Follow by Email

Total de visualizações de página

Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Picolé de HIV

Descrição da imagem: quatro sorvetes de diferentes cores, provavelmente com cepas diferentes de vírus.

O Departamento Nacional de DST/AIDS/Hepatites Virais pretende lançar, em breve, os primeiros resultados de nova pesquisa para uma vacina contra o HIV. Os estudos entraram em fase terminal com a distribuição de Picolés de HIV para que o organismo de algumas pessoas pré selecionadas vá se acostumando com a presença do vírus em estado de resfriamento.

Para manter a tradição de presteza e eficiência do Estado brasileiro no que diz respeito a questões de saúde pública, o governo está congelando sangue de pessoas em acompanhamento nos serviços de AIDS para que haja disponibilidade do produto quando de seu registro nos órgãos competentes. Os picolés serão servidos nos sabores 'Incopetência de frutas', 'Planejamento Diet' (sem adição de visão) e 'Conivência em massa' e estarão disponíveis em todo o território nacional.

Amigas e amigos, não se deixem levar por minhas bobagens. É apenas mais um caso de falta de insumos para combater o HIV em nossos organismos. Não bastassem os recorrendes episódios de desabastecimento de medicamentos, agora os kits necessários para a realização de exames que medem a carga viral estão com estoques comprometidos por conta de um problema de logística e a Nota Técnica 197/11 restringe a realização desses exames extremamente necessários para que o médico avalie a situação laboratorial do paciente.

Paciência, paciente. O jeito é pegar o guarda sol, o bronzeador e aguardar a volta do verão para tomar um bom picolé e rezar para que lancem urgentemente o sabor 'Indignação de Jiló', para um dia voltarmos a ver a velha e boa combatividade que tornou famoso o movimento de luta contra a AIDS. E, talvez, aproximar um pouco mais a situação real do ilusório 'melhor programa de AIDS do mundo', pois sem o controle social adequado, quem vai derreter é a gente.

Beto Volpe

sábado, 16 de julho de 2011

Bispo da Universal incentiva criança a dar brinquedo à igreja

Descrição da imagem: símbolo da IURD, sendo que a pomba que se sobrepõe ao coração segura uma cédula de dinheiro. Ladeando, o escrito: Templo é dinheiro.

Mesmo com a situação aviltante enfrentada pelo inocente garoto, o mais triste de tudo é ver que o 'povo de Deus' embarca nessa de bolso e alma.
Beto Volpe

Uma criança de nove anos é incentivada por um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus a vender seus brinquedos e doar o dinheiro à igreja para que os pais parem de brigar. Enquanto isso, sua mãe é exorcizada no altar. A cena ocorreu em culto da Universal em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, e está sendo exibida em vídeo no blog do bispo Edir Macedo, fundador e líder da igreja.

A Universal foi procurada ontem para comentar o vídeo, mas não deu retorno até o fechamento desta edição. No vídeo, o menino conta ao bispo Guaracy Santos que seus pais têm brigado com frequência. O bispo pergunta que sacrifício ele fará pelos pais. "Eu vou dar tudo que eu tenho", responde a criança. Guaracy devolve: "E o que é tudo que você tem?". "Brinquedo", diz o menino. O bispo insiste: "Você vai vender?". A criança diz que sim, e Guaracy pergunta, referindo-se ao dinheiro: "Pra colocar onde?" "No altar", promete a criança.

Em seguida, sua mãe aparece em crises de convulsão, sendo segurada por um obreiro da Universal. O bispo diz que ela tem "o demônio" e "uma praga". Depois, incentiva a criança a se aproximar. "Vai lá perto e fala: acabou pra você, diabo." E conclui: "Seja fiel, vende o que você tem. Tem fé pra isso? Vai na tua fé".

Especialistas disseram à Folha que, embora não haja um artigo que trate explicitamente do caso, o vídeo fere os princípios do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) ao expor o menino a possíveis constrangimentos, mesmo com o rosto borrado.

DIREITO DA CRIANÇA

Ricardo Cabezón, presidente da Comissão de Direitos Infanto-Juvenis da OAB-SP, diz que o recurso não impede que o menino seja identificado por conhecidos.
"A criança deve ser poupada. Se a própria mãe está numa situação de incapacitada, nas mãos de outra pessoa, não se pode pegar uma criança para que ela explique o que está se passando."

A advogada Roberta Densa, que dá aulas sobre o ECA, avalia que o bispo se aproveita da condição "vulnerável" da criança. "É uma situação de manipulação." Para João Santo Carcan, vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, o papel da igreja, ao tomar conhecimento de um problema desses, seria entrar em contato com os órgãos públicos de assistência social. "Ali tratam a criança como instrumento de receita", diz.

O vídeo foi postado no YouTube e noticiado ontem pelo jornal "O Estado de S. Paulo". Até ontem tinha 571 comentários no blog de Macedo, a maioria de fiéis da Universal. Muitos elogiam a "valentia" do garoto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Meu filho, você não merece nada !

Descrição da imagem: desenho de jovem, visivelmente frustrado com algo, puxando o gorro para cima de sua face.

Pessoal, compartilho esse texto da jornalista Eliane Brum, que recebeu o Caboclo Saramago e nos dá argumentos mil para refletirmos sobre... a Vida. É um pouco longo, mas vale muito a pena. Beijos mil.
Beto Volpe

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Lenda da Camisinha sem Cabeça

Descrição da imagem: desenho em branco e preto de mula sem cabeça na mata, soltando fogo pelas ventas sob o luar.

Conta a lenda que existia, em um longínquo reino do outro lado do oceano, uma indústria que fabricava um produto mágico que dava independência às mulheres nos momentos mais íntimos de suas vidas. Uma camisinha feita especialmente para elas, conferindo um poder nunca antes visto na prática sexual. E ela não era apenas eficiente, também tinha várias vantagens sobre sua correspondente masculina. Podia ser colocada até oito horas antes da relação, era feita de material que permitia a sensação de calor, tinha uma argolinha que estimulava o clitóris e podia ser retirada tempos após a ejaculação masculina. Ao saber da notícia de que tal produto realmente existia, um grande país deste lado do oceano tratou de fazer experimentos para comprovação de eficácia e logo o introduziu no arsenal de insumos de prevenção ao vírus HIV e outras DSTs.

A novidade correu de boca em boca entre as mulheres, especialmente as que vivem com HIV e as prostitutas, segmentos priorizados nas primeiras levas importadas. Isso sem contar os anciãos e anciãs para os quais ela era indispensável! Mas eram muito poucas e, lentamente, foi voltando a crença de que tudo não passava mesmo de uma lenda e que tal produto não existia, na realidade. Mas ele podia ser visto em farmácias, sempre a preços elevadíssimos, mas existia! E sempre foi esse o obstáculo para que ela chegasse a todas as brasileiras que dela necessitassem: o preço. O produtor era único e, com isso, praticava preços muito elevados para a maioria das pessoas, proibitivos, até. Foi quando um novo produtor foi anunciado, no sul do país. Tá certo, o material não era o mesmo do calorzinho, ms ainda assim garantia a segurança das pessoas que dela fizessem uso. E também virou lenda. Nunca mais se ouviu falar dela.

Foi quando o produtor do outro lado do oceano anunciou que iria paralisar suas atividades, ou ao menos suas exportações, pois os subsídios governamentais que ele recebia haviam acabado. Aí, sim. Foi consagrada a lenda da camisinha sem cabeça. Agora ela está sumida não somente dos postos de saúde, mas também das farmácias. Mês passado foi feito levantamento em cinco grandes redes de drogarias na região da Avenida Paulista e nenhuma possuía o artefato. Em uma delas a vendedora ainda exclamou, espantada como se tivesse visto uma assombração::

- A gente não trabalha com isso, não!

Pois é. Enquanto a camisinha feminina for tratada como uma mula sem cabeça, a prevenção entre mulheres não passará de uma lenda com final infeliz.

Beto Volpe

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Big Family Brasil

Descrição da imagem: busto de  homem de terno de onde sai um pescoço cabo e uma cabeça câmera e os dizerems em inglês, traduzindo: '1984 não era para ser um manural de instruções'.

Não canso e acho que nunca cansarei de citar George Orwell em meus escritos., afinal, dois de seus livros foram decisivos na formação de minha personalidade. O primeiro deles, e o mais contundente, foi 'A Revolução dos Bichos' onde, após uma tomada de poder e socialização igualitária do trabalho e da riqueza de uma granja, os porcos se acham e se dizem mais iguais que os outros. Como logo após ter contato com essa obra entrei para a faculdade de comunicação social e seu bando de gente diferenciada, os questionamentos apresentados pelo livro se entranharam definitivamente em meu pensar e em meu viver. A outra peça produzida por Orwell que fez com que eu refletisse um pouco além do que eu estava acostumado foi '1984', onde os cidadãos eram vigiados 24 horas por dia através de câmeras instaladas em todos os ambientes privados ou sociais. O Grande Irmão, agora banalizado Big Brother,  subtraía dos seres humanos sua privacidade e tolhia sua personalidade, colocando-os sob o crivo do poder absolto. Mas acho que nem o autor britânico seria capaz de imaginar que um dia mães e pais chegariam ao ponto de contratar detetives particulares para seguir e vigiar seus filhos. O Big Family Brasil, versão familiar de um totalitarismo estatal, já disponível nos grandes centros urbanos.

Essa notícia chamou-me a atenção ontem e me fez refletir. Onde já se viu contratar detetives para seguir seus filhos? Será que são problemáticos, envolvidos com o crime ou coisa assim? Afinal, temos visto frequentemente reportagens sobre jovens da classe média nessa situação. Só que, chegando ao final da notícia, um detetive do Rio de Janeiro relata que quatro dos doze casos contratados somente este mês são relacionados à suspeita de homossexualidade do filho ou da filha. Namorado novo e o simples 'acompanhar a rotina' eram outros motivos assustadores o suficiente para uma família abrir sua privacidade a estranhos em nome da integridade familiar. Fiquei imaginando a infância e criação que essas crianças tiveram. Sendo classe média alta, naturalmente que uma babá cuidou dos primeiros passos, pois os pais estavam ocupados demais para dar atenção a eles. Aliás, a falta de tempo é exatamente o argumento usado por um dos pais contratantes para utilizar um serviço normalmente associado a crimes e traições.

Existe um pacote de serviços, desde a simples observação dos/as adolescentes até escutas telefônicas e rastreadores instalados nas mochilas escolares. O Grande Irmão tudo sabe, tudo vê. Continuando meu devaneio sobre a situação desses/as jovens pensei em quando será que essas famílias terão tempo para seus filhos? Não o tiveram na infância, não o tem agora e provavelmente nunca o terão. Aí entra o serviço profissional, um pacote de conveniências que se assemelha a  pipocas de micro-ondas. Práticas, mas fazem um mal danado, com consequências futuras talvez mais dramáticas do que as por eles imaginadas agora. Tudo bem, o mundo moderno impõe condições severas para que uma família se mantenha materialmente. Mas com a terceirização da formação de valores, foi incumbida essa tarefa a profissionais e instituições nem sempre dignas de trabalho tão delicado e com repercussões para o resto da vida daquela criança, E como terceirizar serviços causa dependência e é um dos caminhos seguidos pela sociedade e até mesmo por alguns governos, a história se repete na juventude e a coisa complica de forma, talvez, definitiva.

O ano de 1984 já passou e O Grande Irmão continua mais vivo que nunca. Os espaços públicos são monitorados , também nos ambientes coletivos e até mesmo o GPS dedura muita gente que não imaginou estar sendo observada e que ainda não se acostumou com as várias aplicações das novas tecnologias. Lembrei do avião, da energia atômica e de outros inventos fantásticos de nossa civilização que, quando usados de forma incorreta, tornam-se armas contra nós mesmos. Não seria mais fácil dedicar um tempo, por menor que fosse, para dar atenção e carinho para a descendência? Se não for por amor, que seja pela economia futura na contratação de profissionais para tentar consertar o que fizeram na infância. Ou pelo investimento na velhice, onde quem sabe os filhos e filhas não tenham o tempo necessário para dar apoio aos pais e entregam o serviço a profissionais e instituições também nem sempre dignas de prestar serviço tão delicado e com repercussões imediatas.

A sociedade mudou radicalmente nos últimos anos.
Se para melhor ou pior, essa é a encruzilhada.

Beto Volpe

sábado, 9 de julho de 2011

O pavão e o urubu.

Descrição da imagem: foto de pavão e de urubu lado a lado.

Conta uma antiga fábula indiana que um pavão vivia entristecido com a limitação de sua vida. Apesar de extremamente belo ele não tinha a liberdade de buscar outros mundos e de mudar seu caminho. Refletindo assim ele observava um urubu que voava livre pouco acima:

- De que me vale ser a referência em beleza no mundo animal se não tenho liberdade para escolher meu destino? Como eu gostaria de ser como o urubu, totalmente livre!

O que ele não sabia era que o urubu também estava insatisfeito com a condição que a evolução o havia imposto. Ele era livre, mas era muito feio e isso afastava os outros animais. E também refletia:

- Que vida, essa minha. Todo mundo que me vê logo associa a lixo e podridão. Como eu queria ser como o pavão, lindo e popular.

E, pensando assim, desceu à terra e foi conversar com o pavão para ver se algo poderia ser feito por ele. Surpresos ao saberrem da insatisfação de ambos eles confabularam, idealizaram soluções para suas vidas e chegaram à conclsão que nada poderia ser feito para melhorar a situação deles, mas seria possível fazer algo pela descendência e o pavão decretou:

- Se nós cruzarmos teremos filhotes lindos como eu e livres como você!

E nasceu o peru. Que não voa nadica e é feio pra cacete....

Descrição da imagem: peru com cara de véspera de Natal.
Moral da fábula: não tente fazer gambiarras com a natureza. Nunca vai dar certo, rsrsrs...

Behto Volpegandra

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Pro dia nascer feliz...

Descrição da imagem: caricatura do cantor Cazuza, em branco e preto, sentado , segurando um microfone.
Caricatura de Douglas Vieira (Dodo) . http://www.dodocaricaturas.blogspot.com/
Pessoal, segue artigo publicado ano passado no http://www.aidsedeficiencia2010.blogspot.com/  que relembrava os vinte anos sem Cazuza. Neste sete de julho de 2011 sua imortalidde alcança a maioridade. Que sejas imortal, mesmo sendo chama.

Pro dia nascer feliz...

Não foi nada fácil ver o poeta morrer, vinte anos atrás. Especialmente para aqueles que estavam no mesmo barco, navegando os ainda desconhecidos mares da nova doença. Éramos aqueles que haviam embarcado como clandestinos e estavam condenados a assim viver, exceto ele. Ele já havia saído em capas de revistas, por vezes tão sensacionalistas. Ele tinha uma família com recursos diversos, tratamentos nos Estados Unidos e até sangue de cavalo disseram que ele havia experimentado. Se havia um alguém que testaria algo que daria certo, era ele. E ele se foi, levando um pouco da parca esperança que nos amparava. Mas ele levou consigo também a idéia de que éramos mortos vivos, mostrando ao mundo que as pessoas que vivem com HIV também carregam consigo todo o amor que houver nesta vida.
 
Havia alguns anos que o HIV me rondava, fosse ao se apossar da vida de grandes amigos ou no remorso instantâneo durante uma noitada em algum parque público. Foi durante essa época, quando morava em Sampa, que fui apresentado a Cazuza em um show do Barão Vermelho no Radar Tantã. Mais uma dose, é claro que eu tô a fim. No mesmo show também conheci um repórter platinado que futuramente engrossaria as estatísticas e as notícias sobre os famosos da AIDS. O vírus chegava cada vez mais perto. Até que o amor, meu grande amor apareceu e entre um e outro segredo de liquidificador a camisinha sumiu de cena e o meu tesão virou risco de vida.
 
A surpresa (surpresa?) do diagnóstico, a tristeza da revelação à família, a rudeza das perícias iniciais no INSS, a dureza de uma vida sem horizontes, tudo ia criando uma estranha zona de conforto, bastante desconfortável porém eficaz. Se os recursos eram parcos, a esperança era enorme e Cazuza tinha muito a ver com essa esperança. De suas viagens aos melhores centros médicos do mundo sempre vinha um reforço para nossas energias. Ainda estavam rolando os dados. E apesar de já haver perdido, a essa altura, vários amigos por conta da síndrome, sempre mantinha inabalável a certeza de que algo seria descoberto e daria fim ao pesadelo de nos sentirmos cobaias de Deus.
 
Até que aos sete de julho de 1990 ele encerrou sua temporada terrena. Foi muito difícil ver a tênue linha que nos ligava à Vida sumir assim de forma repentina, por mais que esperada. Se um imortal se foi, o que nos restava, pobres mortais? Muitos, como eu, tivemos nossas mentes turvas por esse pensamento e os excessos nos pareceram a melhor saída nessa hora. Cem gramas, sem grana. Por que é que a gente é assim? Tantos se foram nesse trem pras estrelas, mas outros ficaram para viver a vida, louca vida com HIV. Mas sua morte física, assim como a de todos os imortais, fez com que suas idéias perpetuassem. E Cazuza, como nenhum outro, nos convenceu de que o céu, realmente, faz tudo ficar infinito e que a solidão é pretensão de quem fica escondido, fazendo fita. E mostrou que a felicidade, mais que possível, é imperativa para as pessoas que vivem com HIV. Se estamos, meu bem, por um triz, é melhor fazer o dia nascer feliz.
 
Porque o mundo é um moinho.
 
Beto Volpe

O SUS no fim do túnel

Descrição da magem: vizinhos tradicionalmente rivais, Hommer e Flanders da animação 'Os Simpsons' abraçam-se afetuosamente por sobre a cerca que separa seus territórios.

Todo mundo sabe que novas propostas são difíceis de serem assimiladas em nosso planeta, especialmente aquelas que incorrem em mudanças de comportamento. Foi assim com o cinto de segurança e capacetes e sempre será quando a mudança tem que ser desenvolvida por um sistema caracterizado pela diversidade de atores e de competências. Nos dois primeiros exemplos ficou claro que a sanção financeira foi definitiva para que a legislação fosse cumprida pela maioria das pessoas. Já com relação à gestão do SUS essa ferramenta não foi adotada. O Pacto pela Saúde, assinado em 2006, estabelecia uma série de insrumentos para facilitar a cooperação entre os gestores e o estabelecimento de metas conjuntas, mas não previa sanções pelo descumprimento das mesmas. Em outras palavras, ficava o dito pelo não dito e bastava o acórdão dos conselhos de saúde para a aprovação das contas.

Quem atua ou já atuou no controle social de políticas públicas em Saúde sabe o sufoco que é enfrentar uma máquina estabelecida em todos os níveis de gestão do Sistema Único de Saúde, por vezes há décadas. Essa obra de engenharia obscura e objetivos funestos agrega gestores, profissionais de saúde e até mesmo a sociedade civil organizada em um túnel mal iluminado por onde escoam verbas, são privilegiados interesses pessoais e corporativistas e, o pior, acarreta diversos transtornos no atendimento ao cidadão e à cidadã, fragilizando o SUS perante a opinião pública.  Enfim, ao final de junho passado foi assinado decreto presidencial estabelecendo contratos de gestão entre os entes públicos, com premiação para aqueles que atingirem suas metas e penalização para os que não as cumprirem. Enfim, o túnel está melhor iluminado e pode ser visto o SUS com mais clareza em seu final.

Com isso os conselheiros de saúde comprometidos exclusivamente com a saúde pública, que em verdade correm sério risco de entrar para a lista de espécimes em extinção, poderão intervir de forma mais efetiva para melhorar a abrangência e a qualidade do atendimento em saúde no Brasil. O Estado será obrigado a emitir relatórios periódicos de cumprimento de metas e seus indicadores, empoderando o controle social para sua real função. A velha história de que se não vai pelo amor, vai pela dor. A dor financeira, que acarreta a perda de poder político e com a qual o povo não tem nada a ver. E o mais agudo dessa dor para o gestor mal intencionado e sua rede de socialização (sic) é que ao perder determinada verba por descumprimento de metas, essa grana irá para um município próximo ou até mesmo vizinho. Quer coisa pior, dentro da lógica extremamente competitiva da sociedade atual?

Há muito tempo ativistas de direitos humanos na área da Saúde cobram essa atitude, enfim tomada pela gestão federal. E também existe o compromisso de que, em breve, serão definidos critérios de tempo de espera pelo atendimento profissional. Sabemos, como dito no início, que mudanças de comportamento são difíceis de serem implementadas, especialmente quando o comportamento é do Estado, Mas agora existe o risco de perder verbas para seu 'concorrente'. Talvez a lógia cooperaivista, prevista no Pacto pela Saúde, prevaleça e produza resultados locais. Pode viajar um pouco? Quem sabe agora passa a ser interessante a regulamentação da EC 29?! O Santo Graal da Saúde para muitos que de sua falta se ressentem e um crucifixo de réstia de alho para os vampiros da saúde pública.

Que temem mortalmente a luz no fim do túnel.

Beto Volpe