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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



domingo, 18 de setembro de 2011

Testagem de HIV no Rock'nRio

Descrição da magem: símbolo do Rock'nRio com o laço da luta contra a AIDS apensada ao nome.

Pessoal, compartilho aqui um relato de Cida Lemos, grande amiga e batalhadora pela Vida, que támbém acha um grande equiívoco realizar testes de HIV em festas e eventos de celebração. Nossas emoções não são fáceis de se controlar, especialmente quando em estado de júbilo ou euforia. Lamentável o quanto o ar condicionado tira a sensibilidade das pessoas...
Beto Volpe

Prezados, também participei dessa reuniáo (sobre testagem para o vírus HIV no Rock'n'Rio) e depois de muitas explicações e justificativas perguntei se alguém sabia como ficava a cabeça de uma pessoa que recebe um diagnóstico positivo, principalmente em uma festa. Recebi resposta não satisfatória e logo à seguir fui participar de um debate na Escola de Enfermagem Ana Neri da UFRJ (público alunos do mestrado, doutorado , professores e profissionais) após a apresentação do filme POSITIVAS, juntamente com a diretora Susanna Lira. Iniciei minha fala me desculpando por ter chegado atrasada porque a reunião com o DN se prolongou mais do que estávamos esperando e para minha surpresa todos queriam saber se a testagem no Rock in Rio havia sido cancelada e ficaram bastante decepcionados quando informei que ela acontecerá.

Durante as perguntas a organizadora, professora Dra. Carla me confidenciou que havia um casal presente (que não era aluno) que acabara de receber pela manhã o resultado positivo e desejou assistir ao filme, ele estava inscrito para me fazer perguntas (só o resultado dele deu positivo o da mulher deu negativo). Aproveitei uma pergunta para falar sobre a importancia do apoio familiar, das relações sorodiscordantes, sem buscar culpados, que ninguem precisa sair contando sua sorologia enquanto não se sentir à vontade para isso, que a pessoa tem direito ao sigilo, que buscar ajuda psicologica e um grupo de apoio era importante para o fortalecimento e que principalmente temos que vivenciar nosso luto, para depois com o tempo conseguirmos forças para continuarmos a vida.

O homem pediu para falar e em pranttos (chorou muito, muito, muito) disse que quando recebeu o diagnóstico pensoui em se matar, pois ele é evangélico, tem 45 anos, tem uma companheira e que não tem coragem de enfrentar a familia,os amigos, falou do medo de ter infectado a mulhere da sua culpa por ter se relacionado fora de casa sem preservativo.
Perguntei porque ele fez o teste e onde e ele nos explicou que é doador de sangue e que fez no hemoRrio. Perguntei se ele se sentiu acolhido no momento em que recebeu a noticia e a resposta dele nos fez chorar a todos que estávamos presentes (só a assistente social sabia do caso) ele respondeu: 

- Eu só queria um abraço e não recebi  Fiquei ali parado sem saber o que fazer por mais de 3 horas, só pensando em me suicidar. Me foi dito que eu deveria chamara alguém para me buscar e que eu tinha que contar para a minha mulher, pois ela tambem teria que fazer o teste. Quando minha mulher chegou choramos juntos e fomos informados de que ela não poderia fazer o teste lá e nos foi dado vários endereços para procurarmos um e então viemos aqui no CTA (Hospital São Francisco de Assis) onde ela fez o teste rapido e deu negativo e fomos convidados para assistir ao filme. E agora ! Onde ir para iniciar o tratamento?

Ele se estendeu dizendo que odizer que os hospitais estão todos lotados e que a fila de espera é grande. Será que as pessoas vão olhar para ele descobrir que ele tem HIV? A mulher vai fazer outro exame em 3 meses, mas até lá, podem transar, beijar? Onde conseguir camisinhas? Qual diferença entre ter HIV e ter Aids? Ele também vai emagrecer e ficar com a fisionomia característica da Aids? Ela é da marinha será mandada embora quando descobrirem que ele está infectado? Será que ela vai abandoná-lo? (a mulher ficou o tempo todo calada, sentada ao lado dele). Será que vão pensar que ele é gay, esta doença é castigo? Quando vai morrer?

Respondi com emoção auxiliada pela Susanna (que ofereceu uma copia do filme para que ele pudesse ouvir os depoimentos com calma, inclusive dos familiares) reforçou a minha fala sobre a orientação sexual de cada pessoa, que doença não é castigo e que precisamos acreditar em alguma coisa para superar este momento. A Dra. Carla disse que trabalha com pessoas soropositivas há mais de 20 anos e que os medicamentos, a adesão e os bons pensamentos são primordiais para uma melhora físicca, além da descoberta precose da doença. Solicitei à ela que utilizasse seus conhecimentos para que ele fosse tratado ali mesmo, evitando uma peregrinação pelos serviços. Aproveitei para dizer à todos os presentes que assistiram emocionados o desespero daquele homem, que ao chegarem em seus locais de trabalho não esquecessem o quanto um abraço, um aperto de mão,uma palavra amiga pode salvar vidas. Se alguém não se sente à vontade para estas ações que procurem outra função. Não vá lidar com o público tão diretamente.

Aí pensei nas pessoas que recebem diagnóstico em festas. Como desejei que as autoridades estivessem ali, ouvindo um homem chorar copiosamente, com tantas perguntas sem respostas, com culpa, com medo .Será que continuariam achando que faz o teste em uma festa quem quer? Que basta indicar o hospital para um acompanhamento inicial, que receber um diagnóstico positivo para o HIV é a mesma coisa que receber um diagnóstico de diabetes? Sei da importancia de ficar sabendo o mais cedo possível da doença, para evitar casos como o meu que devido ao diagnóstico tardio acabei ficando cega. Mas será que não estamos realizando estas ações em locais inadequados? Será que não estamos priorizando a saúde física mais que a saúde mental? Será que estamos perdendo a sensibilidade e banalizando a dor de um diagnóstico positivo?

P.S. Antes de encaminhar esta carta recebi um e-mail da Dra. Carla me informando que o rapaz será acompanhado lá no hospital:

- Não falamos mais sobre o filme, apenas ouvimos e procuramos acolher aquele ser humano que precisava de colo, atenção e solidariedade.Outras pessoas também falaram palavras de incentivo e de carinho.
 
"Nada sobre nós, sem nós"
Beijinhos, Cida

Cida Lemos é professora, ativista em Direitos Humanos na área da Saúde, articuladora em AIDS e Deficiências e pessoa de minha máxima consideração.

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