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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Big Family Brasil

Descrição da imagem: busto de  homem de terno de onde sai um pescoço cabo e uma cabeça câmera e os dizerems em inglês, traduzindo: '1984 não era para ser um manural de instruções'.

Não canso e acho que nunca cansarei de citar George Orwell em meus escritos., afinal, dois de seus livros foram decisivos na formação de minha personalidade. O primeiro deles, e o mais contundente, foi 'A Revolução dos Bichos' onde, após uma tomada de poder e socialização igualitária do trabalho e da riqueza de uma granja, os porcos se acham e se dizem mais iguais que os outros. Como logo após ter contato com essa obra entrei para a faculdade de comunicação social e seu bando de gente diferenciada, os questionamentos apresentados pelo livro se entranharam definitivamente em meu pensar e em meu viver. A outra peça produzida por Orwell que fez com que eu refletisse um pouco além do que eu estava acostumado foi '1984', onde os cidadãos eram vigiados 24 horas por dia através de câmeras instaladas em todos os ambientes privados ou sociais. O Grande Irmão, agora banalizado Big Brother,  subtraía dos seres humanos sua privacidade e tolhia sua personalidade, colocando-os sob o crivo do poder absolto. Mas acho que nem o autor britânico seria capaz de imaginar que um dia mães e pais chegariam ao ponto de contratar detetives particulares para seguir e vigiar seus filhos. O Big Family Brasil, versão familiar de um totalitarismo estatal, já disponível nos grandes centros urbanos.

Essa notícia chamou-me a atenção ontem e me fez refletir. Onde já se viu contratar detetives para seguir seus filhos? Será que são problemáticos, envolvidos com o crime ou coisa assim? Afinal, temos visto frequentemente reportagens sobre jovens da classe média nessa situação. Só que, chegando ao final da notícia, um detetive do Rio de Janeiro relata que quatro dos doze casos contratados somente este mês são relacionados à suspeita de homossexualidade do filho ou da filha. Namorado novo e o simples 'acompanhar a rotina' eram outros motivos assustadores o suficiente para uma família abrir sua privacidade a estranhos em nome da integridade familiar. Fiquei imaginando a infância e criação que essas crianças tiveram. Sendo classe média alta, naturalmente que uma babá cuidou dos primeiros passos, pois os pais estavam ocupados demais para dar atenção a eles. Aliás, a falta de tempo é exatamente o argumento usado por um dos pais contratantes para utilizar um serviço normalmente associado a crimes e traições.

Existe um pacote de serviços, desde a simples observação dos/as adolescentes até escutas telefônicas e rastreadores instalados nas mochilas escolares. O Grande Irmão tudo sabe, tudo vê. Continuando meu devaneio sobre a situação desses/as jovens pensei em quando será que essas famílias terão tempo para seus filhos? Não o tiveram na infância, não o tem agora e provavelmente nunca o terão. Aí entra o serviço profissional, um pacote de conveniências que se assemelha a  pipocas de micro-ondas. Práticas, mas fazem um mal danado, com consequências futuras talvez mais dramáticas do que as por eles imaginadas agora. Tudo bem, o mundo moderno impõe condições severas para que uma família se mantenha materialmente. Mas com a terceirização da formação de valores, foi incumbida essa tarefa a profissionais e instituições nem sempre dignas de trabalho tão delicado e com repercussões para o resto da vida daquela criança, E como terceirizar serviços causa dependência e é um dos caminhos seguidos pela sociedade e até mesmo por alguns governos, a história se repete na juventude e a coisa complica de forma, talvez, definitiva.

O ano de 1984 já passou e O Grande Irmão continua mais vivo que nunca. Os espaços públicos são monitorados , também nos ambientes coletivos e até mesmo o GPS dedura muita gente que não imaginou estar sendo observada e que ainda não se acostumou com as várias aplicações das novas tecnologias. Lembrei do avião, da energia atômica e de outros inventos fantásticos de nossa civilização que, quando usados de forma incorreta, tornam-se armas contra nós mesmos. Não seria mais fácil dedicar um tempo, por menor que fosse, para dar atenção e carinho para a descendência? Se não for por amor, que seja pela economia futura na contratação de profissionais para tentar consertar o que fizeram na infância. Ou pelo investimento na velhice, onde quem sabe os filhos e filhas não tenham o tempo necessário para dar apoio aos pais e entregam o serviço a profissionais e instituições também nem sempre dignas de prestar serviço tão delicado e com repercussões imediatas.

A sociedade mudou radicalmente nos últimos anos.
Se para melhor ou pior, essa é a encruzilhada.

Beto Volpe

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