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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sábado, 26 de julho de 2014

O ‘Águia de Haia’ e o ‘indivíduo X’

Pessoal, aí vão algumas reflexões sobre igualdade e equanimidade, tendo como pano de fundo artigo extremamente preconceituoso de um colunista de revista semanal.
Beto Volpe




A II Convenção Internacional da Paz, realizada em 1907 na cidade holandesa de Haia, estava prevista para ser um dos primeiros tratados internacionais de leis e crimes de guerra. Mas foi muito além, graças a uma das maiores personalidades brasileiras de todos os tempos: o brilhante multitarefa Rui Barbosa. Esse jurista, orador, escritor, político, diplomata e mais um sem número de ocupações teve uma participação tão brilhante que fez jus ao título de ‘Águia de Haia’ e sua intervenção é considerada, até hoje, uma das mais contundentes da história da diplomacia mundial. É dele, também, o seguinte pensamento:

“A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real.”

Em outras palavras, é necessário tratar diferenciadamente aqueles que estão em situação desigual na sociedade, para se obter a justiça social. É por isso que existem assentos reservados e tratamento preferencial nas filas para idosos, gestantes e pessoas com deficiência, por exemplo, e também termos uma Lei Maria da Penha que, se não em sua plenitude, visa garantir os direitos da mulher em relações desiguais. E não é que um reles colunista de uma das mais controversas revistas do país ousou discordar de nosso Águia e achou por bem considerar esse conceito, o da equanimidade, como proselitismo e demagogia? Pois foi com esses qualificadores que ele descreveu a recém sancionada lei que criminaliza a discriminação de pessoas que vivem com HIV.

Esse senhor, usando de uma linguagem que flerta perigosamente com a discriminação, fala que ‘a AIDS é uma doença que se associou a traços de comportamento de comunidades influentes, que reivindicam uma cidadania especial, acima do indivíduo comum’. A que traços de comportamento ele se refere, ao de transar sem camisinha? Ou ao subtema de seu artigo, o PL 122, que garante direitos aos homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais?  Acredito que seja a segunda opção, mas vamos lá. 

Além de atropelar a história, ele desconhece absolutamente a evolução da epidemia de AIDS. Se ele acredita que estamos lutando pelos direitos de Cazuza, Sandra Bréa e Lauro Corona, ele está bastante desinformado, a AIDS não é mais aquela. Há um bom tempo a epidemia de AIDS está se espalhando por todas as camadas sociais, especialmente nas periferias, onde a pessoa com HIV não passa de um ‘indivíduo X’, que não tem informações sobre seus direitos, sobre sua própria condição de viver com HIV e, muitas vezes, desconhece o direito ao tratamento e à dignidade humana.

Esse indivíduo X, como o senhor nos classifica, muitas vezes é obrigado a esconder sua sorologia como se fosse um pecado mortal ou um crime capital, por conta da discriminação que só faz crescer em nosso país. Quando é xingado ou ameaçado pela vizinhança, prefere mudar de bairro ou evitar sair à rua. Que, após longo processo seletivo, é obrigado a ter seu sangue coletado e tem recusada sua vaga profissional sem maiores explicações. E que, ante a ameaça de sua sorologia vir a público, prefere esquecer o que aconteceu e tentar novamente. Até que cansa e passa a acreditar que ele não passa disso, um indivíduo X.

Essa Lei é fruto de uma longa luta desenvolvida pelas ONGs e redes de pessoas com HIV. Ela é uma tradução do pensamento de Rui Barbosa, a quem o senhor teve o atrevimento de desrespeitar. Como também desrespeitou a todas as mulheres, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e todo o povo do arco íris. Afinal, para que tratá-los com tamanha deferência acima do cidadão comum?

Pobre Rui...


Beto Volpe

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