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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 14 de julho de 2014

SABEM DE NADA, INOCENTES!




Há muito tempo se sabe que a AIDS caiu no esquecimento, tamanha a banalização com que a epidemia é tratada pela população, mídia, investidores e, especialmente, pelos gestores em Saúde e profissionais da medicina. Estes dois últimos recaem no mesmo equívoco cometido com a tuberculose que, com a descoberta de um tratamento eficaz em meados do século passado, foi negligenciada sob os argumentos de que havia a cura e hoje já é a segunda causa de mortalidade em alguns segmentos sociais. O mesmo acontece com a AIDS que, com a chegada do coquetel, foi erroneamente rotulada como ‘doença crônica’, fazendo com que os olhos do mundo se voltassem para as doenças auto imunes, como o câncer, em detrimento das infecciosas. Os catorze casos de cura já obtidos e o acesso universal aos medicamentos decretariam o fim da epidemia em dez anos, segundo alguns especialistas.
No entanto, vários são os fatores sociais e comportamentais que contrapõem essa afirmação. A disseminação de cepas virais resistentes aos medicamentos conhecidos é um deles, sendo que em alguns municípios brasileiros ele já é maioria nos recentes casos diagnosticados. Outro é a já citada banalização, que leva os governos a deixarem de efetuar e apoiarem ações de prevenção e as pessoas a abandonarem a prática do sexo seguro ou a fazerem perversas relações de custo/benefício no uso da camisinha. Pesquisa recente demonstrou que 71% das jovens não usa ou nunca usou a camisinha, ao passo que jovens gays têm 19 vezes mais chances de se contaminar do que as demais populações.
Pois bem, a Organização Mundial de Saúde acaba de recomendar que homens gays façam uso do coquetel como forma de prevenção ao HIV, estratégia que reduziria em até 92% as chances de infecção. Pode até parecer uma atitude preconceituosa para alguns, mas se trata de uma ideia interessante, desde que conduzida de forma responsável. Só que a maior irresponsabilidade parte dos próprios apoiadores dessa estratégia, pois se esquecem de que a redução é de ATÉ 92%, e não 92%, o que a coloca em xeque. Falando em irresponsabilidade, o Brasil tem colhido péssimos resultados no número de novos casos, estáveis em perturbadores 36 mil ao ano, e assegura que tem feito de tudo para reduzir esse patamar. Esse ‘tudo’ parece se resumir em ações irresponsáveis como testagem para o HIV em ambientes festivos e a perspectiva de comercialização dos testes em farmácias, sem qualquer apoio à pessoa que irá se submeter a ele, seja feito em seu apartamento ou no alto de uma ponte.
É muito mais fácil negar todo conhecimento adquirido em revelação de diagnóstico e acolhimento do que preparar decentemente a rede pública de saúde para tal atividade. Como é muito mais prático fornecer medicamentos anti retrovirais, com seus altos custos e severos efeitos colaterais, do que reforçar o esclarecimento como forma de prevenção. Mentem os médicos ao dizerem que a incidência de efeitos colaterais é baixíssima, a não ser que 26% das pessoas em tratamento sofrerem de graves danos ósseos seja um dado irrelevante, dentre outros envolvendo acidentes cardiovasculares, cânceres, problemas renais, hepáticos e pulmonares. Assim como são ingênuos ao acreditar que uma pessoa que não faz uso do preservativo regularmente irá tomar o coquetel de forma adequada a não disseminar mais ainda as tais cepas resistentes.
As ONGs LGBT estão apoiando a iniciativa da OMS, mas não li nada sobre ONGs AIDS ou redes de pessoas com HIV dando seu aval. Também, não nos perguntaram e nem irão. O movimento está sucateado e não encontra forças para fazer frente a uma gestão que tem apenas metas internacionais em seu campo de visão, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade dos serviços. Enfim, o tecnicismo sobrepôs o humanismo, afinal, ele nos dá as ferramentas necessárias para impor o fim da epidemia em dez anos.
Sabem de nada, inocentes!

Beto Volpe

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