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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sábado, 26 de julho de 2014

O ‘Águia de Haia’ e o ‘indivíduo X’

Pessoal, aí vão algumas reflexões sobre igualdade e equanimidade, tendo como pano de fundo artigo extremamente preconceituoso de um colunista de revista semanal.
Beto Volpe




A II Convenção Internacional da Paz, realizada em 1907 na cidade holandesa de Haia, estava prevista para ser um dos primeiros tratados internacionais de leis e crimes de guerra. Mas foi muito além, graças a uma das maiores personalidades brasileiras de todos os tempos: o brilhante multitarefa Rui Barbosa. Esse jurista, orador, escritor, político, diplomata e mais um sem número de ocupações teve uma participação tão brilhante que fez jus ao título de ‘Águia de Haia’ e sua intervenção é considerada, até hoje, uma das mais contundentes da história da diplomacia mundial. É dele, também, o seguinte pensamento:

“A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real.”

Em outras palavras, é necessário tratar diferenciadamente aqueles que estão em situação desigual na sociedade, para se obter a justiça social. É por isso que existem assentos reservados e tratamento preferencial nas filas para idosos, gestantes e pessoas com deficiência, por exemplo, e também termos uma Lei Maria da Penha que, se não em sua plenitude, visa garantir os direitos da mulher em relações desiguais. E não é que um reles colunista de uma das mais controversas revistas do país ousou discordar de nosso Águia e achou por bem considerar esse conceito, o da equanimidade, como proselitismo e demagogia? Pois foi com esses qualificadores que ele descreveu a recém sancionada lei que criminaliza a discriminação de pessoas que vivem com HIV.

Esse senhor, usando de uma linguagem que flerta perigosamente com a discriminação, fala que ‘a AIDS é uma doença que se associou a traços de comportamento de comunidades influentes, que reivindicam uma cidadania especial, acima do indivíduo comum’. A que traços de comportamento ele se refere, ao de transar sem camisinha? Ou ao subtema de seu artigo, o PL 122, que garante direitos aos homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais?  Acredito que seja a segunda opção, mas vamos lá. 

Além de atropelar a história, ele desconhece absolutamente a evolução da epidemia de AIDS. Se ele acredita que estamos lutando pelos direitos de Cazuza, Sandra Bréa e Lauro Corona, ele está bastante desinformado, a AIDS não é mais aquela. Há um bom tempo a epidemia de AIDS está se espalhando por todas as camadas sociais, especialmente nas periferias, onde a pessoa com HIV não passa de um ‘indivíduo X’, que não tem informações sobre seus direitos, sobre sua própria condição de viver com HIV e, muitas vezes, desconhece o direito ao tratamento e à dignidade humana.

Esse indivíduo X, como o senhor nos classifica, muitas vezes é obrigado a esconder sua sorologia como se fosse um pecado mortal ou um crime capital, por conta da discriminação que só faz crescer em nosso país. Quando é xingado ou ameaçado pela vizinhança, prefere mudar de bairro ou evitar sair à rua. Que, após longo processo seletivo, é obrigado a ter seu sangue coletado e tem recusada sua vaga profissional sem maiores explicações. E que, ante a ameaça de sua sorologia vir a público, prefere esquecer o que aconteceu e tentar novamente. Até que cansa e passa a acreditar que ele não passa disso, um indivíduo X.

Essa Lei é fruto de uma longa luta desenvolvida pelas ONGs e redes de pessoas com HIV. Ela é uma tradução do pensamento de Rui Barbosa, a quem o senhor teve o atrevimento de desrespeitar. Como também desrespeitou a todas as mulheres, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e todo o povo do arco íris. Afinal, para que tratá-los com tamanha deferência acima do cidadão comum?

Pobre Rui...


Beto Volpe

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Bodas de HIV





Quem diria que, vinte e cinco anos após minha infecção pelo HIV, eu estaria escrevendo sobre isso sem o auxílio de um médium. As expectativas em julho de '89 eram as piores possíveis, não havia conhecimento sobre o assunto e muito menos um tratamento eficaz. Minha primeira perícia médica foi feita atrás de uma linha amarela que me colocava a dois metros e meio do perito e assistir minha imunidade declinar me fazia antever o mesmo fim de muitos amigos que se foram, não sem antes ficarem cegos, acamados, dependentes e perplexos em deixar a vida tão cedo.

Até que chegou minha vez, com cinco oportunistas seguidas, dentre elas uma pneumonia, três episódios de neurotoxoplasmose e, principalmente, uma candidíase que quase  me levou, reduzindo meu peso à metade e fazendo meu médico acreditar que eu estaria terminal. Contradizendo essa cruel certeza científica, a Vida mostrou que nada havia terminado, estava tudo apenas começando. O coquetel havia chegado e eu via uma sensível melhora em meus exames laboratoriais, ainda que não corresse, dançasse ou rebolasse como antigamente, por conta da seqüela das toxos. Nada havia terminado, como havia decretado o doctor, tudo estava apenas começando.

Beijar a boca da Morte e continuar vivo para contar para todo mundo não é tarefa fácil e eu havia conseguido, através do amor de minha família, de uma atenção especializada e dos avanços da ciência. Pouco a pouco restabelecia meu peso, minha saúde e minha vida social, quando outro fantasma apareceu, o dos efeitos colaterais. Por mais que me alimentasse, meu rosto e membros iam ficando chupadinhos e meus níveis de gordura no sangue atingiam patamares mais que preocupantes. Era a lipodistrofia, que veio seguida de osteoporose com fratura de fêmur, osteonecrose com instalação de prótese bilateral nos quadris, dois tumores com radioterapia e quimioterapia, além das vinte e três cirurgias a que fui submetido até hoje.

Mas o mais forte dos efeitos colaterais também me acometeu: a cidadania, que eu não tinha antes do HIV entrar em meu corpo, me possuir e mudar minha Vida por completo. Ao contrário dos casamentos convencionais, essa união começou na tristeza para depois atingir sua plenitude. Eu e outras pessoas com HIV de São Vicente fundamos a ONG Hipupiara, que capitaneou a luta pela atenção a efeitos colaterais no Brasil, que defendeu duas teses no Supremo Tribunal Federal e que sempre se manteve liberta de interesses escusos ou corporativos.

Mas, acima disso tudo, a infecção pelo HIV me proporcionou a oportunidade de reescrever minha história, de mudar meus caminhos, de ser um humano melhor. Se hoje eu consigo dormir tranqüilo é porque o faço com orgulho do dia que tive e das atitudes que tomei. Pode parecer estranho, mas se houver um porteiro no Céu e ele me perguntar qual a melhor coisa que me aconteceu em Vida, não hesitarei em responder que foi ter me infectado com o HIV. Apesar de todas as dificuldades e de todas as perdas, foi ele que me tirou da mediocridade em que vivia e deu sentido à minha Vida.

Até que a Morte nos separe, seja a minha ou a dele.


Beto Volpe 

sábado, 19 de julho de 2014

Pela realização imediata da 1ª Conferência Nacional de AIDS



Não há mais como negar que o Brasil sofreu um sério retrocesso na política de enfrentamento à AIDS, o rei ficou nu perante toda a imprensa mundial. Ao contrário dos bons resultados globais, o país vê crescer o número de novas infecções, especialmente entre os jovens e a população homossexual, graças à ausência do Estado no apoio a ações de prevenção para a população em geral e, em especial, para as populações mais vulneráveis. O controle social sobre as políticas públicas está severamente enfraquecido devido ao fechamento da maioria das ONGs e também pela obscura relação entre governo e setores da sociedade civil.

As co infecções com tuberculose e hepatites colaboram para a alta mortalidade e os efeitos colaterais dos medicamentos não recebem a devida atenção por parte dos gestores, ao passo que o Ministério da Saúde insiste em transferir o tratamento das pessoas com HIV para as enfraquecidas Unidades Básicas de Saúde. A AIDS não é mais notícia e em sua data mais emblemática, o Dia Mundial de Luta contra a AIDS, virou nota de rodapé na mídia. Se quisermos atingir a previsão da ONU de que a epidemia estará sob controle em 2030, temos muito trabalho pela frente.

Será necessário rediscutir o modelo utilizado pelo país, que fez jus ao título de melhor programa do mundo e que hoje é referência em banalização, sendo que ao longo do tempo a AIDS foi perdendo status dentro do próprio Ministério, passando de um programa vinculado diretamente ao ministro para um departamento no terceiro escalão. É preciso reunir gestores, profissionais da saúde e sociedade civil para debater e, principalmente, deliberar ações que se tornam cada dia mais urgentes, no sentido de retomar a seriedade com que a AIDS deve ser combatida.

É imperativa a convocação da 1ª Conferência Nacional de AIDS, o único espaço com legitimidade para efetuar tal tarefa com abrangência e profundidade. É o momento certo de se retomar a contundência e ousadia que caracterizaram a luta contra a AIDS no Brasil no passado, sob pena de perdermos o controle sobre a epidemia e vermos ameaçado o próprio Sistema Único de Saúde.

CONFERÊNCIA NACIONAL DE AIDS, JÁ!

Beto Volpe


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Grupos de luta contra Aids lamentam morte de peritos na queda de avião na Ucrânia

"A cura da Aids poderia estar à bordo daquele avião, simplesmente não sabemos"
Lamentável...
Beto Volpe




MELBOURNE/LONDRES (Reuters) - O universo da pesquisa contra a Aids estava em estado de choque nesta sexta-feira pelo fato de que dezenas de destacados especialistas na área podem ter morrido a bordo do avião que foi derrubado na Ucrânia, provocando um duro golpe nas esperanças de uma cura para a doença. Algumas mortes já foram confirmadas.

Entre eles estava Joep Lange, que pesquisava a doença havia mais de 30 anos e era considerado um das maiores autoridades na área, admirado por sua defesa incansável da garantia do acesso barato a drogas de combate à Aids em países pobres. "Ele é um dos ícones de toda esse campo de pesquisa. Sua perda é imensa", disse Richard Boyd, professor de imunologia na Universidade Monash, de Melbourne, à Reuters.

Estima-se que até 100 pessoas que iam para uma conferência anual sobre Aids em Melbourne se encontravam no voo, noticiou a Fairfax Media, entre eles Lange, ex-presidente da Sociedade Internacional de Aids (SAI), responsável pelo evento. "A cura da Aids poderia estar à bordo daquele avião, simplesmente não sabemos", disse Trevor Stratton, um consultor sobre Aids que já se encontrava em Sydney para um pré-evento, à rede Australia Broadcasting Corp. A conferência, marcada para começar no domingo, tem entre os principais palestrantes deste ano o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e são esperados mais de 12 mil participantes.

A SAI ainda trabalhava com as autoridades responsáveis para confirmar o número de conferencistas a bordo do avião. "Em reconhecimento à dedicação de nossos colegas na luta contra o HIV/Aids, a conferência vai continuar como planejado e vai incluir oportunidades para refletirmos e nos lembrarmos daqueles que perdemos", disse a entidade em comunicado.

(Reportagem adicional de Jane Wardell e Lincoln Feast)


terça-feira, 15 de julho de 2014

ABIA vê com cautela recomendação da OMS para uso de antirretrovirais entre homens que fazem sexo com homens

Pessoal, aí vai uma nota da ABIA com relação à Profilaxia Pré Exposição para o HIV. Destaco o seguinte período: "É preciso resgatar o debate sobre política e direitos humanos a fim de repolitizar o enfrentamento da epidemia de uma maneira positiva."


A Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) recebe com bastante cautela a nova diretriz da Organização Mundial de Saúde (OMS) – que recomenda que os homens que fazem sexo homens (HSH) considerem a adoção de medicamentos antirretrovirais para prevenção à infecção pelo HIV.  Ainda que a nota seja relevante para a ampliação de tecnologias e técnicas de prevenção, numa análise mais profunda, destacamos que há fatores a serem observados com precaução.
Reconhecemos que a população homossexual, com ênfase entre os jovens, é a mais atingida pela epidemia. Contudo, devemos considerar a heterogeneidade entre os HSH, grupo formado por gays, bissexuais, garotos de programas, pessoas trans (que podem se identificar como mulheres, trabalhadores do sexo, etc) e ainda homens que fazem sexo com outros homens e não se identificam como gays ou homossexuais.
Agregar esses sujeitos num mesmo grupo e afirmar que há uma “explosão” da epidemia na população HSH cria um pânico moral, reproduz a ideia de grupo de risco e distorça as diferenças sociais dessas subpopulações.  É preciso considerar o fato que esses grupos podem ter taxas de infecção diferentes e, portanto, devem ser observados segundo suas especificidades.
Entendemos ainda ser um equívoco pensar que uma tecnologia (no caso, a Profilaxia Pré-Exposição – PrEP ou seja, o uso de medicação para se proteger do HIV) associada ao uso do preservativo possa ser uma resposta ampla à epidemia. Todas as novas formas de prevenção são bem-vindas, desde que componham o leque de possibilidades e escolhas do sujeito, seja ou não pertencente a grupos vulneráveis. As estratégias de prevenção necessitam ocorrer no/para/com o social e devem ser adaptadas às diversidades e demandas dos sujeitos.
Embora reconheçamos ser notável a contribuição de estratégias biomédicas no enfrentamento da epidemia resultando em novas tecnologias de prevenção, a ABIA defende que a resposta à AIDS deve ir além do biomédico e considerar os aspectos culturais, sociais e humanos, especialmente por se tratar de uma doença muito estigmatizada. É preciso resgatar o debate sobre política e direitos humanos a fim de repolitizar o enfrentamento da epidemia de uma maneira positiva.
Esta decisão da OMS, às vésperas da Conferência Internacional de AIDS, em Melbourne (Austrália), e com ampla repercussão na mídia, dialoga com o poder da indústria farmacêutica e da medicalização sem uma reflexão crítica da epidemia. E ainda reforça a ação de cientistas globais que travam batalhas em busca de financiamento para estudos epidemiológicos.
O documento da OMS consolida uma série de diretrizes para prevenção, diagnóstico e tratamento das populações mais expostas à infecção pelo HIV (HSH, pessoas que usam drogas injetáveis, presidiários e outras formas de aprisionamento, profissionais do sexo e pessoas trans). Com base numa primeira leitura dessas diretrizes, a ABIA recomenda:
* Incluir o método do “tratamento como prevenção” entre as cinco diretrizes da OMS sobre prevenção, junto com as outras técnicas como o preservativo, o PrEP, o PEP e e outros métodos atualmente em fase de pesquisa (como vacinas e microbicidas) a fim de oferecer todas as opções;
* Aprimorar o debate sobre estes métodos;
* Reforçar os empenhos para viabilizar a prevenção combinada, que utiliza não somente métodos biomédicos, mas também os sociopolíticos como as intervenções estruturais;
* Resgatar o diálogo com a sociedade na construção da resposta à epidemia.


Rio de janeiro, 15 de julho de 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

SABEM DE NADA, INOCENTES!




Há muito tempo se sabe que a AIDS caiu no esquecimento, tamanha a banalização com que a epidemia é tratada pela população, mídia, investidores e, especialmente, pelos gestores em Saúde e profissionais da medicina. Estes dois últimos recaem no mesmo equívoco cometido com a tuberculose que, com a descoberta de um tratamento eficaz em meados do século passado, foi negligenciada sob os argumentos de que havia a cura e hoje já é a segunda causa de mortalidade em alguns segmentos sociais. O mesmo acontece com a AIDS que, com a chegada do coquetel, foi erroneamente rotulada como ‘doença crônica’, fazendo com que os olhos do mundo se voltassem para as doenças auto imunes, como o câncer, em detrimento das infecciosas. Os catorze casos de cura já obtidos e o acesso universal aos medicamentos decretariam o fim da epidemia em dez anos, segundo alguns especialistas.
No entanto, vários são os fatores sociais e comportamentais que contrapõem essa afirmação. A disseminação de cepas virais resistentes aos medicamentos conhecidos é um deles, sendo que em alguns municípios brasileiros ele já é maioria nos recentes casos diagnosticados. Outro é a já citada banalização, que leva os governos a deixarem de efetuar e apoiarem ações de prevenção e as pessoas a abandonarem a prática do sexo seguro ou a fazerem perversas relações de custo/benefício no uso da camisinha. Pesquisa recente demonstrou que 71% das jovens não usa ou nunca usou a camisinha, ao passo que jovens gays têm 19 vezes mais chances de se contaminar do que as demais populações.
Pois bem, a Organização Mundial de Saúde acaba de recomendar que homens gays façam uso do coquetel como forma de prevenção ao HIV, estratégia que reduziria em até 92% as chances de infecção. Pode até parecer uma atitude preconceituosa para alguns, mas se trata de uma ideia interessante, desde que conduzida de forma responsável. Só que a maior irresponsabilidade parte dos próprios apoiadores dessa estratégia, pois se esquecem de que a redução é de ATÉ 92%, e não 92%, o que a coloca em xeque. Falando em irresponsabilidade, o Brasil tem colhido péssimos resultados no número de novos casos, estáveis em perturbadores 36 mil ao ano, e assegura que tem feito de tudo para reduzir esse patamar. Esse ‘tudo’ parece se resumir em ações irresponsáveis como testagem para o HIV em ambientes festivos e a perspectiva de comercialização dos testes em farmácias, sem qualquer apoio à pessoa que irá se submeter a ele, seja feito em seu apartamento ou no alto de uma ponte.
É muito mais fácil negar todo conhecimento adquirido em revelação de diagnóstico e acolhimento do que preparar decentemente a rede pública de saúde para tal atividade. Como é muito mais prático fornecer medicamentos anti retrovirais, com seus altos custos e severos efeitos colaterais, do que reforçar o esclarecimento como forma de prevenção. Mentem os médicos ao dizerem que a incidência de efeitos colaterais é baixíssima, a não ser que 26% das pessoas em tratamento sofrerem de graves danos ósseos seja um dado irrelevante, dentre outros envolvendo acidentes cardiovasculares, cânceres, problemas renais, hepáticos e pulmonares. Assim como são ingênuos ao acreditar que uma pessoa que não faz uso do preservativo regularmente irá tomar o coquetel de forma adequada a não disseminar mais ainda as tais cepas resistentes.
As ONGs LGBT estão apoiando a iniciativa da OMS, mas não li nada sobre ONGs AIDS ou redes de pessoas com HIV dando seu aval. Também, não nos perguntaram e nem irão. O movimento está sucateado e não encontra forças para fazer frente a uma gestão que tem apenas metas internacionais em seu campo de visão, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade dos serviços. Enfim, o tecnicismo sobrepôs o humanismo, afinal, ele nos dá as ferramentas necessárias para impor o fim da epidemia em dez anos.
Sabem de nada, inocentes!

Beto Volpe

domingo, 13 de julho de 2014

País, Família, Pessoa, Futebol


Pessoal, compartilho com vocês artigo bem interessante do Doutor Mauro Romero Leal Passos, sobre perdas e ganhos.


Um país, uma família, uma pessoa se constrói com vitórias e derrotas. Ambas, vitória e derrota não são definitivas. Ambas são necessárias. Ambas vão sempre coexistir.
 
É a vida. E a vida é para ser vivida. Sofrida. Amada. Como uma mãe que dá luz a seu filho.
 
Com ambas, vitória e derrota podemos aprender, crescer. Se for o nosso desejo.
 
Um jogo de futebol, uma Copa do Mundo é muito importante. Mas, não deve ser maior do que a capacidade e a tranquilidade para consolar uma criança em prantos que assiste o seu time perder. Não pode ser maior do que o entendimento de que seres humanos cometem falhas. E que além de apontar falhas devemos criar condições para as correções. Chutar um cachorro morto pode ser fácil. Querer uma ?selfie? com um famoso que está com uma medalha no peito pode ser mais fácil, ainda. Todavia, para ser um verdadeiro vitorioso temos que apoiar e estender a mão para quem sofre uma queda. Para quem está no chão isso não é esquecido. Para quem deu apoio, uma sensação de felicidade toma conta do coração e da alma. Faz um bem!
 
Por outro lado, o sofrimento, o luto, pode gerar muitos bons frutos. Muitas vitórias. Muitas alegrias.
 
Certa vez uma paciente me disse: ?Eu agradeço todos os dias por ter contraído HPV. Por ter pego HPV aprendi muito na vida. Aprendi como falamos e ouvimos coisas erradas...?
 
De Betinho (Herbert de Sousa) ouvi: ?Eu não queria ter aids, mas já que ela veio eu vou lutar para que outras pessoas não passem o eu passo. Eu vou transformar esse grave problema em grandes oportunidades?.
 
Em certo momento da vida, década de 1970, para ter o meu próprio dinheiro eu fui procurar emprego no comércio. Fui rejeitado para a função de escrever notas fiscais.
 
No instante seguinte de ouvir a palavra não eu me senti o mais incompetente dos jovens. Não consegui um emprego de tirar notas fiscais.
 
Em casa, minha mãe falou: ?Quem perde são eles, que não te empregaram?.
 
Em outro momento, de uma turma de especialistas em ginecologia fui o único reprovado para ingressar no curso de mestrado. No ano seguinte, entrei no curso e acabei terminando o mestrado, e o doutorado, na frente de quase todos os outros da minha turma.
  
Hoje, sou médico, professor, escritor de livros médicos, diretor de uma editora de uma universidade federal, editor de um periódico científico internacional.
 
Daquelas e de tantas outras derrotas que tive na vida (e foram muitas) tirei forças, dedicação para na frente, alcançar novos objetivos.
 
O Brasil é o país do futebol, de pentacampeões mundiais, de Pelé...
Da Fórmula 1, de Ayrton Senna, de Emerson Fittipaldi...
Do Samba, de Cartola, de Adoniran Barbosa, de Martinho da Vila...
Do Chorinho, de Pixinguinha...
Da Música popular, de Tom Jobim, de Chico Buarque, de Caetano Veloso...
De Boas músicas clássicas, de Villa-Lobos...
Das Artes, de Fernanda Montenegro, de Paulo Autran, de Glauber Rocha...
Das Formas, de Oscar Niemeyer, de Cândido Portinari, de Di Cavalcanti, de Tarsila do Amaral
Das Letras, de Carlos Drummond de Andrade, de Jorge Amado, de Vinicius de Moraes...
Da Saúde pública, de Oswaldo Cruz, de Carlos Chagas, de Vital Brazil...
Da Medicina, de Ivo Pitangui, de Eurycrides Zerbini...
Das Ciências, de Paulo Freire, de Gilberto Freyre, de Anísio Teixeira, de Cesar Lattes...
Da Aviação, de Santos Dumont...
Da Luta para preservação da natureza, de Chico Mendes...
Da Preservação dos índios e de sua cultura, de irmãos Villas Boas...
Da Luta contra a aids, de Betinho...
Do Futevôlei, do futebol de salão, da altinha, da canga, do frescobol, da jabuticaba, da caipirinha... da floresta amazônica, pulmão do mundo...
...
Um país não se constrói com alguns heróis. Os heróis apenas nos inspiram, para que todos cumpram, com eficiência, honestidade, liberdade, igualdade, fraternidade, amizade os papéis que representam em uma sociedade democrática.
 
O Brasil é país de um povo feliz, que sabe, até, fazer alegria de suas adversidades. Que sabe aplaudir as vitórias merecidas.
 
Da liberdade de poder expressar os mais diversos sentimentos. Para contrapor argumentos. Para ampliar pensamentos.

Mauro Romero Leal Passos
 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Quem vai pagar o "prejuízo" da Copa?

Pessoal, compartilho com vocês artigo de Luiz Caversan sobre os prejuízos causados pelo mau humor orquestrado, em minha modesta opinião.
Beto Volpe



"Por causa de todo aquele clima que havia antes, muita gente deixou de se preparar como devia, ficou com medo de investir e ter prejuízo. Pequenos comerciantes, por exemplo, poderiam estar faturando muito se tivessem acreditado que a Copa ia ser assim tão bacana."

Quem me disse isso, talvez não exatamente nestas palavras, foi um amigo querido, cuja família tem um posto de gasolina em São Paulo. Assim como milhares de outros pequenos e médios empresários das grandes cidades brasileiras, ele também ficou constrangido pelo clima do "não vai ter Copa", poderia ter apostado no sucesso do evento, investido mais, criado, por exemplo, eventos, atrativos ou promoções inspirados na Copa para aumentar a clientela.

Mas não fez isso. Não ia ter Copa, lembram?

Algum caro economista aí é capaz de me dizer como faço para calcular o prejuízo que os arautos do pessimismo e do mau humor, 'black blocks' e cia. à frente, causaram ao país?

Por conta de tudo o que não foi feito, tudo o que deixou de ser investido para gerar receita, com tudo o que se poderia ter sido oferecido, vendido para torcedores, turistas, comitivas e quetais, tendo como temática a Copa, e não foi.

Quanto?

Apenas para citar um exemplo: toda esta zona que esta acontecendo na Vila Madalena, em São Paulo, não poderia ter sido evitada se Prefeitura, comerciantes, produtores, artistas, empreendedores em geral desta cidade não tivessem sido contaminados pelo vírus do "não vai ter Copa" e pudessem ter replicado em diversos outros pontos de São Paulo dezenas de "vilas madalenas" com estrutura e opções para que o povo tivesse onde torcer, comemorar, xavecar, encher a cara, que seja, sem criar o transtorno que está ocorrendo num bairro só?

Quantas praças, campos, clubes, ONGs, associações, terreiros, ruas de comes e bebes, casas noturnas, salões de festas, quantas e tantas localidades poderiam ter sido envolvidas em ações para se criarem polos em que a Copa fosse devidamente curtida, aproveitada e explorada comercialmente de uma maneira saudável para todos...

Outro exemplo? O pessoal de turismo, que se amuou e não investiu o que podia na preparação de roteiros, alternativas, pacotes e oportunidades para as centenas de milhares de turistas que estão por aqui não ficassem à toa, pudessem aproveitar melhor o país, seus encantos, suas possibilidades fantásticas, movimentando ainda mais a economia?

Mas não ia ter Copa, e ficou todo mundo meio paralisado, esperando uma tragédia que não houve, um caos que está longe de ocorrer, o vexame inexistente, perdendo um bonde que não vai passar de novo.

Mas fazer o quê? Afinal, como registrou o sempre pertinente jornalista Ricardo Kotscho em seu blog, sofremos um massacre midiático –de dentro e de fora do país– no qual fomos retratados "como um povo de vagabundos, incompetentes, imprestáveis, corruptos, incapazes de organizar um evento deste porte".

Além de pagar o mico de estarmos sendo desmentidos por ninguém menos que nossos próprios visitantes –"Fantastic people", dizem eles repetida e entusiasmadamente–, ainda teremos de conviver com a fantástica oportunidade perdida.

Quem vai pagar esta conta?