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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A insustentável leveza da AIDS

Descrição da imagem: o personagem Eric Cartman com sua touca azul, camiseta vermelha com o laço da luta contra a AIDS e a expressão, em inglês: "Eu tenho AIDS (e tudo que eu recebi foi essa porcaria de camiseta)"

 




'A AIDS agora é uma doença crônica, assim como o diabetes.'
 
 
Creio que todo mundo já tenha ouvido essa frase, tão confortante para uma epidemia que há pouco tempo era considerada a praga do século. Quem dera soluções de grande porte fossem simples assim. Todos estaríam celebrando a queda nas barreiras trabalhistas e abrindo mão dos recursos junto à previdência. Nosso tratamento, cujos efeitos colaterais seriam de pleno conhecimento da ciência, poderia ser feito na UBS mais próxima de nossa casa, com equipes absolutamente preparadas e o preconceito não teria mais razão de existir, permitindo o atendimento ético e sigiloso dentro da própria comunidade. Antes fosse. A idéia de que a AIDS está sob controle é o segundo grande equívoco cometido no enfrentamento à epidemia, o primeiro foi classificar indivíduos em grupos de risco, sem levar em conta suas variantes sociais e pessoais.
 
 
Realmente, com a introdução do coquetel de medicamentos houve um grande avanço. A mortalidade despencou, as pessoas voltaram a viver com HIV e, sobretudo, a ter perspectivas na vida. A saúde pública celebrou a sobrevivência de um sistema que já antevia seu colapso, a sociedade civil organizada deixou de pautar a AIDS em suas discussões e a população voltou ao seu normal, como se houvesse acordado de um pesadelo e que agora não precisava mais se preocupar com o HIV. Uma aura de leveza passou a cercar o assunto que, de tão indelével, sumiu da mídia, das prioridades governamentais e da prevenção por parte da população.
 
 
A realidade que vivemos hoje é bem diversa da apregoada pelo ex-melhor programa de AIDS do mundo, tanto que foi seriamente advertido por três órgãos da ONU pela banalização como vem sendo tratada a epidemia no Brasil, o que já estaria apresentando retrocessos em todas as frentes. O aumento de casos entre a população jovem homossexual e a infecção de trinta mil pessoas ao ano são apenas dois indicadores de que há algo de podre na estratégia de prevenção ao vírus HIV. O atendimento especializado em AIDS assiste a seu desmonte e já tem anunciada a descentralização para a rede básica dos pacientes em situação 'confortável', segundo técnicos do Ministério da Saúde. E quanto aos direitos, todos estão sendo derrubados, seja no transporte público, na previdência social ou no âmbito trabalhista.
 
 
Em um programa humorístico de TV, South Park, o mais arrogante e egoísta dos quatro jovens protagonistas contrai HIV. Imediatamente, ele organiza um show de Elton John em seu benefício e, diante da quase nula freqüência e da ausência do astro que teria ido fazer um show para as vítimas do câncer, ele dispara: 'Cacete, eu tinha que pegar essa doença logo quando ninguém mais fala dela?'. O humor, uma vez mais, atinge em cheio o âmago da questão.
 
 
Não são somente os medicamentos que apresentam efeitos colaterais, atitudes também. Os remédios estão alterando nosso metabolismo e provocando o envelhecimento precoce das pessoas vivendo com HIV/AIDS. Também é sabido que a presença do vírus provoca uma sorrateira e inesperada progeria, encurtando nosso caminho rumo à terceira idade. Considerar a AIDS como uma doença crônica ou sob controle é, no mínimo, irresponsabilidade perante a população e soberba com os mistérios que a AIDS ainda guarda para nós.

 
Que desvende o véu e seja revelada a insustentável leveza da AIDS



Beto Volpe



 

7 comentários:

  1. Parabens, gostei do artigo do seu artigo de opiniao. Pois trata a Aids de uma maneira correta ao meu ver. Fico chateado quando vejo pessoas q apenas criticam a nomenclatura doença cronica e tocam o terror dizendo que o tratamento quase nada evolui. Realmente, talvez o termo Doença cronica talvez nao seja o melhor mas nao é errado.Eu ME contaminei com o virus esse ano. E em nenhum momento pensei vou fazer sexo sem camisinha pq a aids hj é uma doença cronica eba! Francamente, ao meu ver o termo cronica é consolo apenas para os que ja estão infectados. Nao acredito que ele seja o culpado pelo desleixo dos jovens. O problema e bem maior. Nao tenho um convivio com pessoas com hin nao participo de ongs . Mas espero futuramente fazer uma pesquisa de perfil epidemiologico e verificar a fundo esta questão. Contudo, sinceramente, nao acho q a mudança da classificaçao da doença irá mudar a epidiemia. Espero estar errado. Depois escrevo mais e melhor . Estou em processo de amadurecimento com relaçao a tudo q aconteceu comigo. Forte abraço e parabens pelo blog. Tenho esperança de um dia escrever aqui sobre a cura e comemorarmos um dia todos juntos.

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    1. Oi, Anônimo, tudo bem? Como tá o amadurecimento? Abração!

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  2. Epidemiologia muito me interessa, vamos conversar. Abração.

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  3. A Rede Globo não toca no assunto de AIDS nem no dia 1º de dezembro.As matérias apresentadas no Fantástico estão cada mais irrelevantes para a sociedade.Mandei um email para a emissora com meu desabafo. Matérias com vc tem que ser feitas pela BBC, aguarde!

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  4. Sabe que você deu uma excelente idéia......

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  5. Impressionante como poucas pessoas se preocupam com AIDS nos dias de hoje. Os jovens então... nem se fala!
    Abs,

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  6. Defendo a idéia de que é um equívoco a classificassão da AIDS como doença crônica e inclusive participo de uma rede social para soropositivos onde fiz uma postagem a respeito há algum tempo. Hj postei seu texto lá para reforçar a idéia ( com creditos obviamente, mas se vc não concordar excluo sem problemas...rs). Na época em que postei recebi praticamente apenas críticas sendo que uma em especial o autor se utilizou de dados estatísticos ( TME: Taxa de Mortalidade Específica ) para fundamentar seus argumentos. Ele foi infeliz por que tenho formaçao em matemática e desmontei a argumentação, uma vez que não importa quantos morrem disso ou daquilo em um ano e sim o quão letal uma doença é (até morte por assasinatos constavam na estatística...rs). O que eu percebi analizando as respostas como um todo é que quem defende a AIDS como sendo crônica são pessoas que não passaram por dificuldades na adesão ao tratamento (muitos nao se adaptam a algumas combinações por exemplo). Em média parecem usufruir de condição financeira confortável e também atividades laborais com horario flexivel, ou seja, não vai faltar dinheiro para pegar um ônibus para ir as consultas ou retiradas de medicação e nem terão problemas para dar aquele "jeitinho" na hora de se afastar do trabalho sem levantar suspeitas nem ter que dar satisfações aos empregadores. A classificaçao como crônica para estes parece ser conveniente pois é confortante e acredito que alivia o "peso na consciência" por terem se descuidado na hora da contaminação pelo HIV. O que não percebem é que para a maioria dos portadores, cuja realidade pessoal é totalmente diferente, as dificuldades de se levar a vida normalmente sem prejuizos em vários ambitos das suas vidas é gigantesca. A depressão por exemplo é um problema comum entre os portadores do HIV. Quantos dispõem de tempo e dinheiro para um tratamento psiquiatrico? E esse é apenas um cenário entre muitos que as vezes nem imaginamos. Então eu penso que defender a AIDS como crônica, no caso dos próprios portadores da doença, é uma falta de empatia com quem compartilha conosco a sorologia e não dispõe das mesmas condições para conviver com a AIDS como se ela fosse crônica. Precisamos parar de olhar para nossos próprios umbigos e sermos mais altruístas. Por que se nós mesmos, os soropositivos, nao fizermos isso, nem a sociedade nem o governo farão.

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