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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



terça-feira, 29 de março de 2011

Vem aí... CAÇA ÀS BRUXAS


Biografia sobre Gandhi o retrata como homossexual e xenófobo

Por essa nem aqueles que acreditam que o mundo é gay esperavam...

Beto Volpe



Descrição da imagem: fotografia de Gandhi


Washington, 28 mar (EFE).- Uma polêmica biografia sobre o ícone pacifista e líder independentista hindu, Mahatma Gandhi, o retrata como homossexual e ressalta seus supostos comentários xenófobos, entre outros aspectos desconhecidos, informa a imprensa local nesta segunda-feira. O livro, intitulado "Great Soul: Mahatma Gandhi and his struggle with Índia" (Uma grande alma: Mahatma Gandhi e sua luta com a Índia, na tradução), foi escrito por Joseph Lelyveld, antigo editor do "The New York Times". De acordo com alguns trechos da biografia divulgados nesta segunda-feira no "The Wall Street Journal", Gandhi estava profundamente apaixonado pelo fisioterapeuta alemão Hermann Kallenbach, pelo qual deixou sua esposa em 1908. Segundo os mesmos trechos, Gandhi escreve para Kallenbach: "Como tomaste completamente posse do meu corpo? Isto é uma verdadeira escravidão". Além disso, explica que seu retrato "é o único que tem na estante" de seu dormitório.


O casal, no entanto, se viu obrigado a se separar em 1914 quando, após o início da Primeira Guerra Mundial, Gandhi retornou à Índia, para onde Kallenbach não pôde viajar por ser alemão. Lelyveld cita outras cartas nas quais Gandhi faz Kallenbach prometer-lhe que não olharia "com luxúria para nenhuma mulher". Em outra carta de 1933, o líder da independência da Índia reiterava sua lembrança de Kallenbach ao escrever: "Sempre estás em minha mente". O livro de Lelyveld, quem ganhou o prestigioso prêmio Pulitzer de Jornalismo em 1986, também semeia dúvidas sobre o humanismo de Gandhi, ao destacar supostos comentários xenófobos e racistas durante os anos que passou na África do Sul no início do século XX. "Podíamos entender não estar classificados como os brancos, mas situar-nos no mesmo nível que os nativos sul-africanos era demais. Kaffirs (como são chamados os nativos negros da África do Sul) são por norma incivilizados. São problemáticos, muito sujos e vivem como animais", escreve Lelyveld na biografia de Gandhi.


Além disso, Gandhi era consciente da importância de suas declarações e exigia que os jornalistas "não utilizassem as palavras que tinham saído de sua boca, se não uma versão autorizada por ele próprio após a profunda e frequente revisão das transcrições". A obra de Lelyveld é fruto de seu trabalho como jornalista na Índia durante a década de 1960 e na África do Sul, onde trabalhou para o "The New York Times" nos anos 1980. A biografia que, segundo o "The Wall Street Journal", não deixa de mostrar uma profunda admiração por Gandhi, é equilibrada e procura apresentar uma visão mais humana do personagem, embora seja mais provável que decepcione seus admiradores.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Usina de confusões - Revista Isto É - nº 2159

Governo demite toda a diretoria da CNEN após descobrir que reatores atômicos operam sem licenças e que Angra 2 não tem autorização definitiva para operar

Por: Claudio Dantas Sequeira

Descrição da imagem: capa da falecida revista Manchete da década de setenta com visão aérea da então recém instalada usina nuclear brasileira.

Há exatamente uma semana che­gou à mesa do ministro da Ciên­cia e Tecnologia, Aloizio Mercadante, um relatório explosivo contra membros da cúpula do programa nuclear brasileiro. Com base nas denúncias do documento assinado pelas associações de servidores dos principais órgãos ligados ao programa (a CNEN e o Ipen), Mercadante pediu uma imediata investigação in­terna. Em poucos dias convenceu-se de que a situação era, de fato, grave e decidiu agir. A primeira medida será a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves, e de toda a direção do órgão. Gonçalves é responsabilizado, dentre outras coisas, pelo atraso no licenciamento da usina de Caetité que paralisou a extração de urânio e obrigou o Brasil a comprar 220 toneladas do minério no Exterior, ao custo de R$ 40 milhões.

Para Mercadante, trata-se de um constrangimento, já que o País detém uma das maiores reservas de urânio do mundo. Caetité, no entanto, é apenas a ponta de um enrolado novelo que se tornou o pro­grama nuclear. Mercadante ficou chocado ao saber que quatro reatores nucleares utilizados para pes­quisa funcionam sem licença em três campi universitários. O processo de certificação desses reatores foi engavetado pelo presidente da CNEN e por seu diretor de radioproteção e Segurança Nuclear, Laércio Vinhas. “Dá muito trabalho e os reatores estão muito bem”, teria dito Odair Gonçalves, segundo relato de funcionários. Gonçalves nega. “Nosso pessoal está sobrecarregado”, justifica. Mas a gota d’água, para Mercadante, foi saber que Angra 2 opera há mais de uma década sem a “autorização de operação permanente”.

Além das questões técnicas, há críticas sobre o suposto excesso de viagens internacionais de Gonçalves e de nomeações de amigos para cargos de chefia. Seria o caso da física Maria Cristina Lourenço, que chefia a área internacional da CNEN e acompanhou Gonçalves em 11 das 14 viagens que ele fez em 2010. Odair Dias Gonçalves está à frente da CNEN desde 2003. Nesse período, entrou em choque com autoridades do setor e com o corpo de fiscais nucleares. Nem o Itamaraty o tolera e pouco fez em defesa de sua candidatura para cargos na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Foram três tentativas frustradas em 2010. “É um caso raro de unanimidade às avessas”, afirma um assessor de Mercadante. No final do ano passado, Gonçalves filiou-se ao PT. Mas nega interesse na carreira política.

quinta-feira, 24 de março de 2011

GENI, O ZEPELLIN E OS TEMPOS DE INIQUIDADE

“Quando vi nessa cidade tanto horror e iniquidade, resolvi tudo explodir.”
Chico Buarque de Hollanda em ‘A Ópera do Malandro’
Descrição da imagem: Geni, em atmosfera de névoa, observa o dirigível que se aproxima, em vôo rasante e ameaçador.

Desde que me maravilhei com a letra de Geni e o Zepellin, uma das músicas da desafiadora ópera brasileira nos anos de chumbo da ditadura militar, atribuí à tal iniquidade um sentido equivocado, eu a associava a desigualdade e ponto. Nas últimas eleições majoritárias eu recebi um vídeo de um pastor evangélico do Paraná onde o mesmo criticava duramente uma das candidaturas, mas o que me chamou a atenção foi a parte evangelizadora do vídeo na qual o pastor pregava contra a iniquidade. E aprendi que uma sociedade vive uma situação de iniquidade quando os valores por ela eleitos como norteadores do que é ou não aceito se deterioram a tal ponto que, além de passarem a acontecer de forma rotineira e democratizada, passam a vigir como o novo código dessa sociedade.

Não é preciso filosofar nada a respeito, muito menos abrir nossas caixas de ferramentas para se constatar que vivemos um estado de iniquidade nos dias de hoje. Basta olhar ao nosso redor, seja no trânsito, no supermercado, nas relações de trabalho e de confiança, no público alvo de ações e projetos da sociedade civil e do governo. Mais que o comportamento, os valores mudaram. São valores efêmeros, imediatos e convenientes, não existe mais uma idealização de um mundo melhor para além da comodidade. Saramago diz que ‘estamos nos acostumando tanto a ter direitos que esquecemos que para cada direito existe um dever correlato.’ E quando o direito é de outrem, o dever passa a ser nosso e essa dinâmica simplesmente é apagada do código social. Dia desses participei de uma cena e assisti a outra pela televisão: dei uma bronca pública em uma mulher que quase foi atropelada quando ‘ensinava’ sua filha de uns oito anos a atravessar no sinal fechado para o pedestre e à noite vi pela TV uma manifestação em protesto ao atropelamento de uma criança que voltava do colégio de bicicleta, não respeitou a sinalização e morreu atropelada.

Juro que não quero parecer amargo, quem me conhece sabe que minhas mais conhecidas características são o bom humor e a confiança em dias melhores. Mas fica difícil acreditar neles quando se vê, por exemplo, o bulling tomando conta de nossas crianças da mais tenra idade e as mulheres sendo cada vez mais banalizadas, brutalizadas e vitimadas por malucos que as amam demais (sic). A iniquidade é tão sorrateira e tem tanto poder de propagação quanto a AIDS, atinge até os santuários de onde se espera a resistência que perpetuou nossa civilização até os dias de hoje, mesmo diante das catástrofes por nós mesmos criadas. Hoje atravessamos mais um episódio de falta de medicamentos anti HIV e nada plausível foi dito pelo Ministério da Saúde que ao menos tentasse justificar o injustificável. Afinal, é normal ter problemas no processo de abastecimento que vão se somando, se somando, se somando....

Agora, o que mais entristece, para não dizer revolta e emputece (desculpem o termo), é o silêncio da sociedade civil sobre o assunto. Perdeu-se o sentido de urgência que a AIDS tem em suas vísceras. Os mesmos passivistas que se esconderam por detrás dos pilares do auditório Ulysses Guimarães continuam atrás das cortinas, rezando para que não falte seu medicamento ou, quem sabe, sua quimioterapia. A mesma sociedade civil que me apaixonou pela vida social, pelas noções de direitos e deveres, por ser pro ativo e saber a importância que isso tem para a comunidade. O mesmo movimento social organizado do qual me afastei bastante contrariado e artigos anteriores meus podem dar maiores detalhes a respeito. E não sou somente eu, outras pessoas, Ativistas, também estão afastadas e cada vez mais contrariadas com a iniquidade que impera no MOVAIDS.

É, pessoal... Na plenária do Encontro de Pessoas com HIV/AIDS ocorrido em 2007 na cidade de Manaus eu disse, em tom de ironia, que qualquer dia seria formada a Rede de Pessoas Sequeladas pela AIDS, que traria de volta ao movimento o sentimento de urgência tão defendido por Betinho na luta contra a fome. Não uma rede, mas uma horda de famintos que estão em sua última formulação possível do coquetel, pessoas que rodam em suas cadeiras, enxergam ou se apóiam em suas bengalas, pessoas que já deitaram à mesma cama que a Morte e que combinaram com ela que só iriam se alguém pisasse na bola. E tem muita gente pisando feio na bola. Daí o convite para você que se encaixa em alguma das características citadas neste parágrafo, seja no aspecto clínico ou da indignação: queira, por favor retirar seu bilhete em meu guichê no Facebook e embarcar no Zepellin da Resistência.

Chega de tanto horror e iniquidade porque nossa fome é de Vida.

Beto Volpe

sexta-feira, 18 de março de 2011

Qual é a sua, doutor?

Descrição da imagem: perfil de cabeça vermelha, olho destacado com um quebra cabeças colorido onde deveria haver um cérebro. Fonte: 3.bp.blogspot.com
Uma vez mais pipocam alertas de falta de medicamentos do coquetel em várias regiões do país, comprometendo a vida das pessoas com HIV.. Uma vez mais o governo federal emite uma nota técnica recomendando sua substituição para adequar o tratamento de milhares de pessoas às sempre surpreendentes necessidades do Estado. Uma vez mais a resposta da sociedade civil organizada é burocratizada por lideranças mais preocupadas com o formato do que com a essência da luta. E, uma vez mais, o diretor do Departamento Nacional de DST/AIDS/HVs surpreende e diz que ‘"falar isso (que a falta de medicamentos teria virado rotina) de um programa que distribui 20 remédios para pacientes de todo o País é quase uma provocação.".

Doutor Greco, o senhor nem parece o mesmo gestor que há tão pouco tempo igualmente surpreendeu e deu um sonoro puxão de orelhas na sociedade civil, a qual o senhor julgara ‘acomodada’ em relação ao controle social de políticas públicas em AIDS no país, opinião à época compartilhada pela UNAIDS do Brasil. Nem parece o mesmo técnico que garantiu que os problemas de desabastecimento faziam parte do passado e que já haviam sido solucionados com a aquisição de estoques estratégicos de medicamentos. E novamente o Ministério da Saúde afronta as pessoas que vivem com HIV e os profissionais envolvidos em seus tratamentos com problemas nos estoques do Atazanavir, Saquinavir e Didanozina, utilizados por cerca de 40 mil pessoas em todo o Brasil.

Só não afronta algumas lideranças do movimento nacional de luta contra a AIDS e não é de hoje. Vale lembrar que em junho do ano passado, ao final de um longo desabastecimento de diversos medicamentos, houve manifestação na abertura do Congresso Nacional de Prevenção em Brasília, manifestação essa considerada ofensiva pelo (sic) representante das pessoas com HIV para o evento e por diversas ‘lideranças’ através de furtivos olhares por detrás dos pilares do Auditório Ulysses Guimarães. Vale também recordar que as redes de pessoas com HIV não redigiram qualquer manifesto formal, ao contrário de outras redes presentes ao congresso. Tais quais os três macaquinhos, taparam os olhos, os ouvidos e especialmente a boca, compactuando com o então ministro Temporão de que havíamos sido ‘mal educados’ e que a manifestação teria sido inapropriada.

E agora, além de mal educados, os que se atrevem a se indignar são considerados provocadores. Não era isso que o doutor queria? Que a sociedade civil fosse incômoda ou invés de acomodada? Ou agora o senhor está a fazer média com o novo chefe e ao repetir os mesmos equívocos do passado nem satisfações nos dá, apenas diz que "Não há uma justificativa única. Foi uma junção de atrasos, problemas que foram se somando". Lamento discordar, doutor Greco, mas há uma única justificativa, sim, que aglutina e potencializa todos os fatores que ocasionam essa sucessão de desastres: a incompetência. Incompetência em administrar uma logística que está implantada há 15 anos no país e em dar tranqüilidade aos cidadãos brasileiros que dela dependem para viverem suas vidas.

Este ano temos os encontros políticos do movimento. A sociedade civil organizada em AIDS terá a árdua missão em decidir se é acomodada ou provocadora. Se existe para soar vuvuzelas ou para tapar o sol com as próprias mãos.

sábado, 12 de março de 2011

Carta aberta para Sandy

Por Tica Moreno*

Pessoal, lá vai um texto que achei bem interessante. Ainda pela Semana da Mulher. Há muita controvérsia, mas é disso que é feita a evolução, não?
Beto Volpe
Descrição da imagem: foto de Sandy com camiseta da cerveja em referência.

Quando eu estava no ensino médio, você fez um desserviço pras meninas da minha idade, que é a mesma idade que a sua.Foi a época da “garota sandy“: uma jovem, bonita, magra, de cabelo liso, a filha que todo pai e mãe queria ter, rica…. e virgem. E que afirmava que queria casar virgem.A garota sandy era aquilo que nenhuma de nós éramos, mesmo que a gente tivesse uma ou outra característica dessas aí de cima. A verdade é que a gente nem queria ser daquele jeito.Foi a primeira vez (que eu me lembre) que eu me vi sendo comparada com um modelo de mulher que eu não queria ser. E eram os outros que nos comparavam. Aí a gente foi se sentindo inadequada, umas mais, umas menos.Qual era (qual é) o problema de não casar virgem? (Isso pra não perguntar qual é o problema de não querer casar…)Você não acha um problema de fato, até porque há alguns anos você afirmou que não tinha casado virgem. Fico até aliviada por você, porque imagina se não fosse bom com seu marido? Ainda mais se a relação de vocês for monogâmica e conservadora… Não desejo uma vida sem orgasmo nem pro meu pior inimigo.Mas voltando. O padrão “garota sandy” não foi uma reportagem qualquer que saiu na revista da folha. Reforçou um padrão que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres vivam sua sexualidade a vida inteira de forma passiva, em função do desejo e do prazer do cara, que faz as meninas e mulheres que são donas do seu desejo serem consideradas vadias, vagabundas, putas, devassas.O machismo faz isso: separa as mulheres entre santas e putas, “valoriza” as santas e puras e desqualifica, discrimina, violenta as “putas”.Deve ter algum motivo pra você se afirmar como santa, e não como puta, numa época da sua vida.E daí eu vou te dizer, caso você ainda não tenha entendido o porquê dessa carta aberta, seu segundo desserviço pras mulheres. Ser a nova garota devassa.Pra quê?? De dinheiro você não precisa.Você não estudou psicologia? [Não, me disseram aí nos comentários que ela estudou Letras, mal aê - mas eu lancei um google e vi que na época do meu ensino médio, de onde eu tirei a memória pra escrever esse post (ano 2000), circulou ainformação da psicologia, rs.] Deveria ter aprendido alguma coisa sobre sexualidade teoricamente, além da prática (que, de novo, espero que seja boa pra você).Nem as santas, nem as putas, são donas do seu desejo, do seu corpo, da sua sexualidade. O símbolo da devassa, e o imaginário que essa cerveja construiu – e que você vai propagandear – é o de uma mulher feita nos moldes do que a maioria dos homens tem tesão por. Importa o tesão deles, e não o nosso.As revistas femininas (e as masculinas) fazem isso também. Sabe aquelas dicas da Nova pra fazer qualquer mulher deixar qualquer homem louco na cama? Então. É o mesmo machismo, a mesma submissão.Você de alguma forma tá querendo apagar a imagem de santa, usando a idéia de que você pode ser devassa?Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.

* Tica Moreno é formada em Ciências Sociais, foi do DCE da USP e do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CEUPES). Atualmente trabalha na Sempreviva Organização Feminista, SOF. Tica é militante da Marcha Mundial das Mulheres.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Admirável Mundo Velho

Pessoal, não é falta de criatividade, não. Mas nesta Semana Internacional da Mulher reedito um artigo meu de julho do ano passado, justamente por nada haver mudado, ao contrário. É só trocar os nomes para Lavínias, Vanessas, Marias de toda sorte. Lamentavelmente não dá para celebrar um feliz dia das mulheres... Mas é de desejar o fortalecimento daquelas e daqueles que atuam em área tão traumatizante como a da violência contra a mulher. Muitas felicidades a todas e todos que atuam nessa luta, para que um dia possamos dizer:
Feliz Dia Internacional da Mulher!!!
Beto Volpe

Descrição da imagem: mulher sentada no chão de uma calçada, com os braços ao redor das pernas, cabeça abaixada, cabelo cobrindo todo o rosto, foto em branco e preto.

Está atrasado quem pensa que o mundo está mudando. Ele já mudou. É outro, completamente diferente, com tantas inovações que sequer imaginávamos desfrutar. Quem é de minha época lembra que somente o Capitão Kirk e a tripulação da Enterprise usavam telefones portáteis do tamanho da palma de suas mãos. O desejo Divino de união da raça humana teve um grande reforço com a rede mundial de computadores e todos os benefícios dela advindos. Mas algumas coisas parecem não mudar ou as mudanças estão acontecendo em ritmo muito mais lento do que a ciência. A vulnerabilidade da mulher nas relações afetivas é uma das mais tristes constatações de que vivemos um admirável mundo velho. Um mundo onde os avanços tecnológicos nos permitem ter a real noção do quanto ainda guardamos dos tempos da barbárie.

Os noticiários do país não conseguem mudar de pauta. São Eloás, Mércias e Elizas que diariamente inundam nossas vidas de tristeza e, a despeito dos valores envolvidos, encontraram no amor um cruel caminho para seu fim. Cruel porque esse caminho teve a traição e a violência como principais características, seja ao mantê-las confinadas em um apartamento sob a mira de um revólver, seja covardemente lançando o carro em uma represa, seja ardilosamente propondo um acordo para uma suposta paternidade. E a morte trágica e solitária como destino comum.

Não há como negar que mudanças aconteceram no âmbito social. Maria da Penha mostrou o caminho e hoje muitas mulheres se valem de diversos recursos para que seus direitos como seres humanos sejam respeitados por quem vive ou viveu a seu lado. A livre manifestação de pensamentos continua sendo a maior aliada para a expansão e garantia desses direitos, mas algo mais mudou. O TER parece ter vencido a batalha contra o SER. Não importa o que eu seja, importa ter meus desejos satisfeitos. E se o outro estiver no caminho deles, é natural que eu passe por cima desse outro da forma como for mais conveniente para mim. Eu tenho uma namorada. Eu tenho mulher e filhos. Eu tenho. E já que tudo me pertence, é meu direito dispor e descartar quando eu bem entender.
E assim convivemos com situações que, de tão terríveis, nos parecem saídas de um filme de terror classe B, muito diferentes das perspectivas anunciadas pela série Jornada nas Estrelas. A diferença é que estamos dentro da tela e não mais na platéia. E, mesmo fazendo parte da produção, não estamos conseguindo mudar o final desse filme. Um filme que, de tantas vezes visto, passa perigosamente a fazer parte de nossa rotina. Assim como as viagens espaciais os telefones celulares, a internet e outras maravilhas de um mundo novo ainda nada admirável.
Beto Volpe

O verdadeiro pai

Isso é postura de campeão! Não as bobagens homofóbicas que frequentemente escutamos em entrevistas esportivas. Deliciem-se!
Beto Volpe

Descrição da imagem: criação artística de Klaus Bernhoeft com Toninho Cerezzo ao fundo, sua filha Lea T. em primeiro plano e entre os dois o menino Leandro, todos cercados por uma linda revoada de borboletas coloridas. Um ursinho de pelúcia sobre a cama completa o quadro.

"A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade, filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independente da sua orientação sexual [...] Apesar de notar as diferenças, percebi também que nada poderia fazer, e tudo o que poderia dar a ela/ele era o meu amor incondicional [...] Você, Lea T. Cerezo, sabe muito mais que embaixadinhas. Teve coragem de, elegantemente, tentar quebrar paradigmas e mostrar ao mundo que devemos aceitar as diferenças [...] Menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim”. Esse depoimento emocionante foi dado pelo pai da transexual Lea T. - uma das top model do momento - para a revista LOLA deste mês. A elegância das ideias nos remete ao baile com bola no pé que a seleção canarinho de 1982 deu para o mundo durante a Copa da Espanha. O pai de Lea T., Toninho Cerezo, junto com um time de craques como Falcão, Sócrates, Júnior e Zico formaram uma seleção que mesmo não vitoriosa naquele ano, ficou eternizada pelos passes e pela magia de um futebol arte que o Brasil parece perder a cada ano. Para quem não viu Garrincha driblar ou a seleção de 70, esse time foi o mais próximo do que podemos chamar de “o sublime no futebol”. E isso é maior do que qualquer Copa.Toninho Cerezo é forma e conteúdo. Por isso, ele sempre será o patrão da bola. A arte de seu futebol se estendeu para sua vida. Dá pra entender a chateação que Lea T. teve com a imprensa brasileira logo depois que ela começou a aparecer nos noticiários internacionais. A top ficou magoada com os comentários que seu pai não a aceitava e não a entendia. É lógico, o certo é pensar que o ambiente machista do futebol também estivesse presente na cabeça de seus jogadores. Mas erraram todos, menos o pai e seu sentimento amoroso que passa por cima de todos os preconceitos até dos tão esclarecidos jornalistas. Toninho driblou a todos por amor a sua filha.
Vitor ângelo para o Blogay da Folha.com

quinta-feira, 3 de março de 2011

Agite em Paz, Júlio.

Com o tempo fica mais fácil conviver com a morte. A nossa morte. A perda de pessoas queridas ainda é muito dolorosa, ainda mais quando sabemos ser uma pessoa irmã de sangue. Resta continuar acreditando que tudo tem um sentido e um propósito, já que tudo é consequência de algo, a Natureza nos demonstra isso com frequência.
Com a passagem de Júlio Rodrigues, o Júlio da ONG Katiró de Manaus-AM perdem os amigos e amigas, companheiros e companheiras de luta pelos direitos humanos na área da Saúde. Mas perdem, também, as populações ribeirinhas, de fronteira e, especialmente, as pessoas vivendo com HIV não só da Amazônia, mas de todo o Brasil. Você fará falta entre nós, Júlio. Mas tenho certeza que irá agitar sua nova comunidade. Agite em Paz, meu amigo.
Beto Volpe
Descrição da imagem: laço da solidariedade na cor preta.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Arca da Esperança

“Depois de mais sete dias, Noé novamente enviou a pomba e ela voltou com uma folha de oliva no seu bico e então ele soube que as águas tinham abrandado.”
Bíblia Sagrada

Descrição da imagem: desenho de arca com os bichos, ladeada por uma baleia e emoldurada por um belo arco íris.

Mesmo não morando na região metropolitana de São Paulo, todos sabemos o que é um dilúvio e o que ele pode fazer com nossas vidas. Todos também conhecemos a passagem bíblica onde Noé foi chamado por Deus para construir uma arca onde coubessem exemplares de sua Criação, que seriam salvos das águas. Porém, por muitas vezes nos deparamos com verdadeiros dilúvios a inundar nossas vidas de dor, de perdas e que se tornam um verdadeiro teste para nossa resistência e nossa fé. Olhar ao redor e não enxergar um porto seguro não é nada fácil, o que nos resta é a esperança, A esperança de que um dia uma pomba retornar com a anunciação do fim do dilúvio. E do começo de uma novo período em nossas vidas, devidamente adubadas pelas turbulentas águas da adversidade.

Era novembro de 2008 e lembro de uma mesa sobre vacinas em um encontro de pessoas vivendo com HIV onde, ao final das apresentações e aberto o debate, inquiri sobre a recém divulgada.cura de um inglês com a tecnologia das céulas tronco. Causou-me espanto a resposta de um dos palestrantes quando disse que ‘por esse motivo que nós, pesquisadores, não gostamos de adiantar resultados, eles despertam esperança nas pessoas’. Naturalmente que se seguiu uma saraivada de protestos, afinal, de que acham que nós vivemos? O que acham que as pessoas com HIV respiram a cada tomada de medicamentos? Não fosse a esperança em dias melhores teríamos uma adesão ao tratamento muito mais comprometida, maior banalização na prevenção e muito mais problemas a serem resolvidos tanto por nós quanto pelos gestores e os próprios cientistas.

E de Pernambuco vem uma bela pomba trazendo em seu bico uma proteína que pode resultar em uma vacina terapêitica para quem já vive com o vírus. A parceria de três universidades públicas produziu um conhecimento que pode nos aliviar da enorme carga de medicamentos e nos propiciar melhor qualidade de vida. Mais que uma provável vacina, um estímulo e tanto para que nos cuidemos ao máximo, pois grandes novidades estão sendo trazidas à luz. Alem da descoberta brasileira e a cura do inglês, grandes avanços têm sido apresentados nas áreas da genética e nanotecnologia, quebrando o monopólio do saber hoje nas mãos dos laboratóros farmacêuticos.

Sim, é cedo demais para sairmos às ruas celebrando um resultado que pode nem chegar tão cedo. Mas devemos, sim, festejar mesmo que intimamente cada avanço da ciência no caminho da cura da AIDS, ou ao menos de um manejo menos agressivo dessa enfermidade. É essa fé em dias melhores que faz com que os medicamentos desçam nossa goela abaixo, mesmo que saibamos os sérios danos que eles podem nos causar. É essa esperança, por vezes tão ausente mesmo de cautelosos ativistas, que nos faz acreditar que um dia acordaremos e leremos na internet:

DESCOBERTA A CURA DA AIDS !

Será mais que a pomba, será o próprio arco íris anunciando uma nova vida para as pessoas com HIV e um novo mundo para toda raça humana.