acontecer de forma rotineira e democratizada, passam a vigir como o novo código dessa sociedade.
Não é preciso filosofar nada a respeito, muito menos abrir nossas caixas de ferramentas para se constatar que vivemos um estado de iniquidade nos dias de hoje. Basta olhar ao nosso redor, seja no trânsito, no supermercado, nas relações de trabalho e de confiança, no público alvo de ações e projetos da sociedade civil e do governo. Mais que o comportamento, os valores mudaram. São valores efêmeros, imediatos e convenientes, não existe mais uma idealização de um mundo melhor para além da comodidade. Saramago diz que ‘estamos nos acostumando tanto a ter direitos que esquecemos que para cada direito existe um dever correlato.’ E quando o direito é de outrem, o dever passa a ser nosso e essa dinâmica simplesmente é apagada do código social. Dia desses participei de uma cena e assisti a outra pela televisão: dei uma bronca pública em uma mulher que quase foi atropelada quando ‘ensinava’ sua filha de uns oito anos a atravessar no sinal fechado para o pedestre e à noite vi pela TV uma manifestação em protesto ao atropelamento de uma criança que voltava do colégio de bicicleta, não respeitou a sinalização e morreu atropelada.
Juro que não quero parecer amargo, quem me conhece sabe que minhas mais conhecidas características são o bom humor e a confiança em dias melhores. Mas fica difícil acreditar neles quando se vê, por exemplo, o bulling tomando conta de nossas crianças da mais tenra idade e as mulheres sendo cada vez mais banalizadas, brutalizadas e vitimadas por malucos que as amam demais (sic). A iniquidade é tão sorrateira e tem tanto poder de propagação quanto a AIDS, atinge até os santuários de onde se espera a resistência que perpetuou nossa civilização até os dias de hoje, mesmo diante das catástrofes por nós mesmos criadas. Hoje atravessamos mais um episódio de falta de medicamentos anti HIV e nada plausível foi dito pelo Ministério da Saúde que ao menos tentasse justificar o injustificável. Afinal, é normal ter problemas no processo de abastecimento que vão se somando, se somando, se somando....
Agora, o que mais entristece, para não dizer revolta e emputece (desculpem o termo), é o silêncio da sociedade civil sobre o assunto. Perdeu-se o sentido de urgência que a AIDS tem em suas vísceras. Os mesmos passivistas que se esconderam por detrás dos pilares do auditório Ulysses Guimarães continuam atrás das cortinas, rezando para que não falte seu medicamento ou, quem sabe, sua quimioterapia. A mesma sociedade civil que me apaixonou pela vida social, pelas noções de direitos e deveres, por ser pro ativo e saber a importância que isso tem para a comunidade. O mesmo movimento social organizado do qual me afastei bastante contrariado e artigos anteriores meus podem dar maiores detalhes a respeito. E não sou somente eu, outras pessoas, Ativistas, também estão afastadas e cada vez mais contrariadas com a iniquidade que impera no MOVAIDS.
É, pessoal... Na plenária do Encontro de Pessoas com HIV/AIDS ocorrido em 2007 na cidade de Manaus eu disse, em tom de ironia, que qualquer dia seria formada a Rede de Pessoas Sequeladas pela AIDS, que traria de volta ao movimento o sentimento de urgência tão defendido por Betinho na luta contra a fome. Não uma rede, mas uma horda de famintos que estão em sua última formulação possível do coquetel, pessoas que rodam em suas cadeiras, enxergam ou se apóiam em suas bengalas, pessoas que já deitaram à mesma cama que a Morte e que combinaram com ela que só iriam se alguém pisasse na bola. E tem muita gente pisando feio na bola. Daí o convite para você que se encaixa em alguma das características citadas neste parágrafo, seja no aspecto clínico ou da indignação: queira, por favor retirar seu bilhete em meu guichê no Facebook e embarcar no Zepellin da Resistência.
Chega de tanto horror e iniquidade porque nossa fome é de Vida.
Beto Volpe
sexta-feira, 18 de março de 2011
Qual é a sua, doutor?
Descrição da imagem: perfil de cabeça vermelha, olho destacado com um quebra cabeças colorido onde deveria haver um cérebro. Fonte: 3.bp.blogspot.comUma vez mais pipocam alertas de falta de medicamentos do coquetel em várias regiões do país, comprometendo a vida das pessoas com HIV.. Uma vez mais o governo federal emite uma nota técnica recomendando sua substituição para adequar o tratamento de milhares de pessoas às sempre surpreendentes necessidades do Estado. Uma vez mais a resposta da sociedade civil organizada é burocratizada por lideranças mais preocupadas com o formato do que com a essência da luta. E, uma vez mais, o diretor do Departamento Nacional de DST/AIDS/HVs surpreende e diz que ‘"falar isso (que a falta de medicamentos teria virado rotina) de um programa que distribui 20 remédios para pacientes de todo o País é quase uma provocação.".
Doutor Greco, o senhor nem parece o mesmo gestor que há tão pouco tempo igualmente surpreendeu e deu um sonoro puxão de orelhas na sociedade civil, a qual o senhor julgara ‘acomodada’ em relação ao controle social de políticas públicas em AIDS no país, opinião à época compartilhada pela UNAIDS do Brasil. Nem parece o mesmo técnico que garantiu que os problemas de desabastecimento faziam parte do passado e que já haviam sido solucionados com a aquisição de estoques estratégicos de medicamentos. E novamente o Ministério da Saúde afronta as pessoas que vivem com HIV e os profissionais envolvidos em seus tratamentos com problemas nos estoques do Atazanavir, Saquinavir e Didanozina, utilizados por cerca de 40 mil pessoas em todo o Brasil.
Só não afronta algumas lideranças do movimento nacional de luta contra a AIDS e não é de hoje. Vale lembrar que em junho do ano passado, ao final de um longo desabastecimento de diversos medicamentos, houve manifestação na abertura do Congresso Nacional de Prevenção em Brasília, manifestação essa considerada ofensiva pelo (sic) representante das pessoas com HIV para o evento e por diversas ‘lideranças’ através de furtivos olhares por detrás dos pilares do Auditório Ulysses Guimarães. Vale também recordar que as redes de pessoas com HIV não redigiram qualquer manifesto formal, ao contrário de outras redes presentes ao congresso. Tais quais os três macaquinhos, taparam os olhos, os ouvidos e especialmente a boca, compactuando com o então ministro Temporão de que havíamos sido ‘mal educados’ e que a manifestação teria sido inapropriada.
E agora, além de mal educados, os que se atrevem a se indignar são considerados provocadores. Não era isso que o doutor queria? Que a sociedade civil fosse incômoda ou invés de acomodada? Ou agora o senhor está a fazer média com o novo chefe e ao repetir os mesmos equívocos do passado nem satisfações nos dá, apenas diz que "Não há uma justificativa única. Foi uma junção de atrasos, problemas que foram se somando". Lamento discordar, doutor Greco, mas há uma única justificativa, sim, que aglutina e potencializa todos os fatores que ocasionam essa sucessão de desastres: a incompetência. Incompetência em administrar uma logística que está implantada há 15 anos no país e em dar tranqüilidade aos cidadãos brasileiros que dela dependem para viverem suas vidas.
Este ano temos os encontros políticos do movimento. A sociedade civil organizada em AIDS terá a árdua missão em decidir se é acomodada ou provocadora. Se existe para soar vuvuzelas ou para tapar o sol com as próprias mãos.
Doutor Greco, o senhor nem parece o mesmo gestor que há tão pouco tempo igualmente surpreendeu e deu um sonoro puxão de orelhas na sociedade civil, a qual o senhor julgara ‘acomodada’ em relação ao controle social de políticas públicas em AIDS no país, opinião à época compartilhada pela UNAIDS do Brasil. Nem parece o mesmo técnico que garantiu que os problemas de desabastecimento faziam parte do passado e que já haviam sido solucionados com a aquisição de estoques estratégicos de medicamentos. E novamente o Ministério da Saúde afronta as pessoas que vivem com HIV e os profissionais envolvidos em seus tratamentos com problemas nos estoques do Atazanavir, Saquinavir e Didanozina, utilizados por cerca de 40 mil pessoas em todo o Brasil.
Só não afronta algumas lideranças do movimento nacional de luta contra a AIDS e não é de hoje. Vale lembrar que em junho do ano passado, ao final de um longo desabastecimento de diversos medicamentos, houve manifestação na abertura do Congresso Nacional de Prevenção em Brasília, manifestação essa considerada ofensiva pelo (sic) representante das pessoas com HIV para o evento e por diversas ‘lideranças’ através de furtivos olhares por detrás dos pilares do Auditório Ulysses Guimarães. Vale também recordar que as redes de pessoas com HIV não redigiram qualquer manifesto formal, ao contrário de outras redes presentes ao congresso. Tais quais os três macaquinhos, taparam os olhos, os ouvidos e especialmente a boca, compactuando com o então ministro Temporão de que havíamos sido ‘mal educados’ e que a manifestação teria sido inapropriada.
E agora, além de mal educados, os que se atrevem a se indignar são considerados provocadores. Não era isso que o doutor queria? Que a sociedade civil fosse incômoda ou invés de acomodada? Ou agora o senhor está a fazer média com o novo chefe e ao repetir os mesmos equívocos do passado nem satisfações nos dá, apenas diz que "Não há uma justificativa única. Foi uma junção de atrasos, problemas que foram se somando". Lamento discordar, doutor Greco, mas há uma única justificativa, sim, que aglutina e potencializa todos os fatores que ocasionam essa sucessão de desastres: a incompetência. Incompetência em administrar uma logística que está implantada há 15 anos no país e em dar tranqüilidade aos cidadãos brasileiros que dela dependem para viverem suas vidas.
Este ano temos os encontros políticos do movimento. A sociedade civil organizada em AIDS terá a árdua missão em decidir se é acomodada ou provocadora. Se existe para soar vuvuzelas ou para tapar o sol com as próprias mãos.
sábado, 12 de março de 2011
Carta aberta para Sandy
Por Tica Moreno*Pessoal, lá vai um texto que achei bem interessante. Ainda pela Semana da Mulher. Há muita controvérsia, mas é disso que é feita a evolução, não?
Beto Volpe
Descrição da imagem: foto de Sandy com camiseta da cerveja em referência.
Quando eu estava no ensino médio, você fez um desserviço pras meninas da minha idade, que é a mesma idade que a sua.Foi a época da “garota sandy“: uma jovem, bonita, magra, de cabelo liso, a filha que todo pai e mãe queria ter, rica…. e virgem. E que afirmava que queria casar virgem.A garota sandy era aquilo que nenhuma de nós éramos, mesmo que a gente tivesse uma ou outra característica dessas aí de cima. A verdade é que a gente nem queria ser daquele jeito.Foi a primeira vez (que eu me lembre) que eu me vi sendo comparada com um modelo de mulher que eu não queria ser. E eram os outros que nos comparavam. Aí a gente foi se sentindo inadequada, umas mais, umas menos.Qual era (qual é) o problema de não casar virgem? (Isso pra não perguntar qual é o problema de não querer casar…)Você não acha um problema de fato, até porque há alguns anos você afirmou que não tinha casado virgem. Fico até aliviada por você, porque imagina se não fosse bom com seu marido? Ainda mais se a relação de vocês for monogâmica e conservadora… Não desejo uma vida sem orgasmo nem pro meu pior inimigo.Mas voltando. O padrão “garota sandy” não foi uma reportagem qualquer que saiu na revista da folha. Reforçou um padrão que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres vivam sua sexualidade a vida inteira de forma passiva, em função do desejo e do prazer do cara, que faz as meninas e mulheres que são donas do seu desejo serem consideradas vadias, vagabundas, putas, devassas.O machismo faz isso: separa as mulheres entre santas e putas, “valoriza” as santas e puras e desqualifica, discrimina, violenta as “putas”.Deve ter algum motivo pra você se afirmar como santa, e não como puta, numa época da sua vida.E daí eu vou te dizer, caso você ainda não tenha entendido o porquê dessa carta aberta, seu segundo desserviço pras mulheres. Ser a nova garota devassa.Pra quê?? De dinheiro você não precisa.Você não estudou psicologia? [Não, me disseram aí nos comentários que ela estudou Letras, mal aê - mas eu lancei um google e vi que na época do meu ensino médio, de onde eu tirei a memória pra escrever esse post (ano 2000), circulou ainformação da psicologia, rs.] Deveria ter aprendido alguma coisa sobre sexualidade teoricamente, além da prática (que, de novo, espero que seja boa pra você).Nem as santas, nem as putas, são donas do seu desejo, do seu corpo, da sua sexualidade. O símbolo da devassa, e o imaginário que essa cerveja construiu – e que você vai propagandear – é o de uma mulher feita nos moldes do que a maioria dos homens tem tesão por. Importa o tesão deles, e não o nosso.As revistas femininas (e as masculinas) fazem isso também. Sabe aquelas dicas da Nova pra fazer qualquer mulher deixar qualquer homem louco na cama? Então. É o mesmo machismo, a mesma submissão.Você de alguma forma tá querendo apagar a imagem de santa, usando a idéia de que você pode ser devassa?Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.
* Tica Moreno é formada em Ciências Sociais, foi do DCE da USP e do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CEUPES). Atualmente trabalha na Sempreviva Organização Feminista, SOF. Tica é militante da Marcha Mundial das Mulheres.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Admirável Mundo Velho
Pessoal, não é falta de criatividade, não. Mas nesta Semana Internacional da Mulher reedito um artigo meu de julho do ano passado, justamente por nada haver mudado, ao contrário. É só trocar os nomes para Lavínias, Vanessas, Marias de toda sorte. Lamentavelmente não dá para celebrar um feliz dia das mulheres... Mas é de desejar o fortalecimento daquelas e daqueles que atuam em área tão traumatizante como a da violência contra a mulher. Muitas felicidades a todas e todos que atuam nessa luta, para que um dia possamos dizer:Feliz Dia Internacional da Mulher!!!
Beto Volpe
Descrição da imagem: mulher sentada no chão de uma calçada, com os braços ao redor das pernas, cabeça abaixada, cabelo cobrindo todo o rosto, foto em branco e preto.
Está atrasado quem pensa que o mundo está mudando. Ele já mudou. É outro, completamente diferente, com tantas inovações que sequer imaginávamos desfrutar. Quem é de minha época lembra que somente o Capitão Kirk e a tripulação da Enterprise usavam telefones portáteis do tamanho da palma de suas mãos. O desejo Divino de união da raça humana teve um grande reforço com a rede mundial de computadores e todos os benefícios dela advindos. Mas algumas coisas parecem não mudar ou as mudanças estão acontecendo em ritmo muito mais lento do que a ciência. A vulnerabilidade da mulher nas relações afetivas é uma das mais tristes constatações de que vivemos um admirável mundo velho. Um mundo onde os avanços tecnológicos nos permitem ter a real noção do quanto ainda guardamos dos tempos da barbárie.
Os noticiários do país não conseguem mudar de pauta. São Eloás, Mércias e Elizas que diariamente inundam nossas vidas de tristeza e, a despeito dos valores envolvidos, encontraram no amor um cruel caminho para seu fim. Cruel porque esse caminho teve a traição e a violência como principais características, seja ao mantê-las confinadas em um apartamento sob a mira de um revólver, seja covardemente lançando o carro em uma represa, seja ardilosamente propondo um acordo para uma suposta paternidade. E a morte trágica e solitária como destino comum.
Não há como negar que mudanças aconteceram no âmbito social. Maria da Penha mostrou o caminho e hoje muitas mulheres se valem de diversos recursos para que seus direitos como seres humanos sejam respeitados por quem vive ou viveu a seu lado. A livre manifestação de pensamentos continua sendo a maior aliada para a expansão e garantia desses direitos, mas algo mais mudou. O TER parece ter vencido a batalha contra o SER. Não importa o que eu seja, importa ter meus desejos satisfeitos. E se o outro estiver no caminho deles, é natural que eu passe por cima desse outro da forma como for mais conveniente para mim. Eu tenho uma namorada. Eu tenho mulher e filhos. Eu tenho. E já que tudo me pertence, é meu direito dispor e descartar quando eu bem entender.
Os noticiários do país não conseguem mudar de pauta. São Eloás, Mércias e Elizas que diariamente inundam nossas vidas de tristeza e, a despeito dos valores envolvidos, encontraram no amor um cruel caminho para seu fim. Cruel porque esse caminho teve a traição e a violência como principais características, seja ao mantê-las confinadas em um apartamento sob a mira de um revólver, seja covardemente lançando o carro em uma represa, seja ardilosamente propondo um acordo para uma suposta paternidade. E a morte trágica e solitária como destino comum.
Não há como negar que mudanças aconteceram no âmbito social. Maria da Penha mostrou o caminho e hoje muitas mulheres se valem de diversos recursos para que seus direitos como seres humanos sejam respeitados por quem vive ou viveu a seu lado. A livre manifestação de pensamentos continua sendo a maior aliada para a expansão e garantia desses direitos, mas algo mais mudou. O TER parece ter vencido a batalha contra o SER. Não importa o que eu seja, importa ter meus desejos satisfeitos. E se o outro estiver no caminho deles, é natural que eu passe por cima desse outro da forma como for mais conveniente para mim. Eu tenho uma namorada. Eu tenho mulher e filhos. Eu tenho. E já que tudo me pertence, é meu direito dispor e descartar quando eu bem entender.
E assim convivemos com situações que, de tão terríveis, nos parecem saídas de um filme de terror classe B, muito diferentes das perspectivas anunciadas pela série Jornada nas Estrelas. A diferença é que estamos dentro da tela e não mais na platéia. E, mesmo fazendo parte da produção, não estamos conseguindo mudar o final desse filme. Um filme que, de tantas vezes visto, passa perigosamente a fazer parte de nossa rotina. Assim como as viagens espaciais os telefones celulares, a internet e outras maravilhas de um mundo novo ainda nada admirável.
Beto Volpe
O verdadeiro pai
Isso é postura de campeão! Não as bobagens homofóbicas que frequentemente escutamos em entrevistas esportivas. Deliciem-se!Beto Volpe
Descrição da imagem: criação artística de Klaus Bernhoeft com Toninho Cerezzo ao fundo, sua filha Lea T. em primeiro plano e entre os dois o menino Leandro, todos cercados por uma linda revoada de borboletas coloridas. Um ursinho de pelúcia sobre a cama completa o quadro.
"A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade, filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independente da sua orientação sexual [...] Apesar de notar as diferenças, percebi também que nada poderia fazer, e tudo o que poderia dar a ela/ele era o meu amor incondicional [...] Você, Lea T. Cerezo, sabe muito mais que embaixadinhas. Teve coragem de, elegantemente, tentar quebrar paradigmas e mostrar ao mundo que devemos aceitar as diferenças [...] Menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim”. Esse depoimento emocionante foi dado pelo pai da transexual Lea T. - uma das top model do momento - para a revista LOLA deste mês. A elegância das ideias nos remete ao baile com bola no pé que a seleção canarinho de 1982 deu para o mundo durante a Copa da Espanha. O pai de Lea T., Toninho Cerezo, junto com um time de craques como Falcão, Sócrates, Júnior e Zico formaram uma seleção que mesmo não vitoriosa naquele ano, ficou eternizada pelos passes e pela magia de um futebol arte que o Brasil parece perder a cada ano. Para quem não viu Garrincha driblar ou a seleção de 70, esse time foi o mais próximo do que podemos chamar de “o sublime no futebol”. E isso é maior do que qualquer Copa.Toninho Cerezo é forma e conteúdo. Por isso, ele sempre será o patrão da bola. A arte de seu futebol se estendeu para sua vida. Dá pra entender a chateação que Lea T. teve com a imprensa brasileira logo depois que ela começou a aparecer nos noticiários internacionais. A top ficou magoada com os comentários que seu pai não a aceitava e não a entendia. É lógico, o certo é pensar que o ambiente machista do futebol também estivesse presente na cabeça de seus jogadores. Mas erraram todos, menos o pai e seu sentimento amoroso que passa por cima de todos os preconceitos até dos tão esclarecidos jornalistas. Toninho driblou a todos por amor a sua filha.
Vitor ângelo para o Blogay da Folha.com
quinta-feira, 3 de março de 2011
Agite em Paz, Júlio.
Com o tempo fica mais fácil conviver com a morte. A nossa morte. A perda de pessoas queridas ainda é muito dolorosa, ainda mais quando sabemos ser uma pessoa irmã de sangue. Resta continuar acreditando que tudo tem um sentido e um propósito, já que tudo é consequência de algo, a Natureza nos demonstra isso com frequência.Com a passagem de Júlio Rodrigues, o Júlio da ONG Katiró de Manaus-AM perdem os amigos e amigas, companheiros e companheiras de luta pelos direitos humanos na área da Saúde. Mas perdem, também, as populações ribeirinhas, de fronteira e, especialmente, as pessoas vivendo com HIV não só da Amazônia, mas de todo o Brasil. Você fará falta entre nós, Júlio. Mas tenho certeza que irá agitar sua nova comunidade. Agite em Paz, meu amigo.
Beto Volpe
Descrição da imagem: laço da solidariedade na cor preta.
quarta-feira, 2 de março de 2011
A Arca da Esperança
“Depois de mais sete dias, Noé novamente enviou a pomba e ela voltou com uma folha de oliva no seu bico e então ele soube que as águas tinham abrandado.”Bíblia Sagrada
Descrição da imagem: desenho de arca com os bichos, ladeada por uma baleia e emoldurada por um belo arco íris.
Mesmo não morando na região metropolitana de São Paulo, todos sabemos o que é um dilúvio e o que ele pode fazer com nossas vidas. Todos também conhecemos a passagem bíblica onde Noé foi chamado por Deus para construir uma arca onde coubessem exemplares de sua Criação, que seriam salvos das águas. Porém, por muitas vezes nos deparamos com verdadeiros dilúvios a inundar nossas vidas de dor, de perdas e que se tornam um verdadeiro teste para nossa resistência e nossa fé. Olhar ao redor e não enxergar um porto seguro não é nada fácil, o que nos resta é a esperança, A esperança de que um dia uma pomba retornar com a anunciação do fim do dilúvio. E do começo de uma novo período em nossas vidas, devidamente adubadas pelas turbulentas águas da adversidade.
Era novembro de 2008 e lembro de uma mesa sobre vacinas em um encontro de pessoas vivendo com HIV onde, ao final das apresentações e aberto o debate, inquiri sobre a recém divulgada.cura de um inglês com a tecnologia das céulas tronco. Causou-me espanto a resposta de um dos palestrantes quando disse que ‘por esse motivo que nós, pesquisadores, não gostamos de adiantar resultados, eles despertam esperança nas pessoas’. Naturalmente que se seguiu uma saraivada de protestos, afinal, de que acham que nós vivemos? O que acham que as pessoas com HIV respiram a cada tomada de medicamentos? Não fosse a esperança em dias melhores teríamos uma adesão ao tratamento muito mais comprometida, maior banalização na prevenção e muito mais problemas a serem resolvidos tanto por nós quanto pelos gestores e os próprios cientistas.
E de Pernambuco vem uma bela pomba trazendo em seu bico uma proteína que pode resultar em uma vacina terapêitica para quem já vive com o vírus. A parceria de três universidades públicas produziu um conhecimento que pode nos aliviar da enorme carga de medicamentos e nos propiciar melhor qualidade de vida. Mais que uma provável vacina, um estímulo e tanto para que nos cuidemos ao máximo, pois grandes novidades estão sendo trazidas à luz. Alem da descoberta brasileira e a cura do inglês, grandes avanços têm sido apresentados nas áreas da genética e nanotecnologia, quebrando o monopólio do saber hoje nas mãos dos laboratóros farmacêuticos.
Sim, é cedo demais para sairmos às ruas celebrando um resultado que pode nem chegar tão cedo. Mas devemos, sim, festejar mesmo que intimamente cada avanço da ciência no caminho da cura da AIDS, ou ao menos de um manejo menos agressivo dessa enfermidade. É essa fé em dias melhores que faz com que os medicamentos desçam nossa goela abaixo, mesmo que saibamos os sérios danos que eles podem nos causar. É essa esperança, por vezes tão ausente mesmo de cautelosos ativistas, que nos faz acreditar que um dia acordaremos e leremos na internet:
DESCOBERTA A CURA DA AIDS !
Será mais que a pomba, será o próprio arco íris anunciando uma nova vida para as pessoas com HIV e um novo mundo para toda raça humana.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Olha a inclusão aí, geeeente!!!
Pessoal, agora é cair na avenida e torcer pela minha amada Portela. Parabéns à Prefeitura do Rio pela iniciativa.Beijos
Beto
Descrição da imagem: dois foliões estilizados e fantasiados, um tocando tambor e outro uma corneta. Um helicóptero em forma de peixe e algumas aves também estilizadas completam o quadro.
Autoria: whala.com.br
27/02/2011 - 14h46
Prefeitura do Rio vai narrar desfiles para deficientes visuais
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DA AGÊNCIA BRASIL
Os desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro terão uma novidade este ano. Pela primeira vez, os deficientes visuais poderão ouvir uma narração detalhada dos desfiles dentro do Sambódromo. O serviço é gratuito e estará disponível no domingo (6) e na segunda-feira (7), além do desfile das campeãs (12).
De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo, um funcionário descreverá, ao vivo, as alegorias, alas, fantasias, enredos e evolução da escola que está se apresentando. Os deficientes receberão as informações por intermédio de um fone de ouvido. Eles poderão retirar os fones em cabines da prefeitura, instaladas na entrada do setor 13, exclusivo para portadores de deficiência.
Ao todo, 60 fones poderão ser usados por dia. No setor 13, 300 ingressos para pessoas com deficiência já foram disponibilizados pela Riotur (Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro).
O novo sistema é considerado um avanço pela vice-diretora do Instituto Benjamin Constant, Maria da Glória Almeida. Segundo ela, a iniciativa cumpre a lei da acessibilidade.
A vice-diretora, que também é deficiente visual, enfatizou a importância da inclusão dos deficientes visuais nos espetáculos de lazer. "Você vai compartilhar de fato o evento. Vai participar realmente como membro efetivo."
Prefeitura do Rio vai narrar desfiles para deficientes visuais
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DA AGÊNCIA BRASIL
Os desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro terão uma novidade este ano. Pela primeira vez, os deficientes visuais poderão ouvir uma narração detalhada dos desfiles dentro do Sambódromo. O serviço é gratuito e estará disponível no domingo (6) e na segunda-feira (7), além do desfile das campeãs (12).
De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo, um funcionário descreverá, ao vivo, as alegorias, alas, fantasias, enredos e evolução da escola que está se apresentando. Os deficientes receberão as informações por intermédio de um fone de ouvido. Eles poderão retirar os fones em cabines da prefeitura, instaladas na entrada do setor 13, exclusivo para portadores de deficiência.
Ao todo, 60 fones poderão ser usados por dia. No setor 13, 300 ingressos para pessoas com deficiência já foram disponibilizados pela Riotur (Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro).
O novo sistema é considerado um avanço pela vice-diretora do Instituto Benjamin Constant, Maria da Glória Almeida. Segundo ela, a iniciativa cumpre a lei da acessibilidade.
A vice-diretora, que também é deficiente visual, enfatizou a importância da inclusão dos deficientes visuais nos espetáculos de lazer. "Você vai compartilhar de fato o evento. Vai participar realmente como membro efetivo."
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
A Peste Gay Revisitada
Amigas e amigos, tenho a honra e o prazer de publicar excelente artigo de meu irmão Cláudio Monteiro que, espero, provoque as devidas e necessárias reações.Beijos
Beto Volpe
Descrição da imagem: manchete de jornal dos anos oitenta destacando: PESTE GAY JÁ APAVORA SÃO PAULO, complementada por 'É a pior e mais terrível doença do século - dois brasileiros mortos.
A PESTE GAY REVISITADA
Cláudio C. Monteiro Jr
Cláudio C. Monteiro Jr
-Meu vizinho é gay, vocês não vão prendê-lo ?
Este foi o teor de um telefonema (a voz era feminina) por mim recebido no então recém aberto Disque-AIDS[1]. Era o ano de 1984.
A associação aids/homossexualidade era tão direta quanto a certeza de um dia após o outro. Dias difíceis.
Se por um lado o recém florescente movimento gay brasileiro viu-se vulnerabilizado por uma doença que possuía o estranho tropismo por indivíduos com determinada orientação sexual historicamente estigmatizada, por outro, diversos setores da sociedade civil, ou simplesmente o (mau) senso comum, viu na AIDS a ratificação, divina ou natural, da condenação dos gays por seus pecados e desvios “contra a natureza”. Formadores de opinião não perderam tempo em expor o seu enfático “eu não disse? bem feito!” ostentando-o arrogantemente aos humilhados “pederastas” e “sodomitas”. Dom Eugênio Salles, então arcebispo do Rio de Janeiro assim o fez, como também o fez o Prof. Dr. Ricardo Veronezzi, Infectologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, ao defender a hipótese pela qual a imunodepressão devia-se ao acumulo de esperma no ânus, como se o sexo anal fosse prerrogativa dos gays, e não existisse desde que existe sexo.
A primeira reação da comunidade gay mediana frente à AIDS foi de descrédito e revolta. Dizia-se que tudo não passava de uma propaganda anti-gay (a palavra homofobia não estava ainda em voga), originada ou pelo Governo Reagan, ou pela TFP[2]. A isto se somava a refratariedade do empresariado “gay” (também a designação GLS não estava ainda em voga) ao tema AIDS, alicerçada no argumento de que falar em AIDS iria espantar a clientela.
Tal foi o esforço em se desomossexualizar a AIDS, por parte dos gays, que em determinada reunião do GAPA[3], discutiu-se a conveniência ou não, de rapazes que usassem brincos, falarem publicamente em nome da entidade. E isto quando a totalidade dos membros do GAPA eram oriundos do movimento gay, ou no mínimo, gays “assumidos”.
Se os gays viram-se como vítimas, a sociedade os via como culpados. E naturalmente, houve um trauma brutal no processo de fortalecimento dos gays enquanto segmento social atuante, na busca de seus direitos fundamentais, associado a um fortalecimento também brutal da homofobia, que não teve prurido algum em fazer-se pública, como no caso do radialista Afanásio Jazadi que aconselhava seus ouvintes a não tomarem cafezinho na região do Arouche[4], ou a não usarem mesmo elevador que um gay. E isto, quando há menos de dois anos, a repressão indiscriminada aos gays integrava o conjunto de medidas moralizantes propostas pelo então Secretário da Segurança Pública de São Paulo, o famigerado Erasmo Dias.
Tal panorama se fez extremamente propício não só a disseminação da AIDS como retardou, ou antes, intimidou o desenvolvimento de ações preventivas. Desenvolver uma cultura preventiva gay foi ainda mais difícil, pois o único insumo de prevenção disponível era (como ainda o é, embora não o único) o preservativo masculino, tradicionalmente um contraceptivo. Como associá-lo a um exercício de sexualidade que nunca exigiu ações de planejamento reprodutivo? Como resultado de tal cenário labiríntico, o número de casos de AIDS entre homossexuais masculinos no estado de São Paulo, passou de 1 (em 1981) para 865 em 1989[5], ano em que a incidência de AIDS entre os Usuários de Drogas Injetáveis superou a verificada entre os gays.
Associada a exacerbante expansão da epidemia em nosso meio, verificou-se também uma profunda mudança no perfil sócio epidemiológico, num espaço de tempo pouco superior a vinte e cinco anos. A análise das taxas de incidência evidencia a presença de três momentos (ainda que sobrepostos) da epidemia: do início ao fim da década de 1980 predomínio de casos novos entre homens que fazem sexo com homens (HSH)[6]. Do início a meados da década de 1990, explosão da epidemia entre os Usuários de Drogas Injetáveis (UDI). E, a partir do início deste século, as relações heterossexuais configuram-se enquanto a principal forma de disseminação. Enquanto as curvas de tendências epidemiológicas anteriores (HSH e UDI) ascendem, atingem seus ápices e declinam (o número de casos novos entre UDI atualmente, pouco impacta a epidemia), a curva dos heterossexuais (presente como as outras, desde os anos 80), encontra-se em constante e permanente ascensão.
Porém o exame cuidadoso destes mesmos indicadores epidemiológicos evidencia o crescimento do número de casos novos de AIDS entre os HSH notadamente a partir de 2002, o que nos leva a pensar e a considerar (apesar do neologismo inadequado) que estamos em pleno processo de “reomossexualização” da epidemia. A visibilidade de tal fenômeno é tal que os órgãos governamentais responsáveis pelo enfrentamento ao HIV o admitem, e propõem ações de enfrentamento.
E, quais os fatores que levam a isto? Por que a epidemia volta a crescer entre os gays, 30 anos depois?
O que estava sendo empiricamente observado, pelo movimento de gays jovens nos serviços de HIV/AIDS teve sua confirmativa no Relatório da Seção Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas (UNGASS), Biênio 2008/2009, sobre a resposta do governo brasileiro à epidemia de HIV/AIDS:
Observa-se uma tendência de estabilização na proporção de casos de AIDS entre HSH a partir do ano 2000. No entanto, na faixa de 13 a 24 anos, verifica-se aumento na proporção de casos de aids nesse grupo populacional que passou de 35% em 2000 para 42,7 em 2008.
Ou seja, estamos falando, em primeiro lugar de novas gerações de gays. Gays que nasceram quando a epidemia já estava banalizada em nosso meio. Banalizada e invizibilizada, pois passara de doença de Vips a doença de pobres. E os pobres só estão na mídia convertidos e desumanizados em números, por ocasiões de catástrofes e tragédias coletivas. Gays que não tiveram amigos próximos ou companheiros dizimados pela AIDS. Gays que vivem 30 anos depois.
Outro fator está na banalização do risco, associado ao falso senso comum pelo qual “AIDS agora tem remédio, se pegar se trata”, quando a realidade é bem outra: não só o HIV ainda é a maior causa de morte entre adultos jovens no mundo, como o fato de ser portador do HIV coloca o individuo em posição de vulnerabilidade ampliada para óbitos de várias naturezas, como cardiopatias e neoplasias. Isto sem mencionarmos os efeitos adversos provocados por determinados medicamentos componentes da Terapia Antirretroviral, o popular coquetel, como as lipodistrofias e osteonecroses. Contra tal postura, há ainda o argumento infalível (ainda que monetarizante) da relação custo benefício: a política de acesso universal aos antirretrovirais (louvável conquista de todos nós) impõem aos cofres públicos um custo não inferior a R$1.500,00 ao mês por usuário, ao passo que o preservativo masculino é baratíssimo (mesmo para os cofres públicos).
Se formos circunscrever a situação apontada pelo Relatório UNGASS quanto ao crescimento da epidemia entre os gays jovens numa ótica mais ampla, cujo foco seja não a orientação sexual, mas a faixa etária, (13 a 24 anos, período que inclui a adolescência), veremos que nesta situação incluem-se também as mulheres, já que, neste período, a incidência é três vezes maior entre moças do que entre rapazes, sendo a faixa etária de maior feminização da epidemia. Há ai, portanto, um primeiro desafio: o fortalecimento das ações de prevenção para adolescentes através de ações que incluam o educar para a diversidade e a quebra de paradigmas heteronormativos,
Na contramão da penosa construção de uma cultura preventiva gay surgem dois tenebrosos zumbis: Bare Backing e Sperm Cult, ou seja, a adesão espontânea, de comum acordo e consciente ao sexo anal sem preservativo; e a crença pela qual o orgasmo só se completa quando há contato íntimo (em que pese a amplitude do termo “íntimo”) com o esperma do(s) parceiro(s). E como zumbis eficientes, estes assombram não somente os dark rooms das saunas e boites, os sex clubs, banheiros e cinemas pornôs, mas também os leitos de vários casais gays respeitáveis e “descentes”. E o terreno é extremante fértil a ambas aparições, pois o mercado sexográfico gay encontra-se sempre em expansão e diversificação, vindo a, obviamente, expandir o número de clientes.
Voltando-se o foco de nossa análise para a atual política de financiamento das ações de prevenção, pautada na premissa municipalista do Sistema Único de Saúde, esta prevê o repasse, do Fundo Nacional aos Fundos Estaduais e Municipais de Saúde (26 Estados e 456 Municípios, dos quais 145 no Estado de São Paulo[7]) do total de R$ 125,7 milhões ao ano, exclusivamente destinados ao enfrentamento às DST/AIDS. Ainda que tal repasse obedeça a regras muito bem definidas, condicionadas à pactuação de metas a serem alcançadas, não há garantia nenhuma de que o recurso recebido seja destinado ao fim pactuado. E, ainda que o sistema de financiamento preveja ações de monitoramento da utilização dos recursos financeiros[8], tais dispositivos raramente são observados.
A fragilidade do sistema de financiamento quanto à real execução das metas pactuadas tem sido alvo de produções acadêmicas[9], que demonstram o quanto o descumprimento das metas vem impactando negativamente os indicadores de saúde de determinados estados e municípios, assim como tem se refletido nos indicadores epidemiológicos. Claro que tais fatores comprometem sobremaneira execução das políticas de contenção do HIV, incluindo as voltadas ao público LGBT.
A nos pautarmos pela proposição foucaultiana que nos permite lançar sobre nossa história pregressa, não um olhar linear, mas em espiral, veremos que ainda que reomossexualizada, a epidemia de AIDS é outra assim como nosso momento é outro.
E neste outro momento histórico cumpre-nos resignificar relações historicamente desiguais quanto ao empoderamento de situações, cabendo à comunidade gay tomar a vanguarda na definição das políticas prevenção e protagonizá-las, para que estas não lhe sejam, eufemisticamente, ofertadas.
Neste caso, aprender com o passado é agir. E agir de modo incisivo. Se a timidez das ações desenvolvidas no início dos anos 80 resultou na explosão da epidemia, neste outro momento histórico, ações de intervenção que antes eram capitaneadas por poucos e estóicos ativistas, passam hoje a integrar a ampla relação dos problemas contemporâneos cujo enfrentamento implica em um amplo sentido de corresponsabilidade civil e governamental.
Basta-nos tão somente a ousadia.
A ousadia de tirar a tímida camisinha do “armário”[10] e colocá-la, assumidamente, no dark room.
Cláudio C. Monteiro Jr é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e mestre em Infectologia em Saúde Pública pelo Instituto de Infectologia em Emílio Ribas. Atua desde 1985 no enfrentamento ao HIV, em organizações governamentais e não governamentais, sendo membro da Pastoral da AIDS, CNBB.
Tecla SAP:
[1] Serviço de informações sobre AIDS por telefone, o primeiro do país, disponibilizado pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo em 1983.
[2] Tradição, Família e Propriedade. Organização Católica ultra conservadora, apoiadora da Ditadura Militar
[3] Grupo de Apoio a Prevenção da AIDS. A primeira organização não governamental de enfrentamento a AIDS do Brasil, fundada em São Paulo, em 1985.
[4] Largo localizado na região central de São Paulo, conhecido pela presença da comunidade gay.
[5] Fonte: Programa Estadual de DST e AIDS de São Paulo
[6] Optamos por, neste caso, usar a categorização epidemiológica geral que envolve nãos somente gays, bissexuais, travestis e transsexuais, como também a pratica eventual da homossexualidade em homens privados de liberdade ou constrictos.
[7] Sobre a Instituição da Política de Financiamento : Portaria Ministério da Saúde nº 2313/02 e 2314/02
[8] Sobre o Monitoramento dos Recursos Financeiros : Portaria Ministério da Saúde nº 1.679/04.
[9] Citaremos, entre outras, as dissertações de mestrado de Silva, FL e Taglieta, M., além de nossa própria dissertação.
[10] Em algumas saunas gay, os clientes encontram preservativos nos armários guarda-roupas.
[1] Serviço de informações sobre AIDS por telefone, o primeiro do país, disponibilizado pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo em 1983.
[2] Tradição, Família e Propriedade. Organização Católica ultra conservadora, apoiadora da Ditadura Militar
[3] Grupo de Apoio a Prevenção da AIDS. A primeira organização não governamental de enfrentamento a AIDS do Brasil, fundada em São Paulo, em 1985.
[4] Largo localizado na região central de São Paulo, conhecido pela presença da comunidade gay.
[5] Fonte: Programa Estadual de DST e AIDS de São Paulo
[6] Optamos por, neste caso, usar a categorização epidemiológica geral que envolve nãos somente gays, bissexuais, travestis e transsexuais, como também a pratica eventual da homossexualidade em homens privados de liberdade ou constrictos.
[7] Sobre a Instituição da Política de Financiamento : Portaria Ministério da Saúde nº 2313/02 e 2314/02
[8] Sobre o Monitoramento dos Recursos Financeiros : Portaria Ministério da Saúde nº 1.679/04.
[9] Citaremos, entre outras, as dissertações de mestrado de Silva, FL e Taglieta, M., além de nossa própria dissertação.
[10] Em algumas saunas gay, os clientes encontram preservativos nos armários guarda-roupas.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O Exterminador de Degraus
O lamentável fato ocorrido com a amiga Flávia Cintra e sua família dia 20 de fevereiro no Teatro Ressurreição em São Paulo, de tão lamentável só poderia desaguar em um momento ímpar, daqueles momentos que acontecem para transformar o futuro. Para quem não está a par, ela foi impedida de assistir à peça Cinderela com seus filhos gêmeos Mateus e Mariana de três anos, sua mãe, uma prima das crianças e a babá. Porque não havia a acessibilidade prometida no site do teatro. O que fez esse momento tão especial foi o questionamento de Mateus com relação à situação:- “É proibido entrar pessoas de cadeira de rodas neste teatro?”
E a magia foi sacramentada pela sabedoria da voz materna, que disfarçava bem sua angústia::
- “Não, Mateus. É proibido ter degraus no teatro.”
Ao retornarem para casa e reencontrar sua ansiosa mãe, os gêmeos não se continham ao contar os detalhes da peça até que Mateus, decretando o nascimento de um verdadeiro e genuíno líder, disparou:
- “Ah, mamãe, tem outra coisa! Eu pedi para a fada da Cinderela te ajudar a fazer desaparecer os degraus. Ela disse que vai ajudar”
Verdadeiro porque há poucos dias havia compreendido o significado da palavra ‘proibido’ e já demonstrava ter aprendido direitinho o que mamãe ensinara e, além disso, havia passado por uma situação onde ele sentiu o que significa ‘exclusão’. E genuíno porque não se conteve diante da adversidade e, ao contrário de todas as crianças que foram falar com o Príncipe Encantado ao final da peça, ele se dirigiu à Fada Madrinha, provedora do Reino Encantado, e educadamente pediu que ela removesse os degraus, eliminando as barreiras que o separaram de sua mãe.
Não tardará e ele saberá o que é ONU e também interpretar e lutar pela regulamentação do Decreto 5296, também tão ansiado por sua mãe e por tantas outras pessoas que, em seus sonhos secretos, pedem às suas fadas madrinhas um mundo acessível e justo, sonho que não consegue emplacar na realidade do Congresso Nacional.
Lembrei do filme ‘O Exterminador do Futuro 2’, onde dois robôs vindos de um futuro marcado pela exclusão duelam para decidir a vida daquele que iniciaria um movimento de libertação dos humanos do jugo dos robôs. Não estranharia se Schwarzenegger tivesse surgido ali, naquele domingo de 2011 na casa de Flavinha, dizendo:
- ‘Eu vim do futuro para salvar a vida de seu filho, uma pessoa que em determinado momento da história fará a diferença para a raça humana.’
E Flavinha, visionária que é, diria:
- “ Que bom que você chegou. Aceita um delicioso café de dona Carmen? Sente-se ali com Mateus e Mariana.”
Beto Volpe
Às pessoas que acreditam e lutam por finais felizes.
(descrição da imagem: o jovem revolucionário está em pé antecedido por seu valente e fortão protetor que viria a se tornar republicano e governador da Califórnia)
A carruagem que virou abóbora
O texto a seguir foi publicado por minha grande amiga e musa Flávia Cintra, administradora do blog http://www.maecadeirante.zip,net/ , dentre infinitas atividades, como compete às musas.. É sobre um fato real que nos entristece e, por que não, enfurece por acontecer em um espaço que em sua essência não tem limites: o espaço cultural. O caso já teve desdobramentos que procurarei manter atualizados por aqui. Beijos e aproveitem esse momento ímpar para uma bela reflexão.
Beijos
Beto Volpe
A carruagem que virou abóbora
Flávia Cintra
(descrição da imagem: abóbora redonda com uma mão justiceira recortada em seu centro com
o dedo médio em riste)
Adoro teatro e estimulo meus filhos a desenvolver esse gosto. Desde que eram pequenininhos, procuro peças adequadas à sua idade e vamos assistir juntos. Acho que parte da magia está na espera pela apresentação e, desta vez, fomos ansiosos assistir Cinderela, um de seus contos de fadas preferidos. Confesso que é um dos meus preferidos também.
No site do Teatro Ressurreição (http://www.blogger.com/), onde a peça estava em cartaz neste final de semana, consta que há acessibilidade para pessoas “especiais”. Ao visitar a página do teatro, me incomodei com a terminologia inadequada e não resisti: mandei um e mail sugerindo melhorar o texto, utilizando “pessoas com deficiência”. Mal sabia que este incomodo não seria nada perto do que estava por vir.
Como faço por costume, me certifiquei do acesso num telefonema em que a atendente confirmou que o espaço era todo acessível para cadeirantes. Então, fui tranqüila com meus dois filhos de 3 anos e meio, minha sobrinha de cinco, minha mãe e a babá.
Cheguei com antecedência, uma hora antes do inicio do espetáculo, e aí os problemas começaram acontecer. Na entrada do teatro havia um degrau. Sim, um único degrau, mas o suficiente para impedir minha entrada. Pedi para a babá perguntar ao funcionário lá dentro onde estava a entrada acessível, pois não me passava pela cabeça que não houvesse, já que eu tinha me certificado disso antes. Um segurança chegou para me explicar que aquele ali era “o único degrau”, mas que ele me ajudaria a subir. Cadeiras de rodas motorizadas são pesadas, não é tão simples levantá-las... primeiro porque se a cadeira virar, eu me machuco e quem está me ajudando também pode se machucar. Depois porque a cadeira pode quebrar. Mas, ponderei, eu já estava ali... o degrau não era tão alto. Calculei os riscos e aceitei a ajuda.
Na bilheteria, outro problema. O funcionário informou que o lugar reservado para cadeirantes fica no fundo do teatro. Não havia espaço para que eu ficasse perto das crianças. Enquanto eu e minha mãe discutíamos com a funcionária, Mariana avisou que precisava ir ao banheiro. A babá a acompanhou até o saguão do teatro, um espaço confortável com ar condicionado, com quatro degraus altos na entrada. E como vou entrar no saguão para aguardar a peça?
Laura, uma moça linda e simpática que trabalha como estagiária no teatro não sabia mais o que fazer. Ela me explicou que o acesso ao teatro é feito por uma entrada lateral, um corredor de serviço usado para passagem de técnicos de cenário, figurino e elenco. Visivelmente chateada e constrangida, ela foi se informar mais. Voltou com o segurança Edson, outro fofo que tentou me ajudar. Ele sugeriu a outra entrada por onde, segundo ele, havia “apenas um degrau” para se chegar ao saguão. Descemos o degrau da primeira entrada, fomos pela rua até a segunda entrada onde havia um degrau igual ao primeiro. Subimos de novo. Então, vi o tal degrau para o saguão. Tinha uns 40 cm de altura, impossível. A essa altura, eu via meus filhos lá dentro com a minha mãe que me olhava aflita. Algumas pessoas que observavam tudo começaram a se manifestar, outras me reconheceram por causa do meu trabalho e se aproximavam para me cumprimentar, enquanto eu tentava raciocinar para decidir o que fazer.
Eu não ia fazer meus filhos e minha mãe ficarem comigo embaixo do sol forte daquele horário, aguardando do lado de fora do teatro. Eu até esperaria sozinha, mas se eu pudesse... pelo menos, estar ao lado deles para assistir a peça. Isso também não seria possível. Eu já estava nervosa e vendo a situação piorar, virar um tumulto. Se eu estivesse sozinha ou acompanhada só de adultos, talvez continuasse a briga. Mas, eu levei as crianças para assistir Cinderela e não queria estragar o passeio deles.
Acenei para minha mãe trazer meus filhos e minha sobrinha. Eles desceram os degraus e me ouviram explicar que eu ia esperá-los em casa. Minha filha e minha sobrinha lamentaram com um "ahhhhh...", mas meu filho questionou severamente: "Por que mamãe?"
- Filho por que não dá para a mamãe entrar, você está vendo...
Então, a conversa ficou séria.
- É por que você anda de cadeira de rodas?
- Não, filho, é por que aqui tem esses degraus.
- Mamãe, é proibido entrar pessoas de cadeiras de rodas nesse teatro?
- Não, Mateus. É proibido ter degraus no teatro.
- Então, eles precisam consertar!
- A mamãe vai trabalhar para isso.
Percebi a indignação das pessoas que assistiram as perguntas do meu filho. Não havia o que fazer. Eu queria acabar com aquilo. Queria que eles se divertissem e fui contornando a situação até que eles entraram felizes com minha mãe e a babá.
Voltei para casa de taxi, chorando de raiva e tristeza. Não chorei por mim, mas pela decepção deles, pela injustiça. Eu comprei ingressos de um teatro que se dizia com acessibilidade. Fiz tudo certo, confirmei por telefone e cheguei antes para não ter problema. Fiquei pensando se eles não sabem o que é acessibilidade ou se mentem para as pessoas. Pior que não ter acesso foi mentir que tinham, pois me obrigaram a viver com meus filhos a cena que eu tenho evitado e adiado desde que eles nasceram.
O relógio parecia parado. O tempo não passava. Enquanto os esperava voltar, ficava simulando mentalmente outros jeitos de reagir, tentando interpretar se eu havia feito o melhor. Eu detesto armar barraco e acho que não valeria a pena expor as crianças ainda mais.
Eles chegaram entusiasmados, contando detalhes da peça. Até que...
- Ah, mamãe, tem outra coisa! Eu pedi para a fada da Cinderela te ajudar a fazer desaparecer os degraus. Ela disse que vai ajudar.
Me desculpe o desabafo, mas é que precisamos de muitas fadas para concretizar o “...e foram felizes para sempre”.
Varinhas de condão estão disponíveis no Decreto 5296.
No site do Teatro Ressurreição (http://www.blogger.com/), onde a peça estava em cartaz neste final de semana, consta que há acessibilidade para pessoas “especiais”. Ao visitar a página do teatro, me incomodei com a terminologia inadequada e não resisti: mandei um e mail sugerindo melhorar o texto, utilizando “pessoas com deficiência”. Mal sabia que este incomodo não seria nada perto do que estava por vir.
Como faço por costume, me certifiquei do acesso num telefonema em que a atendente confirmou que o espaço era todo acessível para cadeirantes. Então, fui tranqüila com meus dois filhos de 3 anos e meio, minha sobrinha de cinco, minha mãe e a babá.
Cheguei com antecedência, uma hora antes do inicio do espetáculo, e aí os problemas começaram acontecer. Na entrada do teatro havia um degrau. Sim, um único degrau, mas o suficiente para impedir minha entrada. Pedi para a babá perguntar ao funcionário lá dentro onde estava a entrada acessível, pois não me passava pela cabeça que não houvesse, já que eu tinha me certificado disso antes. Um segurança chegou para me explicar que aquele ali era “o único degrau”, mas que ele me ajudaria a subir. Cadeiras de rodas motorizadas são pesadas, não é tão simples levantá-las... primeiro porque se a cadeira virar, eu me machuco e quem está me ajudando também pode se machucar. Depois porque a cadeira pode quebrar. Mas, ponderei, eu já estava ali... o degrau não era tão alto. Calculei os riscos e aceitei a ajuda.
Na bilheteria, outro problema. O funcionário informou que o lugar reservado para cadeirantes fica no fundo do teatro. Não havia espaço para que eu ficasse perto das crianças. Enquanto eu e minha mãe discutíamos com a funcionária, Mariana avisou que precisava ir ao banheiro. A babá a acompanhou até o saguão do teatro, um espaço confortável com ar condicionado, com quatro degraus altos na entrada. E como vou entrar no saguão para aguardar a peça?
Laura, uma moça linda e simpática que trabalha como estagiária no teatro não sabia mais o que fazer. Ela me explicou que o acesso ao teatro é feito por uma entrada lateral, um corredor de serviço usado para passagem de técnicos de cenário, figurino e elenco. Visivelmente chateada e constrangida, ela foi se informar mais. Voltou com o segurança Edson, outro fofo que tentou me ajudar. Ele sugeriu a outra entrada por onde, segundo ele, havia “apenas um degrau” para se chegar ao saguão. Descemos o degrau da primeira entrada, fomos pela rua até a segunda entrada onde havia um degrau igual ao primeiro. Subimos de novo. Então, vi o tal degrau para o saguão. Tinha uns 40 cm de altura, impossível. A essa altura, eu via meus filhos lá dentro com a minha mãe que me olhava aflita. Algumas pessoas que observavam tudo começaram a se manifestar, outras me reconheceram por causa do meu trabalho e se aproximavam para me cumprimentar, enquanto eu tentava raciocinar para decidir o que fazer.
Eu não ia fazer meus filhos e minha mãe ficarem comigo embaixo do sol forte daquele horário, aguardando do lado de fora do teatro. Eu até esperaria sozinha, mas se eu pudesse... pelo menos, estar ao lado deles para assistir a peça. Isso também não seria possível. Eu já estava nervosa e vendo a situação piorar, virar um tumulto. Se eu estivesse sozinha ou acompanhada só de adultos, talvez continuasse a briga. Mas, eu levei as crianças para assistir Cinderela e não queria estragar o passeio deles.
Acenei para minha mãe trazer meus filhos e minha sobrinha. Eles desceram os degraus e me ouviram explicar que eu ia esperá-los em casa. Minha filha e minha sobrinha lamentaram com um "ahhhhh...", mas meu filho questionou severamente: "Por que mamãe?"
- Filho por que não dá para a mamãe entrar, você está vendo...
Então, a conversa ficou séria.
- É por que você anda de cadeira de rodas?
- Não, filho, é por que aqui tem esses degraus.
- Mamãe, é proibido entrar pessoas de cadeiras de rodas nesse teatro?
- Não, Mateus. É proibido ter degraus no teatro.
- Então, eles precisam consertar!
- A mamãe vai trabalhar para isso.
Percebi a indignação das pessoas que assistiram as perguntas do meu filho. Não havia o que fazer. Eu queria acabar com aquilo. Queria que eles se divertissem e fui contornando a situação até que eles entraram felizes com minha mãe e a babá.
Voltei para casa de taxi, chorando de raiva e tristeza. Não chorei por mim, mas pela decepção deles, pela injustiça. Eu comprei ingressos de um teatro que se dizia com acessibilidade. Fiz tudo certo, confirmei por telefone e cheguei antes para não ter problema. Fiquei pensando se eles não sabem o que é acessibilidade ou se mentem para as pessoas. Pior que não ter acesso foi mentir que tinham, pois me obrigaram a viver com meus filhos a cena que eu tenho evitado e adiado desde que eles nasceram.
O relógio parecia parado. O tempo não passava. Enquanto os esperava voltar, ficava simulando mentalmente outros jeitos de reagir, tentando interpretar se eu havia feito o melhor. Eu detesto armar barraco e acho que não valeria a pena expor as crianças ainda mais.
Eles chegaram entusiasmados, contando detalhes da peça. Até que...
- Ah, mamãe, tem outra coisa! Eu pedi para a fada da Cinderela te ajudar a fazer desaparecer os degraus. Ela disse que vai ajudar.
Me desculpe o desabafo, mas é que precisamos de muitas fadas para concretizar o “...e foram felizes para sempre”.
Varinhas de condão estão disponíveis no Decreto 5296.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Despreparados para a vida
Cada vez mais brasileiros que nasceram com o vírus da Aids chegam à idade adulta. Mas, ao deixar os abrigos onde passaram a infância e a adolescência, eles sofrem para se adaptar à realidade do lado de fora
SUPERAÇÃO Natasha foi adotada e está feliz. Mas casos como o dela são exceção
Natasha descobriu que tinha o vírus HIV aos 9 anos. Na escola. “Não cheguem perto. Ela é aidética”, gritou uma aluna histérica, durante o recreio. Apesar de não fazer ideia do que aquilo queria dizer, Natasha desconfiou logo que não era boa coisa porque seus amigos passaram a manter distância. No abrigo onde morava desde pequenina, na região metropolitana de São Paulo, ela havia aprendido apenas que tomava remédios constantemente para combater um “bichinho” que invadira seu corpo. Os remédios eram “do bem” e os “bichinhos” eram “do mal”. Natasha cresceu ouvindo que fora viver naquela casa diferente e cheia de gente porque não tinha família. “Eu me sentia estranha”, lembra. “Uma pessoa sem família não tem história. Não tem identidade.”
O cotidiano atípico incomodava Natasha. Ela compartilhava o quarto e as roupas com uma porção de meninas. Era obrigada a seguir uma agenda rígida e coletiva. Mesmo se não estivesse com fome, tinha de comer nos horários predeterminados. Mesmo se não estivesse com sono, tinha de se deitar junto com as colegas. As “tias” e os “tios” do abrigo, embora carinhosos e prestativos, saíam ao final do expediente ou desapareciam, caso arrumassem outro emprego. Apegar-se àqueles adultos que iam e vinham, às vezes, doía. “Alguém sempre fazia tudo por nós. Arrumava a cama. Dava remédio. Lavava e passava. Colocava comida no prato”, afirma Natasha. “Tudo era muito dado porque ninguém imaginava que pudéssemos sobreviver. Fomos cuidadas para morrer em paz.”
Quando Natasha nasceu, em 1992, o número de abrigos para soropositivos estava em expansão no Brasil. Era uma resposta, urgente e necessária, de grupos religiosos e da sociedade civil. “Ninguém queria ficar com essas crianças por causa do medo de contágio e porque não se sabia por quanto tempo viveriam”, diz a infectologista Marinella Della Negra, do Hospital Emílio Ribas. “Muitas ficaram órfãs, outras foram abandonadas em hospitais e acabaram na Febem.” De 1980 até junho de 2010, foram notificados ao Ministério da Saúde 19.203 casos de Aids em crianças de até 12 anos. Assim como Natasha, nove de cada dez foram infectadas pela mãe durante a gestação, o parto ou a amamentação – na chamada transmissão vertical.
As estatísticas não detalham quantas crianças resistiram à enfermidade. Mas cerca de 60% dos brasileiros – de todas as idades – diagnosticados no mesmo período estão vivos. “Nosso país se tornou referência mundial no tratamento da Aids, a transmissão vertical vem caindo e a sobrevida está aumentando nos últimos anos”, afirma Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Entre 1983 e 2007, a probabilidade de uma criança estar viva cinco anos depois de descoberta com a doença saltou de 24% para 86%. “Hoje, não dá para estimar o tempo de vida que um paciente terá”, diz a médica Marinella.
Muitos abrigos realizaram um trabalho notável e ainda cumprem um papel social importante. “O problema é que abrimos casas de apoio, mas fomos frágeis na construção de outras possibilidades, como no processo de saída das crianças e dos adolescentes dessas instituições, no suporte familiar e na preparação dos jovens para o mercado de trabalho”, afirma a psicóloga Elizabete Franco Cruz, pesquisadora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. “Existe uma certa perversidade social porque damos um tipo de assistência que, muitas vezes, mantém essas crianças e adolescentes na posição de alguém que sempre precisará ser cuidado. Devemos lhes oferecer perspectivas de vida, de futuro e condições para que tenham autonomia.”
Elizabete relata que centenas de crianças terminaram abrigadas porque vigora no País a ideia de “família Doriana” e “nuclear”. “Onde estão os avós? Os tios? As famílias estendidas? Muitas vezes, os parentes e até o pai ou a mãe são vistos como incompetentes para assumir essas crianças. Temos de tomar cuidado para não idealizar a família nem o abrigo”, alerta a psicóloga. Pela lei brasileira, soropositivos ou não só podem ficar nessas instituições até os 18 anos. “Com 18 anos e um dia, o adolescente se vê sozinho”, diz Kleber Mendes, um dos coordenadores da Rede de Jovens Vivendo com HIV e Aids. “Então, ele percebe que não foi preparado para a vida real. Que não haverá ninguém para lembrá-lo de tomar remédio, que terá de trabalhar, ficar na fila do SUS. Como foi muito tutelado, em geral, não consegue tomar decisões básicas do dia a dia.” Kleber afirma que os jovens demonstram ter dificuldade de lidar com a liberdade total e repentina.
“Tenho vários amigos que sofreram ao sair do abrigo porque, lá dentro, vivíamos num mundo à parte”, conta Natasha. “No ano passado, dois se perderam totalmente, se envolveram com drogas e foram internados numa clínica de reabilitação. Outros, que saíram antes, morreram.” Natasha teve sorte porque foi adotada por uma funcionária do abrigo – com quem mantinha fortes laços afetivos – e se adaptou à família. Está feliz. Além de pai e mãe, ganhou dois irmãos. “Parece que eu nasci da barriga dela”, alegra-se Natasha. “Foi importante ter sido adotada com 16 anos. Meus pais tiveram de assumir certas responsabilidades, como me levar ao médico e assinar documentos da escola, porque eu era menor. Acho que se viesse agora, com 18, não me sentiria filha deles. Seria como vir só porque não tinha onde morar.”
A rotina de Natasha foi entrando nos eixos devagar. Atualmente, além de estudar artes cênicas e dar aula de teatro numa ONG, ela está correndo atrás da papelada para botar os pais adotivos na certidão de nascimento e mudar de sobrenome. Em breve, excluirá Ferreira Braz e se chamará Natasha Rebeca Gimenes Nascimento. “Rebeca é um nome bíblico e foi escolhido pela minha mãe”, conta. Natasha só soube aos 7 anos que tinha uma numerosa família de sangue, quando a avó materna foi visitá-la pela primeira vez. A partir dali, passou a ter contato com os parentes três vezes por ano. Da mãe biológica, morta em 2007, ela guarda a imagem de uma mulher doente. “Eu os amo”, diz Natasha. “Mas, como não convivemos, não temos vínculos suficientes para morar juntos.”
O carioca Wallace Alcântara chegou à Sociedade Viva Cazuza aos 5 anos, depois de ficar órfão de pai e mãe. Quando completou 14, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que ele fosse morar com parentes. “Fui um dos primeiros a sair do abrigo. Fiquei mal, foi uma ruptura muito forte. Aquela era a minha família, era tudo o que eu tinha”, recorda o rapaz. “Recomecei do zero. Foi como se tivesse nascido de novo.” Duas tias o visitavam semanalmente na instituição, durante duas horas. Contato havia. O que não havia era convivência e laços afetivos sólidos. Wallace tem 21 anos e, desde que deixou o abrigo, migra entre as casas dessas tias. Quando a relação se torna difícil com uma, recorre à outra – e vai seguindo adiante. O jovem admite ter um temperamento complicado. “Sou cabeça-dura, nervoso e meio marrento”, afirma.
A relutância de Wallace, no entanto, não deve ser interpretada como má-vontade ou simples rebeldia juvenil. Ao deixar a Viva Cazuza, ele não mudou apenas de endereço. Teve de se ajustar, de repente, a uma rotina desconhecida e a pessoas com quem não tinha intimidade. Ele perdeu a proteção e os amigos que tinha desde a infância e foi forçado a construir novas relações num mundo que lhe era estranho e, muitas vezes, preconceituoso. Tudo de uma vez só. No abrigo, ele estudava em colégio particular, praticava esportes. Tinha um monte de colegas que viviam como ele e compreendiam como era sofrido ter de tomar dezoito comprimidos por dia, encarar os efeitos colaterais e ainda ter disposição para enfrentar um amanhã que eles não sabiam se chegaria.
Quando Wallace foi morar no abrigo, os antirretrovirais – medicação para quem tem o vírus da Aids – ainda não eram distribuídos de graça pelo governo. Estar numa instituição como essa, àquela altura, era uma maneira de conseguir tratamento. “A única coisa ruim é que eu não sabia fazer nada. Não tinha liberdade para sair, apanhar ônibus, arrumar minhas roupas. Havia uma superproteção”, afirma Wallace. “Fora de lá, talvez eu não tivesse sobrevivido. Mas, por causa do afeto, acho que o melhor para uma criança é ficar com a família.” Agora, Wallace se debate com o desemprego e diz que está “tomando coragem” para prestar vestibular. O único trabalho que conseguiu, de assistente administrativo, durou pouco mais de seis meses. “Eu não dava conta do serviço”, revela. “Às vezes, deixava tarefas pendentes porque ficava muito tempo conversando pela internet.”
“Essas crianças não nasceram para ter futuro. Foram criadas para o presente. Quanto mais tempo ficam abrigadas, mais difícil se torna reinseri-las nas famílias e na sociedade”, afirma José Araújo, da ONG Espaço de Prevenção e Assistência Humanizada. “A situação no País é gravíssima. Os bebês que chegaram com Aids às casas de apoio hoje são jovens e estão tendo que sair.” Estima-se que 10% das crianças e adolescentes que têm HIV vivem em abrigos específicos para soropositivos. Os outros 90% estão em instituições mistas, com familiares ou conhecidos. A ONG que Araújo coordena, na zona sul de São Paulo, já funcionou como orfanato. Mas, quando ele assumiu a entidade, decidiu trabalhar para que as cerca de 15 crianças soropositivas voltassem para suas famílias ou fossem adotadas.
“É criminoso deixarmos crianças crescer em abrigos.O Brasil precisa ter coragem de enfrentar esse problema”José Araújo, da ONG Espaço de Prevenção e Assistência Humanizada
Embora não tenha sido fácil, deu certo. Ao mapear o passado de cada uma delas, Araújo descobriu que a maioria tinha avós, tios, irmãos. “É claro que as famílias precisaram de amparo. Mas ficou provado que essas crianças cabiam em algum lugar”, afirma Araújo. “Cinco foram adotadas, as demais foram viver as virtudes e os defeitos de suas famílias biológicas. O erro é a sociedade e o Judiciário acharem que elas deveriam levar uma vida de Barbie.”
O trabalho de Araújo foi inspirado no do Grupo Viva Rachid, do Recife. A diferença é que a ONG pernambucana, criada há 18 anos, chega antes de a criança ir para o abrigo. “Acompanhamos as famílias e, quando a mãe está debilitada pela Aids, pedimos que ela indique com quem gostaria de deixar os filhos”, explica Alaíde Elias da Silva. “Sempre há uma irmã, uma cunhada ou uma comadre que vai assumindo as responsabilidades aos poucos, como resolver questões escolares e levar a criança ao médico. Assim, quando a mãe morre, seus filhos permanecem no seio familiar.”
SOLIDARIEDADEAlaíde trabalha para que órfãos da Aids e crianças que têm HIV não sejam mandadas para abrigos.
Wallace perdeu pai e mãe. Ele morou na Sociedade Viva Cazuza, no Rio. Gostava de lá, mas sentia falta de afeto
Alaíde fundou a ONG depois de perder um filho, de 8 anos, infectado pelo HIV durante uma transfusão de sangue. Ela calcula que em 80% dos casos em que atuou as crianças não precisaram ir para orfanatos. “Por mais que haja amor, no abrigo sempre falta um olhar individual”, diz a paulistana Micaela Cyrino, representante da Rede de Jovens Vivendo com HIV e Aids. A universitária, de 22 anos, dá aula de arte no abrigo onde ficou dos 6 aos 18 e mora atualmente com uma tia. Ela conhece uma porção de rapazes e moças que penaram do lado de fora. Um deles passou uns tempos com a avó, mas não deu certo. Quando deixou a casa dela, não suportou a solidão. Às vezes, como não tinha para onde correr, ele ia dormir no hospital. Nessas muitas idas e vindas, se envolveu com drogas e morreu.
“Dá para contar nos dedos o número de amigos que saíram do abrigo e se deram bem”Amanda Cristina de Andrade, estudante
“Dá para contar nos dedos o número de amigos que saíram do abrigo e se deram bem”, relata Amanda Cristina de Andrade, 19 anos. “Conheço muita gente que está se prostituindo, traficando ou foi para a cadeia.” Quando morava numa instituição para crianças soropositivas, na capital catarinense, e se aborrecia com a gritaria dos colegas, Amanda escalava as grades das janelas e se refugiava no telhado. “Tinha cerca elétrica nos muros e, sempre que os meus colegas da escola apareciam no portão, a gente tinha de ficar conversando na grade porque eles não podiam entrar lá”, lembra a jovem. “As tiazinhas e os tiozinhos do abrigo me aceitaram. Eu era bem novinha, minha mãe tinha morrido e eles me deram um monte de vestidos. Mas eu me sentia numa prisão.”
Natasha descobriu que tinha o vírus HIV aos 9 anos. Na escola. “Não cheguem perto. Ela é aidética”, gritou uma aluna histérica, durante o recreio. Apesar de não fazer ideia do que aquilo queria dizer, Natasha desconfiou logo que não era boa coisa porque seus amigos passaram a manter distância. No abrigo onde morava desde pequenina, na região metropolitana de São Paulo, ela havia aprendido apenas que tomava remédios constantemente para combater um “bichinho” que invadira seu corpo. Os remédios eram “do bem” e os “bichinhos” eram “do mal”. Natasha cresceu ouvindo que fora viver naquela casa diferente e cheia de gente porque não tinha família. “Eu me sentia estranha”, lembra. “Uma pessoa sem família não tem história. Não tem identidade.”
O cotidiano atípico incomodava Natasha. Ela compartilhava o quarto e as roupas com uma porção de meninas. Era obrigada a seguir uma agenda rígida e coletiva. Mesmo se não estivesse com fome, tinha de comer nos horários predeterminados. Mesmo se não estivesse com sono, tinha de se deitar junto com as colegas. As “tias” e os “tios” do abrigo, embora carinhosos e prestativos, saíam ao final do expediente ou desapareciam, caso arrumassem outro emprego. Apegar-se àqueles adultos que iam e vinham, às vezes, doía. “Alguém sempre fazia tudo por nós. Arrumava a cama. Dava remédio. Lavava e passava. Colocava comida no prato”, afirma Natasha. “Tudo era muito dado porque ninguém imaginava que pudéssemos sobreviver. Fomos cuidadas para morrer em paz.”
Quando Natasha nasceu, em 1992, o número de abrigos para soropositivos estava em expansão no Brasil. Era uma resposta, urgente e necessária, de grupos religiosos e da sociedade civil. “Ninguém queria ficar com essas crianças por causa do medo de contágio e porque não se sabia por quanto tempo viveriam”, diz a infectologista Marinella Della Negra, do Hospital Emílio Ribas. “Muitas ficaram órfãs, outras foram abandonadas em hospitais e acabaram na Febem.” De 1980 até junho de 2010, foram notificados ao Ministério da Saúde 19.203 casos de Aids em crianças de até 12 anos. Assim como Natasha, nove de cada dez foram infectadas pela mãe durante a gestação, o parto ou a amamentação – na chamada transmissão vertical.
As estatísticas não detalham quantas crianças resistiram à enfermidade. Mas cerca de 60% dos brasileiros – de todas as idades – diagnosticados no mesmo período estão vivos. “Nosso país se tornou referência mundial no tratamento da Aids, a transmissão vertical vem caindo e a sobrevida está aumentando nos últimos anos”, afirma Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Entre 1983 e 2007, a probabilidade de uma criança estar viva cinco anos depois de descoberta com a doença saltou de 24% para 86%. “Hoje, não dá para estimar o tempo de vida que um paciente terá”, diz a médica Marinella.
Muitos abrigos realizaram um trabalho notável e ainda cumprem um papel social importante. “O problema é que abrimos casas de apoio, mas fomos frágeis na construção de outras possibilidades, como no processo de saída das crianças e dos adolescentes dessas instituições, no suporte familiar e na preparação dos jovens para o mercado de trabalho”, afirma a psicóloga Elizabete Franco Cruz, pesquisadora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. “Existe uma certa perversidade social porque damos um tipo de assistência que, muitas vezes, mantém essas crianças e adolescentes na posição de alguém que sempre precisará ser cuidado. Devemos lhes oferecer perspectivas de vida, de futuro e condições para que tenham autonomia.”
Elizabete relata que centenas de crianças terminaram abrigadas porque vigora no País a ideia de “família Doriana” e “nuclear”. “Onde estão os avós? Os tios? As famílias estendidas? Muitas vezes, os parentes e até o pai ou a mãe são vistos como incompetentes para assumir essas crianças. Temos de tomar cuidado para não idealizar a família nem o abrigo”, alerta a psicóloga. Pela lei brasileira, soropositivos ou não só podem ficar nessas instituições até os 18 anos. “Com 18 anos e um dia, o adolescente se vê sozinho”, diz Kleber Mendes, um dos coordenadores da Rede de Jovens Vivendo com HIV e Aids. “Então, ele percebe que não foi preparado para a vida real. Que não haverá ninguém para lembrá-lo de tomar remédio, que terá de trabalhar, ficar na fila do SUS. Como foi muito tutelado, em geral, não consegue tomar decisões básicas do dia a dia.” Kleber afirma que os jovens demonstram ter dificuldade de lidar com a liberdade total e repentina.
“Tenho vários amigos que sofreram ao sair do abrigo porque, lá dentro, vivíamos num mundo à parte”, conta Natasha. “No ano passado, dois se perderam totalmente, se envolveram com drogas e foram internados numa clínica de reabilitação. Outros, que saíram antes, morreram.” Natasha teve sorte porque foi adotada por uma funcionária do abrigo – com quem mantinha fortes laços afetivos – e se adaptou à família. Está feliz. Além de pai e mãe, ganhou dois irmãos. “Parece que eu nasci da barriga dela”, alegra-se Natasha. “Foi importante ter sido adotada com 16 anos. Meus pais tiveram de assumir certas responsabilidades, como me levar ao médico e assinar documentos da escola, porque eu era menor. Acho que se viesse agora, com 18, não me sentiria filha deles. Seria como vir só porque não tinha onde morar.”
A rotina de Natasha foi entrando nos eixos devagar. Atualmente, além de estudar artes cênicas e dar aula de teatro numa ONG, ela está correndo atrás da papelada para botar os pais adotivos na certidão de nascimento e mudar de sobrenome. Em breve, excluirá Ferreira Braz e se chamará Natasha Rebeca Gimenes Nascimento. “Rebeca é um nome bíblico e foi escolhido pela minha mãe”, conta. Natasha só soube aos 7 anos que tinha uma numerosa família de sangue, quando a avó materna foi visitá-la pela primeira vez. A partir dali, passou a ter contato com os parentes três vezes por ano. Da mãe biológica, morta em 2007, ela guarda a imagem de uma mulher doente. “Eu os amo”, diz Natasha. “Mas, como não convivemos, não temos vínculos suficientes para morar juntos.”
O carioca Wallace Alcântara chegou à Sociedade Viva Cazuza aos 5 anos, depois de ficar órfão de pai e mãe. Quando completou 14, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que ele fosse morar com parentes. “Fui um dos primeiros a sair do abrigo. Fiquei mal, foi uma ruptura muito forte. Aquela era a minha família, era tudo o que eu tinha”, recorda o rapaz. “Recomecei do zero. Foi como se tivesse nascido de novo.” Duas tias o visitavam semanalmente na instituição, durante duas horas. Contato havia. O que não havia era convivência e laços afetivos sólidos. Wallace tem 21 anos e, desde que deixou o abrigo, migra entre as casas dessas tias. Quando a relação se torna difícil com uma, recorre à outra – e vai seguindo adiante. O jovem admite ter um temperamento complicado. “Sou cabeça-dura, nervoso e meio marrento”, afirma.
A relutância de Wallace, no entanto, não deve ser interpretada como má-vontade ou simples rebeldia juvenil. Ao deixar a Viva Cazuza, ele não mudou apenas de endereço. Teve de se ajustar, de repente, a uma rotina desconhecida e a pessoas com quem não tinha intimidade. Ele perdeu a proteção e os amigos que tinha desde a infância e foi forçado a construir novas relações num mundo que lhe era estranho e, muitas vezes, preconceituoso. Tudo de uma vez só. No abrigo, ele estudava em colégio particular, praticava esportes. Tinha um monte de colegas que viviam como ele e compreendiam como era sofrido ter de tomar dezoito comprimidos por dia, encarar os efeitos colaterais e ainda ter disposição para enfrentar um amanhã que eles não sabiam se chegaria.
Quando Wallace foi morar no abrigo, os antirretrovirais – medicação para quem tem o vírus da Aids – ainda não eram distribuídos de graça pelo governo. Estar numa instituição como essa, àquela altura, era uma maneira de conseguir tratamento. “A única coisa ruim é que eu não sabia fazer nada. Não tinha liberdade para sair, apanhar ônibus, arrumar minhas roupas. Havia uma superproteção”, afirma Wallace. “Fora de lá, talvez eu não tivesse sobrevivido. Mas, por causa do afeto, acho que o melhor para uma criança é ficar com a família.” Agora, Wallace se debate com o desemprego e diz que está “tomando coragem” para prestar vestibular. O único trabalho que conseguiu, de assistente administrativo, durou pouco mais de seis meses. “Eu não dava conta do serviço”, revela. “Às vezes, deixava tarefas pendentes porque ficava muito tempo conversando pela internet.”
“Essas crianças não nasceram para ter futuro. Foram criadas para o presente. Quanto mais tempo ficam abrigadas, mais difícil se torna reinseri-las nas famílias e na sociedade”, afirma José Araújo, da ONG Espaço de Prevenção e Assistência Humanizada. “A situação no País é gravíssima. Os bebês que chegaram com Aids às casas de apoio hoje são jovens e estão tendo que sair.” Estima-se que 10% das crianças e adolescentes que têm HIV vivem em abrigos específicos para soropositivos. Os outros 90% estão em instituições mistas, com familiares ou conhecidos. A ONG que Araújo coordena, na zona sul de São Paulo, já funcionou como orfanato. Mas, quando ele assumiu a entidade, decidiu trabalhar para que as cerca de 15 crianças soropositivas voltassem para suas famílias ou fossem adotadas.
“É criminoso deixarmos crianças crescer em abrigos.O Brasil precisa ter coragem de enfrentar esse problema”José Araújo, da ONG Espaço de Prevenção e Assistência Humanizada
Embora não tenha sido fácil, deu certo. Ao mapear o passado de cada uma delas, Araújo descobriu que a maioria tinha avós, tios, irmãos. “É claro que as famílias precisaram de amparo. Mas ficou provado que essas crianças cabiam em algum lugar”, afirma Araújo. “Cinco foram adotadas, as demais foram viver as virtudes e os defeitos de suas famílias biológicas. O erro é a sociedade e o Judiciário acharem que elas deveriam levar uma vida de Barbie.”
O trabalho de Araújo foi inspirado no do Grupo Viva Rachid, do Recife. A diferença é que a ONG pernambucana, criada há 18 anos, chega antes de a criança ir para o abrigo. “Acompanhamos as famílias e, quando a mãe está debilitada pela Aids, pedimos que ela indique com quem gostaria de deixar os filhos”, explica Alaíde Elias da Silva. “Sempre há uma irmã, uma cunhada ou uma comadre que vai assumindo as responsabilidades aos poucos, como resolver questões escolares e levar a criança ao médico. Assim, quando a mãe morre, seus filhos permanecem no seio familiar.”
SOLIDARIEDADEAlaíde trabalha para que órfãos da Aids e crianças que têm HIV não sejam mandadas para abrigos.
Wallace perdeu pai e mãe. Ele morou na Sociedade Viva Cazuza, no Rio. Gostava de lá, mas sentia falta de afeto
Alaíde fundou a ONG depois de perder um filho, de 8 anos, infectado pelo HIV durante uma transfusão de sangue. Ela calcula que em 80% dos casos em que atuou as crianças não precisaram ir para orfanatos. “Por mais que haja amor, no abrigo sempre falta um olhar individual”, diz a paulistana Micaela Cyrino, representante da Rede de Jovens Vivendo com HIV e Aids. A universitária, de 22 anos, dá aula de arte no abrigo onde ficou dos 6 aos 18 e mora atualmente com uma tia. Ela conhece uma porção de rapazes e moças que penaram do lado de fora. Um deles passou uns tempos com a avó, mas não deu certo. Quando deixou a casa dela, não suportou a solidão. Às vezes, como não tinha para onde correr, ele ia dormir no hospital. Nessas muitas idas e vindas, se envolveu com drogas e morreu.
“Dá para contar nos dedos o número de amigos que saíram do abrigo e se deram bem”Amanda Cristina de Andrade, estudante
“Dá para contar nos dedos o número de amigos que saíram do abrigo e se deram bem”, relata Amanda Cristina de Andrade, 19 anos. “Conheço muita gente que está se prostituindo, traficando ou foi para a cadeia.” Quando morava numa instituição para crianças soropositivas, na capital catarinense, e se aborrecia com a gritaria dos colegas, Amanda escalava as grades das janelas e se refugiava no telhado. “Tinha cerca elétrica nos muros e, sempre que os meus colegas da escola apareciam no portão, a gente tinha de ficar conversando na grade porque eles não podiam entrar lá”, lembra a jovem. “As tiazinhas e os tiozinhos do abrigo me aceitaram. Eu era bem novinha, minha mãe tinha morrido e eles me deram um monte de vestidos. Mas eu me sentia numa prisão.”
Alto astral demais para morrer
(descrição da imagem: Beto está em uma linda praia em São Vicente e, apesar das nuvens pesadas e escuras, empunha sua bengala e um guarda sol cheio de alegria e esperança)e virou um arquivo vivo de combate à doença.
Antonio Carlos Prado
Revista Isto É de 19 FEV 2011
Conheci Luiz Alberto Volpe numa escaldante tarde de segunda-feira na cidade de São Vicente, no litoral sul de São Paulo. Feitas as devidas apresentações na varanda de sua casa, ele foi à cozinha buscar-nos água e café. Eu permaneci na sala, surpreso e já lhe pressentindo o bom humor, com um vidro hermeticamente fechado que ele depositara em minhas mãos. Da cozinha vinha a sua voz:– O que é isso que está dentro do vidro, mergulhado em álcool?– Um osso da perna, respondi.– Está indo bem. – De que parte da perna?– Joelho. É a rótula.– Errou. Outra chance.– Tornozelo. – Errou de novo.– Sei lá de onde é esse osso.Volpe veio para a sala, seu andar dificultado pela descalcificação óssea e uma hérnia de abdômen, copos e xícaras nas mãos, um sorriso largo na boca. Logo ficou sério e na seriedade pareceu envelhecer. Ele explicou: “Esse osso é a cabeça do meu fêmur esquerdo que apodreceu e foi retirada cirurgicamente. Esse osso é a minha bandeira de luta atual. Tenho Aids há 22 anos, a ciência hoje conhece e controla o HIV, mas só agora começa a pesquisar a infinidade de doenças associadas a ele, inclusive as enfermidades ósseas que vêm ao longo do tempo. Eu me dedico a essas pesquisas.” Volpe, um leonino de 49 anos nascido em São Vicente, parece que tem 30 quando canta com gostosa afinação baladas em inglês, quando tenta dançar com as pernas cambaias ou conta piadas das quais ele mesmo ri muito; perde essa juvenilidade e ganha ares sombrios, no entanto, quando se trata de falar, não da Aids que há mais de duas décadas se hospeda em seu corpo já marcado por 19 cirurgias, mas, isso sim, dos novos caminhos de pesquisa: “Temos base para afirmar que diversos cânceres também podem estar associados à Aids ou a efeitos adversos da medicação.” Aí ele sobe o tom e adverte: “Mas não é para ninguém parar de tomar o coquetel antirretroviral. Quanto antes tomá-lo é maior a chance de longa sobrevida, e aos poucos a medicina vai cuidando de tudo.” Fato é fato, e se Volpe adverte é para os soropositivos o acatarem porque ele ensina de cátedra: segundo infectologistas, ele é uma das “raras amostras vivas” da evolução do tratamento, e isso se deve à sua coragem de se apresentar como voluntário às terapias. Deve-se também à sua alegria, ao seu extremo alto-astral e à união que fez da fé com a ciência: “Vi muita gente morrer porque entregou tudo na mão de Deus, vi muita gente morrer porque só acreditava no remédio e não em Deus. Tem-se de juntar as duas pontas.” Contemporâneo do cantor e compositor Cazuza na descoberta de ser portador do HIV (Cazuza morreu em 1990), Volpe lembra como contraiu o vírus e o momento em que se deparou com a “demolidora expressão positivo” no exame laboratorial. “É aquela coisa. A relação de namoro, ainda que seja de risco, chega a um ponto em que um dos parceiros fala: vamos nos relacionar só um pouco sem camisinha. Foi nesse momento”, diz ele. No final de 1989 fez o teste e soube que a morte nele fizera morada.
"Essa ursa de pelúcia me dá sorte.Eu a levo em todas as minhas internações."
(descrição da imagem: Beto sentado na cama, sorrindo e cercado de pelúcias segurando uma ursa e seu filhotinho)
Depressão? Não. Muita cocaína cheirada? Sim. “Se a morte lhe sorrir, seja educado e retribua o sorriso. Quanto à droga, eu a usava para curtir o que eu julgava ser o último momento de vida”, diz esse ex-bancário, aposentado por doença da Caixa Econômica Federal (recebe R$ 2,2 mil por mês). O primeiro da família a saber foi seu irmão, Paulo Roberto Volpe, e a confidência se deu entre lágrimas na praia. Na sequência, em casa, a mesma casa onde 22 anos depois ele ainda vive, seus pais receberam a notícia. A mãe, Aida, chorou. O pai, Geraldo, apoiou o ombro no batente de uma das portas e fechou questão: “Vamos planejar como viver o maior tempo possível.”
Foi o que Volpe fez. Na época recomendava-se geleia, ele se entupiu de geleia. Depois, meses antes do anúncio oficial do coquetel, a ele já se submetia: “35 comprimidos ao dia, 1.050 ao mês” (hoje toma três dada a evolução da medicação e estabilização da carga viral). Mas não estacionou aí seu pioneirismo. Em decorrência do HIV, a distribuição de gordura é reordenada e o rosto fica “chupado”, enquanto o abdômen cresce. “Eu queria ficar bonito”, diz Volpe. Não adiantava o silicone porque ele adere justamente à gordura e gordura lá não havia. Como “cobaia”, submeteu-se a implantes de uma substância (politilmetachilato) que adere ao músculo. Tudo certo, “as bochechas voltaram”. Em meio a isso, vieram o suicídio do irmão, uma constelação de linfomas (medula, pescoço, pulmões, fígado, baço e virilhas), “apodrecimento dos ossos”, quase duas dezenas de cirurgias, candidíase que tomou todo o esôfago e o estômago (“fiquei verde por dentro), vieram quatro diagnósticos de paciente terminal. Numa ocasião, ele bateu boca com médicos e exigiu cirurgia de hemorroidas. Graças a essa operação descobriu um câncer no reto, operou e ficou bom: “Se eu não pensasse na minha sexualidade, talvez estivesse morto.”E vieram também as lutas ganhas na Justiça por remédios de graça, veio a fundação da ONG Hipupiara (monstro marinho imaginário morto em São Vicente no século XVI), vieram prêmios, reconhecimento internacional e formação de grupos inter-religiosos (de um deles participa o médico Anivaldo Padilha, pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha). Quando o irmão se matou, ele fez “um pacto com o HIV: espere meus pais morrerem para me matar porque eles não suportarão enterrar dois filhos”. O que falta vir, então, na sua vida, Volpe? A resposta é imediata: primeiro, Humprey Bogart sarar. Trata-se de seu poodle que pegou a “doença do carrapato”. Depois, “falta um namorado. Estou há cinco anos sem amor e há dois anos sem relação sexual. Namorei muito com Aids, sempre com camisinha. A sexualidade é a mãe da vida. A minha libido é a minha energia de viver”.
Depressão? Não. Muita cocaína cheirada? Sim. “Se a morte lhe sorrir, seja educado e retribua o sorriso. Quanto à droga, eu a usava para curtir o que eu julgava ser o último momento de vida”, diz esse ex-bancário, aposentado por doença da Caixa Econômica Federal (recebe R$ 2,2 mil por mês). O primeiro da família a saber foi seu irmão, Paulo Roberto Volpe, e a confidência se deu entre lágrimas na praia. Na sequência, em casa, a mesma casa onde 22 anos depois ele ainda vive, seus pais receberam a notícia. A mãe, Aida, chorou. O pai, Geraldo, apoiou o ombro no batente de uma das portas e fechou questão: “Vamos planejar como viver o maior tempo possível.”
Foi o que Volpe fez. Na época recomendava-se geleia, ele se entupiu de geleia. Depois, meses antes do anúncio oficial do coquetel, a ele já se submetia: “35 comprimidos ao dia, 1.050 ao mês” (hoje toma três dada a evolução da medicação e estabilização da carga viral). Mas não estacionou aí seu pioneirismo. Em decorrência do HIV, a distribuição de gordura é reordenada e o rosto fica “chupado”, enquanto o abdômen cresce. “Eu queria ficar bonito”, diz Volpe. Não adiantava o silicone porque ele adere justamente à gordura e gordura lá não havia. Como “cobaia”, submeteu-se a implantes de uma substância (politilmetachilato) que adere ao músculo. Tudo certo, “as bochechas voltaram”. Em meio a isso, vieram o suicídio do irmão, uma constelação de linfomas (medula, pescoço, pulmões, fígado, baço e virilhas), “apodrecimento dos ossos”, quase duas dezenas de cirurgias, candidíase que tomou todo o esôfago e o estômago (“fiquei verde por dentro), vieram quatro diagnósticos de paciente terminal. Numa ocasião, ele bateu boca com médicos e exigiu cirurgia de hemorroidas. Graças a essa operação descobriu um câncer no reto, operou e ficou bom: “Se eu não pensasse na minha sexualidade, talvez estivesse morto.”E vieram também as lutas ganhas na Justiça por remédios de graça, veio a fundação da ONG Hipupiara (monstro marinho imaginário morto em São Vicente no século XVI), vieram prêmios, reconhecimento internacional e formação de grupos inter-religiosos (de um deles participa o médico Anivaldo Padilha, pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha). Quando o irmão se matou, ele fez “um pacto com o HIV: espere meus pais morrerem para me matar porque eles não suportarão enterrar dois filhos”. O que falta vir, então, na sua vida, Volpe? A resposta é imediata: primeiro, Humprey Bogart sarar. Trata-se de seu poodle que pegou a “doença do carrapato”. Depois, “falta um namorado. Estou há cinco anos sem amor e há dois anos sem relação sexual. Namorei muito com Aids, sempre com camisinha. A sexualidade é a mãe da vida. A minha libido é a minha energia de viver”.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
ALGUNS BICHOS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS
Artigo escrito em março de 2009, ainda atualíssimo, baseado na obra ‘A Revolução dos Bichos’ de George Orwell.Áudio descrição da imagem: porco trajando terno rindo demais para se tratar de algo honesto.
“Lembro-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus. E, principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.”George Orwell.
Este artigo é dedicado ao saudoso amigo e
companheiro de luta Sérgio Abreu que,
com certeza, está comprando brigas
em outras granjas por aí.
Com ética!
Havia uma granja. A Granja Brasillis. Nessa granja os bichos viviam suas vidas de bichos de granja, em uma tranqüilidade proporcionada por um clima abençoado por Deus e muito bonito por sua natureza. Cada bicho sabia seu lugar na harmonia da granja, determinado por suas características. Os porcos com sua astúcia e inteligência, hoje sabidamente comparável à dos chimpanzés, sempre se destacavam nas atividades sociais ao redor do cocho. As ovelhas e sua alienação que, ao invés de guardar silêncio, preferiam irritantemente balir ao nada para nada querer. Os cavalos, grandes trabalhadores, estavam sempre dispostos a arregaçar as inexistentes mangas e fazer sua parte. Muitas vezes faziam a dos outros, também. Trabalhadores também eram seus primos, os burros, porém com uma teimosia que fazia com que olhassem sempre com desconfiança para qualquer novidade que aparecesse pela granja. E, por fim, as vacas e os bois, fiéis seguidores das idéias dominantes (no que faziam coro às ovelhas), sempre dispostos a mudar de idéias e companhias para garantir os melhores bocados e iguarias. Todos diferentes. Mas felizes. Felizes e irmãos, onde todos tinham seu alimento, seu abrigo, seus amigos. Havia festas do alvorecer ao crepúsculo. Enfim, nessa diversidade os bichos viviam sossegados até...
Até que uma estranha doença começou a abater alguns de seus mais famosos e renomados moradores e a causar medo e dor entre todos eles, que assistiam horrorizados os seus ídolos definharem publicamente. O enorme porco detentor de premiações em exposições, o galo cantor que encantava todas as manhãs apresentando a alvorada, enfim, a doença parecia ter preferência por animais que se destacavam na granja, de alguma maneira. Mas a doença, antes de matar, alijava o animal das atividades da granja; todos os demais tinham horror a contrair o tal mal ainda tão desconhecido e se afastavam dos bichos doentes. Havia quem dissesse que o simples compartilhar de poleiro faria com que o mal fosse transmitido. O fato é que com o passar do tempo a doença já se espalhara entre os mais humildes moradores, entre os jovens franguinhos e até os animais mais velhos estavam sendo atacados pelo mal que os matava ainda vivos.
E a estranha epidemia assolava não somente aquela, mas todas as granjas, independentemente de sua riqueza ou localização. Os proprietários juntamente aos bancos e seguradoras com os quais trabalhavam perceberam que teriam que arregimentar fundos e traçar metas para enfrentar o problema que ameaçava seus investimentos. O mundo então se comoveu com a dramática situação dos bichos e foram realizadas Conferências Mundiais, governantes e empresas destinaram grandes importâncias para tentar conter o mal que se espalhava por várias granjas. Ao mesmo tempo foram surgindo grupos para atuar junto aos bichos que viviam com o problema na tentativa de amenizar o sofrimento desses e estancar a progressão do mal: as Organizações para a Normalização das Granjas, ONGs, formadas por técnicos que contribuíam com sua boa vontade e suas formações acadêmicas para enfrentar o problema que ameaçava sair do controle e extinguir toda a população das granjas. Nunca na história da Organização das Granjas Unidas tanto esforço e tanto dinheiro fora mobilizado para enfrentar um problema comum. No entanto...
No entanto a epidemia só fazia avançar, os esforços pareciam nada adiantar perante tamanho desafio. E os bichos já acometidos pelo problema perceberam, enfim, que os governantes e as ONGs não estavam dando conta de tamanho desafio e que a única alternativa seria assumir sua parte nessa luta. Os porcos, líderes natos, organizaram reuniões cada vez mais entusiasmadas, com as ovelhas balindo repetidamente palavras de ordem, os cavalos e as galinhas incentivando uns aos outros, bois e vacas engrossando as fileiras e os burros... Esses estavam preocupados, acreditavam que o trabalho das ONGs já era suficiente e que eles deveriam cuidar mais da própria saúde. Enfim os bichos, em um dia de muito júbilo em uma granja do interior fundaram a Rede Nacional de Bichos Vivendo com o Problema, a RNB+. E escreveram na parede central da granja a síntese de sua Carta dos Bichos:
‘TODOS OS BICHOS SÃO IGUAIS’
E festejaram a conquista, entoando cânticos e palavras de ordem como ‘Queremos a cura, já!’ ou ‘Forração para todos’. Sim, houve um avanço científico. Ao mesmo tempo em que os bichos resolveram se organizar a ciência havia descoberto um coquetel de forrações que impedia o desenvolvimento da doença na maioria dos bichos. Os governantes da Granja Brasillis distribuíam o coquetel de forrações aos bichos que necessitavam de tratamento e, num equívoco de general de primeira guerra, alguns setores do governo e da ciência declararam que o Problema havia se tornado crônico e estaria sob controle.
Porém e apesar de todos os esforços, cada vez mais animais sucumbiam e as economias cada vez mais se ressentiam com seu impacto. Foi quando os bichos perceberam que algumas organizações estavam mais interessadas em avanços pessoais, profissionais e acadêmicos do que nas metas adotadas, quando não pelo dinheiro que corria solto para financiar as ações que visassem estancar a epidemia. Alguns bichos que haviam se destacado na luta contra as desigualdades, afinal todos os bichos são iguais, já haviam se desligado da Rede, indo para algumas ONGs e mesmo para setores do governo. Muitos deles seguindo sérios ideais e propostas de poder fazer a diferença por outros meios, mantendo o reconhecimento dos outros bichos, conquistado durante a época onde poucos ousavam desnudar em público a própria condição. Outros, porém, haviam sido simplesmente seduzidos por vantagens financeiras, de poder ou, alguns, de puro brilho. Da nulidade de suas vidas pregressas à oportunidade de serem vistos e reconhecidos como bichos sociais. Mesmo que isso representasse uma dificuldade a mais na já tão árdua luta para os bichos que viviam com o problema. Que estavam enfrentando novos e tremendos desafios. O coquetel de forrações, que havia provado sua eficácia e com isso enriquecido seus produtores e alguns intermediadores, também tinha seus efeitos colaterais. Bovinos mal conseguiam andar tamanho o crescimento de seus úberes e de seus cupins. Cavalos tendo seus cascos necrosados e até mesmo o garanhão não desempenhava seu papel como antigamente. E o crescente número de casos de cânceres em penas, cloacas, chifres e rabos. Havia outros tipos de doenças também se alastrando, fazendo com que a vida na Granja Brasillis ficasse cada vez mais complicada. E a dos bichos vivendo com o problema se tornasse ainda mais assustadora e imprevisível.
Ao mesmo tempo a Rede de Bichos Vivendo com o Problema se deparava com seu mais novo desafio: a própria diversidade que a compunha. Porcos, cavalos, ovelhas, vacas, burros, galinhas, jovens e velhos, machos e fêmeas, alguns acometidos pela doença, outros somente portando o mal que a causava, muitos carregando seqüelas de suas manifestações. Existiam também os corvos, que apareciam somente em épocas de encontros e eleições. Era necessário equacionar tantas diferenças. Era necessário um guia de comportamentos, um código de ética. Outra necessidade era a de aproximação dos bichos, afinal as distâncias eram enormes na Granja Brasillis. E havia a tecnologia da Interpet que poderia fazer essa aproximação. Os burros foram os primeiros a se opor, alegando que os bichos não eram da polícia para controlar uns aos outros e que essa coisa de Interpet não havia sido feita para todos os bichos. Os porcos, cuja astúcia já foi mencionada, concordaram com os burros e as coisas continuaram como estavam.
Com o crescente reconhecimento da importância da Rede de Bichos pelos mais diversos setores governamentais ou não, esta obtinha financiamentos de vulto e, apesar de pecar em algumas prestações de contas e na transparência de algumas ações, continuava a receber o aval governamental tamanha sua relevância na luta contra o problema. E esse tipo de prática começou a se tornar freqüente, até que começaram a estourar pequenos escândalos em granjas distantes por irregularidades na utilização de recursos. A imprensa começava a noticiar que Bichos Vivendo com o Problema estariam se locupletando de verbas públicas. Os porcos, agora confirmados nas lideranças do movimento dos bichos, fizeram vistas grossas, afirmaram que eram casos pontuais e que a Justiça daria conta do assunto. As ovelhas baliam sem cessar: ‘Quebra de Patentes, Jáááá!’. E, alheios às ameaças externas, os bichos começaram a verificar outro fenômeno entre eles: já não mais eram tão irmãos assim. Já se reparava mais nas diferenças entre si do que nas afinidades que outrora os unira. A única coisa que os unia agora era o Problema em si.
Até que um dia, na propriedade mais rica da Granja Brasillis, e também a que contava com o maior número de bichos com o problema, o colegiado dos bichos se reuniu e decidiu que seria mais fácil administrar a luta contra o problema se eles também se tornassem uma Organização para a Normalização das Granjas, uma ONG. Teriam maior independência para apresentação de projetos para financiamento das ações necessárias e outras providências. Só que havia dois problemas: seus cargos de representação não davam direito a decisões, apenas intermediações e operacionalizações. A Carta dos Bichos dizia claramente que TODOS OS BICHOS SÃO IGUAIS, ou seja, as decisões importantes deveriam ser apreciadas por todos os habitantes da granja. E, como os próprios burros e porcos haviam boicotado as consultas via Interpet, estava estabelecido o impasse. Foi assim que, no dia seguinte, o artigo máximo da Carta dos Bichos aparecera alterado na parede principal da granja:
‘TODOS OS BICHOS SÃO IGUAIS,
MAS ALGUNS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS.’
Boa parte dos bichos não atentou para a mudança de paradigma que essa alteração provocaria. A partir daquele dia os ideais de igualdade que eram a expressão da Rede de Bichos haviam se partido, mas a maioria dos bichos sequer se questionou. Outros acharam mais cômodo se omitir, sendo que alguns líderes de outras granjas parabenizaram a iniciativa como inovadora e necessária. Até mesmo o representante dos bichos no Conselho Nacional das Granjas cobriu os ‘companheiros’ com os maiores elogios.
Eles haviam perdido sua capacidade de ter olhar crítico e passaram a aceitar conveniências como expressões da verdade. Passaram a aceitar mudanças na história passada para justificar uma nova leitura do presente. E, assim, construir um futuro baseado nos ideais que a Rede Nacional de Bichos Vivendo com o Problema nascera para enfrentar.
Pobres bichos, não atentaram que haviam se tornado, eles próprios, parte do problema.
Beto Volpe
George Orwell, escritor, jornalista e militante político, foi perseguido junto a anarquistas e outros comunistas. Desencantado com o governo de Stalin, escreveu “A Revolução dos Bichos” em 1944. Nenhum editor aceitou publicar a sátira política, pois, na época, Stalin era aliado da Inglaterra e dos Estados Unidos. Só após o término da guerra, em 1945, é que o livro foi publicado e se tornou um sucesso editorial.
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