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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Deus e o Diabo na Terra das ONGs

Descrição da imagem: foto em preto e branco de cangaceiro dentro de um círculo formado por caios de sol amarelos estilizados sobre fundo vermelho.
 
 
Que o Brasil é um país de contrastes, não é novidade para ninguém. A convivência entre Deus e o Diabo em nossa sociedade é tão evidente quanto o côncavo e convexo de Niemeyer em nosso Congresso Nacional, igualmente recheado de antagonismos e em cujas mãos está o futuro das ONGs de nosso país. Não daquelas que vivem aparecendo nos noticiários policiais em escândalos envolvendo milhões de reais desviados em nome de uma nobre causa e que normalmente têm ligação com algum político ou seu agregado. Mas, sim, o destino das muitas associações surgidas de necessidades comunitárias, pelas mãos da própria comunidade e que tem como objeto a solução de um problema da mesma comunidade que a originou, como reza a cartilha democrática.
 
Democracia que, segundo Rui Barbosa em sua Oração aos Moços, só existirá se houver um tratamento desigual aos desiguais na medida em que se desigualam. E, por incrível que pareça, ou não, ambas as modalidades de ONGs acima citadas são tratadas como iguais pelo Estado, ao contrário do praticado junto ao setor privado, por exemplo, que tem regras e políticas próprias para o grande, e médio e o micro empresário. Instituições que sobrevivem com parcos recursos de bingos, rifas, algumas com convênios e projetos junto a órgãos públicos que raramente ultrapassam os cinco dígitos têm os mesmos trâmites burocráticos e rigor na fiscalização que aquelas cujas práticas nunca condizem com suas missões cheias de boas intenções. Ou melhor, antes fosse, ou não veríamos com indesejável frequência os tais escândalos que fizeram com que o ex ministro Aldo Rebelo nos jogasse a todos no balaio da corrupção, classificando-nos como 'essas ONGs'.
 
'Essas ONGs' são em sua grande maioria instituições sérias, mesmo com a pouca qualificação administrativa de suas direções pois, como já dito, são pessoas que perceberam um problema, viram que o Estado não estava tendo competência para solucioná-lo e acabaram arregaçando as mangas para cumprir seu papel de cidadãos. Cidadãos que hoje, em muito graças a comentários desastrosos como esse, estão tendo seus nomes protestados por conta da inadimplência e fechamento de suas instituições. As ONGs de pequeno porte, dentre as quais está a maioria das que atuam na luta contra a AIDS, não conseguem mais cumprir a contento sua missão original por estarem atoladas em formulários e certidões, taxas e tarifas, editais e licitações. Há que ter um novo marco regulatório, onde as associações comunitárias tenham um tratamento desigual, para que seja promovida uma igualdade de condições de financiamento e de monitoramento.
 
A imprensa noticiou hoje que a Casa Civil acaba de encaminhar à presidenta Dilma o texto de um projeto de lei para regulamentar o setor, elaborado por especialistas no assunto, incluindo representações de ONGs. Claro, o destaque está sendo dado à faxina a ser promovida pela exigência de ficha limpa de seus dirigentes, assim como para com os políticos. Lógico que essa é uma medida salutar e merece destaque, mesmo porque está se tratando de bem público. Mas nada se falou sobre essa distinção pretendida no tratamento a diferentes tipos de instituições. As associações comunitárias são a base do que resta do controle social de políticas públicas. Normalmente são elas que participam de conselhos de direitos, sejam eles da criança e adolescente, da saúde ou da terceira idade e que se esforçam para promover avanços sociais, se na prática as coisas são diferentes é porque a correlação de forças nesses espaços também é desigual, ainda que paritária.
 
É preciso diferenciar Deus e o Diabo nessa história toda, mesmo porque o último tem como principal recurso comportar-se como o primeiro. Não é possível que esse marco regulatório que pretende dar transparência e eficiência às ONGs não inclua as pequenas associações e considere suas peculiaridades. Sob pena de virarem realidade as palavras de Cego Guido a Antônio das Mortes, no brilhante filme de Glauber Rocha:
 
"Um dia vai ter uma guerra maior nesse sertão. Uma guerra grande, sem a cegueira de Deus e o Diabo."
 
Beto Volpe

domingo, 16 de dezembro de 2012

Jovens são os mais afetados por câncer de boca e garganta atualmente; causa é o HPV

Descrição da imagem: fotografia de boca com reminiscências dentárias e múltiplas lesóes provocadas por carcinoma.
 
Até pouco tempo atrás, os tumores de boca e de garganta eram tipicamente associados a pacientes com mais de 50 anos e histórico de consumo pesado de álcool e tabaco. Mas, nos últimos anos, estudos epidemiológicos têm apontado uma emergência de casos em pessoas jovens que nunca fumaram ou beberam – a maioria deles associada à infecção pelo papiloma vírus humano (HPV).
 
A mudança no perfil dos afetados por esse tipo de câncer tem grandes implicações nos programas de prevenção, detecção precoce e também no tratamento da doença.
O tema foi abordado pelo médico Luiz Paulo Kowalski, diretor do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do Hospital A.C. Camargo, nesta quinta-feira (13), em evento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) na Espanha. .
 
"Levantamentos anteriores feitos no Brasil apontavam uma prevalência de infecção pelo HPV menor que 2% nos pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Mas um estudo nosso publicado em 2012 mostra que em pacientes jovens com tumores de boca a prevalência é de 32%. Isso é bem alto", contou Kowalski à Agência Fapesp.
 
Foram comparadas 47 amostras de tumores de pacientes com menos de 40 anos e 67 amostras de pacientes com mais de 50 anos. Entre os mais velhos, o índice de infecção pelo HPV foi de 8%. Os resultados da pesquisa, foram publicados no International Journal of Cancer. "Nos dois grupos, o estágio da doença era parecido, a localização do tumor era semelhante e, ainda assim, os pacientes jovens HPV positivos tinham taxa de sobrevida melhores que os demais", contou Kowalski.
 
Esse achado reforça dados de estudos anteriores que apontam um melhor prognóstico para pacientes HPV positivo. "Parece ser um tumor diferente, com comportamento mais localizado e menos agressivo. Em geral, os pacientes respondem melhor ao tratamento", disse.
 
Em outra investigação em andamento, estão sendo comparados 23 pacientes com câncer de orofaringe (amígdala) atendidos no Hospital A.C. Camargo com 10 pacientes atendidos no Hospital do Câncer de Barretos, no interior de São Paulo. O objetivo é identificar marcadores de resposta ao tratamento, mas ao fazer a avaliação da presença do HPV os pesquisadores encontraram um dado interessante: enquanto 78% dos pacientes da capital são positivos para a presença do vírus, todos os voluntários de Barretos foram negativos.
 
"Provavelmente essa diferença se deve ao fato de que na capital as pessoas aderiram mais às campanhas antifumo e hoje bebem menos do que antigamente. Já no interior, os hábitos mudaram menos. Além disso, o comportamento sexual na capital também está mais diferente e isso é um dos fatores ao qual se atribui o aumento da ocorrência dos casos de câncer associados ao HPV", explicou Kowalski. "A discrepância nos índices de infecção pelo vírus, mais uma vez, se refletiu nos resultados terapêuticos alcançados em cada grupo negativo, e a resposta terapêutica é muito pior", disse.
 
Prognóstico positivo
 
Há 20 anos, o panorama para um jovem com câncer de cabeça e pescoço era muito ruim. "Em geral, eram pessoas que começaram a fumar e beber muito cedo. Tinham más condições nutricionais, um estado físico muito comprometido e tumores muito agressivos", contou Kowalski. Hoje, por outro lado, um paciente jovem, HPV positivo, sem histórico de consumo pesado de álcool e cigarro tem grandes chances de sobreviver ao tratamento e de voltar à vida normal.
 
Para Kowalski, essa mudança de paradigma exige a revisão dos programas de prevenção e detecção precoce da doença, muito focados em cuidados com a boca e em pacientes fumantes e etilistas. "Agora temos de nos preocupar com todas as pessoas. Mesmo quem não fuma e não bebe pode estar em risco", disse. Além disso, segundo o médico, é preciso lutar pela institucionalização de campanhas de vacinação contra o HPV para meninas e também para meninos.
 
"Embora existam mais de 200 variações de HPV, a maioria dos casos de câncer de orofaringe está associada aos tipos 16 e 18, contra os quais a vacina é capaz de proteger. É a melhor forma de prevenir a doença no futuro", destacou Kowalski.
 
(Com Agência Fapesp)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A cara da riqueza

Descrição da foto: desenho de duas enfermeiras: a da esquerda, que trabalha no Hospital Sírio Libanês, leva o indicador à boca pedindo silêncio e a da direita, que trabalha no SUS, bate com a palma da máo direita na esquerda, que está curvada em copo, avisando que o paciente está f#*/@+.
 
 
Fica cada vez mais claro o abismo que existe entre a percepção das pessoas vivendo com HIV com relação ao cenário da epidemia e as declarações de uma considerável parcela da classe médica, infelizmente um grupo que é formador de opiniões entre seus pares. Para aqueles a situação está dando sérios sinais de descontrole, ao menos no Brasil, enquanto que para esses otimistas doutores estamos próximos de um mundo sem AIDS e a vida das pessoas que aderem ao tratamento é tão normal quanto antes da infecção.

Alguns renomados infectologistas fazem parte dessa leva, incluindo a doutora Márcia Rachid, pessoa a quem sempre dediquei profunda consideração, tanto que tenho três edições de seu Manual de HIV/AIDS. Ao longo deste século mantivemos três conversas em eventos, a primeira foi em 2001, no Fórum Latino Americano de DST/AIDS no Rio de Janeiro em 2001, quando eu estava em uma cadeira de rodas por conta das recentemente diagnosticadas (tardiamente) osteonecrose e osteoporose com fratura de fêmur. Naturalmente que os efeitos colaterais foram o assunto, alguma coisa estava acontecendo fora do normal em nossos organismos e me lembro muito bem que ela se mostrou atenta e sensível ao tema, o que me deu uma certa tranqüilidade, os doutores estavam nos acompanhando e teriam uma solução. Doce, ou melhor, amarga ilusão.

Anos mais tarde, creio que em 2005, reencontramo-nos em um congresso de infectologistas em Santos, para o qual já havia ido com minha metralhadora cheia de mágoas. Um ativista amigo meu tinha me informado que Dra. Márcia teria dito, em uma apresentação, que a culpa pela não adesão ao tratamento era das pessoas com HIV que não queriam tomar remédios. Para minha tristeza ela repetiu a fala durante uma aula patrocinada pela Abbott com lanchinho e tudo, cerca de três mil médicos e meia dúzia de ativistas pingados, eu na primeira fila. Quando foi aberto o debate, sou medalhista olímpico em levantamento de braço, fui o primeiro e iniciei expondo minha surpresa pela fala, afinal ninguém quer tomar remédio, nem ela e nem os médicos presentes. Que aderir o tratamento vai além do querer, vai da situação familiar, afetiva, trabalhista, de moradia e um sem número de fatores que fazem com que a pessoa tenha ou não adesão. E fiz uma pergunta sobre mutação em pessoas aderentes. Ela me respondeu à questão sobre mutação, fez uma longa pausa com direito a uma profunda expiração e declarou para mim e para seus colegas de profissão:

- Com relação à adesão, Beto, ao ouvir minhas palavras vindas de sua boca eu percebi o equívoco que estava cometendo, retiro o que disse e peço desculpas.

Foi um aplauso generalizado e eu retomei minha confiança naquela miúda mulher super fashion, acessível, que estava atenta a nossa situação e que era capaz de rever seus conceitos publicamente, honradez que poucos conseguem ter. Novamente, parece que foi tudo ilusão. No Vivendo do Rio de Janeiro realizado no último final de semana ela foi protagonista de um acirrado debate com as pessoas vivendo. Na véspera eu havia encerrado a tarde perguntando a ela se não era muita arrogância científica considerar a AIDS, de recente conhecimento e crescente complexidade, como uma doença crônica, ao que ela ficou de responder na mesa do dia seguinte.

Essa resposta iniciou a tal mesa e, para sobressaltos e crises de neuro toxoplasmose de minha parte, ela fez uma série de defesas da cronicidade da doença e que ela teria o mesmo perfil do diabetes (foi aí que minha mão começou a retorcer com a toxo). Que não via problemas junto ao INSS, afinal conseguia aposentar, em seu consultório, todos os pacientes que ela quisesse e que eles não morriam, quem está morrendo são as pessoas que não tomam os medicamentos, quem os toma está vivendo perto da normalidade. Claro, não fui o único a reagir a esse festival de discrepâncias em relação ao SUS que conhecemos ao SUS que vivemos no dia a dia. Com meus queridos Renato e Josimar alternamos nossas falas e contrapusemos todos os argumentos com estudos, pesquisas, exemplos e demonstrações, ao que ela permaneceu impassível em sua posição, ressaltando que a AIDS é crônica degenerativa como o diabetes, novamente o clichê da banalização.

Pois é, parece que o SUS que atende os pacientes de Dra. Márcia não é o mesmo no qual se tratam as demais pessoas com HIV. O nosso SUS faz com que os pobres mortais enfrentem demora de meses para agendar consultas e exames, não consigam vagas na rede hospitalar, não tenham acesso a medicamentos para os eventos adversos e, muitas vezes, nem para as oportunistas.

O nosso SUS é a cara da riqueza...


Por Beto Volpe


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A insustentável leveza da AIDS

Descrição da imagem: o personagem Eric Cartman com sua touca azul, camiseta vermelha com o laço da luta contra a AIDS e a expressão, em inglês: "Eu tenho AIDS (e tudo que eu recebi foi essa porcaria de camiseta)"

 




'A AIDS agora é uma doença crônica, assim como o diabetes.'
 
 
Creio que todo mundo já tenha ouvido essa frase, tão confortante para uma epidemia que há pouco tempo era considerada a praga do século. Quem dera soluções de grande porte fossem simples assim. Todos estaríam celebrando a queda nas barreiras trabalhistas e abrindo mão dos recursos junto à previdência. Nosso tratamento, cujos efeitos colaterais seriam de pleno conhecimento da ciência, poderia ser feito na UBS mais próxima de nossa casa, com equipes absolutamente preparadas e o preconceito não teria mais razão de existir, permitindo o atendimento ético e sigiloso dentro da própria comunidade. Antes fosse. A idéia de que a AIDS está sob controle é o segundo grande equívoco cometido no enfrentamento à epidemia, o primeiro foi classificar indivíduos em grupos de risco, sem levar em conta suas variantes sociais e pessoais.
 
 
Realmente, com a introdução do coquetel de medicamentos houve um grande avanço. A mortalidade despencou, as pessoas voltaram a viver com HIV e, sobretudo, a ter perspectivas na vida. A saúde pública celebrou a sobrevivência de um sistema que já antevia seu colapso, a sociedade civil organizada deixou de pautar a AIDS em suas discussões e a população voltou ao seu normal, como se houvesse acordado de um pesadelo e que agora não precisava mais se preocupar com o HIV. Uma aura de leveza passou a cercar o assunto que, de tão indelével, sumiu da mídia, das prioridades governamentais e da prevenção por parte da população.
 
 
A realidade que vivemos hoje é bem diversa da apregoada pelo ex-melhor programa de AIDS do mundo, tanto que foi seriamente advertido por três órgãos da ONU pela banalização como vem sendo tratada a epidemia no Brasil, o que já estaria apresentando retrocessos em todas as frentes. O aumento de casos entre a população jovem homossexual e a infecção de trinta mil pessoas ao ano são apenas dois indicadores de que há algo de podre na estratégia de prevenção ao vírus HIV. O atendimento especializado em AIDS assiste a seu desmonte e já tem anunciada a descentralização para a rede básica dos pacientes em situação 'confortável', segundo técnicos do Ministério da Saúde. E quanto aos direitos, todos estão sendo derrubados, seja no transporte público, na previdência social ou no âmbito trabalhista.
 
 
Em um programa humorístico de TV, South Park, o mais arrogante e egoísta dos quatro jovens protagonistas contrai HIV. Imediatamente, ele organiza um show de Elton John em seu benefício e, diante da quase nula freqüência e da ausência do astro que teria ido fazer um show para as vítimas do câncer, ele dispara: 'Cacete, eu tinha que pegar essa doença logo quando ninguém mais fala dela?'. O humor, uma vez mais, atinge em cheio o âmago da questão.
 
 
Não são somente os medicamentos que apresentam efeitos colaterais, atitudes também. Os remédios estão alterando nosso metabolismo e provocando o envelhecimento precoce das pessoas vivendo com HIV/AIDS. Também é sabido que a presença do vírus provoca uma sorrateira e inesperada progeria, encurtando nosso caminho rumo à terceira idade. Considerar a AIDS como uma doença crônica ou sob controle é, no mínimo, irresponsabilidade perante a população e soberba com os mistérios que a AIDS ainda guarda para nós.

 
Que desvende o véu e seja revelada a insustentável leveza da AIDS



Beto Volpe



 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Veja que lixo!

Sem palavras. Cada vez fico mais fã desse cara.
 
Foto de Jean Wyllys trajando terno preto, gravata rosa e um laco verde e amarelo coroado por uma floor arco íris.

Por Jean Wyllys - Deputado Federal(PSOL-RJ)

Eu havia prometido não responder à coluna do ex-diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, para não ampliar a voz dos imbecis. Mas foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que eu dominei meu asco e decidi responder.
...
A coluna publicada na edição desta semana do libelo da editora Abril — e que trata sobre o relacionamento dele com uma cabra e sua rejeição ao espinafre, e usa esses exemplos de sua vida pessoal como desculpa para injuriar os homossexuais — é um monumento à ignorância, ao mal gosto e ao preconceito.

 Logo no início, Guzzo usa o termo “homossexualismo” e se refere à nossa orientação sexual como “estilo de vida gay”. Com relação ao primeiro, é necessário esclarecer que as orientações sexuais (seja você hétero, gay ou bi) não são tendências ideológicas ou políticas nem doenças, de modo que não tem “ismo” nenhum. São orientações da sexualidade, por isso se fala em “homossexualidade”, “heterossexualidade” e “bissexualidade”. Não é uma opção, como alguns acreditam por falta de informação: ninguém escolhe ser gay, hétero ou bi.

 O uso do sufixo “ismo”, por Guzzo, é, portanto, proposital: os homofóbicos o empregam para associar a homossexualidade à ideia de algo que pode passar de uns a outros – “contagioso” como uma doença – ou para reforçar o equívoco de que se trata de uma “opção” de vida ou de pensamento da qual se pode fazer proselitismo.

 Não se trata de burrice da parte do colunista portanto, mas de má fé. Se fosse só burrice, bastaria informar a Guzzo que a orientação sexual é constitutiva da subjetividade de cada um/a e que esta não muda (Gosta-se de homem ou de mulher desde sempre e se continua gostando); e que não há um “estilo de vida gay” da mesma maneira que não há um “estilo de vida hétero”.
A má fé conjugada de desonestidade intelectual não permitiu ao colunista sequer ponderar que heterossexuais e homossexuais partilham alguns estilos de vida que nada têm a ver com suas orientações sexuais! Aliás, esse deslize lógico só não é mais constrangedor do que sua afirmação de que não se pode falar em comunidade gay e que o movimento gay não existe porque os homossexuais são distintos. E o movimento negro? E o movimento de mulheres? Todos os negros e todas as mulheres são iguais, fabricados em série?

 A comunidade LGBT existe em sua dispersão, composta de indivíduos que são diferentes entre si, que têm diferentes caracteres físicos, estilos de vida, ideias, convicções religiosas ou políticas, ocupações, profissões, aspirações na vida, times de futebol e preferências artísticas, mas que partilham um sentimento de pertencer a um grupo cuja base de identificação é ser vítima da injúria, da difamação e da negação de direitos! Negar que haja uma comunidade LGBT é ignorar os fatos ou inscrição das relações afetivas, culturais, econômicas e políticas dos LGBTs nas topografias das cidades. Mesmo com nossas diferenças, partilhamos um sentimento de identificação que se materializa em espaços e representações comuns a todos. E é desse sentimento que nasce, em muitos (mas não em todos, infelizmente) a vontade de agir politicamente em nome do coletivo; é dele que nasce o movimento LGBT. O movimento negro — também oriundo de uma comunidade dispersa que, ao mesmo tempo, partilha um sentimento de pertença — existe pela mesma razão que o movimento LGBT: porque há preconceitos a serem derrubados, injustiças e violências específicas contra as quais lutar e direitos a conquistar.

 A luta do movimento LGBT pelo casamento civil igualitário é semelhante à que os negros tiveram que travar nos EUA para derrubar a interdição do casamento interracial, proibido até meados do século XX. E essa proibição era justificada com argumentos muito semelhantes aos que Guzzo usa contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 Afirma o colunista de Veja que nós os homossexuais queremos “ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos”, e pouco depois ele coloca como exemplo a luta pelo casamento civil igualitário. Ora, quando nós, gays e lésbicas, lutamos pelo direito ao casamento civil, o que estamos reclamando é, justamente, não sermos mais tratados como uma categoria diferente de cidadãos, mas igual aos outros cidadãos e cidadãs, com os mesmos direitos, nem mais nem menos. É tão simples! Guzzo diz que “o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa”. Ora, mas é a lei que queremos mudar! Por lei, a escravidão de negros foi legal e o voto feminino foi proibido. Mas, felizmente, a sociedade avança e as leis mudam. O casamento entre pessoas do mesmo sexo já é legal em muitos países onde antes não era. E vamos conquistar também no Brasil!

 Os argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista. Ele afirma: “Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar”. Eu não sei que tipo de relação estável o senhor Guzzo tem com a sua cabra, mas duvido que alguém possa ter, com uma cabra, o tipo de relação que é possível ter com um cabra — como Riobaldo, o cabra macho que se apaixonou por Diadorim, que ele julgava ser um homem, no romance monumental de Guimarães Rosa. O que ele chama de “relacionamento” com sua cabra é uma fantasia, pois falta o intersubjetivo, a reciprocidade que, no amor e no sexo, só é possível com outro ser humano adulto: duvido que a cabra dele entenda o que ele porventura faz com ela como um “relacionamento”.

 Guzzo também argumenta que “se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for”. Bom, os gays somos como o espinafre ou como as cabras. Esse é o nível do debate que a Veja propõe aos seus leitores.

 Não, senhor Guzzo, a lei não pode obrigar ninguém a “gostar” de gays, negros, judeus, nordestinos, travestis, imigrantes ou cristãos. E ninguém propõe que essa obrigação exista. Pode-se gostar ou não gostar de quem quiser na sua intimidade (De cabra, inclusive, caro Guzzo, por mais estranho que seu gosto me pareça!). Mas não se pode injuriar, ofender, agredir, exercer violência, privar de direitos. É disso que se trata.

 O colunista, em sua desonestidade intelectual, também apela para uma comparação descabida: “Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os gays; é a violência contra todos”. O que Guzzo não diz, de propósito (porque se trata de enganar os incautos), é que esses 300 homossexuais foram assassinados por sua orientação sexual! Essas estatísticas não incluem os gays mortos em assaltos, tiroteios, sequestros, acidentes de carro ou pela violência do tráfico, das milícias ou da polícia.

 As estatísticas se referem aos LGBTs assassinados exclusivamente por conta de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero! Negar isso é o mesmo que negar a violência racista que só se abate sobre pessoas de pele preta, como as humilhações em operações policiais, os “convites” a se dirigirem a elevadores de serviço e as mortes em “autos de resistência”.

 Qual seria a reação de todos nós se Veja tivesse publicado uma coluna em que comparasse os negros com cabras e os judeus com espinafre? Eu não espero pelo dia em que os homens concordem, mas tenho esperança de que esteja cada vez mais perto o dia em que as pessoas lerão colunas como a de Guzzo e dirão “veja que lixo!”.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Revista Veja sai do armário da homofobia

Apesar de não esperar nada diferente de uma publicação com histórico de desrespeitos ao ser humano, sempre tendo em vista suas 'conveniências', a Revista Veja se esmerou e publicou um artigo que reúne tudo que é estereótipo relacionado aos homossexuais, produzidos pela mente doetia ou corrompida de um jornalistazinho de merda.
 
Peço que todos e todas que tomem Dramim, leiam a barbaridade abaixo e se manifestem. As cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereço, o número da cédula de identidade e o telefone do autor.
Enviar para: Diretor de Redação, VEJA - Caixa Postal 11079, CEP 05422-970 São Paulo-SP, fax (11) 3037 5638, email: veja@abril.com.br

Beto Volpe




Parada gay, cabra e espinafre
J.R. Guzzo


Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema. Não é mais o problema que era, com certeza, mas a verdade é que todo o esforço feito há anos para reduzir o homossexualismo a sua verdadeira natureza – uma questão estritamente pessoal – não vem tendo o sucesso esperado. Na vida política, e só para ficar num caso recente, a rejeição ao homossexualismo pela maioria do eleitorado continua sendo considerada um valor decisivo nas campanhas eleitorais. Ainda agora, na eleição municipal de São Paulo, houve muito ruído em tomo do infeliz “kit gay” que o Ministério da Educação inventou e logo desinventou, tempos atrás, para sugerir aos estudantes que a atração afetiva por pessoas do mesmo sexo é a coisa mais natural do mundo. Não deu certo, no caso, porque o ex-ministro Fernando Haddad, o homem associado ao “kit”, acabou ganhando – assim como não tinha dado certo na eleição anterior, quando a candidata Marta Suplicy (curiosamente, uma das campeãs da “causa gay” no país) fez insinuações agressivas quanto à masculinidade do seu adversário Gilberto Kassab e foi derrotada por ele. Mas aí é que está: apesar de sua aparente ineficácia como caça-votos, dizer que alguém é gay, ou apenas pró-gay, ainda é uma “acusação”. Pode equivaler a um insulto grave – e provocar uma denúncia por injúria, crime previsto no artigo 140 do Código Penal Brasileiro. Nos cultos religiosos, o homossexualismo continua sendo denunciado como infração gravíssima. Para a maioria das famílias brasileiras, ter filhos ou filhas gay é um desastre – não do tamanho que já foi, mas um drama do mesmo jeito.

Por que o empenho para eliminar a antipatia social em torno do homossexualismo rateia tanto assim? O mais provável é que esteja sendo aplicada aqui a Lei das Consequências Indesejadas, segundo a qual ações feitas em busca de um determinado objetivo podem produzir resultados que ninguém queria obter, nem imaginava que pudessem ser obtidos. É a velha história do Projeto Apollo. Foi feito para levar o homem à Lua; acabou levando à descoberta da frigideira Tefal. A Lei das Consequências Indesejadas pode ser do bem ou do mal. É do bem quando os tais resultados que ninguém esperava são coisas boas, como aconteceu no Projeto Apollo: o objetivo de colocar o homem na Lua foi alcançado – e ainda rendeu uma bela frigideira, além de conduzir a um monte de outras invenções provavelmente mais úteis que a própria viagem até lá. É do mal quando os efeitos não previstos são o contrário daquilo que se pretendia obter. No caso das atuais cruzadas em favor do estilo de vida gay, parece estar acontecendo mais o mal do que o bem. Em vez de gerar a paz, todo esse movimento ajuda a manter viva a animosidade; divide, quando deveria unir. O kit gay, por exemplo, pretendia ser um convite à harmonia – mas acabou ficando com toda a cara de ser um incentivo ao homossexualismo, e só gerou reprovação. O fato é que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada, a ser protegida por uma coleção cada vez maior de leis, os patronos da causa gay tropeçam frequentemente na lógica – e se afastam, com isso, do seu objetivo central.

O primeiro problema sério quando se fala em “comunidade gay” é que a “comunidade gay” não existe – e também não existem, em consequência, o “movimento gay” ou suas “lideranças”. Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos. Tem opiniões, valores e personalidades diferentes. Adotam posições opostas em política, religião ou questões éticas. Votam em candidatos que se opõem. Podem ser a favor ou contra a pena de morte, as pesquisas com células-tronco ou a legalização do suicídio assistido. Aprovam ou desaprovam greves, o voto obrigatório ou o novo Código Florestal – e por aí se vai. Então por que, sendo tão distintos entre si próprios, deveriam ser tratados como um bloco só? Na verdade, a única coisa que têm em comum são suas preferências sexuais – mas isso não é suficiente para transformá-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como não vem ao caso falar em “comunidade heterossexual” para agrupar os indivíduos que preferem se unir a pessoas do sexo oposto. A tendência a olharem para si mesmos como uma classe à parte, na verdade, vai na direção exatamente contrária à sua principal aspiração – a de serem cidadãos idênticos a todos os demais.

Outra tentativa de considerar os gays como um grupo de pessoas especiais é a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violência, imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população; já se ouviu falar em “holocausto” para descrever a sua situação. Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os gays; é a violência contra todos. Os homossexuais são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros-relâmpago, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto – exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil. E as agressões gratuitas praticadas contra gays? Não há o menor sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são fruto exclusivo da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.

Não há proveito algum para os homossexuais, igualmente, na facilidade cada vez maior com que se utiliza a palavra “homofobia”; em vez de significar apenas a raiva maligna diante do homossexualismo, como deveria, passou a designar com frequência tudo o que não agrada a entidades ou militantes da “causa gay”. Ainda no mês de junho, na última Parada Gay de São Paulo, os organizadores disseram que “4 milhões” de pessoas tinham participado da marcha – já o instituto de pesquisas Datafolha, utilizando técnicas específicas para esse tipo de medição, apurou que o comparecimento real foi de 270000 manifestantes, e que apenas 65000 fizeram o percurso do começo ao fim. A Folha de S.Paulo, que publicou a informação, foi chamada de “homofóbica”. Alegou-se que o número verdadeiro não poderia ter sido divulgado, para não “estimular o preconceito” - mas com isso só se estimula a mentira. Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado “homofóbico”; insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão, pois “pregar o ódio é crime”. Mas se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.

Há mais prejuízo que lucro, também, nas campanhas contra preconceitos imaginários e por direitos duvidosos. Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias. O mesmo acontece em relação ao casamento, um direito que tem limites muito claros. O primeiro deles é que o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa. Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. Há outros limites, bem óbvios. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar. Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa. Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os gays, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para todos? Argumenta-se que o casamento gay serviria para garantir direitos de herança – mas não parece claro como poderiam ser criadas garantias que já existem. Homossexuais podem perfeitamente doar em testamento 50% dos seus bens a quem quiserem. Têm de respeitar a “legítima”, que assegura a outra metade aos herdeiros naturais – mas essa obrigação é exatamente a mesma para qualquer cidadão brasileiro. Se não tiverem herdeiros protegidos pela “legítima”, poderão doar livremente 100% de seu patrimônio – ao parceiro, à Santa Casa de Misericórdia ou à Igreja do Evangelho Quadrangular. E daí?

A mais nociva de todas essas exigências, porém, é o esforço para transformar a “homofobia” em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra homossexuais que já não seja punido pela legislação penal existente hoje no Brasil. Como a invenção de um novo crime poderia aumentar a segurança dos gays, num país onde 90% dos homicídios nem sequer chegam a ser julgados? A “criminalização da homofobia” é uma postura primitiva do ponto de vista jurídico, aleijada na lógica e impossível de ser executada na prática. Um crime, antes de mais nada, tem de ser “tipificado” – ou seja, tem de ser descrito de forma absolutamente clara. Não existe “mais ou menos” no direito penal; ou se diz precisamente o que é um crime, ou não há crime. O artigo 121 do Código Penal, para citar um caso clássico, diz o que é um homicídio: “Matar alguém”. Como seria possível fazer algo parecido com a homofobia? Os principais defensores da “criminalização” já admitiram, por sinal, que pregar contra o homossexualismo nas igrejas não seria crime, para não baterem de frente com o princípio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoção do “ódio”. Mas o que seria essa “promoção”? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o ódio?

Os gays já percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante séculos e obter, enfim, os mesmos direitos dos demais cidadãos. Na iluminadíssima Inglaterra de 1895, o escritor Oscar Wilde purgou dois anos de trabalhos forçados por ser homossexual; sua vida e sua carreira foram destruídas. Na França de 1963, o cantor e compositor Charles Trenet foi condenado a um ano de prisão, pelo mesmo motivo. Nada lhe valeu ser um dos maiores nomes da música popular francesa, autor de mais de 1000 canções, muitas delas obras imortais como Douce France – uma espécie de segundo hino nacional de seu país. Wilde, Trenet e tantos outros foram homens de sorte – antes, na Europa do Renascimento, da cultura e da civilização, homossexuais iam direto para as fogueiras da Santa Madre Igreja. Essas barbaridades não foram eliminadas com paradas gay ou projetos de lei contra a homofobia, e sim pelo avanço natural das sociedades no caminho da liberdade. É por conta desse progresso que os homossexuais não precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para conseguir trabalho, prover o seu sustento e escapar às formas mais brutais de chantagem, discriminação e agressão. É por isso que se tornou possível aos gays, no Brasil e no mundo de hoje, realizar o que para muitos é a maior e mais legítima ambição: a de serem julgados por seus méritos individuais, seja qual for a atividade que exerçam, e não por suas opções em matéria de sexo.

Perder o essencial de vista, e iludir-se com o secundário, raramente é uma boa ideia.

domingo, 11 de novembro de 2012

Importantes resoluções do Conselho Nacional de Saúde

Foi com muita alegria que recebi a notícia enviada pelo conselheiro nacional de saúde Carlos Duarte (autor das considerações no último parágrafo) com uma firme tomada de decisão por parte do CNS. Há que se destacar que a articulação com o movimento de hanseníase, o Mohan, e ouros segmentos teve papel fundamental para o entendimento dos membros do Conselho. Viva o controle social! E chupa, CONASS!
Beto Volpe
 
Resolução
O Conselho Nacional de Saúde
Resolve:

1. Seja mantido o Piso Variável de Vigilância em Saúde relacionada ao
Incentivo para as ações de DST/Aids e Hepatites Virais. E que sejam
estabelecidas diretrizes, normas e regras para a utilização dos
recursos do incentivo para as ações de DST/Aids e Hepatites Virais,
respeitando as prioridades estabelecidas, os parâmetros
epidemiológicos, as especificidades e diferenças locais, a
participação da sociedade civil e as necessidades das populações em
situação de maior vulnerabilidade às DST /Aids e Hepatites Virais.
2. Os recursos destinados até 2011, previstos pela Portaria 2313 de
2002, e repassados aos Estados e Municípios, na modalidade fundo a
fundo, sejam aplicados integralmente, durante o ano de 2013, nas ações
diretas de enfrentamento da epidemia de DST /Aids em cada esfera de
gestão, com respectivo plano de trabalho inserido nos planos de saúde,
incluindo os recursos repassados para ações desenvolvidas pelas
Organizações da Sociedade Civil;


... Recomenda
3. O Ministério da Saúde em articulação com os Estados, Munic� �pios,
sociedade civil e academia, realize uma análise da epidemia de AIDS,
das políticas e ações de prevenção, ampliação de diagnóstico e
qualidade da atenção para seu enfrentamento no Brasil, possibilitando
sua ressignificação, de forma a subsidiar a definição das ações e
metas a serem implementadas, diante do contexto atual e seguindo as
normativas vigentes do SUS;

Desta forma entendemos que a posição do CNS é contrária a utilização dos recurso para aids em outras ações de vigilância em saúde. Foi uma boa vitória de nossa articulação demonstrando que o mov. aids esta bastante forte e atento as todas as questões que envolvem o combate a epidemia de aids no Brasil.

Justiça Restaurativa no Mundo da Vingança

ou 'A Voz dos Que Não Gritam'
 

Cláudio Celso Monteiro Júnior
Sociólogo (e meu rmão de coração)

 
Descrição da imagem: desenho de mulher negra com a face banhada em lágrimas...

Tendo assistido algumas nobres reflexões sobre o conceito de Justiça Restaurativa, no não menos nobre Salão Nobre da Nobilíssima Academia de Direito do Largo de São Francisco, não pude deixar de notar a antitética metáfora que fisicamente encimava as preleções: sob a cabeça dos palestrantes fulgurava o brasão da Dura Lex, composto pelas Tábuas Mosaicas divididas por um Gáudio Romano que é ao mesmo tempo o fiel que sustenta os dois pratos de uma balança. Talvez tenha sido esta observação a origem da pergunta que dirigi aos expositores, qual seja, com implantar sistemas de efetivação de penas restaurativas numa sociedade calcada, juridicamente falando, na expectativa de uma justiça vingativa?

 Nada mais exprime esta esperança do que o que pode ser comprovado, pela abordagem midiática sobre pessoas vitimizadas por crimes hediondos, ou mesmo, de grandes acidentes. Pais de jovens recém assassinados ao serem rapinescamente entrevistados costumam dizer :” nada vai trazer nosso/nossa filha de volta, mas queremos “apenas” – ênfase no “apenas”-, justiça!”. O mesmo costuma dizer os parentes de vítimas de desastres aéreos (e neste caso, a colocação costuma ser também : “não queremos a “apenas” – ênfase novamente no “apenas” dinheiro, mas “ também” –ênfase igualmente no “também”-, justiça !”). Na realidade, as pessoas querem vingança, mas vingar-se não é um valor “cristão e ocidental”, e por isso mesmo as pessoas esperam que a justiça as vingue, ou seja, faça com que os culpados sofram tanto quanto, ou, preferivelmente mais, do que elas próprias : dai as Tábuas da Lei – o que foi transgredido – e o gaudio – a pena capital, que emolduram uma justiça, a princípio, equinânime (os pratos da balança).

 O ideal em nossos pais de uma justiça minimamente justa –me perdoem o eufemismo- parece algo tão inatingível quanto a reversão da expectativa de uma justiça vingativa para uma justiça restaurativa. E tal discussão se dá às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, e, do ângulo da historicidade, a proposição de desta reflexão remete-nos a urgente restauricidade (e os futuros legistas talvez usem este termo) jurídica coletiva para grupos socialmente marginalizados por sua condição em si: os negros, ciganos, indígenas, entre outros, para usarmos tão somente a abordagem do preconceito étnico. Chegando em casa e recebo dos vários militantes de causas sociais que conheço, o e.mail abaixo, cuja eloquência intrínseca superará sempre qual
quer tentativa de literalizá-lo:

 Estávamos nas nossas atividades diárias, e esta senhora com 34 anos de idade, se postou na fila dos que vão em busca de refeição para o corpo e para a alma, onde com as graças de Deus, reciclamos seres humanos Depois que ela tomou sua refeição, se higienizou (banho e cabelo), lavou o pouco de roupa que tinha, sentamos para conversar, pois, ela nos apresentou muito debilitada e estava levemente febril. Margarida, como ela prefere ser chamada, nos contou que tem o marido cumprindo pena no presidio de Tremembé ,e que ela sobrevivia de biscate e do salário recebido do INSS para todos os apenados, com seus três filhos .Semanalmente, pegava o ônibus no Carandiru, e para lá se dirigia. Em razão da insistência e ameaças do companheiro, adquiriu uma trouxinha de maconha, e colocando em sua genitália, se dirigiu à revista no presidiu, quando foi detida e, imediatamente, transferida para a Delegacia de Polícia, onde se consumou o flagrante; recebeu cinco anos de detenção, por trafico de entorpecente e outros atenuantes. Da pena, cumpriu dois anos, e ao sair, tomou conhecimento de que a sua vida tinha acabado.
 
Quando foi detida, ela não teve condição de informar o acontecido com seus três filhos, ou parentes; durante todo tempo em que esteve presa, não recebeu nenhuma visita, e ao sair da cadeia, é que ficou sabendo que o seu filho mais novo, foi adotado por uma família desconhecida, sumiu; seu filho do meio, teria quinze anos, foi assassinado no ano passado, e, a sua filha esta se prostituindo em alguma cidade do interior do estado. Estes fatos nos foram relatados a mais ou menos trinta dias, e depois não tivemos mais noticias da Dona Margarida.

Talvez seja necessário informar que Dona Margarida, além de mulher e pobre, é negra. E que o caso se deu nas dependências da Pastoral Afro.

 Se houvesse em nossos meio dispositivos de justiça restaurativa a tragédia de Dona Margarida teria sido evitada? Difícil precisar, mas certamente haveria alternativas a este imediatismo delito/culpa/castigo. A questão que se coloca é a da inequidade, pois grandes traficantes internacionais teriam tido um tratamento “naturalmente” muito diverso do que teve Dona Margarida.
A reforma do Sistema Judiciário (talvez o que necessite ser revisto seja esta construção barroca de triangulação – quase maçônica – do poder entre três poderes), prevendo inclusive eleições diretas é algo urgente e inconteste.

 E neste mês de 2012 que já vem sendo chamado de Novembro Negro (devido à justa amplitude que vem tomando paulatinamente o Mês da Consciência Negro), onde o brasileiro médio (ou talvez, melhor dizendo, o brasileiro mediano), certamente influenciado pela mídia também mediana vê suas expectativas de vingança coletiva contra “políticos corruptos” corporificadas em um magistrado negro (não vou entrar nesta seara, a História dirá: se a mídia fez e desfez um Presidente da República, no caso, Fernando Collor de Melo, o que dirá de um prosaico presidente do Supremo Tribunal de Justiça? E neste particular a vaidade - um dos Sete Pecados Capitais- é o melhor aliado da mídia), o caso de Dona Margarida nos mostra o quanto a vingança oficial foi longe demais e do quanto nossa justiça deveria importar-se menos com carreirismos pessoas e mais em promover a equidade social. Principalmente dentro da própria Justiça.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Aids: entre a cura possível e um novo surto mundial



Outra importante voz se levanta contra a banalização da AIDS. Francoise Barré-Sinoussi, co descobridora do HIV, demonstra claramente o dilema em que se encontra a sociedade nesse jogo de vida ou morte. 
Beto Volpe

Descrição da imagem: A autora demonstra, vestindo conjunto bege e branco e com um sorriso irônico e questionador, o tamanho do problema em questão, espalmando as mãos voltadas para o centro com uns trinta centímetros de uma para a outra.

Apesar dos progressos da pesquisa, desde a primeira descrição da aids, em junho de 1981, pronunciar a palavra “cura” permanece temerário. Em maio de 1983, isolamos o agente responsável por esta degradação geral do sistema imunológico, nomeado em seguida vírus da imunodeficiência humana (HIV, em inglês). Trinta anos de pesquisas nos permitiram chegar a um conhecimento extremamento detalhado dos mecanismos de replicação do vírus e de sua disseminação em diversos compartimentos do corpo, onde ele se fixa de forma latente em reservatórios.

Os resultados mais notáveis deste progresso científico são as combinações de antirretrovirais (ARV), que surgiram em 1996 e permitiram reduzir em mais de 85% a mortalidade dos pacientes. Sua ação é, além de terapêutica, preventiva. Desde 1994, o experimento clínico ACTG076 mostrou a eficácia da azidotimina (o AZT) para prevenir a transmissão do HIV na gravidez. Estudos recentes acabam de confirmar a potência dos ARVs para limitar de maneira drástica a transmissão sexual do vírus.

São resultados muito importantes. Ao comprovarem que os ARVs permitem não apenas salvar muitas vidas, mas também impedir novas contaminações e frear a expansão da epidemia, requerem uma aceleração do acesso universal aos tratamentos. Em Botswana, onde a cobertura por antirretrovirais é de 90%, “o número de novas infeções por HIV é de 30% a 50% inferior ao que se daria na ausência de acesso universal ao tratamento”, indica o último relatório da Onusida(1).

Ora, muitos países não possuem os recursos que permitiriam enfrentar o custo elevado dos tratamentos. Dependem da solidariedade internacional. Infelizmente, a crise financeira mundial projeta pesadas incertezas sobre o futuro de tais financiamentos, pois os países doadores não respeitam mais seus compromissos. A falta de ARVs já se faz sentir em diversos países receptores de apoio. Eles tornam-se incapazes de tratar pacientes novos e arriscam-se até a interromper os tratamentos em curso. A situação é ainda mais inquietante porque a interrupção das terapias pode levar ao surgimento de cepas do HIV resistentes, e abrir caminho para o ressurgimento de uma epidemia mundial.

A luta contra uma pandemia como a do HIV não pode ser fragilizada pela volatilidade das políticas. É imperativo encontrar mecanismos de financiamento inovadores e perenes, como o tributo sobre as passagens de avião que alimenta o fundo da Unitaid. Há anos, diversos movimentos reivindicam que se tributem as transações financeiras, em benefício da saúde nos países em desenvolvimento. Devemos fazer todo o esforço necessário para que esta proposta seja considerada pelos países do G-20.

Em paralelo, devemos redobrar os esforços para desenvolver novas opções terapêuticas. Não se deve esquecer que, embora os antirretrovirais permitam aos pacientes viver com o HIV – o que já é muito –, o tratamento desta infecção ainda é pesado. Os coquetéis de drogas, que têm efeitos colaterais, precisam ser usados durante toda a vida, sem falhas. Mas eles não eliminam totalmente o vírus, cuja persistência nos reservatórios do corpo está associada a uma inflação crônica e generalizada do sistema imunológico. Os pacientes não recuperam uma esperança de vida idêntica à da população geral. Eles sofrem, entre outros, riscos mais elevados de doenças cardiovasculares, neurológicas, câncer e envelhecimento precoce do organismo.

Erradicar a infecção pelo HIV será, por algum tempo ainda, um sonho. Enquanto isso, um conjunto de modelos permite pensar que poderíamos, em certo prazo, transformar este sonho em realidade, desenvolvendo estratégias terapêuticas curtas, que permitissem alcançar uma remissão de longo prazo, independente de qualquer tipo de tratamento.

Recentemente, o caso de Timothy Ray Brown, chamado de “paciente de Berlim”, demonstrou a viabilidade de tal estratégia. Este homem de seus quarenta anos, que vivia com HIV, desenvolveu uma leucemia. Obrigado a realizar um transplante de medula óssea para curá-lo, seu médico selecionou um doador compatível, mas que tinha, além disso, uma particularidade genética: uma mutação do co-receptor CCR5 – uma molécula na superfície das células T CD4, com a qual o vírus interage, para penetrá-las. Sabemos há alguns anos que alguns indivíduos raros – de origem caucasiana – possuem esta mutação, chamada Delta 32, que os torna resistentes à infecção pelo HIV.

Em fevereiro de 2007, no momento do transplante de medula, o tratamento antirretroviral foi interrompido. Desde então – há cerca de cinco anos – não se detecta nenhum traço do vírus no paciente, mesmo quando empregados os métodos mais sensíveis e quando se vasculha todos os compartimentos em que o HIV estabelece reservatórios (intestinos e sistema nervoso central). No entanto, seu organismo continua a produzir anticorpos contra o vírus, indicando que a infecção pode não ter desaparecido totalmente. Do ponto de vista científico, é difícil afirmar se na origem desta “cura” está apenas a mutação Delta 32. Os tratamentos imunodepresssivos que acompanham uma intervenção cirúrgica tão complexa podem ter jogado um papel. Ainda que seja impossível imaginar o desenvolvimento em larga escala de um método extremamente arriscado e custoso, o caso único do “paciente de Berlim” oferece uma razão científica para abordagens de terapia genética que tenham como alvo, entre outros, o receptor CCR5.

Os pacientes “de controle” do HIV representam o modelo ideal de cura a longo prazo. Trata-se de indivíduos raros (menos de 0,3% das pessoas infectadas pelo HIV) que, soropositivos há mais de dez anos, mantêm sem nenhum tratamento uma carga viral indetectável, e não apresentam nenhum sinal de progressão da aids. Observa-se nestes pacientes, de forma notável, um nível de reservatório do HIV mais frágil que nos demais. Sabemos hoje que a manutenção deste controle natural – e extremamente poderoso – da infecção é assegurado por dois mecanismos diferentes. O primeiro diz respeito às células imunitárias chamadas citotóxicas (que eliminam as células infectadas). O segundo está ligado a uma resistência intrínseca de células imunitárias. A compreensão destes mecanismos pode nos ajudar a elaborar novas estratégias terapêuticas, para que um dia todas as pessoas que vivem com o HIV passam controlar sua infecção mesmo interrompendo o tratamento hoje majoritário.

Além disso, há na França um estudo único, chamado Visconti, que reúne dezoito pacientes. Diagnosticados e tratados entre dois e três meses após a infecção, eles interromperam, segundo seus médicos, o tratamento após alguns anos. Desde então, controlam a infecção. Estas observações confirmam o enorme benefício de um tratamento ultraprecoce. A análise das características imunológicas que permitem a estes pacientes dispensar terapias poderá aportar informações extremamente preciosas.

Um último modelo importante é o dos macacos da África, hospedeiros naturais dos vírus da imunodeficiência simiesca (SIV), que originaram o HIV. Ao contrário dos humanos contagiados pelo HIV, os macacos não desenvolvem aids. Se seu sistema imunológico reage à infecção, esta resposta é rapidamente reprimida. Resultado: entre eles, o vírus multiplica-se livremente, sem que se observe a reação inflamatória crônica terrível que atinge o ser humano.

Que mecanismos é preciso induzir, para desencadear uma proteção contra o HIV-aids? Isto ainda é um mistério. Muito provavelmente, uma combinação de abordagens terapêuticas e vacinais será necessária. É por isso que, sob a égide da Sociedade Internacional da Aids (International Aids Society, IAS), um grupo de trabalho composto de cientistas do mundo inteiro se debruça sobre uma estratégia global, capaz de definir as prioridades que é preciso perseguir, na esperança de vivermos, um dia, num mundo sem HIV-aids. As pesquisas não serão úteis apenas ao combate contra a aids.

O HIV pode ser, também, uma ferramenta que ajude a compreender melhor os mecanismos precisos que comandam nossa resposta imunológica. Temos muito a aprender com nossos colegas que trabalham com o câncer e outras doenças crônicas também ligadas a anomalias inflamatórias.

Neste período de crise, há duas opções possíveis: a solidariedade e a colaboração, estabelecidas no início da epidemia. Ou o cada-um-por-si, uma escolha que só produziria perdedores.

Françoise Barré-Sinoussi é pesquisadora no Instituto Pasteur e no Inserm. Em conjunto com Luc Montaigner, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Medicina em 2008, pela descoberta do HIV.
** Tradução: Antonio Martins.
*** Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique e retirado do site Outras Palavras.