Follow by Email

Total de visualizações de página

Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2012 - O final dos tempos... sombrios!

Descrição da imagem: fogos de artifício dourados espoucam no céu noturno...

Amigas e amigos, este ano o Carga Viral entrou em operação, positivo e operante. Foram mais de quinze mil acessos e algumas polêmicas, sendo que estas são a proposta principal do blog, que é desconstruir a insustentável certeza de que a epidemia de AIDS está sob controle.

Um tema recorrente foi o das deficiências e suas relações perigosas com homossexualidade, AIDS e pecado. Também foram abordados outros temas relacionados a humanidades, sempre tratados com o rigor ou o carinho merecidos, como a disparidade de posturas da sensacional Eliana Blum e do ultimate fitgher Rafael Bastos, ambos jornalistas e com missões tão díspares nesta existência.

Bolsonaros, Malafayas, Magnos, Myrians e outros bichos mal amados ou bichas mal comidas também desfilaram por aqui, sempre envoltos em trevas e malignidade. Sorte termos representantes no Congresso e na sociedade civil que fazem frente a esses seres abissais que propagam a lâmpada ao invés da luz.

Quero agradecer de coração a todo mundo que prestigiou este trabalho que não é dos mais rebuscados, mas tenham certeza que tudo que é escrito aqui veio do fundo de meu coração e de minhas mitocôndrias mutantes.

Que em 2012 o mundo seja mais compreensível e solidário er que tenhamos mais boas notícias para divulgar e comemorar. A lista de desejos é enorme, da cura da AIDS ao fim da intolerância. Ao invés do final dos tempos, que seja o final dos tempos sombrios.

Feliz Ano Novo!

Beto Volpe

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Dança dos Famosos

Descrição da imagem: mão levantando malandramente a ponta de um tapete e varrendo a sujeira para debaixo,

"Artigo publicado na edição de hoje do diário 'A Tribuna do Litoral Paulista';


A morte de Rodolfo Bottino pegou a todos de surpresa. Havia muito tempo que um famoso não morria com AIDS, ao menos publicamente. Isso foi rotina no início dos tempos, quando não havia muito que fazer e menos ainda onde se esconder, de Rock Hudson até Sandra Bréa e Cazuza muitos foram aqueles que tombaram sem saber direito o que estava acontecendo. Com a chegada do coquetel as duas necessidades foram supridas, finalmente havia um tratamento eficaz e a invisibilidade virou uma opção sedutora, face ao preconceito que não tem fim.

Não obstante a resposta científica ser eficaz, sua segurança sempre foi colocada em questão por vários motivos como a alta potência dos medicamentos e a celeridade de sua aprovação  nos anos 90. E após a lua de mel com a ciência, as pessoas com HIV se depararam com cânceres, acidentes cardiovasculares, danos ósseos, demência  e outras doenças relacionadas à terceira idade. Os ativistas em direitos humanos que vivem com HIV também perceberam que entre eles o quadro era o mesmo e, ainda assim, nenhuma providência eficaz foi tomada pela sociedade civil organizada em AIDS para pressionar o governo a estudar melhor o assunto. E este fez ouvidos moucos e continuou a propagandear o melhor programa de AIDS do mundo.

 Até que um estudo do ano passado realizado pela UFRJ demonstrou que as pessoas com HIV estão morrendo mais de causas não determinantes de AIDS do que da própria doença, mas que certamente estariam relacionadas a ela. Isso porque a evolução de óbitos por problemas cardiovasculares e cânceres entre a população em geral ficou em 0,8% ao ano, ao passo que entre pessoas com HIV esse crescimento foi acima de 8%. Outro estudo, este do Hospital das Clínicas da USP de 2009, relata que a necrose óssea, que pode levar a pessoa a uma situação de deficiência, tem uma incidência de 4% entre pessoas com HIV ao passo que entre a população é de 0,01% . Enfim, em junho deste ano a revista Nature Genetics publicou estudo britânico evidenciando que os medicamentos aceleram o envelhecimento por conta dos danos causados ao DNA da mitocôndria. Não com essa riqueza de saber , mas é exatamente o que vimos dizendo há pelo menos dez anos.

E o que a morte de Bottino tem a ver com isso? Tudo. Ele sofreu uma embolia (cardiovascular) em um pré-operatório para uma cirurgia no quadril (osteonecrose). Ele foi mais um que não teve o CID determinante de AIDS em seu atestado de óbito, mas que teve nela sua causa primária. Se estivermos morrendo mais de efeitos colaterais do que de AIDS são pelo menos onze mil mortes diluídas na epidemiologia, a reforçar o pior estigma que se poderia adotar em AIDS: o de que ela está sob controle. Enquanto isso as disciplinas médicas que antes atendiam a um público acima de 60 anos agora não sabem ao certo o que fazer com jovens na menopausa ou com disfunção erétil, quando não com uma grave patologia que, associada ao quadro de AIDS, eleva as perdas de amigos e amigas no dia a dia dos serviços de saúde.

Bottino querido, você talvez seja nosso Rock Hudson, nossa Sandra Bréa, nosso Cazuza. Quem sabe sua passagem acontecendo nessas circunstâncias leve essa discussão para onde deveria estar há tempos e que as atitudes não tardem. Quem sabe você não seja o primeiro de uma série de famosos que ainda jovens irão apresentar problemas cardiovasculares, linfomas, embolias e outras doenças da longevidade. A dança dos famosos, que um dia foi a mais tocada nos salões de baile da epidemia, voltará a desafinar de forma a incomodar quem fica sentado nas mesas, ouvindo a orquestra tocar e esperando que a noite acabe.

Bottino, prepare uns bons Toucinhos do Céu para quando a gente chegar!

Beto Volpe
Ativista em Direitos Humanos na área da Saúde

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O sustentável brilho no olhar


Descrição da imagem: desenho de um gigantesco policial uniformizado conduzindo um franzino jovem algemado.

Semana passada fiz palestras sobre cidadania e saúde em duas unidades da Fundação Casa, que executa sentenças por atos infracionais de adolescentes e jovens no estado de São Paulo. Não foi nenhuma novidade para mim, já fiz esse tipo de intervenção várias vezes, mas foram dois momentos absolutamente distintos. Em um, a sensação de que havia uma energia tensa e contida que a qualquer momento poderia explodir. Em outro, uma energia acolhedora e fluída, sendo liberada a todo instante.

Quinta feira bem cedinho, chovia muito no litoral de SP quando adentrei à primeira unidade. Após a confraternização com os técnicos fui direto para o pátio da Unidade de Internação, onde cerca de 35 jovens me aguardavam ladeados por pedagogas, psicólogos e seguranças. Como o humor faz parte de minha vida, é assim que toco a atividade do início ao fim. E é costumeira a reação imediata, o humor provocando empatia. Mas daquela vez não houve nem um sorriso na piadinha de arranque. Blablablá, outra piadinha e... Nada. E assim foi até começar a última parte, onde abro minha condição sorológica e trago para a realidade todos os conceitos que estavam vagando entre os neurônios. A partir daí a situação mudou e finalmente interatividade e algumas identificações tiveram espaço.

Mas aquela reação, ou a falta dela, não me saía da cabeça e perguntei às técnicas o que teria acontecido que tornara aquela palestra tão diferente. Foi aí que elas me disseram que na véspera havia sido desinternado um número grande de jovens por conta do Natal e que os ali presentes estavam na maior deprê e muito putos da vida. Lembrei de algumas internações minhas, estas em hospitais, quando ficava pra baixo quando companheiros de internação saíam e eu ficava lá, com as superbactérias. Na continuação do papo me foi passado o resultado de um levantamento informal dizendo que a grande maioria dos jovens ali internados não sabe a profissão dos pais, o nome dos avós, a história de sua família e de suas raízes. Na mesma hora voltei a, mentalmente, encarar seus olhares no início tão vazios, quando não hostis, e depois tão surpresos por tanta identificação em tomar porradas na vida. E pensei nas pessoas que têm a opinião formada de que 'esses pivetes não têm jeito'. Têm, sim, mas precisam muito do apoio de suas famílias. Que, ao que tudo indica, precisam urgentemente de apoio do Estado.

Sexta, dia abençoado da semana, com muito sol e chão até chegar na segunda unidade, inaugurada há pouco tempo. Muito bem recebido pelos novos amigos fui levado a uma sala onde a mesma quantidade de jovens da outra unidade me aguardava, audivelmente ansiosos. Bastou eu ser apresentado para que um deles se levantasse lá no fundo e exclamasse:

- Bem vindo, senhor. A gente agradece sua preocupação com todo mundo que tá aqui.

Uau, como diria Michael Jackson. Isso sim que é recepção e esse foi o tom dali pra frente. Perguntas a todo instante, liberdade para que me questionassem sobre riscos no fio terra e na linguada, por exemplo. O distanciamento que aconteceu na outra unidade foi definitivamente invertido quando me surpreendi mostrando minha cabeça de fêmur no vidro bem no meio deles, em uma relação de confiança que muitos consideram loucura. Quando chegou o depô veio o silêncio atento, novamente a ficha caindo com as informações recém adquiridas. Mas assim que o assunto caiu nas drogas e eu assumi que sou usuário em abstinência da maioria das drogas, especialmente das que mais me dão prazer, aí só faltou pedido de namoro. A euforia reinou e foi uma despedida com a certeza do breve retorno.

Como eu amo o que eu faço. Que prazer é esse de ver o brilho da cidadania em um olhar ofuscado pelas dificuldades que sempre fizeram parte de suas vidas. Mas uma coisa é evidente: não há medida sócio educativa eficaz sem uma ação mais contundente do Estado no desenvolvimento dessas famílias que também só conheceram desgraças desde sempre. A rede de proteção existe, faltam recursos e vontade política, para variar só um pouco.

Enquanto isso, mesmo com iniciativas maravilhosas dos técnicos das unidades, os olhares irão continuar foscos, como uma catarata social que não há cirurgia que cure. Só a luz da cidadania traz de volta o sustentável brilho no olhar.

Beto Volpe

sábado, 17 de dezembro de 2011

Rafael Bastos fala sobre censura em seu blog

Descrição da imagem: pimentas vermelhas e verdes e os dizeres 'no dos outros é refresco'.

Olá. Cheguei aqui pela busca do Google+. Então, não tenho absolutamente nenhum controle sobre os comentários dos blog. Se tenho, este conhecimento nunca me foi repassado.
Eu nunca deletaria comentário do blog. Pra falar a verdade eu raramente os leio. Raramente mesmo.
Creio que o serviço deva ter algum sistema de reconhecimento de palavras ou algo do gênero.
Antes de reclamar como uma cadela que teve o rabo pisado, volte lá, refaça o comentário e veja o que acontece.
Apenas posso te garantir que não tenho absolutamente nada a ver com isso.
Até
Rafinha

Rafael, ponto pra você, ao menos dá a cara a tapa.
Mas você acaba de demonstrar a falta de cuidado que tem no desempenho de sua profissão,ainda mais levando em conta sua influência sobretudo sobre o público jovem:
1. Não tem controle sobre os comentários em seu blog (irresponsabilidade).
2. Raramente, mesmo, lê os comentários em seu blog (descompromisso).
3. Atribue ao ‘sistema’ a responsabilidade, como qualquer banco dora de operação (leviandade).
4. Diz não ter nada a ver com o conteúdo de um blog que leva seu nome (dissimulação).
Quanto a voltar e refazer o comentário, desculpe. O timming daquilo já foi, é só esperar você falar a próxima bobagem, questão de tempo. E pouco, tenho certeza.
Agora, o interessante é que você gosta do termo ‘cadela’, já o havia usado antes, não? É assim que você costuma chamar as mulheres que te rodeiam ou usa o termo somente para ofensas públicas?
E já que você se deu ao trabalho de vir aqui expôr suas razões, não custa dar uma lida no artigo ‘O humor intolerante’, neste mesmo site. Não que isso irá mudar algo em sua conduta, longe de mim tal pretensão. Mas é sempre bom conhecer outros pontos de vista sobre o que fazemos, mesmo para alguém com um ego tão grande, maior até que sua legião de seguidores.
Beto Volpe

sábado, 10 de dezembro de 2011

Rafinha Bastos censura piada


Descrição da imagem: homem de bigodes e terno dando palmadas no bumbum de um humorista vestido de mulher.

Os ditos populares não são populares à toa, eles emitem uma sabedoria ancestral que vemos comprovada a todo instante. Um deles é 'no dos outros é refresco' que significa 'tô pouco me importando se alguém sairá machucado com minha atitude'. Pois foi o que fez o ex integrante do CQC ao censurar uma piada sobre humoristas em seu blog.

Pois bem, o sarrista Rafael Bastos agora tem um blog sobre MMA, bem mais a sua cara, chamado Vale Tudo. E lá ele continua propagando o calvário do injustiçado que está pagando os pecados de todos nós. E hoje ele criticou a demissão de um lutador do UFC por uma piada de mau gosto sobre estupro postada em seu Twitter: "Se uma van do estupro fosse chamada de van da surpresa, mais mulheres não se importariam em andar nelas. Todo mundo gosta de surpresas." E finalizou com a pérola da arrogância:

"PS: O Brasil já viveu uma experiência muito parecida. Um comediante foi torturado por causa de uma piada de estupro. No caso do “humorista” (entre aspas mesmo), a punição foi injusta. Ao contrário da rejeição sofrida, ele deveria ter sido torturado e surrado aos olhos do povo. E o idiota continua aí. Vivinho da Silva."

Cadastrei-me no blog e postei dois comentários, o primeiro fazendo uma piada sobre o PS acima, dizendo que de tudo ali escrito eu só concordava que o humorista era um idiota. E também o comentário abaixo:

Beto Volpe 1 hora atrás: Alias, eu acho um barato esse povo brasileiro, especialmente os mais jovens. Vivem espinafrando o Brasil, que somos atrasados em relação ao hemisfério norte e tal. Agora, na hora de agir como eles, de ter posturas humanistas como eles... vem à tona o Macunaíma que existe em nós e continua o buga uga de sempre.

E só o último foi postado. A piada sobre humoristas idiotas foi CENSURADA pelo sarrista Rafinha, que tanto defende a liberdade de expressão. Seja coerente, tchê! Se você se sentiu ofendido pelo teor da piada e por isso a censurou, por que continuar a cavar seu próprio açoite?

Isso dá uma piada e tanto sobre o humorista masoquista, que sente prazer ao ser surrado em praça pública, doa a quem doer. Literalmente.

É, Rafael, no dos outros é refresco.

Beto Volpe

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Você consegue viver sem drogas legais?

Pessoal, mais um excelente artigo da jornalista Eliane Brum, publicado na revista Época. A identificação com Pedro foi inevitável.
Beto Volpe

Descrição da imagem: detalhe de homem entornando frasco de comprimidos em sua mão espalmada (e provavelmente trêmula...)

Pedro – o nome é fictício porque ele não quer ser identificado – é um cara por volta dos 40 anos que adora o seu trabalho e é reconhecido pelo que faz. É casado com uma mulher que ama e admira, com quem tem afinidade e longas conversas. Juntando os fundos de garantia e algumas economias os dois compraram um apartamento anos atrás e o quitaram em menos de um ano. Este é o segundo casamento dele, e a convivência com os dois filhos do primeiro é constante e marcada pelo afeto. Ao contrário da regra nesses casos, a relação com a ex-mulher é amigável. Pedro tem vários bons amigos, o que é mais do que um homem pode desejar, acha ele, porque encontrar um ou dois bons amigos na vida já seria o bastante, e ele encontrou pelo menos uns dez com quem sabe que pode contar na hora do aperto. A vida para Pedro faz todo sentido porque ele criou um sentido para ela.
Ótimo. Ele poderia ser personagem de uma daquelas matérias sobre sucesso, felicidade e bem-estar. Mas há algo estranho acontecendo. Algo que pelo menos Pedro estranha. Há dois anos, Pedro toma Lexapro (um antidepressivo), Rivotril (um ansiolítico, tranquilizante) e Stilnox (um hipnótico, indutor de sono). Dou os nomes dos remédios porque os psicofármacos andam tão populares que se fala deles como de marcas de geleia ou tipos de pão. E o fato de nomes tão esquisitos estarem na boca de todos quer dizer alguma coisa sobre o nosso tempo.
Pedro conta que a primeira vez que tomou antidepressivo, anos atrás, foi ao perder uma pessoa da família. A dor da perda o paralisou. Ele não conseguia mais trabalhar. Queria ficar quieto, em casa, de preferência sem falar com ninguém. Nem com a sua mulher e com os filhos ele queria conversar. Pedro só queria ficar “para dentro”. E, quando saía de casa, sentia um medo irracional de que algo poderia acontecer com ele, como um acidente de carro ou um assalto ou ser atingido por uma bala perdida. Ele mesmo pediu indicação de um bom psiquiatra a uma amiga que trabalha na área. Pedro sentia que estava afundando, mas temia cair na mão de algum charlatão do tipo que receita psicofármacos como se fossem aspirinas e acredita que tudo que é do humano é uma mera disfunção química do cérebro.
 O psiquiatra era sério e competente. Ele disse a Pedro não acreditar que ele fosse um depressivo ou que tivesse síndrome do pânico, apenas estava em um momento de luto. Precisava de tempo para sofrer, elaborar a perda e dar um lugar a ela. Receitou um antidepressivo a Pedro para ajudá-lo a sair da paralisia porque o paciente repetia que precisava trabalhar. A licença em caso de luto – dois (!!!!) dias, segundo a legislação trabalhista – já tinha sido estendida por um chefe compreensivo. Por Pedro ser muito bom no que faz recebera o privilégio de duas semanas de folga para se recuperar da perda de uma das pessoas mais importantes da vida dele. Pedro não queria “fracassar” nessa volta. E não “fracassou”. Com a ajuda do antidepressivo, depois de algumas semanas ele voltou a produzir com a mesma qualidade de antes. Três meses depois da morte de quem amava, ele já voltara a ser o profissional brilhante.
Pedro tomou o antidepressivo por cerca de um ano, com acompanhamento rigoroso e consultas mensais. Como não agradava nem a ele nem era o estilo do psiquiatra que escolheu, pediu para parar de tomar o remédio. O psiquiatra concordou, e Pedro foi diminuindo a dose da medicação até cessar por completo. Tocou a vida por mais ou menos um ano e meio.
Neste intercurso, ele se tornou ainda mais criativo. Aumentou o número de horas de trabalho, que já eram muitas, porque se sentia muito potente. Pedro multiplicou o seu sucesso, que sempre foi medido por ele não pela quantidade de dinheiro, mas de paixão. E achava que tudo estava maravilhoso até começar a ter insônia. Pedro dormia e acordava, sobressaltado. Sem conseguir voltar a dormir, pensamentos terríveis passavam pela sua cabeça. Pedro pensava que perderia todo o seu sucesso, a sua possibilidade de fazer as coisas que acreditava e às vezes temia morrer de repente. As noites de Pedro passaram a ser povoadas por catástrofes imaginárias, mas bem reais para ele. E, toda vez que saía de casa pela manhã, voltara a ter medo de ser atingido por alguma fatalidade, por algo que estaria sempre fora do seu controle.
Algumas semanas depois do início da insônia, Pedro paralisou de novo. Não conseguia trabalhar – e este, para Pedro, era o maior dos pesadelos reais. Voltou ao consultório psiquiátrico e há dois anos toma os três remédios citados. Pedro, que sempre tinha olhado com desconfiança para a prateleira de psicofármacos, começou a achar natural precisar deles para enfrentar os dias e também as noites. “Que mal tem tomar uma pílula para dormir?”, dizia para a mulher, quando ela o questionava. “Ou tomar umas gotas de tranquilizante para não travar o maxilar de tensão? Ou 15 mg de antidepressivo para vencer a vontade de se atirar no sofá e ficar apenas olhando para dentro?” Sua mulher conta que ele parecia o Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, tomando comprimidos no banheiro e dizendo à esposa: “Isso aqui não tem problema nenhum. Todo mundo faz isso. Não tem problema nenhum”.

Em 2011, Pedro teve momentos em que achou que tudo estava muito bem mesmo. E, se para tudo ficar tão bem era preciso tomar algumas pílulas, não tinha mesmo problema nenhum. Pedro talvez nunca tenha produzido tanto como neste ano e, por conta disso, até ganhou um aumento de salário sem precisar pedir. Mas, às vezes, não com muita frequência, ele se surpreendia pensando que algumas dimensões da sua vida tinham se perdido. Pedro não tinha mais o mesmo desejo pela sua mulher, e o sexo passou a ser algo secundário na sua vida. Não tinha mais tanto desejo pela sua mulher nem desejo por mulher alguma. “Efeito colateral do antidepressivo”, conformou-se.
Pedro trabalhava tanto que tinha reduzido às idas ao cinema, os encontros com os amigos e a pilha de livros ao lado da cama continuava no mesmo lugar. Ele também tinha perdido o interesse por viagens de lazer com a família, porque estava ocupado demais com seus projetos profissionais. Pedro constatou que os momentos de subjetividade eram cada vez mais escassos na sua vida. E, embora o trabalho lhe desse muita satisfação, ele tinha eliminado uma coleção de pequenos prazeres do seu cotidiano. Por volta do mês de setembro, Pedro começou a sentir uma difusa saudade dele mesmo que já não conseguia ignorar.
“Devagar eu comecei a perceber que tinha criado uma vida que não podia sustentar sem medicação. E tinha aceitado isso. Como, acho, boa parte das pessoas que conheço e que tomam esse tipo de remédio”, conta. “Eu só consigo fazer tudo o que faço porque tenho essa espécie de anabolizante. Sou um bombado psíquico. Vivo muitas experiências todo dia e não tenho nenhum tempo para elaborar essas experiências, como não tive tempo para elaborar o meu luto. É uma vida vertiginosa, mas é uma vida não sentida. Às vezes tenho experiências maravilhosas, mas, na semana seguinte, ou na mesma semana, já não me lembro delas, porque outras experiências se sobrepuseram àquela. E sei que só durmo porque engulo pílulas, só acordo porque engulo pílulas. Só suporto esse ritmo porque engulo pílulas. Até pouco tempo atrás eu achava que tudo bem, então eu ficaria tomando pílulas pelo resto da vida. Em vez de mudar meu cotidiano para que ele se tornasse possível, eu passei a esticar meus limites porque sabia que podia contar com os medicamentos e, se voltasse a cair, me iludia que bastaria aumentar a dose. Eu me tornei uma equação: Pedro + medicamentos.

Aos poucos, porém, comecei a perceber que não é essa vida que eu quero para mim. Tem algo errado quando a vida que você inventou para você só é possível porque você toma três comprimidos diferentes para poder vivê-la. E, talvez, daqui a pouco, eu esteja tomando Viagra para ter desejo pela mulher que amo. Isso aos 40 anos. E, com o tempo, os efeitos colaterais desses remédios vão causar, pelo prolongamento do uso, doenças em outras partes do meu corpo. Eu sei que muita gente, como eu, já se habituou a achar que é normal viver à custa de pílulas. Mas, se você parar para pensar, isso é uma loucura. Isso, sim, é doença. E os médicos estão nos mantendo doentes, mas produtivos, usando os remédios para ajustar a máquina a um ritmo que a máquina só vai aguentar por um certo tempo.

De repente, percebi que eu era uma máquina humana. E que eu estava usando remédios legais como se fossem cocaína e outras drogas criminalizadas. E o mais maluco é que todo mundo acha que tenho uma vida invejável e que está tudo ótimo comigo. Por serem drogas legais, por causa da popularização de coisas como depressão e síndrome do pânico, todo mundo acha normal eu tomar pílula para ter coragem de sair da cama de manhã e pílula para conseguir dormir sem ter medo de morrer no meio da noite. De repente, me caiu a ficha, e eu comecei a enxergar que estamos todos loucos, a começar por mim. Loucos por achar que isso é normal.”
Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele para uma conversa. É um profissional inteligente e sério. E foi de uma honestidade rara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro. “Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração.

Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo. Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.”
Pedro, que nunca foi adepto das famosas resoluções de Ano-Novo, desta vez se colocou uma que talvez seja a empreitada mais difícil que já enfrentou. “Estou reduzindo progressivamente a dose dos medicamentos e vou parar até março. Minha meta, em 2012, e talvez leve muitos réveillons para conseguir alcançar isso, é criar uma vida possível para mim. Uma vida e uma rotina que meu corpo e minha mente possam dar conta, uma vida em que seja possível aceitar os limites e lidar com eles, uma vida em que eu tenha tempo para sofrer e elaborar o sofrimento, e tempo para usufruir das alegrias e dos pequenos prazeres e da companhia dos que eu amo. Sei que vai ter um custo, sei que vou perder coisas e talvez tenha até de mudar de emprego, mas acho que vai valer a pena. Não quero mais uma mente bombada, nem ser uma máquina bem sucedida. Quero só uma vida humana.”

Torço por Pedro, torço por nós.

Eliane Brum

Envelhescentes

Descrição da imagem: casal de idosos descoladíssimo, ela de Marilyn Monroe e ele de pantufas de coelhinho, robe de chambre e cara de safado.

Foi-se o tempo da mantinha xadrez sobre o colo e a solidão como perspectiva. A maturidade hoje tem um elenco enorme de alternativas tanto para elevar a expectativa e qualidade de vida quanto para promover sua vida social, inédita para muitos idosos que chegaram a essa altura da vida com perdas e libertações e, enfim, podem se dedicar a si mesmos. Mas isso está tendo um efeito colateral violento sobre seus filhos e filhas que, impotentes, ficam à beira de um ataque de nervos perante a proatividade ancestral que desafia os limites do próprio corpo e, pior, os desafios do mundo moderno que até dos mais jovens requer prudência e atenção. Tudo o que lhes falta.

Há uns dois anos foi publicada na mídia uma pesquisa que revelava um percentual muito superior de atropelamentos de idosos em relação às demais faixas etárias. E um psicólogo avaliava que os motoristas deveriam ser sensibilizados para essa questão. Tudo bem, o ser humano tem no seu carro uma demonstração de poder, o que causa vários excessos, mas a maior parte dessas infrações ocorreu por imprudência do pedestre ao atravessar a rua. Muitas vezes, para acompanhar o louco fluxo de pessoas à sua volta, é ele quem acaba sendo vitimado, pois lhe faltaram reflexo e agilidade para safar-se daquele carro que dobrou a esquina, inadvertidamente.

Estatuto do Idoso com a mais que merecida (e ainda desrespeitada) garantia de direitos, fervidos bailões da terceira idade onde tudo rola, inclusive o vírus HIV e outras DSTs, grupos de condicionamento físico, auto estima lá em cima no auge da envelhescência, uma segunda adolescência, só que recheada de poder com cobertura de independência. E nós, filhos cinquentões, somos os pais que tentam advertir para os riscos de determinadas atitudes tendo como resposta a mesma que costumávamos dar nos idos dos anos setenta, entre um baseado e uma dose de Meia de Seda:

- Eu sei o que faço de minha vida, não me controle!

E acabam virando notícia na mídia, estatística na saúde pública e um enorme desafio para nós, jovens cinquentões. Temos a tarefa de cuidar de quem de nós cuidou por tanto tempo e não temos nenhum instrumento para isso, além da tentativa de convencimento por práticas mais seguras. Viva o Viagra! Viva o bailão e a sacanagem sem gravidez. Viva a longevidade e a proatividade social da maturidade. Mas viva com a consciência de que o mundo é cada vez mais um grande moinho, onde as pessoas mais desatentas acabam engolidas de alguma forma.

Ou são levadas à beira de um ataque de nervos.

Beto Volpe

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Família Homoafetiva no Brasil


     A família contemporânea se afastou do modelo talhado em séculos passados. Antes, os laços familiares eram formados apenas por critérios patrimoniais e biológicos. Hoje, o elemento unificador da família constitucionalizada é o afeto. As famílias se formam através dos vínculos do amor e afeição. Estes sim são verdadeiros elementos solidificadores da unidade familiar. 

Descrição da imagem: duas alianças nas cores do arco íris, romanticamente encavaladas uma sobre a outra...

Texto de autoria da Dra. Rosangela da Silveira Toledo Novaes, Advogada especializada em Direito Homoafetivo – Direito das Famílias e das Sucessões. Coordenadora da Comissão da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo da OAB-Santos/SP, Presidente da Comissão Estadual da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo do IBDFAM-SP.
A família homoafetiva é uma dentre as várias formas de família. Ela parte da união, por vínculo de afeto, entre pessoas de mesmo sexo. Não tem previsão legal, mas também não tem vedação. Aliás, o STF – Supremo Tribunal Federal, a maior Corte de Justiça do Brasil, no julgamento histórico ocorrido em 05 de maio deste ano (2011), reconheceu, por unanimidade de votos (10 x 0), a União Homoafetiva como entidade familiar, conferindo-lhe todos os efeitos jurídicos previstos para União Estável.
É possível afirmar, com toda tranquilidade, que o resultado do julgamento não foi uma surpresa, o que apenas surpreendeu foi o formato deste resultado (10 x 0). Foi uma resposta aos anseios da sociedade, que vem, paulatinamente, mudando os seus velhos conceitos (e preconceitos), numa evolução crescente. À época, mais de mil e duzentos julgados embasaram a emblemática decisão.
O Poder Legislativo vem se negando a cumprir sua função, que é a de legislar, fingindo não ver que estes relacionamentos geram efeitos jurídicos e que, portanto, precisam ser disciplinados por lei. Ocorre que, mesmo diante desta omissão legislativa, o Poder Judiciário precisa julgar, e como bem diz Maria Berenice Dias[1] “Ausência de Lei não significa ausência de Direito”, os conflitos precisam ser pacificados. E foi isso o que aconteceu, enquanto não houver leis específicas para esta nova, (e ao mesmo tempo “antiga”) forma de família, ora reconhecida, os mesmos dispositivos que disciplinam a união estável heteroafetiva disciplinarão, também, a união estável homoafetiva.
Após o julgamento do STF, já no mês seguinte, em 27 de junho, o Juiz da 2ª Vara de Família e Sucessões de Jacareí, Estado de São Paulo, Dr. Fernando Henrique Pinto, proferiu a primeira sentença convertendo a união estável, entre dois homens, em casamento. No dia seguinte, 28 de junho, a Dra. Júnia de Souza Antunes, da 4a Vara de Família da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília, prolatou a segunda sentença, convertendo a união estável, agora entre duas mulheres, em casamento.
Daí em diante, pelo Brasil afora, a maioria dos pedidos de conversão de união homoafetiva em casamento passou a ser atendida.
O ano de 2011 foi mágico para a população LGBT, que foi brindada, no dia 25 de outubro, com a decisão do STJ – Superior Tribunal de Justiça, que, por votação majoritária (4 x 1), reconheceu a legalidade da habilitação para o casamento civil, direto, entre pessoas do mesmo sexo. Ocorre, no entanto que, diferentemente da decisão do STF, que tem efeito vinculante, a decisão do STJ não obriga os tribunais inferiores. Todavia, cria precedente e influencia nas decisões dos magistrados.
O reconhecimento dos direitos da população LGBT caminha agora a passos largos, mas, na contramão, surge a homofobia que é o medo, a aversão ou o ódio irracional direcionado contra os cidadãos que compõem este segmento. É a causa principal da discriminação e violência física, moral ou simbólica contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. É a falta de respeito às diferenças, que precisa ser combatida com o esclarecimento, de toda a sociedade, seja cidadão LGBT ou não, acerca dos direitos e deveres que temos cada um de nós, vez que somos todos iguais perante a lei. Tal como se deu com o movimento feminista.
Tramita no Congresso Federal o Estatuto da Diversidade Sexual e duas Propostas de Emenda Constitucional: uma que altera o artigo 3º, da Constituição Federal, acrescentando, literalmente, no rol das proibições, a discriminação por Orientação Sexual e identidade de gênero; a segunda, que altera o artigo 7º, e busca conceder licença-natalidade de 180 dias a qualquer dos pais.
No Estatuto são previstos os princípios fundamentais, direito à livre orientação sexual, igualdade, não-discriminação, convivência familiar, direito e dever à filiação, guarda e adoção, e identidade de gênero, entre outros.
Em contrapartida, a bancada religiosa do Congresso Nacional, tenta, também através de uma Proposta de Emenda Constitucional, acrescentar ao artigo 103, da Constituição Federal, a legitimidade das associações religiosas para propor Ação Direta de Inconstitucionalidade e Ação Declaratória de Constitucionalidade de leis ou atos normativos perante a Constituição Federal. Ora, o inciso I, do artigo 19, consagra o Princípio do Estado Laico, que proíbe ao Estado brasileiro manter com religiões e respectivas instituições religiosas quaisquer relações de aliança ou dependência. Os rumos da nação não podem ser definidos nem sequer influenciados pelas religiões. Enfim, nenhum motivo de ordem puramente religiosa pode vir a justificar qualquer forma de discriminação jurídica entre as pessoas, sob pena de ofender dispositivo constitucional.
A Constituição Federal afirma que o Brasil é uma sociedade fraterna, plural e sem preconceitos. Assim, aqueles que são diferentes da maioria devem ser respeitados.
Os indivíduos que compõem a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros) experimentaram toda sorte de sofrimentos originados na intolerância e no injustificado preconceito social. O ser humano parece ter uma enorme dificuldade em aceitar aquilo que não entende, e que, por ser diferente, não está acostumado a lidar.
A homossexualidade é, simplesmente, uma variante da expressão sexual humana, que assim se traduz nos versos de Fernando Pessoa:
“O amor é que é essencial.
 O sexo é só um acidente.
Pode ser igual ou diferente.”
O tema está na pauta, é hora de refletir e discutir, a oportunidade não pode ser desperdiçada.
  [1]  Advogada e Desembargadora aposentada do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Presidente da Comissão Especial da Diversidade Sexual da OAB Federal.
Dra. Rosangela da Silveira Toledo Novaes
 

Advogada especializada em Direito Homoafetivo – Direito das Famílias e das Sucessões.
Coordenadora da Comissão da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo da OAB-Santos/SP.
Presidente da Comissão Estadual da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo do IBDFAM-SP
F. (13) 3223.1898
    (13) 9764-2818


sábado, 3 de dezembro de 2011

Chuvas, lágrimas e comemorações

Pessoal, eu ia escrever um artigo para falar sobre o dia de hoje, Dia Mundial da Pessoa com Deficiência. Mas ao deparar com esse texto de Mariana Reis resolvi dar asas a ótica tão clara e tão carregada de sentimentos e de otimismo.
Beto Volpe

Descrição da imagem: paisagem rural e silhuetas de árvores sob um céu carregado de nuvens ameaçadoras, porém apresentando um rasgo por onde vários e auspiciosos raios de sol atingem a terra.

A chuva não negocia com os Capixabas e principalmente, comigo. Passo os dias com a dor inesgotável ( que muitos já sabem) e ainda tenho que suportar a pressão constante de um céu cinza, carregado e de muitos mergulhos. Apesar de ser solar, não consigo - ainda - enxergar o sol interior como minha amada Soraya Ruffo me recomendou. Como a chuva, as lágrimas não cessam. Mas, porém, contudo, todavia, hoje estou com a alma mais leve depois de REencontrar amigos e fazer novos, em audiência pública em homenagem ao dia Internacional de luta da pessoa com deficiência. Foi a minha primeira aparição em público nesses últimos dias. Saber que meu amigo Claudio Vereza está firme e forte me fez sorrir ainda mais.
No entanto, é preciso estar atento para algumas iniciativas equivocadas, como por exemplo pessoas que vão lá na frente falar de um assunto sem saber absolutamente nada sobre.Para falar bobagens é melhor que não tenha ninguém.

Uma tônica nas falas das pessoas que acham que estão no movimento, é sobre as desgraças vividas pelas pessoas com deficiências (desgraças = sociedade despreparada = sociedade deficiente. Nada a ver com a Pessoa), da vagareza de algumas ações, etc... Sempre o pessimismo em primeiro lugar. Ora, estamos diante de grandes conquistas na área. 30 Anos do Ano Internacional da Pessoa com Deficiência (deflagrado pela ONU em 1981), motivo de grande comemoração, pois pessoas e representações já estavam e estão há décadas acordados para os nossos direitos, o Plano Nacional assinado pela Presidenta no último dia 17, que visa ações em diversas áreas, a Convenção Internacional,  são algumas delas. O Plano  Nacional coloca a pessoa com deficiência como prioridade de governo. Fruto de uma luta de TODOS os movimentos (física, visual, auditiva, intelectual e múltiplas). E por aí vamos..  Será que podemos inverter a ótica?? Ou seja, tirar as pessoas da exclusão (que ainda tem muitas) sem envernizar/infernizar o discurso? Isso também significa dizer que temos muiiiiito trabalhho a fazer. Vamos lá!! Possibilidades e perspectivas: aqui, agora e sempre.

Meus parabéns a todos da Matrix, chumbado, com deficência, ou como quiserem ser chamados, pela batalha que temos diariamente para saírmos da passividade, para mostrármos que não somos minoria, aliás, o censo já tráz 45 MILHÕES no Brasil com algum tipo de deficência. Bora ocupar todos os espaços! Vamos inventar coragem!! E cuidado: Igualdade de oportunidades, não é a mesma coisa que oportunidades iguais!!

Valeu 3 de Dezembro!!
Valeu pessoas!
Beijos!

Mariana Reis