Follow by Email

Total de visualizações de página

Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sexta-feira, 13 de maio de 2011

A HISTÓRIA DOS AMIGOS, ou A AIDS NA MINHA CASA

Compartilho artigo de autoria de Cláudio Monteiro sobre o museu de grandes novidades da AIDS. Saboreiem.


Beto Volpe


Descrição da imagem: dois saborosos homens de costas, sob um guarda chuvas, observando o horizonte oceânico e provavelmente imaginando o infinito de seu amor...


Domingo a noite. Ano de 2011.
Um amigo que não via há poucos meses me procura, precisando conversar.
Motivo: a recentíssima descoberta de que é soropositivo.
Conheço Chico[1] há pelo menos cinco anos, e ele descobriu-se viver com o HIV aos vinte sete. Há um ano atrás Chico comunicou-me estar feliz com o novo namorado, estar fazendo planos de conjugalidade, mas que, havia um ponto de insegurança: Fernando, seu companheiro, é soropositivo. Fiz o que se faz nessas horas: vamos com calma, com muita calma trabalhando esta situação de uma suposta sorodiscordância conjugal, de forma a que, não só o sexo seja protegido, mas que, principalmente se proteja o amor. E no momento certo, Chico fez o teste. E o casal revelou-se positivamente soroconcordante. E todas as evidencias nos levam a crer que Chico infectou-se antes de conhecer Fernando.
Surpresa!
Para Chico, para Fernando, e para mim.
E num domingo a noite materializou-se na minha frente, sentada em meu quarto, talvez a mais desconcertante das tendências atuais da epidemia de HIV/AIDS: a crescente incidência de casos novos de AIDS entre os gays. Gays jovens.
Chico tem menos tempo de vida do que a epidemia de AIDS no Brasil.


Mas a história de Chico, talvez por meu comprometimento emocional com ela ser muito forte (Chico é o amigo com o qual passamos o Natal, com o qual podemos contar na organização de todo Primeiro de Dezembro[2], e que tem a liberdade de nos visitar sem telefonar antes), antes de me lançar em divagações epidemiológicas, me jogou numa espécie de túnel do tempo, ou de queda no vácuo, como se de repente, representasse uma síntese das inúmeras vezes que passei por esta situação: a de acolher – como profissional de saúde – a uma pessoa cujos vínculos antecedem a revelação diagnóstica.
Ou, de forma pragmática: por todos saberem que trabalho com AIDS, meus amigos, ao se descobrirem soropositivos, me procuram para conversar.
A primeira vez que fui procurado por um amigo para este fim, foi ainda em 1985.
E de lá para cá:
1985, Isaac, morto em 1991, aos 27 anos.
1986, Ivan. Um dos maiores casos de longevidade pós diagnóstico. Vivo.
1897, Eduardo, morto em 1996, aos 56 anos.
1988, João Carlos, morto em 1994, aos 37 anos.
1989...1995...2000...2011...
Constatei que perdi as contas...


E a história de Chico fez com que minha constatação fosse, minimamente, patética. Pois no mesmo momento, me dei conta de que esta não havia sido a última vez, que virão os Luizes, os Thiagos, os Victors.... E eu disse isto a Chico.
As gerações de amigos se sucedem, e a mesma situação também. Ou seja, mudam-se os conceitos, não há mais grupos de risco, mas, pessoas mais ou menos vulneráveis; não há homossexuais, mas seres integrantes de um bizarro universo amplamente denominado HSH[3]. E todas estas inovações interpretativas ainda que possam ter mascarado, ou minimizado a ascendente “nova onda da AIDS entre os gays”, agora, a evidenciam.
E a evidencia histórica é inegável. Os gays são, e sempre foram mais suscetíveis (e, obviamente estamos nos referindo a uma suscetibilidade social, e não biologicamente determinada) à AIDS. Tanto que nos nada saudosos anos oitenta foram culpabilizados pelo espalhamento da nova peste, comparáveis aos ratos que disseminaram a Peste Negra.


Se há muito tempo não se fala mais em “peste gay”, é porque, em parte, a invisibilidade conferida à AIDS por sua rotinização, cai como uma luva em uma população que a sociedade – como o lixo varrido para baixo do tapete – insiste em invisibilizar: os gays. E esta teimosia social só amplia a vulnerabilidade destes quanto a AIDS, pois, o que não aparece não pode ser alvo de nada. Nem das ações preventivas.
E se os gays antes eram farisaicamente apontados como “culpados” (pela AIDS), hoje, estes mesmos gays (ainda que em outras gerações) podem, com toda justiça, se apresentarem enquanto “vítimas” de uma “cegueira social” imposta a todos pelos mesmos fariseus (as gerações de fariseus sucedem-se também, naturalmente).
A história de Chico teve, por si, o poder atávico de me lançar em queda livre, no vão mais livre ainda que forma a parte interna de uma espiral. Uma espiral formada pela linha do tempo, e, em que cada volta rapidamente visualizo o que foi invibilizado: Isaac, Humberto, Eduardo, João Carlos, Chico...
Em nossa hipocrisia baixamos a guarda.
E agora pagamos – caro – por isso.

Cláudio C. Monteiro Jr é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e mestre em Infectologia em Saúde Pública pelo Instituto de Infectologia em Emílio Ribas. Atua desde 1985 no enfrentamento ao HIV, em organizações governamentais e não governamentais, sendo membro da Pastoral da AIDS, CNBB.

[1] Todos os nomes próprios citados são ficcionais.
[2] Em 1987 o dia Primeiro de Dezembro foi instituído como o Dia Internacional de Luta Contra a AIDS
[3] Homens Que Fazem Sexo Com Homens: Categoria epidemiológica que agrupa os homossexuais e bissexuais masculinos, travestis, transexuais e homens que se definem enquanto heterossexuais, embora eventualmente mantenham relações sexuais com outros homens.

Um comentário:

  1. Beto, emocionante o relato do Cláudio! E tão verdadeiro! Apesar do 1º de dezembro e da Parada Gay, ainda temos muitas ações a realizar para sensibilizar a população jovem em geral, seja ela gay ou não! Um abraço
    Mina

    ResponderExcluir