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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A sustentável suavidade da brisa

Descrição da imagem: flor 'Dente de Leão' sendo lentamene perpetuada pela suave brisa que espalha suas sementes...

A expressão 'que bons ventos o tragam' tomou formas, cores, aromas e sabores, fora as sensações não incluídas nos sentidos tradicionais. Aquelas que arrepiam nossa alma, que gelam nossa espinha e que tranqüilizam o espírito na certeza do caminho escolhido. Votuporanga, cujo significado em tupi guarani é adequadamente 'brisa suave', é uma cidade no noroeste do estado de São Paulo que, com seus 80 mil habitantes e uma forte influência conservadora n nos poderes constituídos, atreveu-se a falar publicamente sobre AIDS e religiões, uma relação impensável para a maioria, mas que é uma das das estratégias mais promissoras no enfrentamento à epidemia, pois que se há uma força com a extensão e abrangência da AIDS, é a Fé. A fé em dias de brisas suaves sobrepondo as tempestades. E que alguns representantes de Deus na Terra deixem de utilizar o santo nome do Senhor em vão para reforçar preconceitos e disseminar a dor.

Em 2009 muita coisa legal aconteceu ao Grupo Hipupiara, do qual era diretor. Situações que deram visibilidade a nosso trabalho na luta contra a AIDS e que impulsionaram uma série de atividades, dentre elas a fundação do Grupo de Trabalho Regional em AIDS e Religiões da Costa da Mata Atlântica, litoral de SP. Com o apoio do GT Estadual tivemos a maior adesão inicial à iniciativa dente todas do estado e tínhamos uma particularidade: a coordenação do GT do litoral foi entregue a um ativista não temente a Deus, mas sim grato a Ele. E que dispensa religiões para sua relação de fé. Talvez por esse motivo eu tenha sido lembrado para falar sobre o assunto e minha felicidade pelo convite foi aprofundada ao ver que teria como companheiros de fala meu queridíssimo amigo e sociólogo Cláudio Monteiro e uma notável pessoa da história de nosso país, Anivaldo Padilha, ex-preso político, torturado pela ditadura e membro da presente estratégia desde o Fiat Lux. Um verdadeiro manancial de ensinamentos. Encontramo-nos no aeroporto de Rio Preto e fomos levados ao evento nas brisas suaves do interior paulista.

Lea Bagnola, da coordenação de DST/AIDS de Votuporanga, nos aguardava no saguão do hotel, sempre com tudo em cima. A mulher, além de politicamente ousada, é fashion desde o primeiro olhar até o último salto de sapato. Após comermos uma deliciosa pizza e dormir o sono dos justos, dia 02 de setembro estávamos chegando ao local do seminário, voltado a religiosos, profissionais de saúde e sociedade civil. Para variar um pouco, mais de 90% dos presentes era do sexo feminino e o engajamento de todo o pessoal do programa local de AIDS era evidente. Havia sorriso sincero no receptivo, atenção redobrada às nossas necessidades e uma escuta sempre atenciosa para temas já complexos por suas naturezas e que exponenciam quando interligados. Um mais um é sempre mais que dois.

O sinal de que tudo seria um grande sucesso apareceu logo na composição da mesa, quando se percebeu que não havia acesso à música do Hino Nacional. Quando o belo e super atuante mestre de cerimônias deu o tom:
- Vamos à capela.
E todos entoaram o hino inteirinho, reafirmando que a adversidade é o campo mais fértil para a criatividade. Criatividade seguida da beleza e suavidade, assim como a brisa, de duas enfermeiras que congregam e cantam em um coral evangélico que nos brindaram com um louvor digno da proposta ali executada. Abertos os trabalhos por Lea, ficou evidente a segurança com que o projeto local é gerido. A despeito disso, veio à tona um dado extremamente preocupante: se no ano passado inteiro foram notificados 37 casos de AIDS, este anos são 60 somente até agosto. Fato isolado? Tendência? Preocupação. A bela secretária de saúde Fabiana de Palma declarou seu compromisso com a luta contra a AIDS e teve a oportunidade de conhecer meu velho Osso de Vidro. Seu olhar surpreso e interrogativo satisfez um de meus objetivos: desconstruir a idéia de doença crônica entre membros do poder local. E olha que ela não ficou sabendo (naquele momento) dos cânceres e das estatísticas de mortalidade por efeitos colaterais. Mas tudo foi assimilado pelo ilustre representante do legislativo, o vereador Meidão.

Anivaldo foi o primeiro a falar e fez uma ótima e clara exposição dos motivos que levaram a essa estratégia de aproximar as religiões da luta contra a epidemia, sempre respeitando os dogmas e costumes de cada fé. Fez várias relações entre as dificuldades enfrentadas nesse campo com as do tempo da ditadura, onde a comunicação censurada era um obstáculo ao pleno exercício dos direitos humanos. Claudinho veio logo a seguir, trazendo dados alarmantes,  brilhando n a eloqüência e proximidade com os participantes e reforçando a importância da estratégia: em todos os lugares deste país existe uma igreja, um centro, um templo, uma crença que pode contribuir e muito. Como exemplo citou a iniciativa das Pastorais da AIDS e CNBB em incentivar a testagem para o diagnóstico precoce entre os fiéis, ao invés de ficar batendo sempre na desafinada tecla da camisinha.  Finalizando os trabalhos da manhã tive a oportunidade de falar um pouco sobre a urgência em atitudes concretas no enfrentamento a uma epidemia sempre em mutação e distante de ser controlada. Mortalidade por efeitos colaterais, desmobilização social,  dificuldades no financiamento contrastam com a acomodação de toda a sociedade com relação à epidemia de AIDS.

Após o almoço fomos novamente agraciados com as duas cantoras que me dedicaram uma bela música sobre resiliência, homenagem que me emocionou um montão e a todos e todas que tiveram essa oportunidade. A oficina conduzida por Cláudio identificou uma série de situações e sugestões devidamente encaminhadas ao poder local para continuidade desse processo. Processo que tem tudo para ser vitorioso, uma vez que conta com uma gestão determinada, profissionais envolvidos e entusiasmados com a proposta e um prometido respaldo pelo poder público de Votuporanga. Cidade onde as brisas são mais que suaves, são um bálsamo para o calor característico da cidade. Cidade onde um jovem profissional de saúde atreveu-se, porque contestado por alguns, a se inscrever em um encontro de jovens vivendo com HIV para melhor poder atuar, como está fazendo meu querido Bruno. Cidade que, tendo acolhido a proposta, tem tudo para regionalizar o tema muito bem recebido pela representação de Rio Preto, metrópole da região.

Parabéns ao Centro de Referência e Treinamento em DST/AIDS de SP, pela celula mater deste trabalho.
Obrigado, Votuporanga,  pela oportunidade de tantas emoções em um único dia e parabéns a Lea e todas/os profissionais da saúde local.
E obrigado também pelas suaves brisas que perpetuam a flora e que semeiam e sustentam as boas iniciativas.
Beto Volpe

Um comentário:

  1. Ai, sinto-me honrado por fazer parte de seu POST....
    Votuporanga aguarda pela proxima oportunidade de prestigiar suas palavras e história de vida...
    bjoss amigooo

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