Follow by Email

Total de visualizações de página

Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Rock'n'You


Descrição da imagem: símbolo do Rock'n'Rio com o laço da luta contra a AIDS penduradinho.

Não sei se quem está me lendo agora já recebeu, por infortúnio, um diagnóstico positivo para uma doença incurável, progressiva e fatal, que carrega estigmas e que muda completamente sua vida, quando não dá cabo dela rapidamente. Não é nada fácil, óbvio, e por conta disso existe uma série de critérios em procedimentos e estrutura física a serem seguidos pela saúde pública, visando promover o máximo possível de conforto ao ser humano ali presente e facilitar seu encaminhamento ao serviço de saúde e sua adesão ao tratamento, igualmente nada fácil. Uma sensação descrita pela esmagadora maioria das pessoas vivendo com HIV que conheci nesses 22 anos de infecção e doze de ativismo na luta contra a AIDS é a da perda de chão. Que pode ser interpretada como a perda da capacidade de focar o pensamento em qualquer coisa que não seja a notícia recém recebida. E, além de questões de foro íntimo, existem riscos à segurança pessoal, pois só o acaso nos protege quando andamos distraídos, como bem observado pelos Titãs.

Por todos esses motivos é que muita gente foi colhida de surpresa pela intenção do Departamento Nacional de DST/AIDS/Hepatites Virais em realizar testes de HIV no recinto do Rock'n'Rio,  Peraí !!! Seria um festival de rock o tal ambiente para realização de exame de consequências tão imprevisíveis? A grita foi geral, houve bastante visibilidade pela imprensa e tal. E a proposta foi restrita aos profissionais envolvidos no festival, alguns milhares, que seriam incentivados a realizar o teste. Pensando no pior cenário, que é o cenário que deve ser visto em primeiro lugar em qualquer planejamento desse porte, teremos a manchete nos sites do mundo todo:

QUEDA DE HOLOFOTES MATA
ELTON JOHN NO ROCK'N'RIO
Descrição da imagem: estrutura de um palco caído sobre pessoas. Elton jaz sob o piano.

E, nos detalhes, a informação de que a causa poderia ser uma conexão mal estabelecida entre a barra de sustentação dos holofotes e a do palco. O técnico, super qualificado para seu serviço ao ponto de estar tão próximo de estrelas internacionais, não estava pensando em seu trabalho. Ele havia perdido o chão.  Como o eletricista que eletrocutou Shakira ou a si mesmo. De forma geral, EM UM MOMENTO DE DIAGNÓSTICO DE HIV+ NÃO HÁ ESPAÇO PARA A RACIONALIZAÇÃO. Não há lugar para perspectivas, apenas para o fim do mundo. Aí vem a importância do acolhimento pelos profissionais que realizaram o teste. Não questionando, nem os conheço, os profissionais que trabalharão no estande do Fique Sabendo, mas tivemos uma mostra de quão problemática ainda é essa ação que tem em sua raiz um bom acolhimento.. Ou melhor, o acolhimento que havia anteriormente e também foi negativamente afetado pela falsa idéia de cronicidade da epidemia. Vamos lembrar o ocorrido ano passado, em Brasília.

Durante o VIII Congresso Brasileiro de Prevenção em DST/AIDS, que é a jóia da coroa governamental,  alguns milhares de pessoas discutiam DST/AIDS, propunham e apresentavam estratégias para aperfeiçoar o enfrentamento às epidemias. Dentre eles o próprio Departamento Nacional que montou um estande do Fique Sabendo bem no meio do evento. Supõe-se que ali estará uma equipe que será a nata da capacitação e sensibilização no assunto. E o que se viu não foi bem isso, aliás não foi nada disso. Em três episódios houve falhas gravíssimas, atestando uma vez mais que havia algo de podre no melhor programa de AIDS do mundo, que não é o da Dinamarca. Em um deles uma ativista javia sido Glorificada em Deus por resultado negativo e perguntou à profissional que se ela estivesse infectada seria uma Amaldiçoada pelo Demônio. Em outro aparece outra profissional e em voz alta chama: SENHOR ULISSES MACEDO ! Sem resposta repete o chamado por duas vezes até que se levanta uma loira lindíssima de mais de 1,80m de altura que, constrangidíssima, revela ser ela o tal de Ulisses. Somente nessa hora a enfermagem percebeu o nome social no documento de identidade. E o pior dos casos, um grupo de ativistas estava passando atrás do estande quando viu um rapaz visivelmente desorientado, o qual foi por eles abordado e só teve forças para dizer:

- Acabo de saber que tenho AIDS. Não sei o que vou fazer de minha vida.

Não dá mais para conviver com o descaso com o ser humano em nome de uma estratégia que precisa de visibilidade internacional. Terá o excesso de ar condicionado congelado as emoções dos gestores em Saúde? Não incentivaremos o diagnóstico em ações de marketing mas, sim, com a REAL estruturação dos Centros de Testagem e qualificação e valorização dos recursos humanos. Não é possível que companheiros de luta que estão em situação de governo se deixem levar por argumentos tão nocivos à saúde individual das pessoas que vivem com HIV/AIDS. Não é digerível que alguns membros da sociedade civil organizada acabem apoiando a ação por motivos nobres, mas que têm um custo muito alto. Não é possível que pessoas vivendo com HIV tenham se esquecido de como foi o momento de seu diagnóstico, mesmo que tenha sido há muito tempo, e emprestem sua imagem a essa barbaridade, ainda mais citando dois grandes ídolos da maioria das pessoas vivendo com HIV como seus artífices espirituais.

Ainda bem que Cazuza e Freddy não estão mais entre nós. Eles não teriam morrido de AIDS, mas morreriam de vergonha.

Beto Volpe

Nenhum comentário:

Postar um comentário