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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sábado, 24 de setembro de 2011

Rock'b'Rio: palavra do Ministério e réplica

Pessoal, como forma de manter aceso o debate, disponibilizo mensagem a mim enviada pelo Dr. Dirceu B. Greco, Diretor do Departamento Nacional de DST/AIDS/Hepatites Virais. Como uma espécie de tréplica igualmente colo minha resposta. Peço desculpas pela edição cortando as laterais, mas o documento governamental não permite alterações e não cabe, enfim.
Beto Volpe

Ponderações sobre Rock in Rio22set11

Em
Em relação aos questionamentos relacionados à ação programática de oferecimento de testagem para o HIV durante o evento Rock in Rio, em setembro de 2011, o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais (SVS/MS) apresenta as razões para a realização dessas ações em eventos semelhantes:

Em todo o mundo, existe prioridade absoluta para a facilitação do acesso ao diagnóstico da infecção pelo HIV, levando-se em conta, entre outros fatores, o grande número de pessoas que chegam tardiamente aos serviços de saúde, o que eleva os riscos de adoecimento, de impacto negativo na qualidade de vida e de aumento da mortalidade.
. O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, como ação programática clara, vem investindo sistematicamente em estratégias conjugadas e diversificadas de prevenção e comunicação voltadas para os jovens e outros segmentos populacionais que, por razões variadas, não buscam ou não têm acesso aos serviços de saúde em todo o país.
O “Fique Sabendo” é uma das estratégias de ampliação da oferta de diagnóstico que promove ações pontuais em eventos de massa para sensibilizar a população sobre o acesso à testagem na rede de saúde. Eventos dessa natureza, tais como o Carnaval e as festividades populares ou artísticas, têm proporcionado a oportunidade de disponibilizar informações sobre prevenção, combater estigma e preconceito, distribuir preservativos para grande número de pessoas e oferecer acesso à testagem para aqueles que o desejarem.
Para o Rock in Rio, são esperados cerca de 700 mil participantes, em grande parte jovens, além das 14 mil pessoas que trabalharão no evento. Vale lembrar que as pesquisas comportamentais e a vigilância epidemiológica têm mostrado a diminuição da adoção de práticas sexuais seguras e o aumento do número de infecções na população jovem, particularmente entre homens que fazem sexo com outros homens.
Todas as ações de testagem desenvolvidas pelo Ministério da Saúde incluem a realização do aconselhamento pré e pós-teste, com garantia do sigilo dos resultados. Assim, o oferecimento do diagnóstico, com informações claras, confidencialidade e aconselhamento competente e ético, dá ao jovem a oportunidade de decisão, que é só dele, autônoma, independente e emancipada. Cabe ao Ministério da Saúde proporcionar os meios de acesso e garantir os encaminhamentos adequados.
A ação do Rock in Rio foi desenvolvida pelo Ministério da Saúde com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (ONU), da Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro e de municípios do interior do estado. A ação compõe-se dos seguintes processos:
1        Disseminação de informação durante o evento – com o “flash mob” e filmes que serão apresentados diversas vezes no intervalo dos shows;
2        Distribuição de preservativos e acesso a informações sobre a adoção de práticas sexuais seguras;
3        Acesso ao diagnóstico por meio de testes rápidos.

Para que o projeto se realize de forma técnica e eticamente adequada, um espaço foi montado no evento, replicando-se nele toda a estrutura necessária e existente em um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), com salas para aconselhamento pré e pós-teste, água corrente e demais equipamentos, além da presença de profissionais competentes e preparados para abordar situações que envolvem o diagnóstico positivo e os devidos encaminhamentos.

Certo de continuar contando com a participação de todos nesta luta para o controle da epidemia da aids,
Cordialmente,

Dirceu B. Greco
Diretor
Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais
Secretaria de Vigilância em Saúde
Ministério da Saúde

RESPOSTA AO DEPARTAMENTO NACIONAL


Prezados Doutores e Edu, boa tarde
Acredito piamente que vossas intenções e as de quase todos os envolvidos nessa estratégia são as melhores possíveis para o enfrentamento à epidemia de AIDS. Peço, então, a gentileza de lerem meu artigo ‘Rock’n’You’, publicado no www.cargarival.blogspot.com (umas quatro ou cinco postagens anteriores) e no www.imprenca.com, onde passei a ter uma coluna semanal. Lá estão os contrapontos a vossos argumentos relacionados ao Fique Sabendo no RnR.
Ontem, em reportagem sobre os trabalhadores da cidade do rock, foram entrevistados vários deles, de diversas áreas. Todos se revelavam absolutamente orgulhosos e realizados profissionalmente por estarem ali. Quase tão eufóricos quanto os fãs que chegavam gritando, pulando, cantando...
Isso não é estado de espírito para se receber esse diagnóstico, POR MELHOR QUE SEJA O ACONSELHAMENTO/ACOLHIMENTO. Lamento, mas enquanto uma única pessoa estiver em risco de passar por essa situação, não será admissível para os meus princípios de pessoa vivendo com HIV e de muita gente que tem se manifestado igualmente horrorizada com essa iniciativa.
Grande abraço, pois que nossas divergências atuam dentro de uma convergência, que é o fim da AIDS.
Beto Volpe

Jogadores online resolvem dilema científico

Meu, é pra emocionar, é pra desejar que tantos amitos e tanas amigas que se foram estivessem aqui para presenciar maravilhas como essa. Pela segunda vez no mesmo dia, VIVA A CIÊNCIA E VIVA A FÉ !!!
Beto Volpe

Descrição da imagem: tela do jogo com diversos cmandos e algo que deve ser uma molécula .

Jogadores de um game online resolveram em três semanas um problema de biologia molecular que vinha desafiando os cientistas há mais de uma década. A solução representa o início de uma nova rota para o desenvolvimento de uma vacina contra a AIDS, outra encruzilhada da qual os cientistas ainda não conseguiram sair.

Dobramento de proteínas
Os jogadores voluntários formaram equipes para participar de um jogo online chamado FoldIt - "dobre-o", em tradução livre, em referência ao processo de dobramento das proteínas. O jogo permite que os participantes tanto colaborem quanto compitam para tentar prever a estrutura de moléculas de proteínas. Depois de passarem mais de uma década tentando sem sucesso, os cientistas desafiaram os jogadores de FoldIt a criarem um modelo preciso de uma enzima de um vírus similar ao HIV. Eles resolveram o problema em três semanas.

Proteases retrovirais
A classe de enzimas que estavam sendo estudadas, chamadas proteases retrovirais, têm um papel crítico na forma como o vírus da AIDS amadurece e se prolifera.
Diversas equipes de cientistas vêm tentando desenvolver medicamentos que bloqueiem essas enzimas.
Mas os esforços têm sido infrutíferos sobretudo porque os cientistas não sabiam como era a estrutura da molécula de protease retroviral, o que dificulta projetar moléculas que possam se ligar a ela.

Intuição humana
"Nós queríamos ver se a intuição humana poderia ter sucesso onde os métodos automáticos falharam," disse Firas Khatib, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.
O sucesso veio depois de três semanas, sendo este o primeiro caso documentado de que jogadores tenham resolvido um problema científico.
Mais importante, depois de um pequeno refinamento nos modelos produzidos pelos jogadores, os cientistas verificaram que a superfície da molécula possui alguns alvos interessantes para medicamentos que consigam desativar a enzima.

Nobel Gamer?
E haverão inúmeras outras partidas de FoldIt, uma vez que a estrutura das proteínas tem um papel essencial no estudo das causas e tratamentos para doenças imunológicas, câncer e Alzheimer, apenas para citar algumas. Quando o lançaram, há cerca de três anos, os cientistas disseram que o FoldIt poderia render um Prêmio Nobel de Medicina.

Parece que eles não exageraram muito.

Fonte:
Redação do Site Inovação Tecnológica - 20/09/2011
 
Bibliografia:
Crystal structure of a monomeric retroviral protease solved by protein folding game players
Firas Khatib, Frank DiMaio, Seth Cooper, Maciej Kazmierczyk, Miroslaw Gilski, Szymon Krzywda, Helena Zabranska, Iva Pichova, James Thompson, Zoran Popovic, Mariusz Jaskolski, David Baker
Nature Structural & Molecular Biology
18 September 2011
Vol.: Published online
DOI: 10.1038/nsmb.2119

Vírus HIV é bloqueado com terapia genética

Quem espera sempre alcança. Olha só a indústria farmacêutica se revirando perante o século 21, a era de Aquário e as maravillhosas descobertas que tornarão medicamentos coisa do passado. Viva a Ciência! E viva a Fé! Uma não funciona sem a outra. E viva a Vida!
Beto Volpe

Descrição da imagem: Pinça e agulha atuando em uma célula ou coisa parecida.

Tratamento eliminaria a necessidade do uso de antiretrovirais pelo resto da vida.
 
Pesquisadores desenvolveram uma terapia genética experimental capaz de manter o HIV sob controle permanente - uma descoberta que pode ser um passo importante para a cura da Aids. O estudo foi feito por cientistas da Sangamo BioSciences, companhia que está desenvolvendo o tratamento, e divulgado durante a Conferência de Interciência sobre Agentes Antimicrobianos e Quimioterapia, em Chicago.A terapia genética funciona bloqueando o vírus fora dos linfócitos T CD4, que é o principal alvo do HIV e responsável por administrar o sistema imunológico para o controle de infecções. Dez pacientes que participaram do estudo estavam fazendo terapia antiretroviral quando o estudo começou. Após quatro semanas, seis deles fizeram uma pausa no tratamento - e pararam de tomar a medicação antiviral por 12 semanas.A carga viral diminuiu em três dos seis pacientes. Um deles teve a carga reduzida a níveis indetectáveis. Os outros dois registraram uma queda de dez vezes a circulação do vírus. "Estamos entusiasmados com os resultados desse estudo fase 1. Ter um paciente livre do vírus e outros dois com reduções significativas é incrível", disse Jeff Nichol, presidente-executivo da Sangamo BioSciences à New Scientist.Pesquisa
 
Para o estudo, os cientistas tiraram sangue dos pacientes e isolaram os linfócitos CD4 e outros glóbulos brancos. Eles utilizaram uma 'tesoura molecular' chamada dedo de zinco, uma proteína capaz de entrar nas células e sabotar o gene CCR5, que ajuda o HIV a entrar nas células. Não está claro qual o papel que o gene CCR5 desempenha normalmente, mas os especialistas sabem que as células conseguem sobreviver sem ele — e ainda conseguem ficar sem a infecção por HIV. Depois, essas células são devolvidas ao paciente, com o objetivo de que elas se multipliquem e forneçam uma fonte permanente de células saudáveis do sistema imunológico — bloqueando assim completamente o HIV.A ligação entre o HIV e o gene CCR5 foi sugerida pela primeira vez em 1996. O conceito foi testado pela primeira vez na Alemanha, em 2006. Na ocasião, uma pessoa com leucemia e que também tinha aids recebeu um transplante de medula óssea. O transplante veio de uma pessoa que as células sanguíneas não produziam as proteínas CCR5.
 
Segundo o acompanhamento médico, o paciente ficou livre de HIV até 2008.Em geral, a maioria das pessoas têm duas cópias do gene CCR5 — uma da mãe e a outra do pai. O paciente que obteve o melhor resultado tinha uma cópia defeituosa do gene CCR5. O que, segundo os pesquisadores, pode explicar porque a terapia funcionou melhor nele do que nos outros. Edward Lanphier, chefe executivo da Sangamo, estimou, segundo à agência Reuters, que entre 5 e 10% dos pacientes HIV são portadores dessa mutação genética. Cerca de 33 milhões no mundo todo possuem o vírus HIV.O segredo, segundo os pesquisadores, é tentar eliminar ambos os genes dessas células. Se apenas um for sabotado, as células ainda podem produzir a proteína CCR5 e permitir que o vírus invada o organismo. Ao ter o gene CCR5 duplamente sabotado, não há nenhuma chance do vírus entrar, acreditam os cientistas.
 
Fonte: Veja.com

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Rock'n'You


Descrição da imagem: símbolo do Rock'n'Rio com o laço da luta contra a AIDS penduradinho.

Não sei se quem está me lendo agora já recebeu, por infortúnio, um diagnóstico positivo para uma doença incurável, progressiva e fatal, que carrega estigmas e que muda completamente sua vida, quando não dá cabo dela rapidamente. Não é nada fácil, óbvio, e por conta disso existe uma série de critérios em procedimentos e estrutura física a serem seguidos pela saúde pública, visando promover o máximo possível de conforto ao ser humano ali presente e facilitar seu encaminhamento ao serviço de saúde e sua adesão ao tratamento, igualmente nada fácil. Uma sensação descrita pela esmagadora maioria das pessoas vivendo com HIV que conheci nesses 22 anos de infecção e doze de ativismo na luta contra a AIDS é a da perda de chão. Que pode ser interpretada como a perda da capacidade de focar o pensamento em qualquer coisa que não seja a notícia recém recebida. E, além de questões de foro íntimo, existem riscos à segurança pessoal, pois só o acaso nos protege quando andamos distraídos, como bem observado pelos Titãs.

Por todos esses motivos é que muita gente foi colhida de surpresa pela intenção do Departamento Nacional de DST/AIDS/Hepatites Virais em realizar testes de HIV no recinto do Rock'n'Rio,  Peraí !!! Seria um festival de rock o tal ambiente para realização de exame de consequências tão imprevisíveis? A grita foi geral, houve bastante visibilidade pela imprensa e tal. E a proposta foi restrita aos profissionais envolvidos no festival, alguns milhares, que seriam incentivados a realizar o teste. Pensando no pior cenário, que é o cenário que deve ser visto em primeiro lugar em qualquer planejamento desse porte, teremos a manchete nos sites do mundo todo:

QUEDA DE HOLOFOTES MATA
ELTON JOHN NO ROCK'N'RIO
Descrição da imagem: estrutura de um palco caído sobre pessoas. Elton jaz sob o piano.

E, nos detalhes, a informação de que a causa poderia ser uma conexão mal estabelecida entre a barra de sustentação dos holofotes e a do palco. O técnico, super qualificado para seu serviço ao ponto de estar tão próximo de estrelas internacionais, não estava pensando em seu trabalho. Ele havia perdido o chão.  Como o eletricista que eletrocutou Shakira ou a si mesmo. De forma geral, EM UM MOMENTO DE DIAGNÓSTICO DE HIV+ NÃO HÁ ESPAÇO PARA A RACIONALIZAÇÃO. Não há lugar para perspectivas, apenas para o fim do mundo. Aí vem a importância do acolhimento pelos profissionais que realizaram o teste. Não questionando, nem os conheço, os profissionais que trabalharão no estande do Fique Sabendo, mas tivemos uma mostra de quão problemática ainda é essa ação que tem em sua raiz um bom acolhimento.. Ou melhor, o acolhimento que havia anteriormente e também foi negativamente afetado pela falsa idéia de cronicidade da epidemia. Vamos lembrar o ocorrido ano passado, em Brasília.

Durante o VIII Congresso Brasileiro de Prevenção em DST/AIDS, que é a jóia da coroa governamental,  alguns milhares de pessoas discutiam DST/AIDS, propunham e apresentavam estratégias para aperfeiçoar o enfrentamento às epidemias. Dentre eles o próprio Departamento Nacional que montou um estande do Fique Sabendo bem no meio do evento. Supõe-se que ali estará uma equipe que será a nata da capacitação e sensibilização no assunto. E o que se viu não foi bem isso, aliás não foi nada disso. Em três episódios houve falhas gravíssimas, atestando uma vez mais que havia algo de podre no melhor programa de AIDS do mundo, que não é o da Dinamarca. Em um deles uma ativista javia sido Glorificada em Deus por resultado negativo e perguntou à profissional que se ela estivesse infectada seria uma Amaldiçoada pelo Demônio. Em outro aparece outra profissional e em voz alta chama: SENHOR ULISSES MACEDO ! Sem resposta repete o chamado por duas vezes até que se levanta uma loira lindíssima de mais de 1,80m de altura que, constrangidíssima, revela ser ela o tal de Ulisses. Somente nessa hora a enfermagem percebeu o nome social no documento de identidade. E o pior dos casos, um grupo de ativistas estava passando atrás do estande quando viu um rapaz visivelmente desorientado, o qual foi por eles abordado e só teve forças para dizer:

- Acabo de saber que tenho AIDS. Não sei o que vou fazer de minha vida.

Não dá mais para conviver com o descaso com o ser humano em nome de uma estratégia que precisa de visibilidade internacional. Terá o excesso de ar condicionado congelado as emoções dos gestores em Saúde? Não incentivaremos o diagnóstico em ações de marketing mas, sim, com a REAL estruturação dos Centros de Testagem e qualificação e valorização dos recursos humanos. Não é possível que companheiros de luta que estão em situação de governo se deixem levar por argumentos tão nocivos à saúde individual das pessoas que vivem com HIV/AIDS. Não é digerível que alguns membros da sociedade civil organizada acabem apoiando a ação por motivos nobres, mas que têm um custo muito alto. Não é possível que pessoas vivendo com HIV tenham se esquecido de como foi o momento de seu diagnóstico, mesmo que tenha sido há muito tempo, e emprestem sua imagem a essa barbaridade, ainda mais citando dois grandes ídolos da maioria das pessoas vivendo com HIV como seus artífices espirituais.

Ainda bem que Cazuza e Freddy não estão mais entre nós. Eles não teriam morrido de AIDS, mas morreriam de vergonha.

Beto Volpe

domingo, 18 de setembro de 2011

Testagem de HIV no Rock'nRio

Descrição da magem: símbolo do Rock'nRio com o laço da luta contra a AIDS apensada ao nome.

Pessoal, compartilho aqui um relato de Cida Lemos, grande amiga e batalhadora pela Vida, que támbém acha um grande equiívoco realizar testes de HIV em festas e eventos de celebração. Nossas emoções não são fáceis de se controlar, especialmente quando em estado de júbilo ou euforia. Lamentável o quanto o ar condicionado tira a sensibilidade das pessoas...
Beto Volpe

Prezados, também participei dessa reuniáo (sobre testagem para o vírus HIV no Rock'n'Rio) e depois de muitas explicações e justificativas perguntei se alguém sabia como ficava a cabeça de uma pessoa que recebe um diagnóstico positivo, principalmente em uma festa. Recebi resposta não satisfatória e logo à seguir fui participar de um debate na Escola de Enfermagem Ana Neri da UFRJ (público alunos do mestrado, doutorado , professores e profissionais) após a apresentação do filme POSITIVAS, juntamente com a diretora Susanna Lira. Iniciei minha fala me desculpando por ter chegado atrasada porque a reunião com o DN se prolongou mais do que estávamos esperando e para minha surpresa todos queriam saber se a testagem no Rock in Rio havia sido cancelada e ficaram bastante decepcionados quando informei que ela acontecerá.

Durante as perguntas a organizadora, professora Dra. Carla me confidenciou que havia um casal presente (que não era aluno) que acabara de receber pela manhã o resultado positivo e desejou assistir ao filme, ele estava inscrito para me fazer perguntas (só o resultado dele deu positivo o da mulher deu negativo). Aproveitei uma pergunta para falar sobre a importancia do apoio familiar, das relações sorodiscordantes, sem buscar culpados, que ninguem precisa sair contando sua sorologia enquanto não se sentir à vontade para isso, que a pessoa tem direito ao sigilo, que buscar ajuda psicologica e um grupo de apoio era importante para o fortalecimento e que principalmente temos que vivenciar nosso luto, para depois com o tempo conseguirmos forças para continuarmos a vida.

O homem pediu para falar e em pranttos (chorou muito, muito, muito) disse que quando recebeu o diagnóstico pensoui em se matar, pois ele é evangélico, tem 45 anos, tem uma companheira e que não tem coragem de enfrentar a familia,os amigos, falou do medo de ter infectado a mulhere da sua culpa por ter se relacionado fora de casa sem preservativo.
Perguntei porque ele fez o teste e onde e ele nos explicou que é doador de sangue e que fez no hemoRrio. Perguntei se ele se sentiu acolhido no momento em que recebeu a noticia e a resposta dele nos fez chorar a todos que estávamos presentes (só a assistente social sabia do caso) ele respondeu: 

- Eu só queria um abraço e não recebi  Fiquei ali parado sem saber o que fazer por mais de 3 horas, só pensando em me suicidar. Me foi dito que eu deveria chamara alguém para me buscar e que eu tinha que contar para a minha mulher, pois ela tambem teria que fazer o teste. Quando minha mulher chegou choramos juntos e fomos informados de que ela não poderia fazer o teste lá e nos foi dado vários endereços para procurarmos um e então viemos aqui no CTA (Hospital São Francisco de Assis) onde ela fez o teste rapido e deu negativo e fomos convidados para assistir ao filme. E agora ! Onde ir para iniciar o tratamento?

Ele se estendeu dizendo que odizer que os hospitais estão todos lotados e que a fila de espera é grande. Será que as pessoas vão olhar para ele descobrir que ele tem HIV? A mulher vai fazer outro exame em 3 meses, mas até lá, podem transar, beijar? Onde conseguir camisinhas? Qual diferença entre ter HIV e ter Aids? Ele também vai emagrecer e ficar com a fisionomia característica da Aids? Ela é da marinha será mandada embora quando descobrirem que ele está infectado? Será que ela vai abandoná-lo? (a mulher ficou o tempo todo calada, sentada ao lado dele). Será que vão pensar que ele é gay, esta doença é castigo? Quando vai morrer?

Respondi com emoção auxiliada pela Susanna (que ofereceu uma copia do filme para que ele pudesse ouvir os depoimentos com calma, inclusive dos familiares) reforçou a minha fala sobre a orientação sexual de cada pessoa, que doença não é castigo e que precisamos acreditar em alguma coisa para superar este momento. A Dra. Carla disse que trabalha com pessoas soropositivas há mais de 20 anos e que os medicamentos, a adesão e os bons pensamentos são primordiais para uma melhora físicca, além da descoberta precose da doença. Solicitei à ela que utilizasse seus conhecimentos para que ele fosse tratado ali mesmo, evitando uma peregrinação pelos serviços. Aproveitei para dizer à todos os presentes que assistiram emocionados o desespero daquele homem, que ao chegarem em seus locais de trabalho não esquecessem o quanto um abraço, um aperto de mão,uma palavra amiga pode salvar vidas. Se alguém não se sente à vontade para estas ações que procurem outra função. Não vá lidar com o público tão diretamente.

Aí pensei nas pessoas que recebem diagnóstico em festas. Como desejei que as autoridades estivessem ali, ouvindo um homem chorar copiosamente, com tantas perguntas sem respostas, com culpa, com medo .Será que continuariam achando que faz o teste em uma festa quem quer? Que basta indicar o hospital para um acompanhamento inicial, que receber um diagnóstico positivo para o HIV é a mesma coisa que receber um diagnóstico de diabetes? Sei da importancia de ficar sabendo o mais cedo possível da doença, para evitar casos como o meu que devido ao diagnóstico tardio acabei ficando cega. Mas será que não estamos realizando estas ações em locais inadequados? Será que não estamos priorizando a saúde física mais que a saúde mental? Será que estamos perdendo a sensibilidade e banalizando a dor de um diagnóstico positivo?

P.S. Antes de encaminhar esta carta recebi um e-mail da Dra. Carla me informando que o rapaz será acompanhado lá no hospital:

- Não falamos mais sobre o filme, apenas ouvimos e procuramos acolher aquele ser humano que precisava de colo, atenção e solidariedade.Outras pessoas também falaram palavras de incentivo e de carinho.
 
"Nada sobre nós, sem nós"
Beijinhos, Cida

Cida Lemos é professora, ativista em Direitos Humanos na área da Saúde, articuladora em AIDS e Deficiências e pessoa de minha máxima consideração.

sábado, 17 de setembro de 2011

Palavra sem ação, Palavra vã.

Descrição da imagem:: a metrópole ao fundo, antecedida pelo Banhado composto de vegeração rasteira e árvores, em sua maioria de médio porte. 

Eu não sabia que em São José dos Campos, interior de SP, havia uma área de preservação ambiental deslumbrante em um grande baixio de nome Banhado, envolta pela cidade e um calçadão onde pessoas lancham, fazem caminhadas e devem namorar um bocado. Também desconhecia que a cidade abriga a única catedral do mundo dedicada a São Dimas, o bom ladrão, único santo canonizado por Jesus que lhe assegurou que estariam juntos no Paraíso naquele mesmo dia. Tem relíquia e tudo, um pedaço da cruz do próprio. Mas de uma coisa eu tinha certeza: seria muito bem acolhido nessa cidade quase tão antiga quanto a minha, quatrocentona. Retomar relações da infância e da juventude, provar sabores e aromas. Um detalhe fascinante da viagem, se é que se pode chamar de detalhe, foi  ficar em um hotel amplamente acessível, o Blue Tree local (sim, porque outros da mesma rede têm diversos obstáculos). Não costumo fazer merchan empresarial, mas acho legal divulgar um espaço onde a rampa é a regra e a escada fica lá no cantinho, contrapondo a lógica reinante. E o motivo principal de minha estada, duas conversas com as pessoas com HIV atendidos pela Nossa Casa da Acolhida, ONG que associa direitos humanos e espiritualidade como poucas vezes tive a oportunidade de ver.

Fazia bastante frio de manhã cedinho na rodoviária de São Vicente, de onde saiu o busão que me levou ao histórico Vale do Paraíba, onde fui recepcionado por meu grande amigo de infância, àquela época nerd igualzinho a mim, e sua família maravilhosa, incluindo três dogs chiquérrimos: Linda Evangelista, Mr. Beans e Mel Lisboa. Com direito a estolas e tudo! Artur da Távola tem toda razão ao afirmar que 'afinidade é retomar o encontro no ponto em que foi interrompido, não importando a distância e o tempo de separação'. A cada assunto que desfilava entre uma taça de vinho e uma criação de seu filho restaurateur (já ouviram falar em ovo à milanesa???) as tais afinidades ainda estavam lá. Concordando ou não os pontos de vista, a aceitação com o que vem do outro foi o tom presente até durante o jogo onde o timão de meu amigo perdeu. Após uma deliciosa noite de sono e um café em família a condução para o local do evento chegou e lá fomos nós.

Nesse traslado fui muito bem conduzido por Reinaldo MMA que me mostrou alguns aspectos da cidade, como o Banhado (que ainda terei oportunidade de conhecer melhor) e a Catedral de São Dimas. A história desse santo católico e as duas cruzes sobrepostas que compõem o seu símbolo me impressionaram tanto que não resisti e fui à missa das 19:30hs com meu xale dourado e tudo, para arrepios de algumas devotas.. Enfim, chegando à Casa da Acolhida fui recepcionado pelos meus contatos na instituição, Valdete e Alex, e por uma equipe de voluntárias e técnicas absolutamente diferenciada de quase tudo que vi até hoje. Uma sensação de minha casa que justifica a razão social. Ao ver o quadro de atividades semanais, afixado ao lado da cozinha de dona Rute, lá estava agendado: ESPIRITUALIDADE.

Na hora surgiu-me a imagem de Jodie Foster no filme Contato, quando ela perde a vaga para entrar em contato com os alienígenas por não crer em uma força superior, criadora e ordenadora do nosso Universo. Não que eu ache que seja absolutamente necessário, mas que facilita muito trabalhar transversalmente um sentimento que para muitos é o mais importante que existe, isso facilita. Os princípios de igualdade, solidariedade e ética são tratados muito antes da Declaração Universal da ONU. Vêm desde os Dez Mandamentos, a propósito, base de nosso código penal. Uma informação que obtive recentemente e que me deixou deslumbrado é o significado do crucifixo nos tribunais, acima do magistrado. Sempre pensei, não somos um país laico? Já que tem a cruz do Cristianismo, deveria ter uma estrela de Davi, a lua e estrela do Islamismo, os símbolos sagrados da Umbanda. Nada disso. Ela serve para lembrar ao juiz que, por conta de um colega seu haver se omitido em um julgamento difícil, foi perpetrada uma das maiores injustiças da história da humanidade. Fé e Cidadania, tudo a ver.

E, por fim, vieram as duas atividades, duas tardes que me encheram de energia com sala lotada e olhares sedentos de informações sobre Adesão ao Tratamento, tema que me foi solicitado e que adequei para Adesão à Vida. Quando se adere à vida, acertar as contas com o tratamento se torna consequência natural. E nessa toada foi falado um bocado de situações e sugestões, dentre elas a divulgação dos serviços da ONG, como assistência jurídica, atividades físicas e nutrição. Alguns momentos muito emocionantes no resgate das perdas que todos ali passamos em nossas vidas e também sobre o potencial de transformações positivas que é a infecção pelo vírus HIV. Ao final, chororô na bela homenagem que a mim foi prestada pela equipe da instituição.

Agora, o grande barato foi após o final da primeira atividade, quando conversando com Alex em sua sala, bate à porta a bela nutricionista que viera me agradecer pela fila de pessoas para agendamento de consulta, trazendo um belo indicador de que algo havia atingido pessoas que necessitam urgentemente se organizar politicamente. Para se ter uma idéia, o poder público local cortou os vales transporte das pessoas com HIV sob o argumento de que, por contrato, era obrigado a garantir a lucratividade da empresa permissionária. Ao mesmo tempo, foi auto concedido aumento de mais de 50% aos vereadores, que não necessitam de vale pois têm transporte oficial garantido. Força e Fé, pessoal da Casa da Acolhida! Assistidos, direção, voluntários e equipe de profissionais. Contem comigo quando quiserem. Já estou com os contatos da  Pousada da Dona Elvira, sua vizinha que imagino não seja a Pagã e muito menos a Rainha das Trevas.

Ainda há muito a me banhar na terra do Banhado e do Acolhimento.

Que Deus e São Dimas estejam sempre com vocês.
E que a Fé continue sendo um belo combustível para a Cidadania!
Beijos, já saudosos.
Carlucho & Family, tempo e separação nunca existiram! Loviul  au!

Beto Volpe

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Solidariedade ao povo do sul e ao nosso futuro... Futuro?

Se é o aquecimento global ou o planeta está apenas 'naqueles dias', pouco importa. 

O fato é que o Brasil agora pode se 'vangloriar' de ter uma catástrofe natural comparável aos tornados, terremotos e tsunamis.

As chuvas torrenciais, que vemos agravadas em intensidade e freqüencia ano após ano.

Matam cada vez mais pessoas e provocam prejuízos cada vez maiores aos contribuintes.

Quando associamos fatos como o corrente em Santa Catarina às duas grandes secas na Amazônia....

Temos que parar de refletir. A hora é de agir. A próxima casa pode ser a nossa.

Beto Volpe

A sustentável suavidade da brisa

Descrição da imagem: flor 'Dente de Leão' sendo lentamene perpetuada pela suave brisa que espalha suas sementes...

A expressão 'que bons ventos o tragam' tomou formas, cores, aromas e sabores, fora as sensações não incluídas nos sentidos tradicionais. Aquelas que arrepiam nossa alma, que gelam nossa espinha e que tranqüilizam o espírito na certeza do caminho escolhido. Votuporanga, cujo significado em tupi guarani é adequadamente 'brisa suave', é uma cidade no noroeste do estado de São Paulo que, com seus 80 mil habitantes e uma forte influência conservadora n nos poderes constituídos, atreveu-se a falar publicamente sobre AIDS e religiões, uma relação impensável para a maioria, mas que é uma das das estratégias mais promissoras no enfrentamento à epidemia, pois que se há uma força com a extensão e abrangência da AIDS, é a Fé. A fé em dias de brisas suaves sobrepondo as tempestades. E que alguns representantes de Deus na Terra deixem de utilizar o santo nome do Senhor em vão para reforçar preconceitos e disseminar a dor.

Em 2009 muita coisa legal aconteceu ao Grupo Hipupiara, do qual era diretor. Situações que deram visibilidade a nosso trabalho na luta contra a AIDS e que impulsionaram uma série de atividades, dentre elas a fundação do Grupo de Trabalho Regional em AIDS e Religiões da Costa da Mata Atlântica, litoral de SP. Com o apoio do GT Estadual tivemos a maior adesão inicial à iniciativa dente todas do estado e tínhamos uma particularidade: a coordenação do GT do litoral foi entregue a um ativista não temente a Deus, mas sim grato a Ele. E que dispensa religiões para sua relação de fé. Talvez por esse motivo eu tenha sido lembrado para falar sobre o assunto e minha felicidade pelo convite foi aprofundada ao ver que teria como companheiros de fala meu queridíssimo amigo e sociólogo Cláudio Monteiro e uma notável pessoa da história de nosso país, Anivaldo Padilha, ex-preso político, torturado pela ditadura e membro da presente estratégia desde o Fiat Lux. Um verdadeiro manancial de ensinamentos. Encontramo-nos no aeroporto de Rio Preto e fomos levados ao evento nas brisas suaves do interior paulista.

Lea Bagnola, da coordenação de DST/AIDS de Votuporanga, nos aguardava no saguão do hotel, sempre com tudo em cima. A mulher, além de politicamente ousada, é fashion desde o primeiro olhar até o último salto de sapato. Após comermos uma deliciosa pizza e dormir o sono dos justos, dia 02 de setembro estávamos chegando ao local do seminário, voltado a religiosos, profissionais de saúde e sociedade civil. Para variar um pouco, mais de 90% dos presentes era do sexo feminino e o engajamento de todo o pessoal do programa local de AIDS era evidente. Havia sorriso sincero no receptivo, atenção redobrada às nossas necessidades e uma escuta sempre atenciosa para temas já complexos por suas naturezas e que exponenciam quando interligados. Um mais um é sempre mais que dois.

O sinal de que tudo seria um grande sucesso apareceu logo na composição da mesa, quando se percebeu que não havia acesso à música do Hino Nacional. Quando o belo e super atuante mestre de cerimônias deu o tom:
- Vamos à capela.
E todos entoaram o hino inteirinho, reafirmando que a adversidade é o campo mais fértil para a criatividade. Criatividade seguida da beleza e suavidade, assim como a brisa, de duas enfermeiras que congregam e cantam em um coral evangélico que nos brindaram com um louvor digno da proposta ali executada. Abertos os trabalhos por Lea, ficou evidente a segurança com que o projeto local é gerido. A despeito disso, veio à tona um dado extremamente preocupante: se no ano passado inteiro foram notificados 37 casos de AIDS, este anos são 60 somente até agosto. Fato isolado? Tendência? Preocupação. A bela secretária de saúde Fabiana de Palma declarou seu compromisso com a luta contra a AIDS e teve a oportunidade de conhecer meu velho Osso de Vidro. Seu olhar surpreso e interrogativo satisfez um de meus objetivos: desconstruir a idéia de doença crônica entre membros do poder local. E olha que ela não ficou sabendo (naquele momento) dos cânceres e das estatísticas de mortalidade por efeitos colaterais. Mas tudo foi assimilado pelo ilustre representante do legislativo, o vereador Meidão.

Anivaldo foi o primeiro a falar e fez uma ótima e clara exposição dos motivos que levaram a essa estratégia de aproximar as religiões da luta contra a epidemia, sempre respeitando os dogmas e costumes de cada fé. Fez várias relações entre as dificuldades enfrentadas nesse campo com as do tempo da ditadura, onde a comunicação censurada era um obstáculo ao pleno exercício dos direitos humanos. Claudinho veio logo a seguir, trazendo dados alarmantes,  brilhando n a eloqüência e proximidade com os participantes e reforçando a importância da estratégia: em todos os lugares deste país existe uma igreja, um centro, um templo, uma crença que pode contribuir e muito. Como exemplo citou a iniciativa das Pastorais da AIDS e CNBB em incentivar a testagem para o diagnóstico precoce entre os fiéis, ao invés de ficar batendo sempre na desafinada tecla da camisinha.  Finalizando os trabalhos da manhã tive a oportunidade de falar um pouco sobre a urgência em atitudes concretas no enfrentamento a uma epidemia sempre em mutação e distante de ser controlada. Mortalidade por efeitos colaterais, desmobilização social,  dificuldades no financiamento contrastam com a acomodação de toda a sociedade com relação à epidemia de AIDS.

Após o almoço fomos novamente agraciados com as duas cantoras que me dedicaram uma bela música sobre resiliência, homenagem que me emocionou um montão e a todos e todas que tiveram essa oportunidade. A oficina conduzida por Cláudio identificou uma série de situações e sugestões devidamente encaminhadas ao poder local para continuidade desse processo. Processo que tem tudo para ser vitorioso, uma vez que conta com uma gestão determinada, profissionais envolvidos e entusiasmados com a proposta e um prometido respaldo pelo poder público de Votuporanga. Cidade onde as brisas são mais que suaves, são um bálsamo para o calor característico da cidade. Cidade onde um jovem profissional de saúde atreveu-se, porque contestado por alguns, a se inscrever em um encontro de jovens vivendo com HIV para melhor poder atuar, como está fazendo meu querido Bruno. Cidade que, tendo acolhido a proposta, tem tudo para regionalizar o tema muito bem recebido pela representação de Rio Preto, metrópole da região.

Parabéns ao Centro de Referência e Treinamento em DST/AIDS de SP, pela celula mater deste trabalho.
Obrigado, Votuporanga,  pela oportunidade de tantas emoções em um único dia e parabéns a Lea e todas/os profissionais da saúde local.
E obrigado também pelas suaves brisas que perpetuam a flora e que semeiam e sustentam as boas iniciativas.
Beto Volpe

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dálias, brotos e raízes

Descrição da imagem: família feliz reunida no alpendre

Esses oito dias em São José do Rio Preto e Votuporanga, ambas no noroeste de SP, renovaram em muito minhas energias e minha crença que amanhã vai ser melhor, e bem melhor. Raízes familiares que sempre se mantém vivas graças às quatro gerações que encheram a casa de meus queridos tios no churrasco de hoje, Pessoas muito queridas que me levaram aos anos sessenta da Disparada do Jair, à queda da goiabeira nos fundos do quintal de minha saudosa avó Dyonnísia para onde ia invariavelmente nas férias escolares. E nessa paz eu não esqueci nenhuma dose dos medicamentos, coisa fácil de acontecer em viagens, fiz TODOS os exercícios que me propus a fazer, para alegria do meu fisioterapeuta que já está sabendo. Não assisti telejornais pouco vi da net.

Passeios pela Babilônia paulista, Riprê, cidade de muita riqueza, beleza, mistérios e perigos. E eu sempre me identifiquei mais com os últimos, claro. Desde os tempos do Berro d'Água, creio que o primeiro bar gay da região nos anos setenta, até a boate Dama de Paus, onde há 22 anos conheci o pai de meus bilhões de filhinhos, a maioria já morta por envenenamento. Mistérios e perigos. Foi bom dar a volta na represa de madrugada com minhas primas queridas 'mamando' as beldades, vendo as portas sempre lotadas dos bares, comendo rã e tomando muita, muita cerveja, desde o momento em que pisei esta terra. E mais, um affair, como não rolava há quase três anos, anos estes recheados de desafios que descartaram o amor e o tesão de minha vida. E não é que Papai do Céu me apresenta um miau na flor de seus dezoito anos, na maturidade de quem já enfrenta desafios seus e dos seus, valores éticos que me arrebataram e... E que quis saber um pouco mais sobre o tiozinho que tentava impressionar. E prega o prego, como se diz...

Nessa vibe tive a honra e o prazer de encontrar meu irmão Cláudio Monteiro e um grande e-amigo que se tornou palpável e sensível em todas as emoções possíveis. Anivaldo Padilha e o 'Brasil nunca mais', o manancial que encanta. Para quem quiser saber mais, futuro post neste blog. E fomos à terra das brisas suaves, Votuporanga, a oitenta quilômetros de Rio Preto. Fomos recebidos graciosamente por Lea, a Fashion, e por todo mundo do serviço de saúde local que realizou o Seminário de AIDS e Religiões, um tema controverso nos grandes centos, imaginem em uma região ainda sob forte influência do conservadorismo. Essa deliciosa passagem será detalhada tão pronto eu chegue em casa. Por enquanto, OBRIGADOOO! Foi muito bom tudo, apesar de minha leonina e eterna insatisfação com minhas coisas!  Não vejo a hora de pegar a brisa de novo!

Cerveja, churrasco, música sertaneja, cerveja, apito de trem, exercícios físicos, cerveja, comida caseira com sabor de infância, cerveja, comer uma perereca. Neon, mandioca cozida com linguiça apimentada, cerveja, represa by night, adesão total ao coquetel, cerveja, pegar sol ao lado da jabuticabeira, jogar conversa ao vento no alpendre e o fumódromo no pé de maracujá, cerveja, miau das coxas grossas e de fino trato, cerveja, Bar do Arataca em Mirassol e seu copo sujo de delirar!!! E cerveja no copo sujo. Prega o prego, cerveja, jabuticabeira, ioga, cerveja, aterrissagens e decolagens, brisas suaves, cerveja e cerveja. Tudo muito legal, mas nem chega perto dos valores que reencontrei ou abracei de forma definitiva.

Contatos imediatos com primas e primos de todos os graus, tios e tias que marcaram minha vida com o aroma dos casadinhos de goiaba, da caçulinha Arco Íris e das dálias no jardim, ser convidado para ser padrinho de Consagração de meu primo em terceiro grau, reunir quase trinta pessoas queridas num churrascão de família e a sensação de que a vida 'normalizou', ou acalmou e a certeza que a melhor idade chegou. Melhor idade que está mais para estado de espírito onde coisas como quantidade, urgência, culpa não fazem mais sentido algum. Têm sentido os sentimentos e as realizações. Entrega com confiança e recebimento com gratidão. E as raízes que garantem a força para brotar, ainda que na maturidade.

E viva a família!!

Beto Volpe