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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 22 de abril de 2013

Criticado por médicos e ativistas, projeto de lei quer proibir substância usada em correções de lipodistrofia

Está mais que claro tratar-se de outro ataque teocrático contra os endemoniados e àqueles que representam algum entrave a seus interesses político financeiros. Dá pra antever o fim do financiamento para pesquisas baseadas no evolucionismo.
Beto Volpe
Descrição da imagem: dentro de um círculo preto, a inscrição INTOLERÃNCIA RELIGIOSA em vermelho reprovada por um X cinza que a sobrepõe.

A substância polimetilmetacrilato, também chamada pela sigla PMMA ou apenas metacrilato, é comumente usada nos procedimentos para correção da lipoatrofia facial em pacientes com HIV, mas pode ter essa utilidade proibida caso o Projeto de Lei 4622/2012 seja aprovado no Congresso Nacional.

De autoria do deputado federal Antonio Bulhões (PRB-SP), o projeto aguarda avaliação da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, mas preocupa integrantes do governo, médicos e pessoas vivendo com HIV e aids, que se opõem à sua proibição.

A medida alteraria a Lei nº 6.360, de 23 de setembro de 1976, que dá a vigilância sanitária o poder de autorizar a aprovação de medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos, acrescentando um parágrafo que proíbe, além do PMMA, o silicone líquido. A justificativa da proibição se baseia no fato de que “a utilização do polimetilmetacrilato tornou-se uma verdadeira epidemia estética e seu uso indiscriminado tem causado dores e mutilações a inúmeros pacientes desavisados”.

A infectologista do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo, Mylva Fonsi, acompanha a aplicação de metacrilato realizada no local há cerca de 10 anos e garante que o procedimento tem se mostrado seguro nos preenchimentos faciais. Segundo ela, as complicações decorrentes do uso da substância são poucas e insuficientes para o procedimento ser considerado inadequado.

“Sou a favor do uso do metacrilato em pequenas quantidades, mas contra o silicone, pois há complicações com esta substância que não foi feita para ser usado no corpo humano. Quanto ao metacrilato em grandes quantidades, ainda não tenho opinião a respeito”, disse Mylva. “No CRT, usamos quantias pequenas de metacrilato, em casos gravíssimos a aplicação fica em torno de 20ml”, acrescentou.

O projeto de lei permite a aplicação da substância em quantidades de até 2 ou 3 milímetros em regiões da face.



A posição de Mylva é a mesma exposta pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, que, em comunicado, já se posicionou contra a proibição do uso do metacrilato, mas a favor da proibição do silicone líquido.

O Departamento enviou um parecer técnico sobre o assunto para o Secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, e para a Assessoria Parlamentar do Gabinete do Ministro da Saúde para posterior encaminhamento à Câmara dos Deputados.

Má aplicação

Cristina Moreno é médica e utiliza o metacrilato em pacientes com HIV há 12 anos. Ela é categoricamente contra a proibição proposta por Antonio Bulhões.

Ela explica que só médicos podem aplicar esta substância, mas outros profissionais ou até mesmo “não profissionais” utilizam a substância de forma errada e clandestina. “As pessoas têm complicações não pelo metacrilato, e sim por uso incorreto, seja de grande quantidade, em posição ou profundidade inadequada. O produto em si é muito seguro e utilizado também nos EUA e Europa”, disse.

Para Cristina, um dos objetivos da Lei é resolver o problema de sociedades médicas que não mais precisarão fiscalizar o uso do produto, mas comprometerá o acesso por parte das pessoas com HIV e aids.

“Essa lei pretende prevenir as complicações proibindo o uso do produto, ao invés de regular a venda e fiscalizar a utilização”, opina.
Auto-estima

Beto Volpe (na foto, à esquerda) é representante no estado de São Paulo da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+) e vive com o vírus há mais de 20 anos. Um dos primeiros no Brasil a receber a aplicação do metacrilato para corrigir a lipodistrofia, ele se mostra radicalmente contra a proposta, que em sua opinião coloca o País em atraso. Segundo Beto, o procedimento resgata a identidade e a auto-estima de quem tem o HIV, o que é fundamental no combate à epidemia.

“Realizei a aplicação em janeiro de 1998. Na época, eu quase não saia de casa porque tinha problemas com a minha imagem, não queria ficar daquele jeito. Quando me disseram que existia essa técnica, já fui atrás. Quando vi meu rosto depois do procedimento, comecei a chorar de felicidade por recuperar o meu rosto e a minha identidade”, lembra.

Para o ativista, a correção com o metacrilato, ao recuperar as identidades, fortalece as pessoas. “Quem está perdido, triste, abandona o tratamento, não está nem aí para a prevenção”, diz. “Tanto que, ao fundarmos a ONG [o Grupo Hipupiara], nossa primeira bandeira foi trazer esse procedimento para o SUS. Eu vi a mudança que ele causou em mim e a mudança que causa em todo mundo que faz”, defende.

Um
estudo publicado em 2007 na Revista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica vai na mesma direção das afirmações do ativista. A pesquisa mostra que “a correção da lipodistrofia facial [...] obteve altos índices de satisfação, resgatando a auto-estima, tornando-os [os pacientes] confiantes e colaborativos para o seguimento do tratamento antirretroviral”.

Um
artigo de 2010 realizado por um grupo do Centro Universitário São Camilo também mostra que em contrapartida ao sentimento negativo gerado pelo estigma da aids, “o preenchimento facial se torna um marco importante e positivo, com o retorno da autoestima e melhora da autoimagem e melhora da adesão medicamentosa”. Ainda neste artigo, os autores concluem que o oferecimento gratuito do tratamento da lipoatrofia facial aumentou a qualidade de vida dos portadores de HIV, pois melhorou a aparência “distorcida”, ajudando-os a recuperar sua identidade e dignidade, preservando-os da discriminação e preconceito.

Futuro incerto

Para Mylva, a proibição, caso aprovada, é prejudicial à resposta brasileira contra a epidemia. “Existem outras substâncias que podem ser utilizadas, mas elas não são definitivas para o problema da lipoatrofia facial. Fora o prejuízo para o paciente, isso causaria ainda um ônus para o serviço público, pois seriam necessários mais profissionais, mais insumos e mais aplicações. E repito: no estado de São Paulo, todos os locais que fazem o preenchimento utilizam o PMMA e até agora não há o que sugira que esta seja uma substância de risco”, disse.

Cristina se mostra preocupada com a velocidade da tramitação do projeto e acredita que quem perde com sua aprovação são os pacientes com HIV e lipodistrofia. “Falamos tanto da luta contra o preconceito e, com isso, o paciente perde uma das armas que ajudam a tratar do estigma da doença, o aspecto emagrecido”, diz.

Já Beto lamenta que depois de esforços da sociedade civil para implementar a medida, ela esteja em risco. “Temos um partido teocrático, representante de um segmento social minoritário, mas muito articulado, querendo interferir em questões técnicas. Devemos nos organizar e buscar apoio internacional. Corremos o risco do projeto avançar por causa da governabilidade, que está produzindo desvios de conduta e atingindo a população, especialmente as minorias, onde se incluem as pessoas com HIV/Aids”, diz.

Procurado pela Agência de Notícias da Aids, o autor da proposta, Antônio Bulhões, não se manifestrou até o fechamento desta reportagem.

Nana Soares
Agênca de Notícias da AIDS

sábado, 13 de abril de 2013

Soropositiva de 14 anos lidera campanha por portadores do HIV na Ucrânia

Jovem contraiu vírus da mãe usuária de drogas e liderou protesto em frente ao Parlamento por mais verbas para infectados.

 
Descrição da imagem: foto de Liza linda de olhos amendoados, cabelos castanhos e com blusinha preta abraçada pela mãe loira também linda de olhos amendoados e de blusa fucsia, sentadas à mesa tendo ao fundo uma extensa pia de cozinha, tudo branco.
 
 
A Ucrânia enfrenta uma das piores epidemias de Aids de toda a Europa, mas a maioria das pessoas com o vírus HIV no país não tem acesso aos remédios que lhes permitiriam viver uma vida normal.
Mas uma adolescente ucraniana portadora do vírus HIV está em campanha para mudar isso.
 
Liza Yaroshenko, de 14 anos, ficou conhecida no país por liderar um protesto na frente do Parlamento do país, na capital, Kiev, para pedir que o orçamento nacional incluísse mais verbas para o combate à doença. A jovem toma medicamentos antiretrovirais três vezes por dia, pontualmente, à mesma hora. Ela explica que, se o horário não for respeitado, o vírus poderia sofrer mutações e o remédio poderia deixar de funcionar. Liza sabe que tem sorte em ter o remédio. Recentemente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) advertiu que muito pouco está sendo feito para combater a epidemia de Aids na Ucrânia.
 
Usuários de drogas
A jovem militante tinha seis anos quando sua mãe morreu de Aids. Como outros milhares de ucranianos, a mãe de Liza contraiu o vírus HIV ao se injetar com um substituto barato da heroína. O contágio ocorre com frequência entre pessoas que usam as mesmas seringas. Mas a droga, feita com palha de papoula e conhecida no país como shirka, também pode estar contaminada pelos equipamentos sujos usados pelos traficantes. Liza contou que sua mãe falava inglês fluentemente e trabalhou como tradutora por algum tempo, até conhecer o homem que a apresentou às drogas.
 
"Todos os parentes do meu pai eram traficantes - esse era o negócio da família", explicou a ativista. Ela contou que ainda se lembra das filas de viciados que aguardavam suas doses do lado de fora do apartamento. A mãe acabou sendo presa por porte de drogas e passou três anos na prisão. "Após ser solta, ela tentou parar com a droga, mas meu pai logo a convenceu a voltar. Foi então que ela ficou doente."
 
"Eu não acho que ela sabia sobre (os remédios) antiretrovirais. Era como se fosse uma lenda, ouvíamos dizer que esses remédios existiam, mas custavam tanto que pessoas comuns sequer pensavam em tentar obtê-los."
 
Em 2005, no mesmo dia em que a mãe de Liza morreu de Aids - com apenas 27 anos - a filha ficou sabendo que era portadora do vírus HIV. "Estávamos no hospital e pediram que minha avó fosse ao escritório do administrador. Quando ela saiu, começou a chorar e eu me perguntei, que coisas terríveis eles teriam dito a ela para deixá-la tão chateada?" Liza ficou internada por oito meses após ser diagnosticada porque tinha febres altas demais. Ela está entre os primeiros pacientes da Ucrânia a receber antiretrovirais e tem estado saudável desde então.
 
A adolescente não tem contato com o pai. Quando a avó ficou doente demais para cuidar dela, as autoridades iniciaram preparativos para enviá-la a um orfanato. Antes disso, no entanto, ela foi adotada por um casal ucraniano que não tinha filhos. A mãe adotiva, Oksana Aligeva, e o marido, Eldar, ficaram comovidos com a história de Liza e acharam que poderiam oferecer um lar a ela.
 
Em campanha
Apenas um terço dos 120 mil pacientes registrados oficialmente como portadores do HIV na Ucrânia recebem remédios antiretrovirais. Porém, segundo estimativas da ONG Aids Alliance - a maior entidade independente de combate à Aids na Ucrânia - o número de infectados seria pelo menos duas vezes maior. O que significa que apenas um em seis infectados estaria recebendo tratamento, um dos piores índices do mundo. As autoridades dizem que não há fundos para comprar as drogas, mas muitos dizem que o problema é a má administração e a corrupção.
 
No ano passado, o presidente Viktor Yanukovych declarou que o combate a doenças infecciosas era uma prioridade de seu governo. Porém, em sua proposta de orçamento para 2013, o governo não alocou fundos para tratamentos para a hepatite e apenas 40% da verba proposta pelo presidente foi de fato alocada para o combate à Aids e à tuberculose. Foi então que Liza decidiu entrar em ação. Com o apoio de um grupo de pressão integrado por infectados, ela foi ao parlamento da Ucrânia e se plantou em frente a um microfone. Com voz hesitante, mas determinada, ela pediu aos parlamentares que bloqueassem a proposta de orçamento.
 
"Sem tratamento, muitos pais e filhos vão morrer dessa doença", ela dizia. "Eu imploro a vocês que não votem a favor desse orçamento para que o que aconteceu comigo não aconteça a outras crianças."
A mãe adotiva Oksana contou que ela e Liza ficaram decepcionadas quando os parlamentares ignoraram o apelo de Liza.
 
No entanto, três semanas depois, o presidente Yanukovych assinou um decreto instruindo ministros a elaborarem um novo orçamento prevendo verbas de assistência médica para pessoas vivendo com o HIV e a Aids. A nova proposta de orçamento deverá ser apresentada ao parlamento em maio. Os portadores do vírus, porém, têm mais uma razão para preocupação: uma lei entrou em vigor no mês passado exigindo que importadores de remédios estrangeiros obtenham licenças adicionais para operar no mercado ucraniano.
 
Muitos temem que as licenças sejam concedidas apenas a quem pagar propina. Casos de corrupção no setor são conhecidos. Andrei Klepikov, integrante da ONG Aids Alliance em Kiev, disse que, em 2004, o governo comprou drogas antiretrovirais a preços 27 vezes mais altos do que os do mercado. Como resultado, o Fundo Global para a Aids, Tuberculose e Malária, financiado pelo milionário americano Bill Gates, cortou a verba que enviava ao Ministério da Saúde ucraniano e passou a enviar o dinheiro diretamente às ONGs do setor.
 
Popular na escola
Ser vista em rede nacional de TV fazendo campanha no parlamento, diz Liza, foi bom para a sua popularidade. "A maior parte dos meus amigos já sabe da minha situação", ela disse, em referência ao fato de ser portadora do vírus HIV. "De maneira geral, as pessoas reagiram bem e algumas amizades ficaram até mais fortes do que eram antes."
 
Orgulhosa, sua mãe acrescenta que os alunos elegeram Liza a presidente da escola após seu discurso.
Alguns dos professores, no entanto, demonstraram menos simpatia. Uma delas disse aos alunos que o vírus HIV pode se alastrar por meio de espirros e apertos de mão. "Eu disse a ela que aquilo era bobagem e fui chamada na sala da diretora", contou. "Detesto quando as pessoas espalham informações falsas, não consigo ficar de boca fechada."
 
Fonte: G1 Ciência e Saúde

OBRIGADO, FELICIANO!

Pessoal, uma das mais lúcidas reflexões sobre o momento atual e a apregoada cruzada do terceiro milênio.

Descrição da imagem: desenho em preto e branco de um homem corpulento que, de costas, segura uma bíblia de onde pinga sangue vermelho, assim como o mesmo sangue escorre de uma pessoa que jaz no chão.
 
 

Há pelo menos 3 décadas, o fundamentalismo religioso vem ganhando espaço no Brasil de forma intensa e silenciosa. Conquistando lugares no parlamento, em cargos executivos, canais de televisão, os fundamentalistas transformaram suas empresas em verdadeiros impérios.

Atuam, sobretudo, nas periferias urbanas, praticamente abandonadas pela Igreja Católica, que até então promovia, nestas áreas, a Teologia da Libertação – isolada e perseguida pela Cúria Romana, que discordava de sua “opção pelos pobres” e pelo seu engajamento nas lutas por direitos.


Os fundamentalistas encontraram terreno fértil para sua pregação: legiões de “sobrantes”, acossados pelo desemprego, pela invisibilidade, pelo terror da violência urbana e policial, ávidos por discursos messiânicos e salvacionistas. No meio da barbárie e na ausência de projetos coletivos, só mesmo a fé se mostra como caminho de saída do desespero.


Durante a ascensão do fundamentalismo religioso, uma marca sempre esteve presente nos discursos e pregações: a escolha de um inimigo a ser combatido. A velha estratégia de se criar um inimigo fora do grupo, para dar sentido a sua própria existência: uma “batalha espiritual” que divide o mundo entre o bem e o mal.


As primeiras vítimas dos discursos de ódio do fundamentalismo religioso foram as religiões de matriz africana, depreciadas como “rituais macabros”, “manifestações demoníacas”. O(A)s seguidore(a)s do Candomblé e da Umbanda não contaram com a solidariedade da sociedade brasileira. Sozinho(a)s tiveram poucas condições para resistir ao verdadeiro linchamento público a que foram submetido(a)s. Desorganizad@s politicamente, minoritári@s na sociedade e subalternizad@s por um preconceito que, de tão avassalador , sequer se reconhece sua existência: o racismo.


Essa fragilidade das religiões afro tem origem histórica. Vítimas de uma abolição tutelada, os praticantes do candomblé e da umbanda tiveram, durante muito tempo, sua religiosidade considerada crime e só conseguiam manter abertos seus terreiros caso se submetessem à proteção de um coronel que trocasse liberdade religiosa por votos.


Curiosamente, os mesmos fundamentalistas que os atacavam (e atacam) incorporam rituais em suas liturgias nos mesmos padrões das religiões de matriz africana. O que levou Vagner Gonçalves da Silva, professor de antropologia da USP, a afirmar: ”Combatem-se essas religiões [afro] para monopolizar seus principais bens no mercado religioso, as mediações mágicas e a experiência do transe religioso, transformando-os em valor interno do sistema neopentecostal.”


Nos últimos anos, os fundamentalistas religiosos resolveram intensificar sua campanha contra outro “inimigo” : os sexodivers@s – gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e todas as pessoas que vivem relações não procriativas (assim, também são rechaçados, em menor intensidade, os heterossexuais que realizam sexo anal e, em alguns casos, até o oral).


Utilizando-se de uma leitura biblica datada, os fundamentalistas controem um moralismo seletivo – não incorporam todas as proibições bíblicas: como, por exemplo, a de cortar o cabelo e a de comer frutos do mar …


Não à toa, os fundamentalistas escolheram este momento para intensificar seus ataques à comunidade sexodiversa: a governabilidade conservadora dos governos Lula/Dilma – que unificou, na mesma base de apoio, parlamentares “progressistas” e parlamentares fundamentalistas – fez com que muitos dos tradicionais aliados da diversidade sexual – parlamentares do PT, PC do B, PSB – se omitissem na disputa contra o fundamentalismo religioso, agora seu aliado na sustentação de governo. Resultado: deputados-pastores transformaram o plenário do Congresso e programas de TV em púlpitos de sua pregação de ódio e encontraram abandonado o cenário de disputa de valores. Some-se a isso que a resistência não tem vindo de fora do parlamento: o movimento LGBT hegemônico é hoje composto por ONGs que se encontram totalmente tragadas pela dependência ao Estado e reféns do Governismo.


Enquanto isso, a comunidade sexodiversa está totalmente domesticada pelo mercado Pink. A maior vitória do neoliberalismo sobre a comunidade sexodiversa foi consolidar a ideia de que “chique é consumir”, que se engajar numa causa social e refletir sobre o mundo são coisas “cafonas” ou “pagar mico”.


Na esteira do medo e da culpa, os fundamentalistas tentam abrir um novo e lucrativo mercado: o da cura pela “Psicologia Cristã”. Como as normas do Conselho Nacional de Psicologia não reconhecem esta “reorientação de desejo”, os fundamentalistas tentam agora, por meio de sua bancada no Congresso Nacional, fazer uma intervenção no Conselho de Psicologia para mudar as normas da profissão.


Nessa sucessão de “batalhas espirituais”, os fundamentalistas também miraram os povos indígenas. Ressuscitando a velha retórica “missionária” de um povo a ser salvo pela “palavra cristã”, construíram relações bastante complicadas com os povos indígenas. Chegaram até mesmo a propor, no Congresso Nacional, um projeto que estabelece a visão de que os povos indígenas são infanticidas (até postaram no youtube um filme falsamente documental). Não por acaso, simultaneamente, abriram um vasto mercado de captação de recursos financeiros explorando adoções de crianças indígenas e o desconhecimento por estrangeiros da realidade dos nossos mais de 220 povos nativos.


Também os usuários de substâncias psicoativas foram alvo do proselitismo dos fundamentalistas. Na esteira da falência da “guerra às drogas” e na ausência de uma política de educação e saúde mental que construa a autonomia dos sujeitos frente a estas substâncias, os fundamentalistas multiplicaram outro mercado lucrativo: o da cura pela conversão. Em todo o país, “comunidades terapêuticas” recebem recursos públicos para sustentarem seu proselitismo religioso junto aos dependentes químicos.


Mas por que os fundamentalistas escolheram as religiões afro, @s sexodivers@s e os povos indígenas como seus inimigos? Por que não escolheram a religião católica, ainda majoritária no país e com a qual eles disputam espaço?


Uma marca dos fundamentalistas é a covardia: eles só enfrentam inimigos muito mais frágeis que eles. Do total da população brasileira, 1,5% é de seguidores das religiões afro, 5 a 10% se declaram homossexuais de %, e menos de 900 mil brasileir@s se declaram indígenas. Além de minoritários, esses grupos, têm sido historicamente estigmatizados e inferiorizados.


Certamente, tão cedo, não veremos uma Santa ser chutada novamente por um pastor fundamentalista, mas terreiros seguem sendo violados Brasil a fora sem que isso cause grandes comoções.


O caminho da ascensão fundamentalista vem sendo trilhado sem qualquer resistência: exploração da fé de um povo dilacerado; constituição de um moderno curral eleitoral – transformando Cristo em Cabo Eleitoral –; influência crescente no Parlamento e nos executivos; poder crescente no oligopólio brasileiro de informação; comunidades terapêuticas, empresas de shows, editoras, isenção de impostos…


Uma trajetória que dilacera, aos poucos, nosso nunca integralmente conquistado Estado Laico: leis que, de forma crescente, estabelecem os valores dos fundamentalistas como obrigatórios para o restante da sociedade, proselitismo religioso nas escolas públicas, transferência de dinheiro público para subsidiar comunidades terapêuticas, dinheiro público para marchas para “Jesus”, dinheiro público para parques gospel


E a sociedade brasileira, passiva, assiste à ascensão do fundamentalismo.


Até que os fundamentalistas resolveram dar um passo “maior que suas pernas”: ter seu quadro político mais extremista como presidente da Comissão de Direitos Humanos.


Marco Feliciano é uma caricatura pesada demais para a sociedade brasileira. Além dos “tradicionais” ataques aos sexodivers@s, candomblecistas, umbandistas – que ele chegou até a pregar pelos “sepultamentos” –, o deputado-pastor vai além: ataca todos(as) os(as) negros(as) – classificando-os(as) como “amaldiçoados(as)” e resgatando teologia de tempos de apartheid – e as mulheres. que, e segundo ele, deveriam ser subalternizadas pelos homens.


O sectarismo de Feliciano alcança até mesmo os seguidores do catolicismo, que ele chamou de “religião morta e fajuta” e responsabilizou os católicos carismáticos pelo “avivamentos de satanás”. O deputado-pastor ainda vai mais longe: na mercantilização da fé, promete milagres em troca de senhas de cartões de crédito e vende carnê da casa própria em plena sessão de transe espiritual. Faz uso de seu mandato público para fins privados: contrata pastores, produtores de vídeo e advogados para suas empresas. Demonstra total incapacidade para lidar com o debate democrático, já que, segundo ele, seus adversários seriam Satanás.


Feliciano é uma figura tão indefensável que seus pares (incluída a revista Veja), para protegê-lo, precisam construir as seguintes estratégias tangenciais, entre outras.


1 – Trasformam o debate em uma briga pessoal entre Jean Wyllys e Feliciano. Tod@s @s deputad@s historicamente comprometidos com os Direitos Humanos são contrários a que um homofóbico racista esteja à frente da Comissão de Direitos Humanos. Por que só personificar em Jean Wyllys? Novamente, a costumeira covardia dos fundamentalistas: eles sabem que ainda há muita rejeição na sociedade ao fato de um homossexual ocupar um cargo público.


2 – Afirmam que é uma perseguição aos cristãos. Não é verdade: é crescente o número de cristãos que dizem não a Marco Feliciano. Mais de 150 pastores e lideranças evangélicas assinaram um manifesto em que solicitam a substituição da presidência da Comissão de Direitos Humanos. Esse pedido também foi feito pela Comissão Justiça e Paz da Cnbb e pelo Conselho de Igrejas Cristãs – que congrega a Igreja Católica, Luterana, Presbiteriana, Metodista e Anglicana.


3 – Tentam deslegitimar os movimentos contra Feliciano dizendo que seria mais importante lutar contra Renan e os mensaleiros. Ora, em quem os senadores fundamentalistas votaram para ocupar a presidência do Senado? E, entre osmensaleiros, não estava um dos parlamentares fundamentalistas, Bispo Rodrigues? Portanto, não há sentido em se relativizar uma luta fundamental, ainda mais quando isso é proposto por alguém que não constrói luta cidadã alguma…


Temos muito a “agradecer” a Marco Feliciano por provocar o surgimento de um movimento amplo e plural em defesa do Estado Laico. A sociedade Brasileira parece ter percebido finalmente o risco do Fundamentalismo Religioso.


A disputa em curso é muito maior do que a de quem irá presidir uma Comissão do Congresso.


A luta para derrubar Marco Feliciano é a materialização do confronto entre as posições em defesa do Estado Laico e o Fundamentalismo Religioso. O que está em jogo é a opinião da sociedade sobre as liberdades individuais e religiosas, sobre a laicidade do Estado e sobre o perigo fascista do fundamentalismo religioso.


Para derrotar o fundamentalismo, não podemos subestimar seu poder. Seus quadros políticos são preparados e exibem grande capacidade de oratória e convencimento. Mas também seria um erro superestimar sua força. Entendê-los como todo-poderosos que não podem ser derrotados, criaria um sentimento paralisante na sociedade, que pouco contribuiria para o enfrentamento.


Então é importante conhecer, entre outros, os seguintes pontos de fragilidade dos fundamentalistas.


1 – O debate sobre a imensa fortuna dos pastores (inclusive registrada pela revista “Forbes”) os deixa muito fragilizados: não há “teologia da prosperidade” que explique que essa prosperidade só chegue para pastores, enquanto seus rebanhos seguem massacrados pelo capitalismo selvagem.


2 – Não é tão fácil quanto eles dizem mobilizar sua base social para uma disputa política aberta. Todas as vezes em que eles mobilizaram multidões foi em torno de temas religiosos mais gerais – as marchas são “para Jesus”, a rejeição ao PLC 122 entra como um tema “acessório”. Seu rebanho é composto de um público domesticado pelos poderes constituídos. Quem já o viu presente em um embate no Congresso sente dó daquelas pessoas que ficam acuadas por não entenderem plenamente o que está acontecendo. É verdade que, em tese, os fundamentalistas podem arrastar multidões para o embate público, mas seria uma manobra arriscada tirar essa gente dos currais do fundamentalismo e jogá-la no lugar do contraditório. Eles sabem que os argumentos deles só funcionam sem um contraponto de qualidade.


3 – Felizmente, eles ainda não têm um projeto de poder comum. Cada um tem seu próprio projeto de poder, e os projetos, muitas vezes, se chocam. Feliciano e outros estão jogando para nichos extremistas, ao passo que parlamentares fundamentalistas como Marcelo Crivela sonham em ocupar um cargo majoritário e, para isso, precisam ser mais “amplos”. Um acirramento de conflito, no patamar realizado por Feliciano, é ruim para os planos deles. E, mesmo dentro do mundo religioso, os fundamentalistas disputam territórios de forma bem pouco “elegante”: se hoje Malafaia e Feliciano se unem por senso de sobrevivência, até pouco tempo se matavam pelo controle da Assembleia de Deus.


Embora os fundamentalistas não compartilhem um projeto de poder, eles agem segundo uma lógica política comum, o que dá lastro a uma articulação importante dentro do parlamento e à aliança recente para defender Feliciano. O perigo é que eles tenham tanto poder daqui a alguns anos, que comecem a aventar um projeto de poder comum.


4 – Os fundamentalistas dependem dos evangélicos conservadores não sectários para terem legitimidade ao falar em nome do “povo evangélico”. No entanto, as lideranças conservadoras não confiam nos propósitos dos mercadores da fé, que, por isso, não podem ir longe demais nos embates, sob o risco de ficarem isolados no próprio mundo evangélico.


É pensar essas contradições que dá caminhos mais firmes para o movimento pelo Estado Laico e contra Feliciano.


Dificilmente Feliciano sairá da presidência da Comissão. A não ser que se torne insuportável a pressão institucional crescente: de seu partido; da Presidência da Câmara, que já se posicionou pela inviabilidade de Marco Feliciano continuar à frente da CDH; da Comissão de Ética, que, diante de uma representação do Psol, julgará o uso do mandato para fins privados.


Feliciano sabe muito bem que, a cada dia que ficar à frente da Comissão, ele ganhará mais votos de um eleitorado extremista.


Ainda que não seja fácil derrubar Feliciano, é fundamental que o movimento siga combativo: que, a cada dia, os jovens tomem os corredores do Congresso e digam: “Feliciano não nos representa”, que, a cada dia que a CDH se reunir a portas fechadas por incapacidade de sua atual direção de dialogar com os movimentos sociais, a cada dia que uma audiência se inviabilizar porque os convidados se negam a estar num espaço liderado por um fundamentalista, crescerá, na sociedade, a consciência do perigo do fundamentalismo religioso.


A cada dia que Feliciano fica à frente da Comissão, cresce a Frente pelo Estado Laico , que já envolve artistas, lideranças religiosas, movimentos sociais, parlamentares e milhares de ativistas nas ruas e nas redes.

Por isso sigamos insistentes e persistentes ….o tempo que for necessário!

E sejamos “justos”: “Obrigado, Feliciano, pelo nosso fortalecimento para combater o fundamentalismo. Nunca estivemos tão fortes e unidos.
 
Obrigado.
 
Eduardo d´Albergaria (Duda) é Cientista Social, Especialista em Políticas Públicas (MPOG) e militante da Cia Revolucionária Triângulo Rosa.