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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

E agora, Queiroz?


Artigo publicado na edição de hoje do jornal A Tribuna do Litoral Paulista.

Descrição da foto: busto do nadador Daniel Dias com um sorriso quase tão brilhante quanto a medalha de ouro em seu peito.


Os Jogos Paralímpicos de Londres acabaram e não foi surpresa alguma, ao menos para quem tem a mente aberta e atualizada, termos tido um excepcional desempenho, especialmente se comparada à pífia participação brasileira nos Jogos Olímpicos. Quanto orgulho, quanta emoção, quantas lágrimas. Pessoas que estavam ali não somente por terem obtido os índices classificatórios para participar dos jogos, esse foi o menor dos desafios. Para eles, as paralimpíadas começaram, muitas vezes, na própria gestação.

Como algumas pessoas ousam chamá-los de deficientes? Como se atrevem a considerá-los anormais, já que usam com frequência o termo 'normal' para tudo aquilo que não envolve deficiências? Esses atletas transformaram paradigmas ao obter o 7º lugar no quadro geral de medalhas, conquistando nada menos que 21 medalhas de ouro. Ao passo que os atletas 'normais', incluindo os de esportes onde a infra é de dar inveja a países desenvolvidos, não foram além do 22º. Equipe esta que custou 123,5 milhões por medalha, levando em conta os incentivos fiscais e investimentos feitos pelo governo nos esportes olímpicos. Essa relação ainda não foi feita com o esporte paralímpico, mas deve ser irrisório não somente pela diferença de pódios, mas também pelo investimento feito, infinitamente inferior ao 'normal'.

Apesar de ter gerado mais mídia que os jogos anteriores, ainda pairou um manto de invisibilidade que, com o andar da carruagem da rainha e o subir e descer de pódios com rampas, caiu e obrigou as emissoras de televisão a dar mais atenção àquelas pessoas que, ao invés de saltarem, se arrastam para dar uma cortada no vôlei sentado. Que conseguem dar braçadas vencedoras sem sequer terem braços. Que enxergam o brilho dourado da vitória mesmo sendo cegas. Certa vez uma pessoa que conheço há décadas, de pseudônimo Queiroz, ao comentar os baixos índices de audiência da novela Viver a Vida disse que ninguém queria ver aquele tipo de coisa na hora do jantar, referindo-se à personagem cadeirante. Após uma breve intervenção minha sobre concessões, reparação de desigualdades, Rui Barbosa e coisas do gênero, ele disparou:

- Então agora todo mundo vai ter que transar com aleijadinhos?

Desnecessário dizer que a feijoada azedou e nossa amizade esfriou. Tivemos a oportunidade de nos reencontrar em uma mesa de bar e, para meu espanto e final da amizade, ele repetiu as mesmas palavras. Pois é, Queiroz, olha os aleijadinhos aí, dando uma senhora lição à nossa sociedade hipócrita e excludente. Eles tiveram que superar índices em caminhada com obstáculos, salto de meio fio e outras provas que a vida lhes impôs todos os dias. Inclusive o desafio da vida afetiva, afinal tem muita gente que pensa que aleijadinhos não têm vida sexual e por isso necessitariam de uma novela para dizer ao público para transarem com eles.

Aleijadinho é um artista barroco. Deficiente também não é o caso, como Londres demonstrou. São pessoas repletas de características, onde a deficiência é uma delas. São Pessoas com Deficiências que, segundo Darwin, expandiram seus mundos, surpreendendo a si mesmas e às pessoas ‘normais’. E que não se sentaram no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

Viva os atletas paralímpicos brasileiros pelo brilhante desempenho em Londres. Tenho certeza que na Rio 2016 vocês arrebentarão pois, se falta apoio, sobra garra e dedicação. Atitudes que lhes foram ensinadas, muitas vezes, na própria gestação.

Beto Volpe

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?

Pessoal, Eliane Brum é uma mulher que me tira o fôlego.
Beto Volpe

Descrição da imagem: em preto sobre branco, a figura feminina da Justiça empunhando uma espada com a mão direita e a balança com a esquerda, sobre uma coroa de louros.

Por que o uso da palavra “doutor” antes do nome de advogados e médicos ainda persiste entre nós? E o que ela revela do Brasil?

Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.  

Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz. 

Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.  

Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós. 
Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.  

Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?
- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.
- O senhor chama eles de doutor?
- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....
- É esse o segredo do serviço?
- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo. 

Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado. 

Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor? 

Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores. 

Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente. 

Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois? 

O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana. 

É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo. 

No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.  

O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.  

Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção. 

Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira. 

Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério....” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana. 

É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.  

Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.

Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.

Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi.

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Você quer ser pessoa ou paciente?

Pessoal, compartilho com vocês uma nova pérola de Eliane Brum, jornalista a quem admiro um bocado. Lembrei do filme 'De quem é a vida, afinal?' com o sempre brilhante Richard Dreyffus vivendo um bem sucedido escultor que tinha em sua mulher bailarina sua musa inspiradora. Ate que um caminhão atravessa o sinal fechado e o conversível dele vai parar lá embaixo. Sem movimentos da cintura para baixo e necessitando de vários aparelhos para se manter vivo, por conta dos danos internos do acidente, o que o obrigava a viver no hospital imóvel e completamente lúcido. A piração vai num crescendo até que ele contrata um advogado para conseguir um habeas corpus para que ele pudesse sair do hospital e morrer em paz em sua casa. Recomento fortemente. Assim como o texto a seguir. Boa leitura.
Beto Volpe

Descrição da imagem: desenho de mulher que tem a pele em delicado lilás, cabelos em um tom mais escuro, olhos fechados e boca semi aberta, deitada envolta em branco com flores rosas à sua volta e uma em suas mãos entrelaçadas sobre o peito. Das nuvens verdes desce uma mão que parece um acolhimento.

A resolução do Conselho Federal de Medicina nos devolve uma decisão que nunca poderia ter deixado de ser nossa: a escolha de como viver o fim da nossa vida. Como nos alienamos tanto a ponto de permitirmos que chegasse a esse ponto?


É um avanço profundo a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), divulgada na semana que passou, que devolve ao paciente a decisão de escolher como quer viver o fim da sua vida. Para relembrar: quem estiver com uma doença crônica ou degenerativa pode escolher se quer ter sua vida prolongada, à custa do que tem sido chamado de “tratamentos fúteis”, ou quer que respeitem seu tempo de morrer, beneficiado pelos “cuidados paliativos”. Tratamentos fúteis são todos aqueles que apenas adiarão a morte, mas sem dar qualidade para a vida – aumentando e estendendo o sofrimento. Procedimentos como submeter alguém a uma cirurgia quando já não há como curar a doença, ressuscitar quem está em estado terminal e teve parada cardíaca, ligar alguém a aparelhos quando tudo o que se conseguirá é uma existência vegetativa. Cuidados paliativos são tanto físicos quanto psíquicos e envolvem não só médicos, mas uma equipe multidisciplinar. Os profissionais estão lá para amenizar a dor, mas sem espichar nem abreviar a vida. A ideia é respeitar o tempo de morrer e usar o conhecimento científico e também de outras áreas para que se possa viver da melhor maneira possível até o fim. A qualquer momento, qualquer um de nós pode escrever e até registrar em cartório um documento, que pode ser chamado de “testamento vital” ou de “diretiva antecipada de vontade”, no qual determinamos o que permitimos – e o que não permitimos – no caso de sermos levados a um hospital ou precisarmos de cuidados médicos. 

Passei a preparar meu testamento vital desde que acompanhei as duas grandes possibilidades do fim de uma vida, anos atrás, quando ela se dá no palco de um hospital. E percebi que, para mim, uma amante do cinema e da literatura de terror nas obras de ficção, não haveria terror maior na vida real do que morrer numa UTI, amarrada a fios, entubada e sozinha. Não mais uma mulher, uma vida em curso, mas um objeto de intervenção médica. Quero morrer sem dor física, ou pelo menos com o mínimo de dor possível, de preferência na minha casa, rodeada por aqueles que eu amo. E espero conseguir viver da melhor forma possível até o fim – o que inclui viver a minha morte com dignidade. 

Se a resolução do Conselho Federal de Medicina (leia aqui) é uma boa notícia, vale a pena pensar também sobre o que ela nos diz para além do texto. Uma resolução do CFM não é uma lei, mas uma regulamentação da prática médica feita pelo órgão de classe, responsável por fiscalizar e normatizar o exercício da medicina no país. É importante, sem dúvida que é, mas há muito ainda a lutar para que recuperemos nosso direito de escolha. E podemos começar com a seguinte questão: em que momento delegamos aos médicos a decisão sobre o nosso morrer? Que é, em última instância, uma decisão sobre o nosso viver? 

Dando alguns passos para trás, para enxergarmos o quadro maior, poderíamos pensar no quanto é curioso ser preciso uma resolução do CFM para dizer que é aquele que vive e aquele que morre quem tem o direito de escolher sobre a sua vida e a sua morte. Como alguém, nós ou os médicos, fomos capazes de pensar que essa decisão pudesse pertencer a outra pessoa? A que ponto chegamos para que seja preciso que os médicos nos devolvam algo que sempre foi nosso? Como foi que nos alienamos do processo da vida, tanto que aceitamos ser transformados em sujeitos passivos de intervenção e de decisão médica num momento tão crucial de nossa existência?  

O fato é que, desde o século XX, a morte tornou-se marginal na nossa sociedade, algo a ser escondido dentro dos hospitais, em ambiente asséptico. E o morrer tornou-se um ato quase obsceno, que nos lembra de nossos limites num momento histórico obcecado pela juventude e pela potência. Nossa crescente impossibilidade de lidar com a certeza da morte produziu pelo menos duas distorções: médicos que abusam do poder e extrapolam limites e pessoas infantilizadas no momento de tomar uma das decisões mais importantes da vida.  

Reparem que escolho a palavra “pessoas” – e não “pacientes”, nosso nome a partir do momento em que entramos num hospital, clínica ou consultório médico. Como pessoas, temos uma história, um percurso, uma teia de sentidos. Como pacientes, como a etimologia da palavra nos prova, tanto quanto a prática cotidiana, somos esvaziados de nossos sentidos e de nossa história para nos tornarmos um sujeito passivo. A palavra “paciente” vem do latim patientia, que significa “virtude que consiste em suportar os sofrimentos sem queixa”.  

Somos “pacientes” com relação a um outro, que tem poder sobre nós. E não é obra do acaso que, tanto na posição de doentes quanto na de velhos, médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, fisioterapeutas etc seguidamente nos tratam por diminutivos, como se fôssemos crianças pequenas. É difícil quem não tenha vivido ou testemunhado esse tratamento num hospital, clínica ou consultório. Parece apenas trivial, alguns consideram até carinhoso, outros vagamente irritante, mas a escolha das palavras desvela nosso lugar – e também um processo histórico e um embate no campo da ética.  

Na prática, a relação com a doença e com a morte é vivida por boa parte dos médicos, acredito que a maioria, como uma guerra. Perder um “paciente” é decodificado como derrota. Logo, o médico passa a acreditar que tudo é permitido para prolongar a vida e seguir no combate. Nessa lógica, pessoas além da possibilidade de cura têm sido submetidas a tratamentos invasivos e dolorosos que apenas encolhem a qualidade dos seus dias. Muitas delas são impedidas de viver o fim da sua vida da melhor forma que lhes é possível, perto das pessoas que fazem parte da sua história e dos objetos que a contam. E gente demais tem morrido sozinha e aterrorizada numa UTI.  

Se o médico vê a si mesmo como um comandante em armadura branca, é ele quem tomará as decisões. De um “paciente”, como de um soldado, espera-se apenas que colabore, cumpra ordens. O bom “paciente” é aquele que aceita de bom grado as determinações médicas, mantendo-se no seu lugar de passividade diante daquele que detém o poder e sabe o que é melhor para ele – e qual é a melhor estratégia para vencer cada combate. Recuar parece ser mais difícil para alguns médicos do que foi para muitos dos grandes generais da História. 

Mas o médico é apenas um dos protagonistas desse enredo – não o único. Tornou-se o que é não apenas porque o poder é tremendamente sedutor, mas porque permitimos que exerça esse poder. Como todos nós, os profissionais da saúde fazem parte dessa sociedade e desse momento histórico, no qual o corpo de uma pessoa doente é visto como um campo de batalha. Parte de nós espera de um médico que, diante da nossa fragilidade, diga: “Não se preocupe, vamos lutar com todas as armas da medicina”. Em troca, ele só espera nossa completa obediência. Muitos não têm sequer paciência para explicar a estratégia e os danos colaterais do tratamento – e há aqueles que se ofendem quando questionados. Do mesmo modo que não há enterro de pessoas que viveram uma doença prolongada, como câncer, em que familiares e amigos não comentem diante do caixão: “Foi um guerreiro. Lutou até o fim”! A escolha das palavras é, mais uma vez, reveladora. Todos nós colaboramos e cumprimos nosso papel nesse jogo de ilusões. Assim, todos somos responsáveis pelos abusos que aí estão.

Desde os anos 60 do século passado vozes dissonantes começaram a ser ouvidas, questionando a mentalidade reinante. Afinal, muitas vezes a maior coragem é reconhecer os limites e parar de lutar. Ou, dito de outra maneira, aceitar o fim da vida e tentar viver da melhor maneira possível os dias que restam – o que certamente não inclui tratamentos dolorosos e invasivos, ampliados pelo avanço tecnológico. Se você tem pouco tempo de vida, vai querer gastá-lo em hospitais, amarrado a fios ou fazendo exames e cirurgias, com estranhos que o tocam com luvas? É possível que não.

Já escrevi esta frase aqui, mas vou repeti-la mais uma vez: “A morte não é o contrário da vida, a morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. Ou seja: morrer é parte da vida, não seu oposto. Precisamos aprender a viver também a nossa morte, por mais difícil que seja – e, com certeza, é muito. De certo modo, o morrer será a última grande novidade na vida de todos. Querendo ou não.

Como a morte por doença e por velhice, a morte da maioria, tem sido calada entre nós, temos perdido uma grande chance de pensar sobre a vida. E como tudo que é silenciado e reprimido, também a morte tornou-se apenas horror. Assim, nada mais prático do que delegar a tarefa de decidir sobre esse momento crucial ao médico. O medo é tanto que preferimos abdicar da nossa autonomia e nos colocar na mão de alguém que espera ser chamado de “doutor” – outra palavra que no Brasil diz muito sobre as relações de classe e de poder, tanto nas leis quanto na medicina. Diz tanto sobre o lugar do médico quanto sobre o nosso lugar diante dele. Se os médicos acreditam ter controle absoluto sobre as decisões da nossa vida e da nossa morte, a ponto de fazerem cirurgias em nosso corpo até mesmo contra a nossa vontade, é só porque podem contar com a nossa cumplicidade. E a tem porque nos é conveniente.

O que o Conselho Federal de Medicina está dizendo aos seus é o seguinte: “Vocês não têm mais o aval da instituição para abusar do seu poder”. Decisões tomadas à revelia do “paciente” não poderão mais ser ocultas atrás da obrigação de empreender todos os esforços para supostamente salvar uma vida. Nesses casos, sabe-se que não há como salvar uma vida, só há como espichá-la a um preço altíssimo – o sequestro da qualidade dos dias que restam. O CFM está lembrando também algo que parece ter sido esquecido: nem sempre um médico pode curar, mas sempre pode cuidar.

Quem decide sobre como viver e como morrer é quem vive e quem morre. E é triste que seja preciso o CFM nos dizer isso, quando cada um deveria ter dito a cada médico que tenha tentado tomar uma decisão em seu lugar. Ao médico cabe esclarecer todas as alternativas, da forma mais clara e didática possível. À família cabe compartilhar, trocar ideias e dar apoio à decisão tomada. Mas a escolha sobre como viver o fim da vida é pessoal e intransferível. Não é do médico e também não é da família, que muitas vezes toma para si o poder de decidir sobre a vida de quem morre, com a justificativa sempre bem vista socialmente do amor extremado.

Se o CFM deu uma boa resposta ao debate travado na sociedade sobre o viver da morte, na prática essa realidade só vai mudar se mudarmos nós. Quem levou essa discussão adiante, desde a segunda metade do século passado, foram os movimentos de vanguarda, liderados por profissionais da bioética e dos cuidados paliativos. Mas a vida muda de fato na prática cotidiana. Muda quando mudar nosso comportamento dentro de consultórios, clínicas e hospitais. Muda quando a morte voltar a ter seu lugar central na vida – abandonando a posição marginal na qual a relegamos.

 Não se iluda. Fugindo ou não dela, é a morte que dá sentido à vida. É diante da possibilidade do fim que criamos uma existência que valha a pena. Sem ela, deixaríamos tudo para um amanhã que nunca chegaria, presos a um presente tão repetitivo quanto infinito. Calar a morte é uma burrice, já que inútil, mas é principalmente a perda de uma grande oportunidade para viver uma vida mais viva.
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Encerro esta coluna com a sugestão de uma aventura pelo universo da morte, através do cinema, da literatura e da reportagem. Cada um vive o seu percurso a partir de suas próprias experiências, mas duvido que alguém saia dele menor do que entrou. As obras indicadas a seguir fazem parte de minha trajetória para compreender essa questão – e também deixo aqui alguns dos meus trabalhos sobre o tema. Há muito mais do que isso, escolho apenas o que me pareceu mais interessante. Seria ótimo se cada leitor pudesse acrescentar, nos comentários desta coluna, suas próprias descobertas, compartilhando aquilo que o ajudou na sua busca.

Livros:
- O homem perante a morte, de Philippe Ariès (obra em dois volumes, na qual o historiador francês mostra como a morte foi vista ao longo da História – é um livro fascinante e até hoje o que existe de mais completo sobre o tema);
- A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói (uma pequena obra-prima da literatura russa);
- O ano do pensamento mágico e Noites Azuis, dois livros de Joan Didion (a escritora americana perdeu o marido e depois a filha, o que a levou a uma longa reflexão sobre a fragilidade, a velhice e a morte – escrevi sobre o último aqui).

Filmes:
- Hanami, cerejeiras em flor, de Doris Dorrie (este é o meu filme preferido sobre a vida e sobre a morte e um dos melhores filmes que vi na vida – totalmente delicado e imperdível);
- Poesia, de Lee Chang-Dong (escrevi sobre esse filme aqui);
- A Partida, de Yojiro Takita (o olhar da sociedade sobre as pessoas que lidam com a morte);
- Ensina-me a viver, de Hal Ashby (um diálogo criativo e revelador entre o jovem Harold e a velha Maude).
- Mar adentro, de Alejandro Amenabar (sobre um homem lutando pela eutanásia, um direito que ainda não temos).

Algumas reportagens que fiz sobre o tema (basta clicar para lê-las):
- A enfermaria entre a vida e a morte, A mulher que alimentava, Minha vida com Alice (nesta reportagem, dividida em três textos, discuto nosso olhar sobre a morte e conto o cotidiano de uma enfermaria de cuidados paliativos, acompanho os últimos 115 dias da vida de uma mulher com um câncer além da possibilidade de cura e, por fim, reflito sobre como foi viver essa experiência);
- O filho possível (aqui, acompanho uma unidade neonatal de cuidados paliativos);
- Testamento Vital (nesta coluna, abordo o início da discussão dessa resolução do CFM e entrevisto José Eduardo de Siqueira, um médico humanista que tem muito a nos dizer);
- Profissão Repórter (neste programa de TV, Thaís Itaqui, Caco Barcellos e eu contamos a rotina de uma enfermaria de cuidados paliativos).

Boa jornada!
Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sejam bem vindos à Ilha da Fantasia


Descrição da imagem: os anfitriões da Ilha da Fantasia, senhor Roarke e Tattoo, trajando fraques brancos e grandes colares de flores tropicais. Eles posam em pé para foto em um gramado, alheios às dificuldades do mundo real, tendo ao fundo um tranquilo rio, uma exuberante natureza e uma bela nativa.


Após dormir por quase um dia inteiro, coisa que não acontecia desde que tomei meu último ‘Boa noite, Cinderela’, a cabeça está mais firme sobre o pescoço e os pensamentos mais claros sobre o que rolou no IX Congresso Brasileiro de Prevenção das DST/AIDS, realizado no finzinho de agosto no Centro de Eventos do Anhembi, São Paulo. Quatro dias de muito vai e vem naquele gigantismo, de muito fala e escuta em todos os sotaques e idiomas que vieram imediatamente após a realização do 1º Seminário Nacional de Eventos Adversos de Medicamentos em AIDS e Hepatites Virais, do qual fui coordenador técnico e, claro, enlouqueci por cinco dias envolto por assuntos leves como envelhecimento precoce, cânceres, danos ósseos, adesão em tempos de efeitos colaterais, redução da expectativa de vida... Mas isso é outro artigo, em breve no blog mais próximo de seu servidor. O que importa é que ele municiou muitas discussões no evento nacional.
 
Logo de cara, o fato de não termos NENHUM titular nas representações governamentais da mesa de abertura mostra que estamos mal de IBOPE, atrás até de Levy Fidelix e seu aerotrem.  Até mesmo o Dr. Pedro Chequer, diretor da UNAIDS no Brasil, enviou outra pessoa em seu nome, talvez por não querer repetir para seus amigos gestores, face a face, o que declarou a plenos pulmões em Washington... Quem sabe? Só sei que se ele pronunciasse aqui sua preocupada fala sobre o retrocesso das políticas públicas em AIDS no Brasil, teria sido de grande valia para a revisão de rumos que tanto queremos. Revisão que deveria iniciar com a exclusão da palavra CRÔNICA da nomenclatura em AIDS. Esse termo é extremamente nocivo para o controle da epidemia, porque traz a falsa sensação de que tudo está muito bem, obrigado. Daí até tirar a camisinha de cena e realocar as verbas da AIDS para outras 'prioridades' é um tirinho de espingarda, como se diz no interior de SP.

A aclamação da platéia às representações da sociedade civil na mesma mesa demonstrou claramente o descontentamento generalizado. A manifestação ocorrida durante a fala do representante do Ministro da Saúde, onde ativistas interromperam sua fala e deram, literalmente, um cartão vermelho para a atuação governamental, demonstraram claramente o desejo de mudanças na estratégia brasileira, que um dia foi referência positiva e hoje passa a ser uma grande preocupação para muita gente. E que se volte a encarar a AIDS com humildade e não com a arrogância que estamos nos acostumando a ver brotar dos governos e de cientistas que entendem muito bem sua área, mas que desconhecem qualquer aspecto que não envolva moléculas.
 
Não havia nem metade dos participantes de Brasília, sede da edição anterior.. Muitas salas com pouca presença e poucas superlotadas. Achei bem legal a integração entre os congressos brasileiros e os fóruns latinos/caribenhos, vi muita coisa interessante em outros países que têm sérios problemas de acesso a medicamentos e de violação a direitos humanos. Eles podem ser um tipo de vírus que infeccione nosso movimento com a urgência de outrora. Para que alguns deixem de achar que manifestações como a ocorrida na abertura do evento em 2010 sejam interpretadas como falta de educação. Para mim falta de educação é o gestor não ouvir atentamente o que diz a sociedade civil e as pessoas com HIV e apresentar a situação brasileira como a Ilha da Fantasia. Tive a grata oportunidade de travar rápidos duelos ideológicos com alguns ativistas e gestores que pensam assim. A propósito, impressiona a semelhança no discurso de ambos.....
 
Enfim, como disse a vários gestores, inclusive o organizador do evento, saí do Congresso um tanto mais pessimista do que entrei. A descentralização da assistência de pessoas vivendo com HIV em situação de 'baixa complexidade' para a rede básica é dada como favas contadas. Isso representaria o fim da equipe multidisciplinar preconizada internacionalmente e acessível na maioria dos SAEs e Centros de Referência, o que poderia facilitar a ocorrência de agravos. Ou alguém imagina que o SUS irá deixar de frequentar as páginas policiais só porque irá receber os pacientes com HIV? Deixarão de existir as filas da madrugada por uma senha, sem sequer saber se conseguirá consulta?

Mas há uma luz no fim do túnel. Na mesa 'Descentralização e estruturação da rede básica' ficou claro que não é o momento de se efetivar essa lógica que é muito boa, mas necessita de muita qualificação antes disso. Após explanação de Dra. Alzira Guimarães do CONASS - Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde e da técnica Cyntia do Ministério da Saúde, quando ambas também declararam sua residência na Ilha da Fantasia, a senhora Tânia Clemente da Secretaria de Saúde de Bragança Paulista, piloto nesse processo, abriu sua fala dizendo: 

“Desculpe, doutora Alzira e Cyntia, mas não está acontecendo nada do que vocês estão pensando.’ 

E discorreu sobre os vários entraves, gargalos, dificuldades, obstáculos, etc, etc, etc...  Depois disso veio o senhor Wagner Martins, técnico da Fiocruz que, filosoficamente, disse o mesmo que a coordenadora de Bragança. Naturalmente que repliquei essa fala pra todos os técnicos e gestores que vi pela frente e pedi que se reportassem a Bragança com muita atenção.
 
Mas, de longe, o que me marcou positivamente (sem trocadilhos) foi a união das três redes de pessoas vivendo. Juntos, Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS, Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas e Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS elaboraram e assinaram conjuntamente o Manifesto do Movimento Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS que foi distribuído durante o congresso e decidiram, com o correr do tempo, azeitar as relações, unificar as pautas naquilo que for possível e realizar mais ações conjuntas das três redes, já que o que nos une é muito mais forte que todas nossas diferenças, juntas. 

A união das pessoas vivendo é a maior força que pode reverter o processo de banalização da epidemia de AIDS. Cabe especialmente a nós a tarefa de mostrar que a Ilha da Fantasia não existe. O que existe é um mar de dificuldades causado por uma epidemia que está a anos luz de ser considerada crônica ou sob controle. Doença crônica é aquela sobre a qual conhecemos os mecanismos e temos condições de controlá-los. A AIDS é uma doença recente e com muitos aspectos ainda não compreendidos, o que faz com que seu controle seja uma espécie de Ilha da Fantasia: todo mundo viu na TV, mas não existe na realidade. Se existe algum controle, ele ainda pertence ao próprio vírus.

Enquanto isso, na porta principal do Anhembi, Ricardo Montalbán e seu amigo Tatoo recepcionavam: 

'Sejam bem vindos à Ilha da Fantasia.'

Beto Volpe

domingo, 2 de setembro de 2012

Forza, Zanardi!

Descrição da imagem: o atleta paralímpico em ação com seu triciclo de competição, lindamente trajado em cinza e branco e com o capacete nas cores da bandeira italiana..

Pessoal, esse pensa igualzinho a mim. Sempre digo que, quando à porta do Paraíso for questionado sobre a melhor coisa que rolou em minha vida, eu direi: ter contraído o HIV. Foi a forma da Vida me dizer qual o caminho a ser seguido. Forza, Zanardi!
Fora o belíssimo texto da Chris.
Beto Volpe


Sem limites, ex-piloto italiano de Fórmula 1 agora quer ser o Usain Bolt da Paraolimpíada
 
Christian Carvalho Cruz - O Estado de S.Paulo
 
A alegria de Alessandro Zanardi é um estorvo. Certamente não pra ele, amigos e parentes. É um estorvo pra você, pra mim, Deus, o diabo, qualquer um que esteja achando a vida uma merda porque lhe roubaram o rolex, porque não chove mais nesta cidade dos infernos, porque não vai dar pra bater a meta e encher o bolso de bônus, porque acabou o pó de café, porque o banheiro da firma fede como esgoto... A felicidade desse italiano duma figa, o jeito oblíquo e sincero de ele rir de tudo e pra todo mundo, é um grandíssimo estorvo. Bom, vocês conhecem o Zanardi. É aquele piloto de carros de corrida que perdeu as duas pernas num dos mais devastadores acidentes da história do automobilismo. Da esquerda lhe sobrou meia coxa. Da direita, a coxa inteira - sem o joelho. Na sexta-feira passada, falando de Londres, onde vai disputar provas de ciclismo na Paraolimpíada, ele se definiu assim: "Eu sou muito sortudo". E riu um monte. Repetiu isso diversas vezes, de variadas formas. "Não é exagero dizer que sou um cara sortudo." "Sou um homem de muita sorte." "Sou uma pessoa de sorte." Tá, tá bom, Zanardi. Eu entendi. Mas ele insistiu: "Sabe como eu cheguei aqui? Em 2001, numa prova de Fórmula Indy na Alemanha, meu carro partiu em dois. Numa parte ficou um pedaço de mim. Na outra estavam as minhas pernas, que, arrivederci, foram embora. E aí ganhei passagens para disputar estes Jogos Paraolímpicos em Londres. Mas antes daquele dia, se você me dissesse 'Alex, por que você não disputa uma Olimpíada?' eu te perguntaria 'Ei, o que você andou fumando?' Por isso eu digo: a vida me deu a chance de fazer tantas coisas surpreendentes nos últimos 11 anos que eu sou mesmo um cara de muita sorte".

E quer coisa mais surpreendente do que estrear numa Paraolimpíada justamente no autódromo onde conseguiu a primeira pole position e marcou os primeiros pontos na carreira de piloto? Foi em 1991 pela Fórmula 3000, nesse mesmo circuito de Brands Hatch que agora recebe os ciclistas paraolímpicos. Naquele ano, Zanardi ascendeu à Fórmula 1 para guiar uma Jordan. Passou também por Minardi, Lotus, Williams e dividiu o circo com Senna, Prost e companhia. Em cinco temporadas, disputou 41 corridas. Não venceu nenhumazinha, marcou um mísero ponto. Na Indy, ao contrário, ganhou dois campeonatos e uma porção de fãs. Então veio o 15 de setembro de 2001 no autódromo oval EuroSpeedway em Lausitz, Alemanha. Era um sábado meio cinzento e chegaram a cogitar o cancelamento da etapa por causa dos ataques às Torres Gêmeas em Nova York quatro dias antes. "Mas decidimos correr, que era a melhor maneira de reagir ao que tinha acontecido, seguir em frente, provar que a humanidade era mais forte que aquilo", Zanardi disse anos depois. Pra ele não estava sendo uma boa temporada. Na largada, era o 27º de 27 carros. Na metade da prova, porém, já tinha saltado para terceiro. "Pela primeira vez no ano eu senti o carro respondendo plenamente aos meus comandos." Faltando 13 voltas pro final, ele estava com tudo: era o primeiro e com folga. Tanta folga que entrou no derradeiro pit stop de reabastecimento podendo tranquilamente retornar à pista ainda na dianteira. "Vai, vai, vai!", gritou o seu mecânico-chefe ao liberar o carro em apenas 5,5 segundos. Tudo nos conformes. "Mas alguma coisa aconteceu, eu perdi o controle do carro e fui para a grama. Me vi girando desesperadamente o volante para retomar a direção, caí na pista novamente e buuum, um enorme barulho." O carro azul do canadense Alex Tagliani se chocara como um foguete a 320 km/h contra o bico do carro vermelho de Zanardi. 

Só para ilustrar, estar dentro de um carro que bate de frente a 320 km/h contra um muro significa que você tem 100% de risco de nunca saber o que aconteceu com seu corpo. No impacto, os órgãos continuarão a se mover em altíssima velocidade. E, no choque, seu pescoço se partirá. O cérebro se esmagará contra a parede frontal da caixa craniana. Os rins e o fígado explodirão instantaneamente. Tagliani não quebrou nenhuma costela porque seu carro se chocou contra uma área frágil do bólido de Zanardi, aquela onde se acomodam as pernas. A ausência de resistência minimizou a pancada e salvou a vida do canadense. Quanto a Zanardi, o pessoal do resgate demorou 19 segundos para chegar. Entre eles estava o ortopedista Terry Trammell, que narrou assim o que viu: "A primeira coisa que eu pensei em fazer foi aspirar aquele óleo todo de dentro do cockpit. Só que não era óleo. Era sangue". Trammell usou um cinto como torniquete e pelo rádio chamou o diretor médico da prova, Stephen Olvey. Seguiu-se um diálogo sem pontos de exclamação que só os médicos são capazes de travar numa hora dessas:

- Stephen, a situação aqui é muito ruim.
- Ruim quanto?
- As pernas dele se foram.
- Ok, você consegue pegá-las para nós tentarmos um implante?
- Você não entendeu. Elas se foram. Não existem mais.

Do momento do impacto à entrada no centro cirúrgico de um hospital em Berlim, a 190 quilômetros de distância, 59 minutos se passaram - 34 na viagem de helicóptero. Nesse tempo, Zanardi sofreu sete paradas cardíacas. Ao chegar, tinha perdido três quartos de seu sangue. "Meu coração devia estar bombeando ar, provavelmente", ele acha graça. E se você falar de milagre ou coisas assim, Zanardi tem a resposta pronta: "Ma che miracolo?! Foram aqueles caras que fizeram um trabalho espetacular pra salvar minha vida!"

Oito dias em coma, 20 cirurgias. Quando voltou a si, ele olhou pra baixo e voltou-se para a mulher, Daniela, que estava na beirada da cama: "Bom, agora preciso saber como eu vou fazer as minhas coisas sem as pernas". Não havia desespero no quarto. Por parte de nenhum dos dois. De Londres, Zanardi relembrou o que sentiu naquela hora: "Eu realmente não tive dúvida de que continuaria a fazer as coisas. Só queria saber como. Ao me ver sem as pernas entendi imediatamente que minha vida tinha mudado de direção. E também que nessa nova direção eu poderia fazer umas coisas bem interessantes. Sou um homem curioso, e a curiosidade move grandes paixões". Seis semanas de internação depois, ele deixou o hospital sentado em uma cadeira de rodas. Trazia um abacaxi sobre os pedaços de pernas que lhe restaram. Acenou para os fotógrafos e riu como se estivesse num pódio. Abacaxi era o seu apelido na Indy, dado pelos mecânicos que o achavam um ranheta que pedia demais, se importava com tudo, queria saber de tudo. Zanardi sempre foi um abacaxi nos boxes. 

Três meses depois ele já se levantava sobre suas novas próteses para receber o prêmio Capacete de Ouro ofertado pela revista Autosprint. Aplaudido de pé por minutos a fio, pegou o microfone e a primeira coisa que lhe saiu da boca, além do infalível sorriso, foi: "Estou tão emocionado que minhas pernas tremem inteiras". Dois anos mais tarde voltou ao EuroSpeedway a bordo de um carro igualzinho ao do dia fatídico, mas adaptado para ser acelerado e freado com as mãos, a fim de completar as 13 voltas que ficaram faltando em 2001. Circulou forte a 314 km/h e, se não fosse só uma corrida simbólica, seu tempo o colocaria em quinto lugar no grid de 2003. O mundo quis saber por que cazzo se arriscava de novo. "Ora, não é porque não tenho as pernas que sou mais vulnerável que o Schumacher." Mais dois anos e lá estava o italiano competindo de novo. Sentado dentro de uma BMW fuçada, venceu quatro corridas no Campeonato Mundial de Turismo e 11 no Italiano. Acelerava manualmente por meio de uma barra instalada atrás do volante e freava com o pé da prótese direita. A expressão "pisar fundo" tinha, definitivamente, ganhado outro sentido pra ele. Um sentido do qual nunca gostara. Zanardi começou no automobilismo aos 14 anos ao ganhar um cart do pai. O velho Zanardi, que não teve tempo de ver "a sorte" do filho, achou que seria mais seguro o menino voar baixo num circuito com um veículo apropriado do que nas ruas de Bolonha com uma lambreta.

E na quarta-feira lá estará o Abacaxi, aos 45 anos, voando bem baixinho mais uma vez. Zanardi agora corre de handbike, um triciclo rente ao chão que se pedala com as mãos. Sentou num desses pela primeira vez em 2007, por sugestão de um amigo, para se exercitar. Gostou. E com poucas semanas de treino se jogou na Maratona de Nova York. Terminou em quarto. Em Londres Zanardi disputará três provas:
Contra o cronômetro. De minuto em minuto um atleta parte para completar duas voltas no circuito. Quem fizer o menor tempo, vence. "É a mais dura, porque, embora não muito longa (15,8 quilômetros), são 25 minutos de inferno, de esforço máximo."
Estrada. Todos partem juntos para dar oito voltas (64,5 quilômetros). Vence quem cruzar a linha de chegada primeiro.
Revezamento. Cada país forma uma equipe de três atletas de categorias diferentes. O time italiano correrá com Zanardi, que é paraciclista H4 (acomoda-se sentado no cockpit e usa a força do tronco, além da dos braços, para movimentar o triciclo), e dois H2 (lesão na coluna; correm deitados, utilizando somente os braços).

Zanardi diz que se preparou bem e não seria nada demais pra ele se, tal qual um Usain Bolt, faturasse três medalhas de ouro. "Sou muito forte, principalmente na prova contra o cronômetro, da qual sou campeão mundial de 2011. No último ano eu calculo ter rodado 18 mil quilômetros em competições e treinos." Num trecho desses, mês passado, foi surpreendido por um buraco na estrada quando estava a mais de 60 km/h. A roda da frente travou e ele foi parar dentro do canal que margeava a pista. Do triciclo, quase nada inteiro sobrou. Três dias depois, só o tempo de conseguir um veículo novo, já estava treinando duro outra vez. Nesses dias londrinos, enquanto não chega a hora de competir, Zanardi acha que está emocionado e curioso. Emocionado por concluir mais uma etapa que o destino lhe botou na frente. E curioso para saber o que virá depois. Andaram dizendo que ele pode participar das 500 Milhas de Indianapolis, a prova mais tradicional da Indy, e que também já está de olho nas Paraolimpíadas de Inverno de 2014, na qual deslizaria montanha abaixo trepado num monoesqui. "Tudo coisas que me colocaram na boca. Eu não disse nada disso, embora esteja aberto a qualquer possibilidade, inclusive ir para a minha casa na praia e passar os dias pescando com meu filho Niccolò, de 14 anos. O que tenho certeza é que, encerrados os Jogos de Londres, eu vou me afogar em cerveja, que não bebo há dois anos, desde que comecei a me preparar para estar aqui." Va bene, Zanardi. Arrivederci.

Nada. Ele quer deixar claro o tamanho da sua sorte e da sua felicidade: "Se Deus aparecesse agora na minha frente e me dissesse 'Alex, eu posso mudar o dia do acidente. Posso fazer com que o Tagliani desvie e não atinja seu carro. Você teria as suas pernas, mas não saberia como seriam esses últimos 11 anos da sua vida. Aceita a troca?', eu teria apenas três palavras pra ele: "No. Grazie, Dio".