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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quarta-feira, 8 de junho de 2011

O amor... é um passo pruma armadilha.

Descrição da imagem: desenho de um cara castanho e uma garota loira, abraçados e nus, envoltos por um mar de coraçõezinhos vermelhos com uma quase irritante cara de paixão.



O amor é como um raio galopando em desafio,

corre fendas, cobre vales, rebolta as águas dos rios.

Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho,

na pureza de um limão ou na solidão do espinho."

Faltando um Pedaço, Djavan


Vinícius de Moraes disse, certa vez, que o amor deve ser infinito enquanto durar. E com toda propriedade, afinal ninguém pensa no final da relação quando se está apaixonado ou mesmo amando loucamente outra pessoa. Como em um bom e tradicional conto de fadas, envelheceremos juntos, lindos e seremos felizes para sempre e aí se estabelece uma das maiores, se não a maior, situação de vulnerabilidade à infecção pelo vírus HIV e outras DSTs: a confiança. Ela aparece sem fazer alarde, mistura-se às emoções e fluidos até que, entre uma gota de suor e outra alguém sussura: "Vamos tirar a camisinha só um pouquinho? A gente se ama tanto..." E o amor fica a um passo de uma armadilha, como diz Djavan na letra da mesma música, uma das mais profundas expressões do amor que já tive o prazer de escutar e entoar ao banho e nos videokês da vida. Uma armadilha evitável, pois a Vida sempre nos ensina que quanto maior o prazer, maior o risco envolvido.


Mas como manter a mente esperta se o coração está tranquilo? A zona de conforto por nós criada em uma relação de confiança é bem questionável se formos considerar que somos feitos de emoções e desejos, muito mais do que de razão e ponderação. Quem assistiu ao filme 'Atração Fatal' dos idos dos '80 lembra que Michael Douglas era um bem sucedido advogado que tinha uma senhora casa nos subúrbios, casado com um espetáculo de mulher, pai de uma linda garotinha que tinha um coelhinho branquinho que acabou na panela com pelo e tudo... E nada disso o impediu de corresponder ao olhar de Glenn Close em um encontro casual numa tarde chuvosa e só foi racionalizar a situação quando estava se levantando da cama dela. Em outras palavras, se a aliança no anelar não proteje nem as nossas testas, o que dirá de um sistema imunológico?


Não tem jeito, quando estamos amando procuramos remover todo e qualquer obstáculo que se interponha entre nós, pombinhos. A gente briga com a família, xinga a mãe, termina amizades e muito, muito antes disso já foi removido o obstáculo físico, a camisinha. Mesmo quando o casal se percebe vulnerável depois do casamento muitas vezes é feita a seguinte relação de custo X benefício: "Se você sair com alguem lá fora, use camisinha. Não traga doença pra casa.". Como se Michael Douglas, ou qualquer pessoa, tivesse sua atenção voltada para a razão, ele era somente desejo. Uma piadinha que gosto muito de contar é a de que Deus, no momento da criação do homem, lhe diz:


-Tenho uma boa e uma má notícia para ti, ó, homem!
- Dai-me a boa, Senhor!

- Terás duas cabeças!!

- Uau, que arraso, Senhor... E qual é a ruim?

- Só haverá sangue para uma de cada vez.


É, Djavan, você tem toda razão quando diz que o amor é um grande raio. E que quem tentar seguir seu rastro pode se perder no caminho. Não foi diferente comigo. Em 1989, após quase toda uma vida de sacanagens e prazeres, fiz o exame e nada constava. Logo após um grande amor que durou apenas alguns meses eu já não fazia minha trajetória sozinho, hospedava uma espécie que não me abandonou até hoje. E eu até hoje nem lembro de quem partiu a proposta de tirar a camisinha. Pudera, eu não estava pensando, estava sentindo. O sangue estava suprindo somente uma cabeça.


Um feliz e seguro Dia dos Namordos e das Namoradas para todo mundo!


Beto Volpe

4 comentários:

  1. Oi Beto, parabéns pela extrema lucidez e consequente contribuição com os excelentes artigos com que nos presenteia.
    Beijão da Cidinha

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  2. Beto,
    Como sempre, maravilhoso.
    Mandando o recado!
    Bjs
    Fernanda Sodelli

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  3. O recado está dado...
    ótimo texto Beto...

    abç

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  4. o recado está dado...

    ótimo texto Beto

    abç
    Luiz Felipe

    ResponderExcluir