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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O sustentável brilho no olhar


Descrição da imagem: desenho de um gigantesco policial uniformizado conduzindo um franzino jovem algemado.

Semana passada fiz palestras sobre cidadania e saúde em duas unidades da Fundação Casa, que executa sentenças por atos infracionais de adolescentes e jovens no estado de São Paulo. Não foi nenhuma novidade para mim, já fiz esse tipo de intervenção várias vezes, mas foram dois momentos absolutamente distintos. Em um, a sensação de que havia uma energia tensa e contida que a qualquer momento poderia explodir. Em outro, uma energia acolhedora e fluída, sendo liberada a todo instante.

Quinta feira bem cedinho, chovia muito no litoral de SP quando adentrei à primeira unidade. Após a confraternização com os técnicos fui direto para o pátio da Unidade de Internação, onde cerca de 35 jovens me aguardavam ladeados por pedagogas, psicólogos e seguranças. Como o humor faz parte de minha vida, é assim que toco a atividade do início ao fim. E é costumeira a reação imediata, o humor provocando empatia. Mas daquela vez não houve nem um sorriso na piadinha de arranque. Blablablá, outra piadinha e... Nada. E assim foi até começar a última parte, onde abro minha condição sorológica e trago para a realidade todos os conceitos que estavam vagando entre os neurônios. A partir daí a situação mudou e finalmente interatividade e algumas identificações tiveram espaço.

Mas aquela reação, ou a falta dela, não me saía da cabeça e perguntei às técnicas o que teria acontecido que tornara aquela palestra tão diferente. Foi aí que elas me disseram que na véspera havia sido desinternado um número grande de jovens por conta do Natal e que os ali presentes estavam na maior deprê e muito putos da vida. Lembrei de algumas internações minhas, estas em hospitais, quando ficava pra baixo quando companheiros de internação saíam e eu ficava lá, com as superbactérias. Na continuação do papo me foi passado o resultado de um levantamento informal dizendo que a grande maioria dos jovens ali internados não sabe a profissão dos pais, o nome dos avós, a história de sua família e de suas raízes. Na mesma hora voltei a, mentalmente, encarar seus olhares no início tão vazios, quando não hostis, e depois tão surpresos por tanta identificação em tomar porradas na vida. E pensei nas pessoas que têm a opinião formada de que 'esses pivetes não têm jeito'. Têm, sim, mas precisam muito do apoio de suas famílias. Que, ao que tudo indica, precisam urgentemente de apoio do Estado.

Sexta, dia abençoado da semana, com muito sol e chão até chegar na segunda unidade, inaugurada há pouco tempo. Muito bem recebido pelos novos amigos fui levado a uma sala onde a mesma quantidade de jovens da outra unidade me aguardava, audivelmente ansiosos. Bastou eu ser apresentado para que um deles se levantasse lá no fundo e exclamasse:

- Bem vindo, senhor. A gente agradece sua preocupação com todo mundo que tá aqui.

Uau, como diria Michael Jackson. Isso sim que é recepção e esse foi o tom dali pra frente. Perguntas a todo instante, liberdade para que me questionassem sobre riscos no fio terra e na linguada, por exemplo. O distanciamento que aconteceu na outra unidade foi definitivamente invertido quando me surpreendi mostrando minha cabeça de fêmur no vidro bem no meio deles, em uma relação de confiança que muitos consideram loucura. Quando chegou o depô veio o silêncio atento, novamente a ficha caindo com as informações recém adquiridas. Mas assim que o assunto caiu nas drogas e eu assumi que sou usuário em abstinência da maioria das drogas, especialmente das que mais me dão prazer, aí só faltou pedido de namoro. A euforia reinou e foi uma despedida com a certeza do breve retorno.

Como eu amo o que eu faço. Que prazer é esse de ver o brilho da cidadania em um olhar ofuscado pelas dificuldades que sempre fizeram parte de suas vidas. Mas uma coisa é evidente: não há medida sócio educativa eficaz sem uma ação mais contundente do Estado no desenvolvimento dessas famílias que também só conheceram desgraças desde sempre. A rede de proteção existe, faltam recursos e vontade política, para variar só um pouco.

Enquanto isso, mesmo com iniciativas maravilhosas dos técnicos das unidades, os olhares irão continuar foscos, como uma catarata social que não há cirurgia que cure. Só a luz da cidadania traz de volta o sustentável brilho no olhar.

Beto Volpe

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