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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Xingamento

Pessoal, compartilho delicioso e preciso artigo de Gregório Duvivier, publicado na Folha de São Paulo. 
Beto




Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: "Brother, essa Dilma é uma piranha". Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?
Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: "Essa eu comeria fácil" ou "Até que não é tão baranga assim". O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores.
Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: "O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou." Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.
Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?

Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa.
Gregório Duvivier

domingo, 13 de abril de 2014

Zieg Heil, doutor !!!



Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Que o Brasil tem um imenso contingente de pessoas vivendo com o vírus HIV e não sabem, isso é fato e necessita de atitude urgente por parte de todos os atores da luta contra a AIDS, sejam eles governamentais ou não. Agora, realizar testes em ambientes festivosde forma indiscriminada, é queimar em praça pública todo o conhecimento acumulado em três décadas de epidemia. O primeiro direito de uma pessoa que vive com HIV é o de ser acolhido com a dignidade condizente ao impacto que esse momento trará para o resto de sua vida. E esse direito está sendo jogado na fogueira das vaidades, que queima em nome de números a serem apresentados em conferências e congressos mundo afora, instaurando o 4º Reich no Ministério da Saúde.

Muita coisa mudou nesses trinta anos da AIDS no Brasil, sendo que a principal transformação foi a disponibilização do coquetel, em tese, para todos os brasileiros e brasileiras que dele necessitam. Muitos direitos foram conquistados, dando a falsa impressão de que a epidemia está sob controle, ao ponto de ser considerada por alguns como uma doença crônica. Mas se existe uma situação que não mudou em absolutamente nada, é a falta de chão por parte de quem recebe o diagnóstico. Lembro do relato de minha querida amiga Beatriz Pacheco que, durante o Congresso Brasileiro de Prevenção à AIDS de 2010, viu um ativista conhecido saindo do stand onde estava sendo exibida a joia da coroa, o Fique Sabendo, estratégia para ampliar a oferta de diagnósticos. Ele vagava como que sem rumo, ao que Bia perguntou se estava tudo bem. Ele respondeu:

- Estou com AIDS... E agora?

Bia procurou confortá-lo, dizendo que ele trabalhava com o assunto e sabia o que iria acontecer: ele levaria uma vida um pouco mais regrada, mas que seria capaz de ser feliz assim mesmo. E, como se nenhuma palavra o houvesse alcançado, ele murmurou:

- Isso não podia ter acontecido comigo, eu não posso falar com ninguém sobre isso.

Pois é, um profissional de saúde que trabalha na luta contra a
epidemia se via agora do outro lado da mesa de atendimento e se sentia isolado da humanidade. Disse ele, ainda, que só tinha feito o
teste porque estavam dando uma camiseta para quem o fizesse. Que forma banal de saber que sua vida iria mudar dali em diante.


Imagem de Eric Cartman, personagem do ácido seriado South Park, trajando uma camiseta com os dizeres (em inglês): Eu tenho AIDS e tudo que eu ganhei foi essa péssima camiseta.

Esse cuidado com o momento do diagnóstico não é sem razão de ser e muito menos 'paternalismo', como diz o diretor do Departamento de DST/AIDS/Hepatites Virais do Ministério da Saúde, doutor Fábio Mesquita. Além de todo o conhecimento acumulado pela área nessas décadas, em uma pesquisa de 2010 realizada pela Faculdade de Medicina da USP foi verificado que 81% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama apresentaram todos os sintomas da TEPT - Transtorno do Estresse Pós Traumático e nada nos leva a crer que com o diagnóstico de HIV+ seja diferente.

Agora uma equipe do Ministério da Saúde chega a São Vicente, minha querida e maltratada cidade, para acompanhar a implantação de um projeto que visa realizar testes de HIV, entre outros pontos, na maior balada GLS do litoral, o entorno do Quiosque da Cris na Praia do Itararé. Para viabilizar a iniciativa o ministério convidou uma ONG sobre a qual poucos tem o que falar, mesmo porque não se sabe ao certo o que se faz por lá. Apesar de ser a mais antiga da região, ela tem pouca transparência em suas atividades, pois só vem a público uma vez ao ano para pedir apoio a seu bazar beneficente de Natal. Essa ONG, apesar de pertencer a uma rede nacional de ONGs homônimas, jamais quis se articular com as outras instituições do pedaço e também só comparece a reuniões de conselhos de direitos quando necessita de aval dos mesmos para formalizar contratos com entes governamentais. A falta de noção é tamanha que, ao invés de procurar a Prefeitura de São Vicente para articular a ação, a ONG procurou a Prefeitura de Santos. 

Agora, o mais estranho é que, quando esse assunto veio à baila, boa parte dos profissionais de saúde e gestores contatados se mostraram, no mínimo, bastante apreensivos. E agora, logo após a chegada da equipe do ministério, todos mudaram de ideia. O que teria acontecido de tão radical, ao ponto de interferir na opinião de respeitáveis profissionais que atuam nos serviços de AIDS há tanto tempo? Quem sabe os laços afetivos entre esses profissionais e Dr. Fábio, que tem brilhante passado à frente de Santos e São Vicente nos anos de chumbo da epidemia e assim conquistou respeito internacional. É, ao menos, a explicação menos nefasta que me ocorre. Talvez jamais saibamos. 

Mas uma coisa é certa, a luta contra a AIDS em nosso país está caminhando a passos largos para um abismo, para onde também estão sendo lançadas as pessoas que hoje adentram ao serviço. Na maioria dos municípios brasileiros a média de espera entre o diagnóstico e a primeira consulta é de mais de cinco meses. A realização de exames é outra prova de resistência à qual as pessoas são submetidas, naquilo que hoje não passa de um arremedo do programa governamental de sucesso que já foi um dia. A descentralização da assistência é um pesadelo que está se tornando real e os efeitos colaterais do coquetel estão matando mais que a própria AIDS, enquanto o governo federal dá de ombros para as pessoas com HIV, que já não sabem mais o que fazer para receber o mínimo de atenção para nossa qualidade de vida.

Assim como a Europa do final dos anos 1930, a luta contra a AIDS vê um rolo compressor passando por cima de tudo e de todos, pois a preocupação é com números, afinal o Brasil vem sendo duramente questionado internacionalmente sobre o grande número de pessoas que vivem com HIV e estão circulando por aí, sem saber. E, na pressa, que se queimem os livros e o saber, em nome dos resultados. Talvez mudando o nome da iniciativa a situação se aproxime mais da realidade percebida por todos, menos pela encastelada equipe do Ministério da Saúde. Ao invés de 'Fique sabendo', é só mudar para 'Quem procura acha'. Afinal, é só dar uma camisetinha que está tudo certo.

Zieg Heil, doutor!


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Papa defende castidade na luta contra aids na África

Isso é para colocar uma pulga atrás da orelha de quem, cegamente, acredita que Francisco é a salvação da lavoura. Sua prática ainda é bastante contraditória a seu discurso.
Beto Volpe




Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, o papa Francisco elogiou nesta segunda-feira (7), os membros da Igreja "que se esforçam para educar as pessoas sobre responsabilidade sexual e castidade", como forma de prevenir a epidemia do vírus HIV na África. O pontífice discursou para bispos da Tanzânia, presentes no Vaticano.

A fala de Francisco em relação à castidade vai contra a ação de governos, movimentos sociais e profissionais de saúde no geral, que defendem o uso de camisinha como a melhor arma na luta contra a aids no mundo todo. Atualmente, o aumento de casos da doença na população jovem é uma das maiores preocupações. 
Bento XVI

Em 2010, o então papa Bento XVI também tratou do tema. Na época, o pontífice afirmou que camisinha não é uma solução moral para controlar a aids. No entanto, acrescentou que, em alguns casos, como os de prostitutos, o uso pode representar um passo para assumir responsabilidade "com o objetivo de reduzir o risco de infecção".

O posicionamento de Bento XVI foi elogiado por membros da Igreja Católica e representantes do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids).

Fonte: O Estado de S. Paulo

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Para seu governo, a aids agora entra pela porta dos fundos

Pessoal, reproduzo abaixo artigo muito legal de meu querido Cazu Barros, sobre a nova série do Porta dos Fundos, Viral. A série retrata a peregrinação de dois amigos, um deles recentemente diagnosticado com HIV, em busca de suas parceiras sexuais para dar a notícia a elas. Cada vez mais admiro ambos, Cazu e Fábio Porchat.

Beto Volpe




Quando Fabio Porchat me ligou, eu me perguntei: 

O que um comediante pode querer com quem vive uma situação nada engraçada?

Fiquei surpreso quando ele disse que estava produzindo uma web série de humor com o tema aids para o Porta dos Fundos. Ele me contou que a produção se chamaria, “Viral” e gostaria que eu desse uma lida no roteiro para dizer o que eu, enquanto pessoa que vive com aids, achava. Ou seja, se havia alguma situação que poderia ofender ou trazer qualquer desconforto para as pessoas que vivem com HIV/Aids.

Li o roteiro dos quatro episódios. Admito ter me divertido um bocado com as situações, mas, em outros momentos, fiquei bastante tenso.
Em uma das cenas, por exemplo, havia violação do direito de sigilo das pessoas vivendo com aids.

No texto original, Rafa, vivido por Porchat, dizia para o amigo Beto (Gregorio Duvivier) que se ele não contasse para as parceiras que tinha aids, ele mesmo (Rafa) contaria.

Na minha observação, expliquei, então, que isso poderia incentivar a violação de sigilo sorológico, um crime previsto por lei. Ninguém pode, sem autorização do portador, dizer para quem quer que seja que o outro tem aids. 

Porchat aceitou minha sugestão e retirou essa fala. 
Minha outra observação foi com relação ao método de teste portátil rápido, via oral. É o chamado teste da saliva, que consiste na detecção do HIV por meio de um pouquinho do líquido raspado da bochecha com uma espátula – ele foi utilizado na série para a realização dos exames em Rafa e nas parceiras de Beto depois que ele foi diagnosticado positivo. 

Além de não estar ainda disponível, a não ser em algumas Ongs, eu, particularmente, sou contra porque o governo o aprovou sem controle algum ou cuidado para com as pessoas que vão utilizá-lo. Um diagnóstico positivo ainda causa um impacto muito grande e o ideal é recebê-lo com acompanhamento de um profissional de saúde, que vai saber acolher, informar e orientar a pessoa. 

Porchat defendeu que dentro da dinâmica da web série, em que eles percorrem toda a cidade em busca das garotas com as quais Beto transou, o método portátil seria o ideal, pois não teria como levar uma equipe de profissionais junto.

Fabio Porchat teve algumas grandes sacadas em sua criação e foi isso o que aliviou um pouco as piadas que possam vir a ser consideradas de mau gosto. Ele criou o personagem soropositivo forte, com autoestima elevadíssima e consciente de seus deveres e obrigações enquanto portador de um vírus ainda mortal. Isso tira um pouco o mito de que a maioria das pessoas que se descobrem com aids se revoltam e saem por ai infectando todo o mundo. 

O objetivo principal de Beto é encontrar todas as ultimas parceiras para informar que ele tem aids. E conscientizá-las de que também precisam fazer o teste. De muitas delas, ele só tem o telefone e Facebook como referência.

Foi uma atitude louvável da parte de Porchat consultar e ouvir profissionais de saúde especializados e pessoas vivendo com HIV/aids, coisa que normalmente ninguém faz quando vai trabalhar com esse tema. Na maioria das vezes, nos procuram só para dizer que não falei das flores... E nos alegam que já foi tudo gravado, editado e nenhuma mudança pode ser feita.

Por último, outra boa ideia foi manter o feeling do humor, porém sem brincar com a doença e sim com as situações que um portador pode viver. Eu, por exemplo, já vivi várias situações das quais, hoje, costumo rir e brincar.

Há muita desinformação por parte do Rafa e outros personagens que, a meu ver, a web serie “Viral” retrata exatamente como é na vida real. Ela reproduz bem a forma com que o nosso governo e a moçada, hoje em dia, vê a aids.

O governo a trata com descaso, como se fosse um mal comum. Por isso, quer tirar o tratamento da atenção especializada e jogar na atenção básica de saúde. Mostra, com isso, que dá pouca importância a uma doença que ainda não tem cura, infectou mais de 40 mil e matou mais de 12 mil brasileiros só em 2013.

A moçada, muitas vezes, não tem noção das dificuldades da adesão aos medicamentos, em função de seus fortes efeitos colaterais, do estigma, do preconceito que a aids ainda acarreta a quem vive e convive com ela. 

Isso é um reflexo das desastrosas ações do nosso atual governo. Ele não tem priorizado as ações educativas de prevenção. Tanto que vetou todas as campanhas destinadas ao público que hoje está entre os mais vulneráveis em contrair a doença: os nossos jovens .

Recente pesquisa aponta que 40% das meninas de 14 a 25 anos e um de cada três meninos nunca usam preservativos.
Uma das razões para a atual política do governo brasileiro contra a aids ter péssimos resultados e grandes retrocessos é que seus representantes não escutam as Ongs nem as pessoas soropositivas. 

O que temos visto é a aids sendo usada como moeda de troca política pelo governo junto à bancada religiosa. Sem falar dos interesses financeiros que permitem absurdos como, por exemplo, a Fifa editar um manual para ser distribuído nas escolas públicas pregando abstinência sexual, fidelidade e camisinha, pelo que dá para entender na cartilha, só no caso de ter mais de um parceiro sexual. Ou seja, tudo ao contrário do que a política de saúde brasileira construiu até aqui. 

Fica claro que a prioridade do governo são as ações de testar e tratar imediatamente, nas quais quem lucra são as indústrias farmacêuticas.

Aprovar a venda dos testes rápidos em farmácias sem nenhuma proteção aos direitos humanos das pessoas que vivem com aids é mais um exemplo dessas desastrosas ações do governo no combate. Para que prevenir né? Se todos forem educados para a prevenção, a epidemia de aids acaba e, junto, a indústria de medicamentos contra a doença.

Na atual conjuntura, a aids, assim como a Copa do Mundo, virou mesmo motivo de piada de brasileiros. Os argentinos e portugueses que nos digam.