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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 14 de maio de 2012

A César o que é de César

Descrição da imagem: moeda de prata romana com a efígie do imperador Cesar

Temos lido notícias assustadoras sobre o fechamento de diversas instituições que atuam na luta contra a AIDS. Algumas delas tradicionais, como GAPA-SP e o SOMOS de Porto Alegre, reclamam de falta de financiamento e outros tipos de apoio para continuarem seus trabalhos. É de se imaginar que organizações de menor porte e em cidades sem as características metropolitanas e progressistas das citadas capitais estejam enfrentando problemas mais sérios para sustentar suas atividades. Mas não é o que pensa o Departamento Nacional de DST/AIDS/HVs. Em uma confissão pública de incompetência em implementar a política de diagnóstico precoce ao HIV o doutor Ronaldo Hallal, falando pela Coordenação de Cuidado e Qualidade de Vida do referido departamento, propõe que as ONGs passem a realizar testes de HIV em suas dependências.

Doutor Ronaldo, não sei se é de vosso conhecimento, mas o mar não está pra peixe no mundo das ONGs/AIDS. Não temos mais esse reconhecimento popular todo, o senso comum acredita que a AIDS está sob controle e temos o melhor programa de AIDS do mundo. O mesmo senso comum também acha que as ONGs são todas umas corruptas que atuam com os políticos ladrões para roubar o dinheiro público. Ninguém mais fala de AIDS, doutor Ronaldo. Lembro de um episódio de South Park onde o personagem mais cruel, o garoto Eric Cartman, contrai o vírus HIV e organiza um evento beneficente em prol de si mesmo. Com o atraso para o início ele questiona o mestre de cerimônias sobre onde estaria Elton John, ao que o rapaz responde:

- Ele pediu para dizer que não pode vir, pois teve que ir a um evento contra o câncer. A AIDS não dá mais mídia.

E não dá mais, mesmo. Nem com o departamento no qual o doutor trabalha estamos com crédito. Há pouco mais de um ano fomos taxados de acomodados tanto pelo vosso superior doutor Dirceu Greco como pela UNAIDS através do doutor Pedro Chequer. Acaba de ser contrariada pactuação sobre os vídeos de prevenção ao público LGBT no carnaval de forma humilhante, obrigando-nos a ver imagens como essa como sendo nossa reação ao veto em pronunciamentos públicos nos ridicularizando, agora sob a chancela oficial. É tamanha a desconsideração com nosso árduo trabalho na ponta que o coordenador da área de riscos, direitos humanos e vulnerabilidades do seu departamento, doutor Ivo Brito, nos classificou de 'conservadores' e que nosso discurso é sempre político e não técnico. 

Ora ora, doutor Brito, nosso movimento sempre foi pautado pela transgressão e pioneirismo e se essas qualidades se perderam ao longo do tempo é porque fomos assumindo ações em locais ou com populações que o Estado, supostamente, não consegue atingir. Deixamos de fazer o controle social devido para que as unidades de saúde conseguissem mais do que os míseros três testes ao dia, para que exames de alta complexidade não demorassem meses para sua realização, para que houvesse mais vagas para internação, para que o fundamentalismo religioso tivesse uma oposição fortalecida. Equivocada, como foi classificada nossa reação, é a visão de movimento social que os doutores têm. Como equivocada acho que está a sociedade civil organizada em AIDS em acreditar que tem no governo federal um parceiro incondicional.

Doutor Hallal, não é a primeira vez que confrontamos nossas idéias e tenho certeza que não será a última, afinal teremos o Congresso de Prevenção logo em agosto e nossa vuvuzela está cheia de mágoas. Não pensem os doutores que ao assumirem ares de movimento social, defendendo essa proposta aos berros em uma reunião de coordenadores municipais em AIDS, nos irão convencer que a proposta não é uma terceirização da responsabilidade do Estado. Ela não passa de uma confissão de incompetência disfarçada de política pública pra ONU ver e que não leva em consideração nossa opinião e as circunstâncias que  envolvem nosso difícil dia a dia, quase tão difícil quanto conquistar reconhecimento do próprio Estado que se diz parceiro e que não consegue mais diferenciar Estado, Deus e Sociedade Civil.

A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, às ONGs o que é das ONGs.

Beto Volpe

4 comentários:

  1. Concordo com vc Beto. Este é o panorama e a realidade da Aids nos dias atuais por parte do atual governo.

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  2. Beto, vc como sempre muito lúcido nas suas colocações. A estrutura de atendimento às pessoas vivando com AIDS vem sendo desmanteladas calma e silenciosamente, tanto a estrutura oficial quanto a oferecida pela sociedade civil, especialmente em cidades do interior.

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  3. Fiquei sabendo de minha condição, ou melhor de minha nova condição a dias. Ainda é muito dificil para mim aceitar. Não suporto guardar esse segredo, mas tambem não tenho quem contar. Tenho medo de arrumar um namorado contar e ele me abandonar, tenho tantos medos e ao mesmo tempo não sei viver de mentiras. São tantas as minhas duvidas , questões e dores que daria um livro, mas o que mais me pega mesmo não é o medo da morte, mas o medo da morte social. Essa parte afetiva é foda, tenho medo muito medo de nunca mais ser amado, de nunca mais ter um namorado, não quero ser rejeitado, mas isso me parece inevitavel.
    Desejo felicidades a todos e desejo de coração que a tão sonhada cura venha logo, pois só assim nos tornaremos novamente LIVRES do virus e principalmente do estigma.
    Abraço!
    Matheus/ Rj.

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  4. Matheus, não se deixe levar por essa preocupação. Ela é comum a todos nós durante algum tempo, isso varia muito. Eu, por exemplo, só fui me ver como cidadão vivendo com HIV vários anos e quilômetros de carreiras de cocaína depois do diagnóstico. E por pouco não coloquei tudo a perder. Tô à sua disposição pro que precisar, me adiciona no FB e poderemos conversar. Ou pelo msn, betovolpe.rnp@hotmail.com Abração!

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