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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Procuradoria dá parecer favorável ao casamento gay e rejeita ação de partido de Feliciano

 
A procuradora-geral interina da República, Helenita Acioli, enviou parecer ao STF (Supremo Tribunal Federal) em que opinou ser improcedente a ação de inconstitucionalidade proposta pelo PSC (Partido Social Cristão) que questionava a resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que autoriza a celebração de casamento civil ou conversão de união estável em casamento entre pessoas do mesmo sexo.
 
O PSC, partido do deputado federal Marco Feliciano, alegava que o CNJ extrapolou sua competência administrativa e invadiu a prerrogativa legislativa do Congresso Nacional, razão pela qual haveria violação ao princípio da separação dos Poderes. Para a procuradora, o STF já decidiu pela interpretação ampla e inclusiva ao conceito de família ditado pela Constituição Federal.
 
Na visão de Helenita Acioli, o Supremo e o CNJ respaldaram o direito das minorias em cumprimento ao artigo da Constituição Federal que diz: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: 4º – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".
Em maio último, o ministro do STF Luiz Fux já havia negado o pedido do PSC para suspender a decisão que obrigava os cartórios de todo o país a celebrar o casamento gay. Fux determinou que o processo fosse arquivado porque entendeu que o partido usou um instrumento inadequado para questionar a resolução. A legenda apresentou um mandado de segurança quando deveria ter sido uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin).

Cartórios de todo o país foram obrigados a celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo desde 16 de maio deste ano. Pela decisão, os cartórios também não poderão se recusar a converter união estável homoafetiva em casamento civil. A união entre pessoas do mesmo sexo havia sido aprovada pela Suprema Corte havia dois anos, mas ainda havia cartórios que se recusavam a fazer a conversão para casamento civil. Se isso acontecer, a resolução prevê que o caso seja levado imediatamente para análise do juiz corregedor do respectivo Tribunal de Justiça.
 
Ao defender a resolução, o presidente do STF e do CNJ, ministro Joaquim Barbosa, autor da proposta, afirmou que o conselho estava "removendo obstáculos administrativos de uma decisão do Supremo que é vinculante [válida para as demais esferas do Judiciário]".
 
Fonte: UOL, hoje

 

 

Justo Verissimo, que odeia pobre, é o patrono dos médicos covardes, egoístas e impiedosos que tentam impedir colegas de trabalhar

Pessoal, reproduzi aqui artigo de Mário Magalhães publicado hoje no UOL que provoca uma série de reflexões...
Beto Volpe
 

Justo Verissimo, personagem criado por Chico Anysio, gênio da raça
 
Um monte de médicos mais brancos do que os seus jalecos se escabela ao gritar “escravos!” para colegas negros e mestiços que chegam ao Brasil. A informação é objetiva, e o perfil racial predominante de um grupo não é necessariamente a razão da atitude do outro.
 
No Facebook, alguém comenta que os estrangeiros, boa parte proveniente de Cuba, não têm cara de médico. Não deu para entender? Pois uma jornalista, representante dos miolos de tantos dos nossos pares, desnuda-se na internet: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo?”  A afirmação nojenta não lembra nenhum crime? O Ministério Público do Rio Grande do Norte não agirá?
 
Um cubano se espanta com o fato de que vem atender pacientes nos rincões miseráveis onde os manifestantes se recusam a trabalhar, e mesmo assim é alvo de ira. De fato, é para se espantar. As entidades corporativas e a minoria de médicos que elas têm arrastado para seus atos públicos não se interessaram em atender os pobres nos fins de mundo onde eles padecem. Alegam preocupação com a saúde dos pobres coitados nas mãos de médicos despreparados… Lideram a gincana de farisaísmo.
 
Dizem-se contra “trabalho escravo”, mas a maioria nunca disse um ai contra o trabalho escravo real, desgraça que perdura no Brasil. Nem nunca saiu às ruas para protestar contra governos que abandonam a saúde. Na prática, se forem vitoriosos, impedirão os mais pobres de ter acesso a médico. São covardes, egoístas e impiedosos.
 
Até onde eu entendo, o Programa Mais Médicos está longe da perfeição. Acho um absurdo os cubanos, assalariados, não receberem diretamente o seu salário. Mais: a lei ampara eventuais pedidos de asilo de médicos cubanos ou de qualquer outra nacionalidade, por mais que burocratas intolerantes possam espernear. Mas, se os médicos brasileiros não querem ir aonde o povo está, bem-vindos sejam os estrangeiros.
 
Justo Verissimo era aquele personagem do Chico Anysio que cometia o bordão “odeio pobre”. Eis um digno patrono dos médicos que querem impedir a medicina de amparar os mais pobres.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

'Só vejo vantagens' (sobre a vinda de médicos estrangeiros)

Pessoal, compartilho artigo de Ricardo Noblat que expressa exatamente o que penso com relação ao assunto.
Beto Volpe
 
 
Sem tolices, por favor. Queriam o quê? Que precisando contratar médicos para fixar no interior do país o governo não o fizesse só por que os nossos têm outros planos? Ou então que contratasse estrangeiros, mas não cubanos por que eles vivem sob uma ditadura?
Com quantas ditaduras o Brasil mantém relações? Sabe em que governo o Brasil reatou relações diplomáticas com Cuba? No do conservador José Sarney. Pois não é?
Desembarcaram por aqui no último fim de semana os 400 médicos cubanos que aceitaram trabalhar durante três anos nos 701 municípios rejeitados por brasileiros e estrangeiros em geral inscritos no programa “Mais Médicos”.

São municípios que exibem os piores índices de desenvolvimento humano do país, 84% deles situados no Norte e no Nordeste. Os nossos médicos brancos e de olhos azuis não topam servir onde mais precisam deles. Médicos brancos e de olhos azuis... (Olha o racismo aí, gente!) O que eles querem mesmo é conforto, um consultório para chamar de seu e bastante dinheiro. Igarapés? Mosquitos? Casas de pau a pique? Internet lenta? Medicina, em parte, como uma espécie de sacerdócio? Argh!
 
Mas a Constituição manda que o Estado cuide da saúde das pessoas. E para isso ele lançou um programa. Acusam o programa de ter sido concebido sob medida para reeleger Dilma. E eleger governador de São Paulo o ministro Alexandre Padilha, da Saúde. Outra vez suplico: “sin tonterías, por favor”. Queriam o quê? Que podendo atender o povo e ganhar uns votinhos eles abdicassem dos votinhos?
 
Sarney (ele insiste em voltar!) inventou o Plano Cruzado em 1986 para manietar a inflação. Manietou-a tempo suficiente para vencer a eleição daquele ano. Com a falência do plano foi apedrejado no Rio. O Plano Real elegeu Fernando Henrique. O que restou do plano o reelegeu. O Bolsa Família reelegeu Lula, que elegeu Dilma, que terá de suar a camisa para se reeleger. Andar de moto não sua...
 
Ah, mas um programa ambicioso como o “Mais Médicos” deveria ter sido discutido exaustivamente pela sociedade antes de começar. Deve ter sido discutido, sim, pelo governo, ouvidos também seus marqueteiros. Importa que funcione bem. Do contrário a gente mata a bola no peito e sai por aí repetindo até perder a voz: “Eu não disse? Não disse?” Outra coisa: quem sabe o fracasso do programa não derrota Dilma? Hein? Hein? Ela é tão fraquinha... Não fará falta. Se comparado com ela, Lula faz. No mínimo era mais divertido.
 
Médico cubano não fala português direito! (Ora, tenham dó. Eu passo.) Não podem ser tão bem preparados. Podem e são. Estão em dezenas de países. Até no Canadá. Até na Inglaterra. Ministro da Saúde, José Serra foi à Cuba conhecer como funcionava o sistema de atendimento médico comunitário. Voltou encantado.
No final dos anos 90, o governo do Tocantins importou 210 médicos, 40 enfermeiros e oito técnicos cubanos. Sucesso total.
 
Sei: coitado do médico cubano! A maior parte dos R$ 10 mil mensais a que terá direito ficará com o seu governo. E ele não poderá trazer a família. Os demais médicos estrangeiros poderão trazer a mulher e até dois filhos. Também tenho pena deles. E deixo aqui como sugestão: entre tantas passeatas marcadas para 7 de setembro por que não fazemos uma pedindo o fim da ditadura cubana? Ou pelo menos melhores salários para os médicos da ilha? Já pensou? Abrindo a passeata, representantes de entidades médicas. De jaleco. Atrás, um mar de bandeiras vermelhas para animar a turma. Fechando a passeata, o bloco dos vândalos. E tudo filmado pelos ninjas!
 
Compartilho o receio de os médicos estrangeiros se frustrarem com a carência de equipamentos no Brasil. Se eles faltam até nas maiores cidades, imagine nas terras do fim do mundo? Se faltam remédios... Ainda assim é melhor ter médicos a não tê-los.
Em certos casos só se resolve problema criando problema. E haverá sempre o recurso à passeata. Se negarem o que pedimos... Se rolar grossa pancadaria...
 
Cuide-se, Dilma!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Abaixo assinado contra a impunidade do prefeito de Santa Maria

Pessoal, é para revoltar e muito. O prefeito de Santa Maria está prestes a escapar ileso daquela tragédia, pois o MP local arquivou o processo de seu envolvimento. Peço a meus amigos e amigas que subscrevam o abaixo assinado cujo link está ao final deste post. Esses jovens, suas famílias e seus amigos pedem justiça!
 
Descrição da imagem: corpos dos jovens mortos enfileirados no chão após o incêndio.
 
É muito triste, mas a tragédia da boate Kiss, de Santa Maria, virou jogo político. A polícia do Rio Grande do Sul até denunciou o prefeito Cezar Schirmer por improbidade administrativa, mas nos bastidores ele conseguiu que o Ministério Público da cidade arquivasse o processo.
 
Eu moro em Santa Maria e perdi meu filho Augusto Malezan de Almeida Gomes naquele dia 27 de janeiro de 2013. E me sinto pessoalmente desrespeitada com essa decisão inexplicável do MP.
 
Por isso criei um abaixo-assinado, pedindo ao Ministério Público do Rio Grande do Sul o desarquivamento do processo e a investigação até o final. Me ajude e assine, por favor.
 
A Prefeitura de Santa Maria está sendo acusada de irregularidades como a liberação de alvarás, cobrança indevida de taxas e de não cumprir um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Isso deve acontecer em muitas cidades do Brasil - por isso peço o seu apoio.
 
Faço parte da Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss - e esta é uma luta de todos nós. Além de Augusto, outros 241 jovens morreram naquele dia. Uma dor tão grande não pode virar interesse eleitoral.
Não vamos aliviar para o prefeito. Assine agora e me ajude a pressionar o MP.
Se puder, peça para seus amigos assinarem também.

Muito obrigada,
Jacqueline Malezan

    quarta-feira, 21 de agosto de 2013

    Carta a Walcyr Carrasco


    Descrição da imagem: logo da novela Amor à Vida.
     
     
    Walcyr, boa noite.

    Mesmo não acompanhando a atual novela das nove, tenho ouvido comentários de amigos nas redes sociais e gostaria de lhe parabenizar pela forma como está conduzindo a trama do Félix na novela e também por sua participação no Altas Horas. No entanto, o doutor Cesar Curi, personagem de Antonio Fagundes, pisou na bola e pisou feio. Ao proferir a palavra AIDÉTICO, referindo-se às pessoas vivendo com HIV, ele demonstrou profundo desconhecimento sobre o banimento dessa palavra há mais de quinze anos, por dois motivos. O primeiro é semântico, não se adjetiva siglas e AIDS é uma delas. O segundo é o cerne da questão e o motivo da não aceitação dessa palavra.

    Ela coloca a doença em primeiro plano e não a pessoa que a adquiriu. Eu vivo com HIV (como pode ver, esse é um dos termos aceitos, pessoa vivendo com HIV) há 24 anos, há 17 desenvolvi AIDS e desenvolvi pacas. Fiz 23 cirurgias, tive três tumores com seus tratamentos (estou prestes a ter alta do mais recente), duas próteses de quadril, três AVCs e outras intercorrências menores. Ao mesmo tempo passei a integrar o movimento nacional de luta contra a AIDS, sou membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV (da qual fui por um breve tempo representante do estado de SP), fundei uma ONG juntamente com outras pessoas vivendo e, olha que coisa, até defender duas teses em saúde pública no STF eu fui! E isso não acontece somente comigo, muitas outras pessoas vivendo enfrentam e superam uma situação que parece ser muito maior que elas e muitas dessas ainda têm força para se organizar em defesa de um sistema de saúde que atende a toda a população brasileira. Aí eu pergunto: quem você acha que merece destaque, no que diz respeito ao tratamento pessoal: as pessoas ou a AIDS?

    O fato de tamanha barbeiragem em termos de direitos humanos na área da saúde ter sido protagonizada por um médico agrava a situação, pois o povo brasileiro tem na classe médica uma das categorias profissionais merecedoras da maior confiança. Assim, não somente desconstrói todo um trabalho feito tanto pelas ONGs e redes, como pelas três esferas de poder público mas, especialmente, se torna uma afronta aos sentimentos das pessoas vivendo que seguem sua novela. Não tenha dúvidas que muitos corações ficaram bem apertados, não pelas emoções de sua trama, mas pela tristeza de ser rotulado bem em frente a sua família. Desejo, e hoje rezarei fortemente para isso, que nenhuma delas entre em depressão, pois geralmente sua associação com a AIDS resulta em óbito.

    Palavras fazem bem ou mal, dependendo de seu uso. E algums delas podem matar. Tenho certeza que no meio artístico você deve ter tido muitas perdas de pessoas que sucumbiram não pela ação do vírus em si, mas pela tristeza de viver com uma doença que estigmatiza, degenera e exclui. E o uso dela na novela das nove representou uma grande tragédia para todos nós, não somente as pessoas vivendo, mas para todas as pessoas que se dedicam a enfrentar essa epidemia covarde. Como covarde é essa palavra.

    Peço, entristecido e esperançoso, que isso seja reparado de alguma maneira na mesma novela, para que as mesmas pessoas tenham sua dignidade restabelecida e que a população em geral tenha noção do mal que o preconceito causa a qualquer pessoa. E desejo sucesso em seu trabalho atual, que ousa tirar assuntos tabu que insistem em permanecer debaixo do tapete.

    Justamente o lugar para onde deve ser varrida essa palavra e todo tipo de preconceito.

    Beto Volpe

    terça-feira, 20 de agosto de 2013

    Mensagem de uma amiga na Espanha

    Uma amiga escreveu a seguinte mensagem para Beatriz Pacheco que me repassou, pois eu conheço a garota que a escreveu. A resposta para a pergunta final não quer calar, bem como a ponderação ao final do último parágrafo.
    Beto Volpe
     
    Descrição da imagem: duas mãos juntas em concha segurando um monte de comprimidos azuis, brancos e amarelo.
     
     
    "Queria te contar que a médica do Carlos mexeu na terapia dele, ele fazia uso de Kaletra e Truvada, ela disse que aqui na Europa pacientes que estão com carga indetectável há 10 anos ou mais e CD4 muito alto eles estão deixando apenas com um medicamento, no caso do Carlos ela deixou apenas o Kaletra e cortou o Truvada.
     
    Claro que tudo isso acompanhando, ele ficou assim um mês e fez exames, a carga continuava indetecável porém o CD4 que nunca passava de 850/900 subiu para 1025!!! Ela disse que estão fazendo assim na Europa principalmente pelos efeitos colaterais de longo prazo, quanto menos drogas melhor, desde que se obtenha resultados de excelencia.
     
    A médica disse que se alterasse algo para pior voltariam ao de antes e tudo seguiria igual. No começo fiquei apreensiva mas ele tá muito bem e com este CD4. Aqui não existem medicamentos genéricos retrovirais, são todos originais dos laboratórios, o Carlos se sente melhor com eles (menos indisposição ou enjôos, não sei se tem a ver...).
     
    No Brasil está sendo feito isso, sabes algo?"

    segunda-feira, 19 de agosto de 2013

    Com HIV, moradores temem ser expulsos de área no Distrito Federal

    Ao meio-dia, a sirene avisa que é a hora do almoço. Na entrada do refeitório comunitário, adultos, adolescentes e crianças esperam a vez de se servir. A travesti Paula Piovany, 39, controla o fluxo. Ex-presidiários, homossexuais, ex-prostitutas e pessoas distantes de suas famílias compõem a comunidade de cerca de 180 pessoas que ocupa um terreno no Recanto das Emas -cidade pobre nos arredores de Brasília.
     
    São pessoas infectadas com o HIV, seus companheiros e filhos (crianças, na grande maioria, não têm o vírus). A principal fonte de renda da comunidade são doações.

    Sérgio Lima/Folhapress
    Jovem na comunidade assistencial no Recanto das Emas
    Descrição da imagem: tendo ao fundo vista de algumas das casas da comunidade, jovem com tatuagem de Jesus no meio das costas nuas.

    "Aqui é a dita sucata da sociedade: ninguém quer", afirma Jussara Meguerian, 62, idealizadora da Fale (Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista), entidade responsável pela construção das 42 casas do lote de 100 mil metros quadrados. Jussara lembra que o terreno, do governo do Distrito Federal, foi ocupado na gestão de Joaquim Roriz, no na década de 1990. "Ele pegou o telefone e falou: 'Eu quero uma chácara para ontem'. Em três dias, a gente estava lá." Agora, os moradores temem ser removidos com a construção de 24 mil unidades habitacionais do programa federal Minha Casa, Minha Vida (dentro do seu braço local, o Morar Bem). "Quando fomos para lá, era mato, mas a cidade cresceu em volta. Não dá para começar tudo de novo, não somos ciganos", diz Jussara.
     
    SONHOS
     
    A rotina do "bairro" segue rígido sistema de organização: às 7h, sirenes avisam a todos que é hora de acordar. Ao longo do dia, outras tantas tocam para avisar de horários de refeições e oração. Os moradores ainda se dividem em pequenos grupos, comandados por líderes, responsáveis por resolver pequenos problemas e atender os mais debilitados. Nas casas, cartazes lembram as regras definidas pela comunidade. Há sete anos no local, Paula Piovany é líder da cozinha, cabendo a ela selecionar os alimentos recebidos. Por 13 anos, foi prostituta na região central da capital. Na comunidade, diz ter sido acolhida. "As crianças me chamam de tia, os adolescentes me tratam com o maior carinho."
     
    Ali, a demanda por alimentos é expressiva. O consumo diário inclui 20 quilos de arroz, 8 quilos de feijão, 24 quilos de frango e 10 litros de leite, segundo registro de José Firmino da Silva, 50, que está há quatro anos na Fale, apesar de não ter o vírus HIV -conta ser alcoólatra. É ele quem controla a entrada e saída da despensa, além da distribuição semanal de produtos de higiene pessoal e limpeza. Além da cozinha, o local abriga uma pequena padaria, com maquinário cedido por um voluntário. Vez ou outra, saem sonhos desse forno.
     
    O coquetel contra o HIV vem do SUS. Há dificuldade para encontrar os remédios para infecções comuns em quem tem Aids. Jussara lembra que, quando o trabalho começou, havia muita desinformação sobre a doença. Hoje, ela diz que a reinserção na sociedade é mais fácil, mas a demanda por ajuda é recorrente. "A ideia é fazer com que voltem à vida normal."
     
    Fonte: Folha de SP
    Flávia Roreque
    Johanna Nublat
    De Brasília

    Carta da ANAIDS ao Ministério da Saúde sobre os Fóruns Regionais

    Pessoal, compartilho com vocês carta da ANAIDS sobre o relacionamento com o governo federal que, diga-se de passagem, não tem sido nada amistoso da parte deles. A retirada das representações citada no documento não foi uma declaração de guerra, mas assim foi interpretada. Uma pena.
    Beto Volpe
     
    Descrição da imagem: close de laço vermelho pintado entre os olhos de uma pessoa que está com os olhos fechados.
     
    Corr 16/13

    Dr Fábio Mesquita

    Diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais

    CC

    Dr Jarbas Barbosa

    Secretário da Vigilância em Saúde

    Brasília, 20 de agosto de 2013

    Sr Diretor,
     
    A ANAIDS Articulação Nacional de Luta Contra Aids - colegiado que reúne os Fóruns de ONG Aids dos 27 estados brasileiros, Redes e demais representações do Movimento Nacional de Luta Contra a Aids, que por sua vez representam mais de 500 organizações, vem por meio deste questionar a solicitação de indicação por parte da sociedade civil para participar de Fóruns Regionais.

    O convite encaminhado para alguns movimentos solicitando a indicação de representação e condicionando esta indicação a uma avaliação por parte do Departamento de DST/aids e hepatites virais é um desrespeito a autonomia dos movimentos sociais e uma comprovação de que o diálogo e o contraditório não fazem parte do objetivo destes fóruns regionais

    Entendemos que a forma da escolha das representações da sociedade civil onde essa terão que ser avaliadas pelo Departamento DST\Aids e Hepatites Virais para aceite ou não é mais uma forma de fragmentação, uma vez que deslegitima e desqualifica, a indicação do Movimento, e uma tentativa de legitimar as decisões do Governo Federal.

    Para a Sociedade Civil fica claro que a criação deste tipo de representação em nada vai contribuir para qualificar diálogo sobre todas as demandas já apresentadas.

    A criação de um novo espaço de articulação, sem consultar a sociedade civil, e sem que os problemas que resultaram no afastamento dos espaços de articulação sejam resolvidos, é desconsiderar mais uma vez as posições expostas pelo movimento aids em seus documentos. Além do mais não existe nenhuma informação sobre o objetivo e metodologia proposta para este novo espaço.

    Queremos que os espaços políticos de representação sejam legitimados, com a participação do Movimento Social na sua construção sem interferência de qualquer instância governamental, na escolha dos representantes.

    O movimento aids se retirou temporariamente dos espaços de articulação OG/ONG em função da falta de diálogo por parte do MS nas questões que envolvem o enfrentamento da epidemia de aids no Brasil

    Gostaríamos de esclarecer que o Movimento Nacional de Luta Contra Aids não rompeu nem fechou o diálogo com o Departamento de Aids. Os documentos entregues quando da saída da CAMS e CNAIDS fazem prova nos trechos que dizem que "enquanto o governo não nos chamar para dialogar" não vamos aceitar que o mesmo nos paute e nos organize. Não podemos aceitar que o governo queira construir os espaços para sociedade civil sem escutar sobre o que queremos e entendemos de como este deve ser. Estamos e sempre estivemos abertos para o diálogo!

    A ANAIDS se posiciona contrária a indicação de representantes do movimento aids para estes Fóruns e solicita aos movimentos parceiros que se posicionem da mesma maneira até que as questões que levaram ao afastamento dos espaços de articulação e dialogo OG/ONG sejam de fato resolvidos.

    Desta forma aguardamos das autoridades respostas para as nossas demandas, sejam elas por meio do diálogo solicitado quando da saída da CAMS e CNAIDS ou na forma de respostas às diversas cartas enviadas pelo Movimento.

    Cordialmente,
     
    Rodrigo Pinheiro                                                            
    Secretaria Política da ANAIDS                               

    Márcia Ribas
    Secretaria Executiva da ANAIDS

    domingo, 18 de agosto de 2013

    Triste e assustador



    Pessoal, replico aqui um desabafo preocupante da Dra. Márcia Rachid, médica infectologista do Rio de Janeiro e autora do Manual de HIV/AIDS, do qual tenho duas das várias edições. Tivemos um perrengue durante um recente evento no Rio sobre a atenção às pessoas vivendo com HIV, mas não há o que questionar sobre sua qualificação profissional. E se pode dizer o mesmo sobre seu lado humanista, transparecido nesse relato que está nas redes sociais.
    Triste e assustador.
    Beto Volpe
     
    Descrição da imagem: sobre fundo preto uma face em branco e preto com as vistas sobrepostas por uma faixa onde se lê AIDS.


    Por quê tomar remédios?

    Alguém já parou para pensar que se precisa é porque algo não anda bem e precisa ser reequilibrado? Tenho pacientes que tomam antivirais há mais de 25 anos e NUNCA ficaram doentes com qualquer manifestação clinica. Aí fico me perguntando por que chegamos ao ano de 2013, quase 2014, com pessoas morrendo nas enfermarias ou nas Emergências por terem abandonado os tratamentos e por não terem mais opções terapêuticas pelo grau elevado de resistência que o vírus já atingiu...

    Fico triste quando vejo que fatos deste tipo se repetem depois de tantos avanços científicos e num momento em que há estudos mostrando possíveis estratégias para a cura. Para curar, tem que estar vivo!!! E tem que estar bem, com carga indetectável para acabar de retirar o vírus dos reservatórios onde ele se esconde. Poxa, cada vez que fico sabendo que alguém morreu por falta de iniciativa ou falta de conhecim...ento sobre isso, fico arrasada, pensando como podemos mudar novamente essa história.

     Temos que incentivar mais a prevenção, porém como já são muitos contaminados, especialmente jovens, temos que ajudar!! É importante ter coragem de enfrentar o medo e fazer o teste para começar a tratar precocemente e corretamente, o que significa tomar os remédios diariamente com amor e carinho, agradecendo que existem! Já vi muitos pacientes graves suplicando por remédios numa época em que nenhum existia!

    Também odeio esse preconceito idiota e burro!!! As pessoas transam muito sem camisinha como se não existissem HIV, sífilis, gonorreia, hepatite C, hepatite B e outras DST... mas se uma pessoa ética e sincera diz que tem o vírus, que se trata, que tem carga indetectável (o que reduz até 96% o risco de transmissão) e propõe o uso da camisinha, o outro sai correndo!!!!! Que mundo é esse???

    Marcia Rachid
    Médica Infectologista
    Assessora de DST/AIDS da Secretaria do Estado do Rio de Janeiro

    terça-feira, 13 de agosto de 2013

    Muitas felicidades, laralalaralááá..

    Descrição da imagem: celebração no saguão do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, onde havíamos acabado de esvaziar a cerimônia de abertura do Congresso de Prevenção em 2010.
     
     
    Lembro muito bem daquela noite. Estávamos em Floripa, ano de 1999, para um dos encontros da sala HIV da internet onde pessoas vivendo ou não com o vírus de todo o Brasil celebravam a Vida. Eu, Peace, Eusp, Matheus/SP, LOA, Hebe, Fernando/RJ, (Crix) Ivan e mais algumas cujo apelido não me recordo, comemorávamos o aniversário de Matheus em um belo restaurante com uma vista panorâmica da cidade. E, na hora de cantar os parabéns, entoamos felizes:
    - Parabéns a você nessa data querida, muitas felicidades, laralalaraláááá!!!
    Juro, esse final não estava combinado e foi cantado simultaneamente por todos. Claro, caímos em uma sonora gargalhada chamando a atenção dos demais presentes para aquele alegre grupo de pessoas cuja maioria, ninguém diria, vivía com HIV. Aquele final não fazia parte de uma celebração, era uma forma nervosa e divertida de expressar nossa expectativa de vida: um dia de cada vez. O coquetel havia chegado muito recentemente e muitas dúvidas povoavam nossas almas já marcadas por várias perdas e desafios. Será que vai funcionar mesmo? Já se falava em efeitos colaterais, até onde iriam? Cura? Nem pensar, segundo a ciência isso seria quase impossível pelas características da infecção e do próprio vírus.
     
     
    Agora a comunidade científica internacional tem se atido mais a esse tema, a cura. Os financiadores perceberam que com AIDS o buraco é mais embaixo e que essa história de doença crônica e sob controle é pura balela. Muito disso se deve às pessoas com HIV de Nova Iorque que fizeram do envelhecimento precoce, o pai dos efeitos colaterais, uma pauta dirigida às publicações classe A dos EUA, as revistas que os investidores lêem no banheiro. Pesquisas voltaram a se propagar pelo mundo, retomando um ramo que havia declinado em mais de 90% após a descoberta do coquetel e hoje temos alguns resultados concretos, que sinalizam que é possível chegar à cura da AIDS, já com dezesseis casos anunciados, conforme matéria da última edição da revista Super Interessante, já repercutida neste blog através do artigo 'A cara da cura'.
     
     
    Naturalmente ainda levará alguns anos para que as descobertas recentes sejam mais bem avaliadas, que sejam verificados os prováveis efeitos colaterais e sua extensão, discutir profundamente os aspectos éticos envolvidos... Mas é um senhor avanço a gente estar falando sobre ela, a cura, de forma aberta e com perspectivas reais de se concretizar. No entanto, tenho recebido algumas críticas, feitas por amigos queridos, sobre meu otimismo com relação ao assunto. De que ainda há muito que fazer e que isso provocaria um temor de ser um 'falso positivo'. A todos respondi igualmente: eu sei que ainda tem muito que fazer, mas a gente tem que festejar cada pequeno ou grande avanço em direção à cura. A expectativa de chegada do coquetel era somente para o século 21, mas acabou sendo descoberto em 1995. Quem sabe esse tempão se transforme em um lapso e, aí sim, seremos surpreendidos novamente, como diria Zagalo.
     
     
    Aí eu volto no tempo e me recordo também de outra situação, no Encontro de Pessoas Vivendo com HIV dos grupos Pela Vidda do Rio e Niterói em 2008. A mesa era sobre pesquisas, auditório cheio, e foi dado início ao debate que seguiu após as apresentações dos pesquisadores. Eu tenho o braço treinado para se levantar sozinho quando eu ouvir algumas palavras como 'Bem...', 'Vamos...' ou outras que sinalizam o início de inscrições para as falas, mas desta vez eu perdi para um irmão do Rio de Janeiro. Quando ele terminou eu disparei minha questão, detonando o seguinte diálogo:
     
    - Ouvi atentamente as exposições de vocês e não foi feita nenhuma menção à cura do paciente de Berlim que acaba de ser noticiada.
    - É por isso que nós não gostamos de anunciar os resultados de pesquisas, eles despertam esperanças nas pessoas e...
     
    Interrompi o pesquisador, claro que pedindo licença:
     
    - Peraí, com licença... Mas vocês acham que a gente vive de que? A gente vive de esperança que um dia isso acabe e ela deve ser propagada e festejada sempre que possível.
     
    Ao que o auditório ruiu em ovação com gritos de 'eu também, eu também'. O palestrante refletiu um tempo e depois se desculpou pela má colocação de palavras e tal.

     
    Acredito que um dos piores efeitos colaterais do coquetel foi a acomodação das pessoas vivendo com HIV, engajadas à luta contra a AIDS ou não. Hoje as pessoas se valem da (in)cômoda invisibilidade, vão ao serviço de assistência uma vez por mês para pegar seus medicamentos, a cada três para repetir exames de controle e consulta médica. Claro, quando esse nível de atenção permite esses 'luxos' do SUS, afinal, a tendência no Brasil é de descentralizar nosso atendimento para as UBSs e ai a cobra vai fumar. Quem sabe, seguindo a lógica de que a necessidade é a mãe da atitude, as pessoas voltem a pensar em sua existência como seres políticos e o engajamento volte a ser o que era antes do coquetel. Enfim, isso é outra história, aqui falamos sobre celebrações. E essa prática também foi esquecida pelos ativistas, muito ocupados que estão com a sustentabilidade de suas ações, com o fechamento de ONGs por falta de apoio, com os efeitos colaterais que os tem consumido... São tantas as perdas de diretos e desafios cotidianos que não sobra tempo e nem pique para festejar. Tanto que foi uma surpresa para muitos o fato de festejarmos ruidosamente o sucesso de uma ação de ativismo em um evento em Brasília, tendo sido taxados de mal educados por alguns.

     
    Mas temos que fazer um esforço. Se a vida lhe deu um limão, pegue uma boa vodka e prepare uma caipiroska com bastante gelo, assim a carga de preocupações dá um tempo e, quem sabe, nesse momento você tenha uma ótima idéia para melhorar a Vida. Temos que usar essa esperança não para nos iludir mas, sim, para reforçar a importância da adesão ao tratamento, de exercícios físicos regulares, de boas práticas no dia a dia evitando qualquer tipo de abuso e, sobretudo, a importância de mantermos cada vez mais viva a Fé em nossos corações. E quando falo em Fé não me refiro necessariamente a uma religião ou seita. Mas, sim, na crença de que amanhã será melhor que hoje e que não brigamos tanto para morrer na praia, literalmente.

     
    Temos que festejar mais, vibrar mais com essas conquistas como se fossem nosso aniversário, como festejo hoje meus cinqüenta e dois anos muito vem vividos, em boa parte devido a amizades muito fortalecedoras. A celebração é um fixador das vitórias em nossos corações. Isso faz bem para a imunidade e para as atitudes que tomaremos em nosso dia a dia. E nunca mais termos que cantar 'laralalaralááááá...' ao final do parabéns a você. Não que muitos anos de vida sejam uma certeza, nunca são. Mas voltaram a ser um sonho possível.
     
     
    Beto Volpe
     

    sábado, 10 de agosto de 2013

    A cara da cura

    Descrição da imagem: capa da revista Super Interessante com a manchete: 'Enfim, a cura da AIDS'
     
     
    O HIV entrou em minha vida nos idos de 1989, quando a morte me mostrou sua cara. Também foi nesse ano que o muro de Berlim caiu, como também caiu a arrogância do Partido Comunista Chinês ante o 'rebelde desconhecido', que se postou diante de um tanque de guerra em plena Praça da Paz Celestial. Foi também o ano em que todos os brasileiros e brasileiras acordaram pobres com cinqüenta cruzeiros na conta e que George Bush, o pai, assumiu a presidência dos Estados Unidos. E nesse ano de 2013, ano que o Snowden desnudou o rei perante todo o mundo e que a morte de 242 jovens de Santa Maria inundou o Brasil de tristeza, é a cura que dá as caras trazendo muitas esperanças às pessoas com HIV e a todo o mundo. Pela primeira vez desde o início da epidemia ela deixa de ser um sonho distante para se tornar uma realidade bem próxima de se concretizar.
     
     
    Foi muito estranho ver a capa da Super Interessante, nas redes sociais, onde havia a manchete mais sonhada por nós que vivemos com HIV: "Enfim, a cura da AIDS". Como assim? De uma hora pra outra? Será sensacionalismo em busca de leitores? E, ao ler a matéria após duas semanas de espera pela edição, vi que não era sensacionalismo e que também não havia sido de uma hora pra outra. É fruto de uma retomada de investimentos em cura, após um declínio de mais de 90% nos recursos para sua descoberta após a chegada do coquetel de medicamentos. A comunidade científica, assim como as pessoas vivendo com HIV, já sabem há muito tempo que a AIDS não é uma doença sob controle, como gostam de apregoar alguns cientistas e gestores, ambos tentando reforçar seu falso poder sobre a doença.
     
     
    A cura está próxima. No fundo, no fundo, quem está nessa toada há bastante tempo já tinha essa percepção. Passou pela pior das provações em saúde, que é ter uma doença fatal e sem tratamento, viu a descoberta do coquetel que deu a falta sensação de cura ou de controle sobre a epidemia e viu os efeitos colaterais migrarem de enjôos para cânceres, de azia para necrose óssea, gerando uma mortalidade invisível maior que o número de óbitos por AIDS que, diga-se de passagem. ainda não tem uma efetiva atenção por parte dos governantes. Mas também viu o meio científico desconfortável perante a crescente complexidade em seu acompanhamento clínico, forçando-os a retomar as pesquisas para a cura. Também os investidores retomaram seus financiamentos e o resultado é que passamos a ver também vários trabalhos relacionados sendo apresentados em congressos e conferências mundo afora.
     
     
    Novas tecnologias foram incorporadas na luta, quebrando o monopólio dos laboratórios. Células tronco, engenharia genética, bionanotecnologia... A Era de Aquárius se precipitando junto com a revolução da comunicação, trazendo o admirável mundo novo tão sonhado no século vinte. E veio o primeiro caso, o do 'paciente de Berlin', onde uma rara combinação de fatores possibilitou a erradicação do vírus em seu corpo. Muita vibração, afinal foi comprovado que seria possível matar o HIV, sujeito pra lá de escorregadio, mas ainda era pouco para se falar que havia sido descoberta a cura da AIDS. Outros resultados começaram a ser apresentados como o de um medicamento que atiça o vírus. Como assim, já não basta o estrago que ele fez até hoje? Mas é isso mesmo, o medicamento Vorinostat veio de pesquisas contra o câncer para trazer grandes esperanças para a cura da AIDS. Ele desperta os vírus que estão escondidos nos reservatórios para depois os matar. Ainda falta chão pela frente, há que se resolver desafios como dosagem, possibilidade de mutação viral e seus efeitos colaterais. Mas é um senhor avanço, sem dúvida.
     
     
    Outros estudos muito promissores estão sendo desenvolvidos ao redor do mundo. O Instituto Pasteur na França anunciou a cura funcional de catorze pessoas, onde elas não teriam mais necessidade de tomar medicamentos mas ainda carregariam o vírus. Também é via medicamentos e uma condição para sua aplicabilidade parece ser o diagnóstico e, sobretudo, o tratamento precoces, só para apimentar mais ainda uma questão que dá muito o que falar. Na Califórnia existe um estudo ainda mais pretensioso, que retira células de defesa da pessoa com HIV, manipula seu código genético e as reinjeta no organismo, tornando a pessoa imune ao vírus. E o melhor de tudo: o futuro está cada dia mais próximo. Da mesma forma que a todo instante surgem novas tecnologias e modelos de celulares, tablets e outras formas de comunicação, na área médica isso também tem sido verificado. A cada ano um sem número de novos conhecimentos e tecnologias são integrados ao arsenal terapêutico e preventivo.
     
     
    Enfim, a cara da morte ganhou uma companheira: a cara da cura. O fim de um pesadelo de mais de trinta anos agora é uma realidade possível e tem muita gente se empenhando em nos acordar desse sonho sombrio, com tantas perdas humanas e materiais. Que tanto sofrimento tem trazido a pessoas, famílias e amigos. Que tanta dor de cabeça tem dado a gestores em saúde e tanto trabalho aos cientistas e médicos. Resta a nós, que vivemos com HIV, redobrar os cuidados com a saúde e manter a fé, porque a cura é questão de tempo. E, ao que tudo indica, pouco.
     
     
    Se Cazuza ainda estivesse por aqui, diria: eu vi a cara da cura e ela estava viva!
    E viva a Vida!!!
     
     
    Beto Volpe