Follow by Email

Total de visualizações de página

Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sábado, 10 de agosto de 2013

A cara da cura

Descrição da imagem: capa da revista Super Interessante com a manchete: 'Enfim, a cura da AIDS'
 
 
O HIV entrou em minha vida nos idos de 1989, quando a morte me mostrou sua cara. Também foi nesse ano que o muro de Berlim caiu, como também caiu a arrogância do Partido Comunista Chinês ante o 'rebelde desconhecido', que se postou diante de um tanque de guerra em plena Praça da Paz Celestial. Foi também o ano em que todos os brasileiros e brasileiras acordaram pobres com cinqüenta cruzeiros na conta e que George Bush, o pai, assumiu a presidência dos Estados Unidos. E nesse ano de 2013, ano que o Snowden desnudou o rei perante todo o mundo e que a morte de 242 jovens de Santa Maria inundou o Brasil de tristeza, é a cura que dá as caras trazendo muitas esperanças às pessoas com HIV e a todo o mundo. Pela primeira vez desde o início da epidemia ela deixa de ser um sonho distante para se tornar uma realidade bem próxima de se concretizar.
 
 
Foi muito estranho ver a capa da Super Interessante, nas redes sociais, onde havia a manchete mais sonhada por nós que vivemos com HIV: "Enfim, a cura da AIDS". Como assim? De uma hora pra outra? Será sensacionalismo em busca de leitores? E, ao ler a matéria após duas semanas de espera pela edição, vi que não era sensacionalismo e que também não havia sido de uma hora pra outra. É fruto de uma retomada de investimentos em cura, após um declínio de mais de 90% nos recursos para sua descoberta após a chegada do coquetel de medicamentos. A comunidade científica, assim como as pessoas vivendo com HIV, já sabem há muito tempo que a AIDS não é uma doença sob controle, como gostam de apregoar alguns cientistas e gestores, ambos tentando reforçar seu falso poder sobre a doença.
 
 
A cura está próxima. No fundo, no fundo, quem está nessa toada há bastante tempo já tinha essa percepção. Passou pela pior das provações em saúde, que é ter uma doença fatal e sem tratamento, viu a descoberta do coquetel que deu a falta sensação de cura ou de controle sobre a epidemia e viu os efeitos colaterais migrarem de enjôos para cânceres, de azia para necrose óssea, gerando uma mortalidade invisível maior que o número de óbitos por AIDS que, diga-se de passagem. ainda não tem uma efetiva atenção por parte dos governantes. Mas também viu o meio científico desconfortável perante a crescente complexidade em seu acompanhamento clínico, forçando-os a retomar as pesquisas para a cura. Também os investidores retomaram seus financiamentos e o resultado é que passamos a ver também vários trabalhos relacionados sendo apresentados em congressos e conferências mundo afora.
 
 
Novas tecnologias foram incorporadas na luta, quebrando o monopólio dos laboratórios. Células tronco, engenharia genética, bionanotecnologia... A Era de Aquárius se precipitando junto com a revolução da comunicação, trazendo o admirável mundo novo tão sonhado no século vinte. E veio o primeiro caso, o do 'paciente de Berlin', onde uma rara combinação de fatores possibilitou a erradicação do vírus em seu corpo. Muita vibração, afinal foi comprovado que seria possível matar o HIV, sujeito pra lá de escorregadio, mas ainda era pouco para se falar que havia sido descoberta a cura da AIDS. Outros resultados começaram a ser apresentados como o de um medicamento que atiça o vírus. Como assim, já não basta o estrago que ele fez até hoje? Mas é isso mesmo, o medicamento Vorinostat veio de pesquisas contra o câncer para trazer grandes esperanças para a cura da AIDS. Ele desperta os vírus que estão escondidos nos reservatórios para depois os matar. Ainda falta chão pela frente, há que se resolver desafios como dosagem, possibilidade de mutação viral e seus efeitos colaterais. Mas é um senhor avanço, sem dúvida.
 
 
Outros estudos muito promissores estão sendo desenvolvidos ao redor do mundo. O Instituto Pasteur na França anunciou a cura funcional de catorze pessoas, onde elas não teriam mais necessidade de tomar medicamentos mas ainda carregariam o vírus. Também é via medicamentos e uma condição para sua aplicabilidade parece ser o diagnóstico e, sobretudo, o tratamento precoces, só para apimentar mais ainda uma questão que dá muito o que falar. Na Califórnia existe um estudo ainda mais pretensioso, que retira células de defesa da pessoa com HIV, manipula seu código genético e as reinjeta no organismo, tornando a pessoa imune ao vírus. E o melhor de tudo: o futuro está cada dia mais próximo. Da mesma forma que a todo instante surgem novas tecnologias e modelos de celulares, tablets e outras formas de comunicação, na área médica isso também tem sido verificado. A cada ano um sem número de novos conhecimentos e tecnologias são integrados ao arsenal terapêutico e preventivo.
 
 
Enfim, a cara da morte ganhou uma companheira: a cara da cura. O fim de um pesadelo de mais de trinta anos agora é uma realidade possível e tem muita gente se empenhando em nos acordar desse sonho sombrio, com tantas perdas humanas e materiais. Que tanto sofrimento tem trazido a pessoas, famílias e amigos. Que tanta dor de cabeça tem dado a gestores em saúde e tanto trabalho aos cientistas e médicos. Resta a nós, que vivemos com HIV, redobrar os cuidados com a saúde e manter a fé, porque a cura é questão de tempo. E, ao que tudo indica, pouco.
 
 
Se Cazuza ainda estivesse por aqui, diria: eu vi a cara da cura e ela estava viva!
E viva a Vida!!!
 
 
Beto Volpe

6 comentários:

  1. vivo com o vírus desde 92,descobrir em 96, já cheguei á pesar 35 kg, mas hj vivo bem, apesar dos pesares, o chato é tomar o coquitel todos os dias.

    ResponderExcluir
  2. Maravilhoso texto, obrigada por existir e postar!!!! Beijos!!!!

    ResponderExcluir
  3. Querido amigo Beto, a luta não acabou , esse ano completei 30 anos de positivo, e com certeza sai vencedor dessa luta, em uma época de que se descobrir sua positividade era com receber o atestado de óbito tanto que na época cheguei a comprar um jazigo. os anos se passarão e aqui estou vivinho e relatando minhas andanças por ai lutando contra o preconceito que apesar de tantos anos ainda eziste. um abraço meu amigo guerreiro

    ResponderExcluir
  4. Queridos Pedro, Francisco e Unknown, só pra lembrar nós enterramos o Super HOmem, rs... E muita gente que achava que iríamos logo pro além. Viva a Vida!

    ResponderExcluir
  5. Bravo! Bravíssimo! Belo texto Beto, que maravilha saber de notícias tão animadoras através de um texto tão bem escrito. Parabéns meu querido!

    ResponderExcluir
  6. REALMENTE, É MUITO BOM O TEXTO... VAMOS CRER E A SE ANIMAR QUE A POUCO TEMPO ESSE PESADELO VAI ACABAR DE VEZ...
    PARABÉNS GUERREIRO...

    ResponderExcluir