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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quinta-feira, 29 de março de 2012

O governo Dilma e o controle social

É tão triste dar risadas de assunto tão sério. Bem, o Aldo Rabelo não falou bobagens sobre 'essas ONGs' à toa, não é mesmo? Leia, após as charges, o manifesto das ONGs que trabalham na luta contra a AIDS.
Beto Volpe








SOS: Governo Dilma coloca controle social da Aids em risco de extinção

Estamos vivendo uma situação sem precedentes de desmantelamento do controle social
da resposta à epidemia de HIV-Aids no Brasil. O sucesso da política brasileira sempre
esteve pautado num trabalho conjunto entre Estado e sociedade civil organizada, que não
apenas cobrava ações efetivas das autoridades – como foco nos direitos humanos - mas
também era protagonista no desenho e implementação das políticas. Que não se enganem
os céticos em relação ao papel e importância desses grupos: certamente a crise das
associações que trabalham com o HIV e mesmo os grupos de pessoas vivendo com o
HIV é a crise da resposta brasileira à epidemia.

Recentemente, importantes organizações dedicadas ao tema do HIV-Aids fecharam suas
portas depois de anos de serviço público relevante. A ameaça do fechamento também
paira sobre outras organizações históricas que enfrentam crises severas de recursos, mas
que não nomearemos aqui em respeito às próprias organizações, que devem decidir o
momento e a forma de tornar pública suas situações. Algumas, tais como o Grupo
SOMOS (Rio Grande do Sul), O GAPA de Minas Gerais e o GAPA de São Paulo já
comunicaram publicamente a suspensão de atividades.

Embora a atual crise não seja a primeira enfrentada por organizações desse tipo, certo é
que essa é diferente, na medida em que é mais severa e mais invisível. Podemos dizer que
parte da origem desta crise reflete um recuo financeiro da cooperação internacional que
tem sido o modelo base do financiamento das ONGs neste campo no país. A origem deste
recuo tem por base dois fatores fundamentais - a crise financeira internacional dos paises
desenvolvidos e a nova projeção do Brasil no cenário internacional, que coloca o país no
papel de doador de recursos e não mais receptor – causando uma falsa percepção de que
os problemas internos estão resolvidos.

Vale dizer que esse recuo não afeta apenas as ONGs que atuam no campo do HIV-Aids, e
sim boa parte das ONGs brasileiras que dependiam desse modelo de cooperação
internacional para prestar um valioso papel na defesa do interesse público e na luta por
políticas públicas que universalizem direitos e cidadania no país. Apesar de terem sido
fundamentais para a realização de eventos históricos como a Cúpula dos Povos durante a
ECO 92 e o Fórum Social Mundial, além de terem conquistado o direito de participar de
diversas negociações internacionais, entre outros feitos, as ONGs brasileiras estão cada
vez mais reduzindo suas equipes e frentes de atuação por falta de recursos. Isso significa
que as muitas contribuições e conquistas realizadas em anos de luta estão sendo
retribuídas com silêncio e abandono, ao invés de um debate público que proponha
alternativas reais para a sobrevivência dessas organizações.

Recentemente, dados evidenciam o aumento da ajuda internacional do governo brasileiro,
incluindo ações humanitárias e contribuições ao sistema ONU1, equivalentes a US$ 1,4
bilhões nos últimos cinco anos. Não obstante a importância das doações brasileiras a
países e populações mais vulneráveis, é inaceitável que organizações locais fechem as
portas e deixem de atender aos brasileiros e brasileiras e, sobretudo, estejam impedidas
de monitorar, cobrar, construir em colaboração e fiscalizar a execução de políticas em
saúde com recursos públicos. A quem interessa essa debilidade da sociedade civil
organizada?

O aumento do PIB brasileiro, que passa até mesmo o do Reino Unido, como sinônimo de
desenvolvimento é uma premissa simplista e conveniente. Excluem-se da equação a
renda per cápita, as fortes desigualdades internas, as situações de extrema exclusão de
parte da população e a manutenção de vulnerabilidades sociais – terreno fértil para a
concentração da epidemia de AIDS em seu seio. O Brasil, que brilha nos salões de
Genebra e Nova Iorque certamente não é o mesmo com o qual lutamos todos os dias,
com suas incoerências, injustiças e inadequações. Por isso ocupa o 81º lugar no índice de
desenvolvimento humano.

Além da crise financeira, a outra face da moeda é a notória crise política. No campo do
HIV-Aids podemos dizer que o diálogo da sociedade civil com o Estado vem se
deteriorando e chega agora a um momento crítico. O agravamento teve seu ápice nos
últimos meses, no que a imprensa tem chamado de “clima anti-ONGs”. Não recuperamos
em nossa memória recente um período de tamanho distanciamento entre o Ministério da
Saúde e a sociedade civil brasileira. Concretamente podemos citar o recente episodio de
censura da campanha de prevenção para o carnaval de 2012 - orientada a homossexuais -
cujo veto partiu unilateralmente do Poder Executivo; a negociação e assinatura de
contratos de transferência de tecnologia de medicamentos para HIV com empresas
transnacionais farmacêuticas sem transparência e na contra-corrente da histórica posição
brasileira de uso das flexibilidades de proteção da saúde pública da Lei e Patentes; os
episódios seqüenciais de desabastecimentos de medicamentos antirretrovirais cujas
causas não foram adequadamente esclarecidas e a perceptível (e inexplicável) ausência e
clara exclusão de organizações da sociedade civil brasileira na Conferencia Mundial de
Determinantes Sociais de Saúde, organizada pelo Brasil em 2011.

Ademais do esgarçamento das relações da sociedade com o Ministério da Saúde,
assistimos perplexos ao visível desmonte do Departamento de DST AIDS. Embora haja
uma clara preocupação em desfazer essa impressão, notamos o desligamento do
Departamento de um número expressivo de pessoas classicamente envolvidas na luta
contra a AIDS no país. As causas são obscuras, e também merecem esclarecimento.
A invisibilidade da crise das ONGs anti-AIDS e a supressão de sua importância encontra
lastro na suposta incorporação nas políticas públicas de todas as demandas da sociedade;
no argumento de que as ONGs se desvirtuaram e servem hoje apenas de instrumento de
desvio de dinheiro público e na aceitação pacífica da crença de que o Brasil está em pleno
desenvolvimento. Nesse contexto, a participação da sociedade civil organizada não seria
um elemento supérfluo, anacrônico?

Para responder a essa pergunta faz-se necessário recuperar um pouco dos ensinamentos
de precursores da inteligência brasileira sobre HIV-Aids e Direitos Humanos. Há mais
de vinte anos, a solidariedade foi o elemento que orientou a resposta brasileira à epidemia
no país e ela não era apenas vista como um elemento de luta contra preconceitos e
estigmas, mas também como um princípio fundamental para a mobilização. Como dizia o
sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, a Aids não é um problema apenas de saúde,
restrito àqueles que vivem com HIV e aos profissionais de saúde, mas sim um problema
social que deveria ser enfrentado por diferentes segmentos da sociedade e não somente
com ações diretas de saúde, mas também com políticas sociais.

Àquela época, o Brasil se encontrava no processo de redemocratização. Na aprovação da
Constituição Cidadã, o direito a saúde foi incorporado e definiu as bases para o sistema
público de saúde regido pelos princípios da universalidade, equidade, integralidade e
controle social. Tal contexto possibilitou sinergias na luta travada no campo do HIV
contra o que Herbert Daniel, outro ícone da luta contra a Aids, chamava de ‘morte civil’.
Nos vinte anos da morte de Herbert Daniel, poderíamos dizer que emerge hoje um novo
conceito de “morte civil”. Àquela época significava uma restrição de direitos civis
durante a própria vida em função da infecção pelo HIV. Hoje, podemos considerar a
‘morte civil’ como este sufocamento do principio basilar do SUS: o controle social. Se
antes a ‘morte civil’ acontecia em decorrência da Aids, hoje ela é causadora da Aids, pois
sem controle social efetivo, menores são as possibilidades de garantia de direitos para os
excluídos, justamente os mais vulneráveis à infecção e para os quais a Aids se torna cada
vez mais uma conseqüência da própria condição de exclusão social.

Sabemos do papel histórico dos movimentos sociais na construção da cidadania no
Brasil. A preservação dos princípios do SUS é uma luta constante e em permanente
construção. A restrição de um de seus princípios, como o controle social, certamente
afeta os demais e, por que não dizer, afeta todo o processo democrático.

Como dizia Betinho, não cabe às ONGs brasileiras acabar com ou pretender substituir o
Estado, mas colaborar para a sua democratização. Muitas ONGs que trabalham com HIVAids
têm feito isso com dedicação há pelo menos trinta anos e não é por outro motivo
que o programa de Aids do Brasil é considerado um dos melhores do mundo. Enquanto
essas organizações ajudavam a construir as bases desse programa, eram chamadas de
parceiras. Agora, quando tentam colaborar de forma ativa para seu bom funcionamento,
são sumariamente ignoradas. Além disso, no momento em que o enfraquecimento dessas
organizações é mais latente, o silêncio impera. No entanto, as ONGs-Aids ainda têm
muito que dizer, fiscalizar, propor e defender. Nem que seja em mensagens coladas em
portas fechadas. 

Não queremos sentir nostalgia dos dias em que o controle social existia
de fato, queremos que as autoridades que agem com descaso frente ao desmantelamento
desse principio sintam vergonha proporcional à ofensa que isso representa à democracia
brasileira e à todos que lutaram por ela.

Rio de Janeiro, março de 2012

ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids)
GIV (Grupo de Incentivo à Vida)
GRAB (Grupo de Resistência Asa Branca)
GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids) - RS
GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids ) – PA
GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids ) - SP
GESTOS – Soropositividade, Comunicação e Gênero
Grupo Pela Vidda – RJ
GTP + (Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo)
Fórum de ONGs Aids – SP
Fórum de ONGs Aids – RJ
Fórum Paranaense de ONGs-Aids
RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids) - RS
RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids) - RJ
MNCP+ (Movimento Nacional das Cidadãs Positivas) - RS
MNCP+ (Movimento Nacional das Cidadãs Positivas) - MG
MNCP+ (Movimento Nacional das Cidadãs Positivas) - PR
+ Criança
Grupo de Apoio à Criança Soropositiva
Libertos Comunicação
Aviver
Aneps
CEDUS (Centro de Educação Sexual)
Articulação Aids da Bahia
Grupo Água Viva - Centro de Referência e Prevenção das DST/AIDS
Grupo Assistencial SOS VIDA
REDE LATINO AMERICANA E CARIBENHA DE AÇÕES VOLUNTARIAS DE
COMBATE AO HIV/AIDS - REDLACV0+
Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite
Fórum de ONGs Aids – MG
CEDAPS (Centro de Promoção da Saúde)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Só metade dos laboratórios tem controle de qualidade

Pessoal, além da barbaridade em si, notem o detalhe da frase destacada em negrito no centro da matéria. Se já é um drama receber um diagnóstico de HIV com o aconselhamento no sistema público, super mega hiper mais recomendável que o privado por esse e por outros motivos, imagine-se recebendo-o sem orientações e acolhimento.
Beto Volpe

Descrição: frascos para análises clínicas de diferentes formatos e com líquidos de cores diferentes em cada um.

Falta de vistoria regular pode levar a erro de diagnóstico; há 1.780 ações desde 2008
Levantamento feito pela Folha mostra que teste falso-positivo, como de HIV, lidera as queixas em São Paulo
CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO
Menos da metade dos 16 mil laboratórios de diagnóstico do país tem controles internos de qualidade, e apenas uma parcela mínima (2%) passa por auditorias externas (acreditadoras) que avaliam seus processos. O setor movimenta R$ 12 bilhões por ano. Os dados, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), ajudam a explicar o número de ações por erros de exames clínicos e de imagem que tramitam nos Tribunais de Justiça do país. 

Entre 2000 e 2007, houve 1.509 processos contra laboratórios, segundo pesquisa nacional feita pelo bioquímico Humberto Tibúrcio, do Sindlab (Sindicato dos Laboratórios de Minas Gerais). Já entre 2008 e o início deste ano, a Folha localizou 1.780 ações (julgadas em segunda instância, a única que permite pesquisa livre) por danos morais contra o setor da medicina diagnóstica. Só no Tribunal de Justiça de São Paulo, foram 449 processos, 72% deles especificamente sobre denúncias de erros de exames. Testes falso-positivos de HIV, hepatites, sífilis, gravidez e DNA lideram as queixas (38% delas). 

Muitos exames têm limitações metodológicas. No caso do HIV, há mais de 70 fatores que podem causar uma reação falso-positiva, incluindo a gripe e a gravidez. Por isso, o procedimento padrão em casos de resultado positivo para HIV é fazer a contraprova por meio de outro tipo de exame, o Western Blot. O Ministério da Saúde recomenda que os laboratórios avisem os pacientes sobre a limitação do exame

"Todo mundo sabe que tem de fazer aconselhamento do paciente, mas poucos fazem", afirma Tibúrcio. 

Nas ações, há também queixas de trocas de laudos (a imagem é de um paciente, e o laudo de outro) ou erros de resultados (positivo por negativou vice e versa) e de exames que apontam, erroneamente, um câncer.
Em um papanicolaou de rotina, por exemplo, Ismênia Costa recebeu o diagnóstico de câncer de colo de útero em estágio avançado (grau 3). 

INDENIZAÇÃO
O ginecologista pediu uma biopsia, que deu negativa. Solicitou, então, que ela repetisse o exame no mesmo laboratório. O resultado dessa vez, veio negativo. O laboratório foi condenado a pagar indenização de R$ 60 mil. "Erros de laboratórios são evitáveis na maioria das vezes. No Brasil, a gente não está tratando bem essa questão", diz Wilson Shcolnik, diretor de acreditação e qualidade da SBPC/ML. A partir de setembro, por resolução da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), os planos terão que divulgar quais os laboratórios da sua rede são qualificados. Segundo Shcolnik, a fase pré-analítica é a que apresenta maiores taxas de erros (entre 54,5% e 88,9%, segundo estudos internacionais). "Não tem melhoria só com maquinário. A qualidade está na educação continuada", diz Humberto Tibúrcio. 

Fonte: folhasp de hoje

domingo, 25 de março de 2012

Da fala ao grunhido

Pessoal, excelente reflexão de Ferreira Gullar sobre os rumos de nossa Flor do Lácio que, para quem desconhece, é nossa Língua Portuguesa. Deliciem-se!

Descrição da imagem: caricatura do autor com o nariz mais fálico que possa existir, contorcendo-se pelas barbaridades cometidas contra a Flor do Lácio.


De que adianta escrever o que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada?

Desconfio que, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernandes, segundo o qual "todo mundo começa Rimbaud e acaba Olegário Mariano". Divirto-me porque sei que a coisa é mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, só alguns poucos assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego, todo mundo se diz de esquerda. 

De minha parte, pouco se me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação, pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está, portanto, implícito que não me considero dono da verdade, que nem sempre tenho razão porque há questões complexas demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou não. 

Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer "nós vamos" como "nós vai". Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho? 

E se faço essa pergunta é porque me parece incongruente alguém cuja profissão é ensinar o idioma afirmar que não há erros. Se está certo dizer "dois mais dois é cinco", então a regra gramatical, que determina a concordância do verbo com o sujeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra -uma vez que tudo está certo-, não há por que ensinar a língua. A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar. 

Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos. É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo "nós vai" e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor. Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito? As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora estão acima do bem e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário. 

E, assim como para essa gente avançada não existe certo nem errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga "as milhares de pessoas" ou "estudou sobre as questões" ou "debateu sobre as alternativas" em vez de "os milhares de pessoas", " estudou as questões" e "debateu as alternativas". A palavra "sobre" virou uma mania dos locutores de televisão, que a usam como regência de todos os verbos e em todas as ocasiões imagináveis.
Sei muito bem que a língua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o português de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais próximo de nós. Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários. 

Mas a impressão que tenho é de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada cem vezes por hora para milhões de telespectadores? Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmica, e que a globalização tende a misturar as línguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo. 

Ferreira Gullar 
Folhasp de hoje

sábado, 24 de março de 2012

"Eu sou a favor do casamento gay", revela Sandy em entrevista

Que bom ver que Maria Chiquinha cresceu e virou uma mulher que se recusa a ficar atrás da horta. BV


Sandy abriu o coração em entrevista ao jornal O Globo, deste sábado (24), e declarou que é a favor da descriminalização do aborto, apoia o casamento gay e que não se considera uma atriz – apesar de sua participação na série As Brasileiras, ter sido protagonista da novela Estrela Guia e atuado em um seriado ao lado de seu irmão, Júnior Lima.

"Não posso dizer que me sinto diferente, nem que as pessoas tenham preconceitos contra minha pessoa como atriz, por um único motivo: eu não sou atriz. Eu estava brincando de ser atriz. Nesses momentos posso ser chamada de atriz, mas não tenho essa formação. Então, melhor eu não me encaixar muito para não ser comparada com as feras. Não tenho a pretensão de virar a Fernanda Montenegro da noite para o dia", disse.
Em sua participação no seriado As Brasileiras, Sandy vai interpretar a protagonista do episódio A Reacionária do Pantanal, uma personagem com forte preconceito contra homossexuais.

Questionada sobre seu posicionamento sobre o tema, a cantora disse defender a união entre pessoas do mesmo sexo. "Vejo como uma coisa natural. Sou a favor do casamento gay. Acho que todo mundo tem os mesmos direitos: de ser feliz. O problema maior hoje é a homofobia, crime hediondo, cruel. A gente, às vezes, fica focada nos grandes centros, e esquece que no interior do país, nos redutos atrasados, a homofobia está presente de forma muito mais selvagem, diante da ausência do Estado", explicou.

A cantora também surpreende ao defender, em termos, a descriminalização do aborto. "Aborto, sob o ponto de vista jurídico, é crime. Eu defendo a descriminalização, principalmente quando a gravidez representa risco para a mãe ou o bebê". Sobre sua religião, ela revelou não ser praticante, apesar de batizada na igreja católica. "Eu me casei na igreja católica e luterana, que é a do meu marido. Não sou a favor de alguns preceitos da igreja. Sou contra o celibato, por exemplo, e acho muito retrógrado não usar camisinha". 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Seu armário tem cupins

Descrição da imagem: belíssimo armário estilo Luís XV marrom, com duas portas e um monte de pessoas se escondendo dentro dele, estas invisíveis.

Não dá mais para as pessoas vivendo com HIV fazerem de conta que a vida é só passar pelo médico, tomar os medicamentos e fingir que está tudo certo na vida. Os reflexos da longa exposição ao HIV e ao coquetel têm se mostrado cruéis para conosco, muita gente está morrendo de co infecções com tuberculose e hepatites, nossas prioridades já não são mais as dos governantes e a AIDS caiu no esquecimento. As ONGs e redes que lutam contra a AIDS ressentem-se de novas lideranças e ativistas e tudo que foi conquistado ao longo de anos de luta corre o sério risco de se perder ou se diluir no complexo e ainda problemático SUS. Ninguém mais fala de AIDS e se ninguém é por nós, quem o será?

Se existe um efeito colateral que está afetando a esmagadora maioria das pessoas com HIV é a invisibilidade. Antes dos medicamentos havia a necessidade urgente de ações por parte do Estado, então as pessoas se mobilizaram de forma contundente e vibrante. Como contundente era a epidemia e vibrante estava a vida de todos nós naquele louco fim de século 21 que mais parecia o fim do mundo. Aí foi descoberto o coquetel e depois de muita luta ele foi incluído no SUS e pareceu a todo mundo que nossos problemas haveriam findado. A partir desse momento foi apresentada às pessoas com HIV uma nova alternativa a não ser morrer lutando ou morrer esperando: viver escondido. Ir ao médico quatro vezes ao ano, pegar os medicamentos uma vez ao mês e nem pensar no assunto. Tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Mas a Vida e a AIDS não são tão simples assim.

O tempo e nosso espelho demonstraram que os medicamentos tinham seus efeitos colaterais bem específicos. O primeiro deles foi a lipodistrofia que tirou nossa identidade ao deformar nossos corpos e secar nossas faces, antecipando a velhice que tanto almejamos alcançar. Logo depois os danos ósseos, hoje presentes em cerca de 26% das pessoas com HIV, colocando-as à beira de uma situação de deficiência física.  Problemas cardiovasculares, hepáticos e pulmonares, frutos também da co infecção pelos vírus da AIDS, das hepatites e da tuberculose, tudo isso interferindo na mortalidade real, que ainda é invisível aos olhos vendados pelas glórias do melhor programa de AIDS do mundo que cuida de uma doença crônica, graças a Deus. 

Crônica? Uma doença que tem o câncer como efeito colateral pode ser considerada crônica? Que de peste gay passou a ser um mal que atinge famílias e jovens sem a menor cerimônia? Essa idéia de que a AIDS estaria sob controle fez com que governantes investissem menos na luta contra a epidemia, para que gastar tanto com uma doença controlada? A sociedade respirou aliviada e pensou, se é que a gente pensa nessas horas: 

- Oba, agora tem remédio, pra que encapar o bichinho? 

O movimento social também deu sua colaboração ao se dedicar mais ao formato da luta contra a AIDS (onde será a reunião, como será o formato da comissão, quem irá representar, quanto será a diária, vai ter financiamento?)  do que pela sua essência: prevenir novas infecções e defender a Vida e a Dignidade das pessoas com HIV. E, finalmente, as pessoas vivendo com HIV se julgaram cobertas pela assistência do Estado e pelas ações das ONGs. 

- Ai, que bom que tem vocês para nos defender...

Raios que os partam! Muitos de nós, que estamos brigando pelos nossos direitos estamos exaustos. Exaustos de abrir mão de nossas vidas particulares para defender direitos de pessoas que teriam condições de integrar a luta, mas que preferem delegar essa função a outros, assim como fazem com os políticos. Tiram seu corpo fora, nem procuram se informar de nada e depois reclamam que estão tirando sua aposentadoria ou que foi demitido por culpa desse governo ou dessas ONGs.

Agora a AIDS deixou de ser notícia. Todas as atenções estão voltadas ao câncer, afetando a priorização e o financiamento da luta contra a epidemia. A mídia não nos pauta mais e aos poucos nosso tratamento está sendo descentralizado e existe a possibilidade de, em futuro breve, sermos transferidos para nossas Unidades de Saúde ou para o Programa de Saúde da Família. Alguém consegue se imaginar sendo tratado pela UBS de seu bairro? 

Não dá mais, galera. Precisamos romper com o silêncio que nos cobre de vergonha. Sim, o que nos faz excluídos é nossa própria atitude de permanecer em um armário que nos é imposto tão pronto recebemos o diagnóstico:

- Olha, não conta pra ninguém não, tá?

Crime? Pecado? Politicamente incorreto? Engorda? Por que tanta reserva para se falar de uma doença que é transmitida pela mesma via que a Hepatite B, por exemplo. Ninguém se envergonha por isso, ninguém perde seu emprego ou é abandonado na solidão por ter hepatite. Chega! Está na hora de fazermos uma corrente de estímulo a que mais e mais pessoas com HIV deixem de se envergonhar ou se culpar pela condição sorológica ou simplesmente saiam do comodismo. Como fez Harvey Milk ao incitar os gays de San Francisco a assumirem sua sexualidade como única forma de barrar a então crescente homofobia por parte de fundamentalistas cristãos dos EUA. Que, a propósito, têm seus correlatos por aqui ocupando cargos no poder e ansiosos por decretar nosso fim.

Precisamos sair do armário da invisibilidade sob pena de sermos comidos pelos cupins da comodidade. Que são muito mais cruéis que o HIV, pois nos matam sem nos tirar a vida.
Beto Volpe

quinta-feira, 22 de março de 2012

República Cristã do Brasil

Artigo publicado na edição de hoje do jornal 'A Tribuna do Litoral Paulista'.

Descrição: silheta feminina fumando, tendo ao fundo a noite que entra por uma janela entreaberta.

Recentemente assisti a um filme que está disponível para exibição na internet e que deveria ser transmitido em cadeia nacional no horário nobre: Persépolis. É uma animação francesa em preto e branco que relata o processo de transformação da república iraniana para um estado religioso. Acho que a presidenta Dilma também deve tê-lo assistido, daí as lágrimas durante a posse do religioso Marcelo Crivella como ministro de seu governo. Um indivíduo que abertamente rejeita os consensos científicos, avanços sociais e que representa toda uma legião de lideranças religiosas a destilar ódio contra homossexuais, a inferiorizar a mulher e a demonizar outras religiões e culturas através de concessões públicas de TV e rádio. Não é o primeiro sinal de que a democracia e as liberdades individuais no Brasil correm o sério risco de serem banidas pelo pior tipo de ditador que existe: aquele que diz representar a Deus.

Voltando a Persépolis (capital da antiga Pérsia, atual Irã), Marjane é uma menina de classe média que acompanha, em 1979, a insatisfação de comunistas e liberais com o regime corrupto do Xá Reza Pahlevi. Porém, esses segmentos progressistas sozinhos não seriam capazes de mudar o sistema o que os levou a formar alianças com religiosos, pois que a religião era a única unanimidade em uma região diversificada em etnias. E deu certo, o povo atendeu ao chamado e derrubou um regime que se perpetuava de pai para filho que, como dito, era corrupto e representava as ameaças ocidentais à cultura local. 

O que a classe média e a esquerda não contavam é que, ao tomarem o poder, os representantes de Deus na Terra iriam se sentir o próprio Deus e, com o apoio do povo, estabeleceram uma república islâmica liderada por aiatolás, radicalmente rígida nas leituras do Islã, onde liberdades individuais são muito limitadas. Que ao destilar ódio contra homossexuais, a inferiorizar a mulher e a demonizar outras religiões e culturas transformaram uma nação desenvolvida, apesar de corrupta, em uma ditadura retrógrada econômica e socialmente, sempre envolta em conflitos.

Como perguntaria nosso novo Ministro da Pesca, o que a minhoca tem a ver com o anzol? Tem tudo. O processo de aproximação entre a esquerda e as religiões cristãs no Brasil, em nome da governabilidade, foi ratificado na aliança para eleição da presidenta Dilma. Líderes evangélicos, em especial, passaram a ter trânsito em todas as esferas governamentais e a ocupar cargos majoritários no poder, muitas vezes sem nenhuma afinidade com a pasta. Como Crivella, que sequer sabe colocar minhoca em anzol e que colocará em risco uma série de pesquisas, uma vez que evolução não existe, tudo era como está e sempre o será. Só falta o sucessor de Mercadante ser analfabeto funcional. Esse trânsito facilitado fortaleceu o lobby religioso ao ponto de unir duas vertentes do cristianismo, evangélicos e católicos, tradicionalmente adversárias na luta pelos direitos autorais de Cristo. E com resultados surpreendentes, dentre eles a censura ao vídeo de prevenção à AIDS no carnaval deste ano voltado ao público homossexual jovem, vídeo esse motivado por dados epidemiológicos.

Acredito que da parte do governo nada será feito para inverter ou, ao menos, estancar essa chaga que se espalha pelos bastidores e no palco do poder brasileiro. Somente a sociedade civil organizada em todos seus segmentos terá condições de empunhar a defesa do Estado Laico no Brasil como principal bandeira de luta, pautando esse tema como prioridade na luta pelos direitos humanos. Sob pena de vermos nossos direitos sendo desrespeitados em nome da Fé.

A Fé tem o poder de ampliar o espectro de visão de qualquer pessoa, mas a fé deturpada pode cegá-la. Quantas e quantas famílias de cidadãos honestos e solidários discriminam seus filhos e filhas homossexuais e travestis por conta de sucessivas traduções, versões e leituras propositadamente errôneas da Bíblia Sagrada? Quantas e quantas pessoas de bem asseguram sua permanência ao lado do Divino pela eternidade através da quitação de um carnê, como se Deus fosse Samuel Klein e o Paraíso uma super loja das Casas Bahia? Quantas e quantas grandes mulheres são oprimidas e brutalizadas em seus lares e comunidades por estar escrito que seu lugar é atrás do grande homem? Quantos e quantos políticos bem intencionados são envolvidos em um projeto de governabilidade que sabemos ser necessário, mas a que preço e risco?

Imagino, pelas incontidas lágrimas, as noites de insônia que Dilma deve estar atravessando e se questionando se estaria realmente transformando o país para melhor ou colocando em risco tudo pelo qual lutara por toda sua vida. Será que, em seus poucos momentos de sono, não estaria a presidenta tendo pesadelos envolvendo queimas de livros científicos, doutrina religiosa nas escolas, perseguições sanitárias a terreiros e centros espíritas, o aumento da AIDS pelo fim das ações de prevenção e a conversão do São João e Carnaval em grandes retiros espirituais? Ou a volta da censura e de aparelhos de repressão na República Cristã do Brasil, reativando endereços e métodos que ela um dia pensou fazer parte de seu passado, tudo conduzido pelo DOPS - Doutrina da Ordem pela Palavra do Senhor - e seu comandante e líder espiritual Jair Bolsonaro, Ministro da Cidadania. Myriam Rios, Sylas Malaraya, companheira Dilma, companheira Dilma...

COMPANHEIRA DILMA, ACORDA!
VOCÊ NÃO ESTÁ TENDO UM PESADELO !
ESTADO LAICO, JÁ!!!

Beto Volpe

SOS: Governo Dilma coloca controle social da Aids em risco de extinção

Pessoal, divulgo aqui manifesto de algumas organizações e redes que atuam na luta contra a AIDS pelo desmantelamento das ONG/AIDS. Digo algumas pois senti falta das principais redes de pessoas vivendo com HIV, especialmente a RNP+BR, nossa representação nacional, que provavelmente irá deliberar sobre o assunto em algum momento, assim como o repúdio à censura do vídeo do carnaval. 
Nossa, já estamos quase no final da quaresma... Desse jeito...
Beto Volpe







Descrição da imagem: laço vermelho da luta contra a AIDS debruado em velas acesas foramando um anjo de velas, como que pressagiando a morte das ONGs.
 

Estamos vivendo uma situação sem precedentes de desmantelamento do controle social
da resposta à epidemia de HIV-Aids no Brasil. O sucesso da política brasileira sempre
esteve pautado num trabalho conjunto entre Estado e sociedade civil organizada, que não
apenas cobrava ações efetivas das autoridades – como foco nos direitos humanos - mas
também era protagonista no desenho e implementação das políticas. Que não se enganem
os céticos em relação ao papel e importância desses grupos: certamente a crise das
associações que trabalham com o HIV e mesmo os grupos de pessoas vivendo com o
HIV é a crise da resposta brasileira à epidemia.

Recentemente, importantes organizações dedicadas ao tema do HIV-Aids fecharam suas
portas depois de anos de serviço público relevante. A ameaça do fechamento também
paira sobre outras organizações históricas que enfrentam crises severas de recursos, mas
que não nomearemos aqui em respeito às próprias organizações, que devem decidir o
momento e a forma de tornar pública suas situações. Algumas, tais como o Grupo
SOMOS (Rio Grande do Sul), O GAPA de Minas Gerais e o GAPA de São Paulo já
comunicaram publicamente a suspensão de atividades.
Embora a atual crise não seja a primeira enfrentada por organizações desse tipo, certo é
que essa é diferente, na medida em que é mais severa e mais invisível. Podemos dizer que
parte da origem desta crise reflete um recuo financeiro da cooperação internacional que
tem sido o modelo base do financiamento das ONGs neste campo no país. A origem deste
recuo tem por base dois fatores fundamentais - a crise financeira internacional dos paises
desenvolvidos e a nova projeção do Brasil no cenário internacional, que coloca o país no
papel de doador de recursos e não mais receptor – causando uma falsa percepção de que
os problemas internos estão resolvidos.

Vale dizer que esse recuo não afeta apenas as ONGs que atuam no campo do HIV-Aids, e
sim boa parte das ONGs brasileiras que dependiam desse modelo de cooperação
internacional para prestar um valioso papel na defesa do interesse público e na luta por
políticas públicas que universalizem direitos e cidadania no país. Apesar de terem sido
fundamentais para a realização de eventos históricos como a Cúpula dos Povos durante a
ECO 92 e o Fórum Social Mundial, além de terem conquistado o direito de participar de
diversas negociações internacionais, entre outros feitos, as ONGs brasileiras estão cada
vez mais reduzindo suas equipes e frentes de atuação por falta de recursos. Isso significa
que as muitas contribuições e conquistas realizadas em anos de luta estão sendo
retribuídas com silêncio e abandono, ao invés de um debate público que proponha
alternativas reais para a sobrevivência dessas organizações.

Recentemente, dados evidenciam o aumento da ajuda internacional do governo brasileiro,
incluindo ações humanitárias e contribuições ao sistema ONU1, equivalentes a US$ 1,4
bilhões nos últimos cinco anos. Não obstante a importância das doações brasileiras a
países e populações mais vulneráveis, é inaceitável que organizações locais fechem as
portas e deixem de atender aos brasileiros e brasileiras e, sobretudo, estejam impedidas
de monitorar, cobrar, construir em colaboração e fiscalizar a execução de políticas em
saúde com recursos públicos. A quem interessa essa debilidade da sociedade civil
organizada?

O aumento do PIB brasileiro, que passa até mesmo o do Reino Unido, como sinônimo de
desenvolvimento é uma premissa simplista e conveniente. Excluem-se da equação a
renda per cápita, as fortes desigualdades internas, as situações de extrema exclusão de
parte da população e a manutenção de vulnerabilidades sociais – terreno fértil para a
concentração da epidemia de AIDS em seu seio. O Brasil, que brilha nos salões de
Genebra e Nova Iorque certamente não é o mesmo com o qual lutamos todos os dias,
com suas incoerências, injustiças e inadequações. Por isso ocupa o 81º lugar no índice de
desenvolvimento humano.

Além da crise financeira, a outra face da moeda é a notória crise política. No campo do
HIV-Aids podemos dizer que o diálogo da sociedade civil com o Estado vem se
deteriorando e chega agora a um momento crítico. O agravamento teve seu ápice nos
últimos meses, no que a imprensa tem chamado de “clima anti-ONGs”. Não recuperamos
em nossa memória recente um período de tamanho distanciamento entre o Ministério da
Saúde e a sociedade civil brasileira. Concretamente podemos citar o recente episodio de
censura da campanha de prevenção para o carnaval de 2012 - orientada a homossexuais -
cujo veto partiu unilateralmente do Poder Executivo; a negociação e assinatura de
contratos de transferência de tecnologia de medicamentos para HIV com empresas
transnacionais farmacêuticas sem transparência e na contra-corrente da histórica posição
brasileira de uso das flexibilidades de proteção da saúde pública da Lei e Patentes; os
episódios seqüenciais de desabastecimentos de medicamentos antirretrovirais cujas
causas não foram adequadamente esclarecidas e a perceptível (e inexplicável) ausência e
clara exclusão de organizações da sociedade civil brasileira na Conferencia Mundial de
Determinantes Sociais de Saúde, organizada pelo Brasil em 2011.

Ademais do esgarçamento das relações da sociedade com o Ministério da Saúde,
assistimos perplexos ao visível desmonte do Departamento de DST AIDS. Embora haja
uma clara preocupação em desfazer essa impressão, notamos o desligamento do
Departamento de um número expressivo de pessoas classicamente envolvidas na luta
contra a AIDS no país. As causas são obscuras, e também merecem esclarecimento.
A invisibilidade da crise das ONGs anti-AIDS e a supressão de sua importância encontra
lastro na suposta incorporação nas políticas públicas de todas as demandas da sociedade;
no argumento de que as ONGs se desvirtuaram e servem hoje apenas de instrumento de
desvio de dinheiro público e na aceitação pacífica da crença de que o Brasil está em pleno
desenvolvimento. Nesse contexto, a participação da sociedade civil organizada não seria
um elemento supérfluo, anacrônico?

Para responder a essa pergunta faz-se necessário recuperar um pouco dos ensinamentos
de precursores da inteligência brasileira sobre HIV-Aids e Direitos Humanos. Há mais
de vinte anos, a solidariedade foi o elemento que orientou a resposta brasileira à epidemia
no país e ela não era apenas vista como um elemento de luta contra preconceitos e
estigmas, mas também como um princípio fundamental para a mobilização. Como dizia o
sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, a Aids não é um problema apenas de saúde,
restrito àqueles que vivem com HIV e aos profissionais de saúde, mas sim um problema
social que deveria ser enfrentado por diferentes segmentos da sociedade e não somente
com ações diretas de saúde, mas também com políticas sociais.

Àquela época, o Brasil se encontrava no processo de redemocratização. Na aprovação da
Constituição Cidadã, o direito a saúde foi incorporado e definiu as bases para o sistema
público de saúde regido pelos princípios da universalidade, equidade, integralidade e
controle social. Tal contexto possibilitou sinergias na luta travada no campo do HIV
contra o que Herbert Daniel, outro ícone da luta contra a Aids, chamava de ‘morte civil’.
Nos vinte anos da morte de Herbert Daniel, poderíamos dizer que emerge hoje um novo
conceito de “morte civil”. Àquela época significava uma restrição de direitos civis
durante a própria vida em função da infecção pelo HIV. Hoje, podemos considerar a
‘morte civil’ como este sufocamento do principio basilar do SUS: o controle social. Se
antes a ‘morte civil’ acontecia em decorrência da Aids, hoje ela é causadora da Aids, pois
sem controle social efetivo, menores são as possibilidades de garantia de direitos para os
excluídos, justamente os mais vulneráveis à infecção e para os quais a Aids se torna cada
vez mais uma conseqüência da própria condição de exclusão social.

Sabemos do papel histórico dos movimentos sociais na construção da cidadania no
Brasil. A preservação dos princípios do SUS é uma luta constante e em permanente
construção. A restrição de um de seus princípios, como o controle social, certamente
afeta os demais e, por que não dizer, afeta todo o processo democrático.

Como dizia Betinho, não cabe às ONGs brasileiras acabar com ou pretender substituir o
Estado, mas colaborar para a sua democratização. Muitas ONGs que trabalham com HIVAids
têm feito isso com dedicação há pelo menos trinta anos e não é por outro motivo
que o programa de Aids do Brasil é considerado um dos melhores do mundo. Enquanto
essas organizações ajudavam a construir as bases desse programa, eram chamadas de
parceiras. Agora, quando tentam colaborar de forma ativa para seu bom funcionamento,
são sumariamente ignoradas.

Além disso, no momento em que o enfraquecimento dessas
organizações é mais latente, o silêncio impera. No entanto, as ONGs-Aids ainda têm
muito que dizer, fiscalizar, propor e defender. Nem que seja em mensagens coladas em
portas fechadas. Não queremos sentir nostalgia dos dias em que o controle social existia
de fato, queremos que as autoridades que agem com descaso frente ao desmantelamento
desse principio sintam vergonha proporcional à ofensa que isso representa à democracia
brasileira e à todos que lutaram por ela.

Rio de Janeiro, março de 2012

ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids)
GIV (Grupo de Incentivo à Vida)
GRAB (Grupo de Resistência Asa Branca)
GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids) - RS
GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids ) – PA
GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids ) - SP
GESTOS – Soropositividade, Comunicação e Gênero
Grupo Pela Vidda – RJ
GTP + (Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo)
Fórum de ONGs Aids – SP
Fórum de ONGs Aids – RJ
Fórum Paranaense de ONGs-Aids
RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids) - RS
RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids) - RJ
MNCP+ (Movimento Nacional das Cidadãs Positivas) - RS
MNCP+ (Movimento Nacional das Cidadãs Positivas) - MG
MNCP+ (Movimento Nacional das Cidadãs Positivas) - PR
+ Criança
Grupo de Apoio à Criança Soropositiva
Libertos Comunicação
Aviver
Aneps
CEDUS
Articulação Aids da Bahia
Grupo Água Viva - Centro de Referência e Prevenção das DST/AIDS

Fonte: Agência de Notícias da AIDS

sexta-feira, 16 de março de 2012

George Clooney é preso ao protestar em frente à embaixada do Sudão nos EUA

Desobediência civil... Por protestar contra barbáries cometidas contra a humanidade.
Acho que precisamos exportar uns dois ou três Ayres Britto pros EUA, pra democratizar aquele país de verdade.
Beto Volpe

Descrição da imagem: o gatão Clooney, algemado e cercado por agentes de segurança, sorri para a câmera com cara de quem está fazendo a coisa certa.


O ator George Clooney foi preso nesta sexta-feira (16), em Washington, durante uma manifestação frente à embaixada do Sudão para protestar contra os crimes de guerra cometidos, segundo ele, por Cartum no sul do país. O pai do ator, Nick, também foi preso. George Clooney, assim como vários membros da Câmara de Representantes e ativistas, foi algemado e levado num carro da polícia.
 
Na quinta-feira (15), Clooney, um fervoroso partidário do presidente Barack Obama, esteve na Casa Branca para denunciar a crise humanitária que assola as regiões fronteiriças entre o Sudão e o Sudão do Sul. Clooney, que na noite da quarta-feira (14) foi um dos convidados do jantar da Casa Branca em homenagem ao primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, retornou de uma viagem por essa região há dois dias.

Em declarações aos jornalistas que cobrem a Casa Branca, amontoados a seu redor, o ator revelou que pediu a Obama que convença a China a unir-se à pressão internacional sobre o governo sudanês com o objetivo de permitir que as forças de socorro entrem na fronteira sul do país, castigada pela fome.

Segundo o ator, o presidente americano se comprometeu a tratar a questão com o presidente chinês, Hu Jintao, em sua próxima reunião bilateral. Na quarta-feira, Clooney participou de uma audiência do Comitê de Exteriores do Senado para expor sua visão sobre o Sudão e pressionar os legisladores do Capitólio a interferirem na questão. (Com agências internacionais)

Fonte: uol.com.br

quinta-feira, 15 de março de 2012

Não à prisão pelo uso da pílula do dia seguinte


Caros amigos do Brasil,


O Congresso hondurenho está prestes a votar uma lei que manda as mulheres para a prisão caso usem a pílula do dia seguinte -- até mesmo as vítimas de agressão sexual. Mas o presidente do Congresso pode impedir isso. Ele se preocupa com sua imagem internacional e seu futuro na política. Nosso protesto massivo na América Latina pode envergonhá-lo e acabar com este ataque às mulheres. Assine a petição para o presidente do Congresso e compartilhe com todos:

Assine a petição
Dentro de poucos dias, Honduras pode aprovar uma lei extremista que colocará as mulheres na prisão por usarem a pílula do dia seguinte, mesmo depois de serem estupradas. Mas nós podemos derrubar esta lei e devolver às mulheres a chance de evitar uma gravidez indesejada.

Alguns membros do Congresso concordam que essa lei -- que também mandaria os médicos ou qualquer pessoa que vender os comprimidos para a prisão -- é excessiva, mas eles estão cedendo ao poderoso lobby religioso que erroneamente afirma que a pílula do dia seguinte constitui um aborto. Entretanto, o presidente do Congresso, que quer concorrer ao cargo de presidente de Honduras e se preocupa com sua reputação no exterior, pode impedir isso. Se o pressionarmos agora, poderemos arquivar essa lei reacionária.

A votação pode acontecer a qualquer momento. Vamos mostrar a Honduras que o mundo não vai apoiar a prisão de mulheres que tentam prevenir uma gravidez, mesmo depois de violência sexual. Assine a petição urgente exigindo ao presidente do Congresso, Juan Orlando Hernández, que defenda os direitos das mulheres. Se alcançarmos 400.000 assinaturas, grupos locais de mulheres irão entregar pessoalmente o nosso clamor para Hernández:

http://www.avaaz.org/po/no_prison_for_contraception/?vl

Alguns países, como Honduras, proibiram a pílula anticoncepcional de emergência que funciona atrasando a ovulação e evitando a gravidez -- tais como pílulas anticoncepcionais comuns. Mas se esta nova lei for aprovada, Honduras será o único país no mundo a punir o uso ou venda de anticoncepcionais de emergência com uma pena de prisão. Adolescentes, vítimas de estupro, médicos ou qualquer outra pessoa condenada por vender ou usar a pílula do dia seguinte podem acabar atrás das grades, uma flagrante violação das diretrizes da Organização Mundial de Saúde. A organização declarou este contraceptivo de emergência como um medicamento essencial para todas as mulheres, especialmente as vítimas de estupro.

A América Latina já tem muitas leis duras que restringem os direitos reprodutivos das mulheres. A primeira vez que o Congresso de Honduras aprovou essa medida draconiana foi em abril de 2009, mas apenas um mês mais tarde o ex-presidente, José Manuel Zelaya, cedeu à pressão de ativistas e vetou a lei. Ele foi deposto por um golpe apenas algumas semanas depois, e desde então o novo regime forçou o retorno do projeto para votação.

O tempo é curto, mas podemos impedir essa proposta horrível de seguir adiante. O Congresso tem o voto final sobre o assunto e o governo não quer arriscar a sua já frágil reputação global. Vamos dizer ao presidente do Congresso, Hernández, que é inaceitável criminalizar a contracepção. Assine esta petição urgente agora e compartilhe com seus amigos e familiares:

http://www.avaaz.org/po/no_prison_for_contraception/?vl

As medidas anticoncepcionais de emergência são vitais para as mulheres em todos os lugares, mas especialmente onde a violência sexual contra as mulheres é extravagante, as taxas de gravidez não planejadas são altas e o acesso ao controle de natalidade regular é limitado. A Avaaz cresceu com força na América Latina -- há mais de 2.5 milhões de nós em toda a região! Vamos apoiar as mulheres de Honduras e ajudá-las a acabar com esse projeto de lei.

Com esperança e determinação,

Alex, Laura, Dalia, Ricken, Emma, Maria Paz, David e o resto da equipe da Avaaz

Mais informações:

9 mil meninas de 10 a 14 anos grávidas anualmente (La Tribuna) (em espanhol)
http://www.latribuna.hn/2012/02/15/9-mil-ninas-de-10-a-14-anos-embarazadas-anualmente/

Corte Suprema de Honduras viola direitos humanos das mulheres (Defensores en Línea) (em espanhol)
http://defensoresenlinea.com/cms/index.php?option=com_content&view=article&id=1884:corte-suprema-de-honduras-viola-derechos-humanos-de-las-mujeres&catid=81:muj&Itemid=197

Feministas em Resistência em Honduras (em espanhol)
http://feministascontraelgolpehn.blogspot.com/2012/02/accion-urgente-carta-al-congreso-de.html

Supremo Tribunal de Honduras mantém proibição absoluta da contracepção de emergência (ReproRights) (em inglês):
http://reproductiverights.org/en/press-room/honduras-supreme-court-upholds-absolute-ban-on-emergency-contraception-opens-door-to-crim

Honduras, a proibição mais abrangente sobre a contracepção de emergência (RH Reality Check) (em inglês):
http://www.rhrealitycheck.org/article/2012/02/14/honduran-supreme-court-upholds-complete-ban-on-emergency-contraception-0

Suicídio de jovem forçada a casar com seu estuprador causa protestos

Galera, uma sociedade fundamentalista funciona assim, mesmo. Leis baseadas em fundamentos machistas, retrógrados e excludentes. A afirmação final, de que um quarto das marroquinas já foram atacadas sexualmente ao menos uma vez na vida é simplesmente de arrepiar.
Beto Volpe
  • AFP Descrição da imagem: duas mulheres, cobertas da cabeça aos pés, caminham por rua de Marrocos.
Ativistas marroquinos intensificaram a pressão para derrubar a lei que permite que estupradores casem com suas vítimas depois que uma menina de 16 anos cometeu suicídio. Amina Al Filali usou veneno de rato para tirar a própria vida após ficar casada por cinco meses com o homem que a violentou e que, desde a união permanente, a agredia fisicamente. 

Uma petição online e uma manifestação prevista para este sábado (17) tratam da lei como "constrangedora" para o país. Os ativistas querem a suspensão do Artigo 475 da lei local que permite que estupradores escapem da prisão se eles aceitarem "restaurar as virtudes" da vítima - ou seja, se se casarem com ela. Estuprada aos 15 anos, Amina foi obrigada a se casar com seu estuprador com apoio de um juiz. Pela lei do Marrocos, o crime de estupro é punido com 10 anos de prisão, chegando a 20 se a vítima for menor de idade.

"O artigo 475 é constrangedor para a imagem internacional de modernidade e democracia no Marrocos", disse à BBC Fouzia Assouli, presidente da Liga Democrática do Marrocos para os Direitos da Mulher. "No Marrocos, a lei protege a moralidade pública, mas não o indivíduo", acrescentou Assouli. 
Ela afirma ainda que legislação proibindo todas as formas de violência contra as mulheres, incluindo estupro dentro do casamento, está para ser implementada desde 2006.

Deserdada

A jornalista da BBC em Rabat, Nora Fakim, diz que em partes conservadoras do Marrocos é inaceitável para uma mulher perder a virgindade antes do casamento --e a desonra é dela e de sua família, mesmo que ela seja vitima de estupro. Amina veio da pequena cidade de Larache, perto de Tânger, ao norte do país. A idade legal do casamento em Marrocos é de 18 anos, salvo se houver "circunstâncias especiais" --que é a razão pela qual Amina era casada, apesar de ser menor de idade.

A imprensa local diz que a menina queixou-se a sua família sobre maus tratos, mas acabou deserdada, o que teria provocado o suicídio. Testemunhas afirmam que o marido ficou tão indignado quando Amina tomou o veneno que a arrastou pelos cabelos pela rua --e ela morreu pouco depois. Ativistas estão pedindo que o juiz que permitiu o casamento e o estuprador sejam presos. Estudo governamental realizado no último ano dá conta de que cerca de um quarto das marroquinas sofreram ataques de ordem sexual ao menos uma vez durante suas vidas.

Fonte: uol.com.br

A piada comigo foi a mais leve, diz músico após confusão em show

 
FILIPE OLIVEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
 
O músico Raphael Lopes, 24, que chamou a polícia durante um show de stand-up após ser comparado a um macaco por um humorista, diz que a piada racista da qual foi vítima foi a coisa "mais leve" que ouviu na noite de segunda passada, no Kitsch Club, zona sul de São Paulo.


Raphael, conhecido como Rapha "Dantop", estava a trabalho no local, tocando teclado para a banda da casa.
Ele não assinou o termo que era submetido às pessoas que pagaram R$ 60 para ver a apresentação de vários comediantes, entre eles Danilo Gentili, Fábio Rabin e Felipe Hamachi, este último autor da piada que causou a confusão.

Marcelo Justo/Folhapress
Músico Raphael Henrique, que acionou a PM após piada racista no show de stand-up "Proibidão", em São Paulo     

No termo, clientes se comprometiam a não ficarem ofendidos com o humor "Proibidão" da noite, que teve como temas centrais negros, gays, deficientes e mulheres.
O advogado de Raphael, Dojival Vieira, afirma que estuda "medidas legais cabíveis". Hamachi já pediu desculpas públicas ao músico.

Folha - Você sabia o que era o show "Proibidão"?
Raphael Lopes - Não. A banda já tocava na casa, mas o show foi de última hora.
Você assinou o termo em que se comprometia a não se ofender com as piadas?
A banda não assinou.
Quando ficou incomodado?
Logo no começo. Era horrível. Tinha piadas como: "Só namorei com mulheres com defeito --cega, muda--, mas a pior foi uma cadeirante...".
Comigo foi o mais leve.
E quando decidiu sair?
O Felipe disse: "Dizem que a Aids veio do macaco, mas não acredito. Transo sempre com macaco". Aí olhou para mim e disse: "Né?". Saí sutilmente e chamei a polícia.
E o show continuou?
Sim. Pouca gente ali sentiu a minha ausência.
E quando a polícia chegou?
O policial, também negro, me chamou de canto e disse: "A essa hora, se formos para a delegacia, vai ficar tudo como um mal entendido". Aí deixei como estava.
O humorista que fez a piada te procurou naquela noite?
Veio me pedir desculpas.
Você o desculpou?
Queria acabar logo com o assunto. Apertei a mão dele e não esbocei reação. Não há mágoa. Ele é só mais um que quer fazer sucesso com isso que chamam de humor.
De onde vem seu apelido Dantop? Tem conotação racial, por ser um doce de chocolate?
Teve até um comediante que disse: "Seu apelido é Dantop e você não acha racista?". O apelido não tem nada a ver com o fato de eu ser negro. É uma coisa de quando era adolescente. Prefiro não contar o motivo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pesquisa da Ufba usa células-tronco para tratar necrose em ossos

Tratamento é eficaz em casos de necrose em estágio inicial.

Descrição: exame de imagem da região do quadril destacando com círculo vermelho a cabeça de fêmur necrosada.

Pesquisadores do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia desenvolveram um tratamento contra doenças nos ossos com a aplicação de células-tronco. A técnica é eficaz na maioria dos casos de necrose em estágio inicial.

Na Bahia, o tratamento com as células-tronco ganha importância porque o estado tem a maior incidência do país de anemia falciforme, uma alteração genética no sangue que causa, entre outras complicações, a morte do tecido ósseo. A doença atinge principalmente a população negra, que é maioria no estado.

Os médicos retiram células-tronco mesenquimais do osso da bacia do próprio paciente. Essas células, que se transformam facilmente em tecidos diferentes, são injetadas nas áreas atingidas e substituem as células ósseas mortas. O tratamento tem sido usado principalmente no fêmur.

"O grau de eficácia está em torno de 93% a 95% dos pacientes que se submetem a este tratamento. Eles praticamente abandonam a bengala 30 dias depois, a dor deixa, desaparece 48 horas depois e eles retomam a marcha próximo do normal", garantiu Gildásio Daltro, ortopedista coordenador da pesquisa.

O novo tratamento já beneficiou 60 pessoas de vários estados.

O engenheiro Antônio Palmeira sofria de uma necrose de causa desconhecida que prejudicava tanto o fêmur direito quanto o esquerdo, e o tecido morto se recuperou após a injeção das células-tronco.

"Já estava perdendo os movimentos das pernas, não estava caminhando normalmente. Quando eu caminhava um pouco a perna ficava meio rígida, e tinha até dificuldade de dobrar a perna neste período", contou o engenheiro.

A dona de casa Ana Cristina recuperou a mobilidade da perna esquerda.
Ainda manca da direita, mas já se sente mais confortável. “Quando eu via o carnaval na televisão eu chorava. Aí, depois da cirurgia, eu
disse: 'este ano eu vou'. Quando eu cheguei em casa, eu cheguei maravilhada, eu consegui", comemorou.

Júlio César Alves se aposentou por invalidez devido aos problemas causados pela anemia falciforme. Ele fez o transplante no fêmur e quer fazer o procedimento também no ombro. "Eu espero que seja feito no ombro o mesmo tratamento que foi feito na perna, porque o efeito foi muito bom”, comentou. As informações são da TV Globo.