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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quarta-feira, 9 de abril de 2014

Para seu governo, a aids agora entra pela porta dos fundos

Pessoal, reproduzo abaixo artigo muito legal de meu querido Cazu Barros, sobre a nova série do Porta dos Fundos, Viral. A série retrata a peregrinação de dois amigos, um deles recentemente diagnosticado com HIV, em busca de suas parceiras sexuais para dar a notícia a elas. Cada vez mais admiro ambos, Cazu e Fábio Porchat.

Beto Volpe




Quando Fabio Porchat me ligou, eu me perguntei: 

O que um comediante pode querer com quem vive uma situação nada engraçada?

Fiquei surpreso quando ele disse que estava produzindo uma web série de humor com o tema aids para o Porta dos Fundos. Ele me contou que a produção se chamaria, “Viral” e gostaria que eu desse uma lida no roteiro para dizer o que eu, enquanto pessoa que vive com aids, achava. Ou seja, se havia alguma situação que poderia ofender ou trazer qualquer desconforto para as pessoas que vivem com HIV/Aids.

Li o roteiro dos quatro episódios. Admito ter me divertido um bocado com as situações, mas, em outros momentos, fiquei bastante tenso.
Em uma das cenas, por exemplo, havia violação do direito de sigilo das pessoas vivendo com aids.

No texto original, Rafa, vivido por Porchat, dizia para o amigo Beto (Gregorio Duvivier) que se ele não contasse para as parceiras que tinha aids, ele mesmo (Rafa) contaria.

Na minha observação, expliquei, então, que isso poderia incentivar a violação de sigilo sorológico, um crime previsto por lei. Ninguém pode, sem autorização do portador, dizer para quem quer que seja que o outro tem aids. 

Porchat aceitou minha sugestão e retirou essa fala. 
Minha outra observação foi com relação ao método de teste portátil rápido, via oral. É o chamado teste da saliva, que consiste na detecção do HIV por meio de um pouquinho do líquido raspado da bochecha com uma espátula – ele foi utilizado na série para a realização dos exames em Rafa e nas parceiras de Beto depois que ele foi diagnosticado positivo. 

Além de não estar ainda disponível, a não ser em algumas Ongs, eu, particularmente, sou contra porque o governo o aprovou sem controle algum ou cuidado para com as pessoas que vão utilizá-lo. Um diagnóstico positivo ainda causa um impacto muito grande e o ideal é recebê-lo com acompanhamento de um profissional de saúde, que vai saber acolher, informar e orientar a pessoa. 

Porchat defendeu que dentro da dinâmica da web série, em que eles percorrem toda a cidade em busca das garotas com as quais Beto transou, o método portátil seria o ideal, pois não teria como levar uma equipe de profissionais junto.

Fabio Porchat teve algumas grandes sacadas em sua criação e foi isso o que aliviou um pouco as piadas que possam vir a ser consideradas de mau gosto. Ele criou o personagem soropositivo forte, com autoestima elevadíssima e consciente de seus deveres e obrigações enquanto portador de um vírus ainda mortal. Isso tira um pouco o mito de que a maioria das pessoas que se descobrem com aids se revoltam e saem por ai infectando todo o mundo. 

O objetivo principal de Beto é encontrar todas as ultimas parceiras para informar que ele tem aids. E conscientizá-las de que também precisam fazer o teste. De muitas delas, ele só tem o telefone e Facebook como referência.

Foi uma atitude louvável da parte de Porchat consultar e ouvir profissionais de saúde especializados e pessoas vivendo com HIV/aids, coisa que normalmente ninguém faz quando vai trabalhar com esse tema. Na maioria das vezes, nos procuram só para dizer que não falei das flores... E nos alegam que já foi tudo gravado, editado e nenhuma mudança pode ser feita.

Por último, outra boa ideia foi manter o feeling do humor, porém sem brincar com a doença e sim com as situações que um portador pode viver. Eu, por exemplo, já vivi várias situações das quais, hoje, costumo rir e brincar.

Há muita desinformação por parte do Rafa e outros personagens que, a meu ver, a web serie “Viral” retrata exatamente como é na vida real. Ela reproduz bem a forma com que o nosso governo e a moçada, hoje em dia, vê a aids.

O governo a trata com descaso, como se fosse um mal comum. Por isso, quer tirar o tratamento da atenção especializada e jogar na atenção básica de saúde. Mostra, com isso, que dá pouca importância a uma doença que ainda não tem cura, infectou mais de 40 mil e matou mais de 12 mil brasileiros só em 2013.

A moçada, muitas vezes, não tem noção das dificuldades da adesão aos medicamentos, em função de seus fortes efeitos colaterais, do estigma, do preconceito que a aids ainda acarreta a quem vive e convive com ela. 

Isso é um reflexo das desastrosas ações do nosso atual governo. Ele não tem priorizado as ações educativas de prevenção. Tanto que vetou todas as campanhas destinadas ao público que hoje está entre os mais vulneráveis em contrair a doença: os nossos jovens .

Recente pesquisa aponta que 40% das meninas de 14 a 25 anos e um de cada três meninos nunca usam preservativos.
Uma das razões para a atual política do governo brasileiro contra a aids ter péssimos resultados e grandes retrocessos é que seus representantes não escutam as Ongs nem as pessoas soropositivas. 

O que temos visto é a aids sendo usada como moeda de troca política pelo governo junto à bancada religiosa. Sem falar dos interesses financeiros que permitem absurdos como, por exemplo, a Fifa editar um manual para ser distribuído nas escolas públicas pregando abstinência sexual, fidelidade e camisinha, pelo que dá para entender na cartilha, só no caso de ter mais de um parceiro sexual. Ou seja, tudo ao contrário do que a política de saúde brasileira construiu até aqui. 

Fica claro que a prioridade do governo são as ações de testar e tratar imediatamente, nas quais quem lucra são as indústrias farmacêuticas.

Aprovar a venda dos testes rápidos em farmácias sem nenhuma proteção aos direitos humanos das pessoas que vivem com aids é mais um exemplo dessas desastrosas ações do governo no combate. Para que prevenir né? Se todos forem educados para a prevenção, a epidemia de aids acaba e, junto, a indústria de medicamentos contra a doença.

Na atual conjuntura, a aids, assim como a Copa do Mundo, virou mesmo motivo de piada de brasileiros. Os argentinos e portugueses que nos digam.

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