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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Fuga do século 21


Descrição da imagem: pessoas flutuam ao centro de um ginásio repleto de espectadores

Quase todo mundo que conheço está se queixando de falta de memória, que não consegue lembrar o que comeu na última refeição e nem o que fez na noite anterior. E acho que não é só com meu círculo de amizades, já assisti a alguns programas de TV e li matérias relatando que o ritmo de vida de hoje está trazendo conseqüências negativas para nosso sistema nervoso. Em especial a multitarefa, que pode ser exemplificada através da pessoa que está operando um computador, atendendo ao telefone e dando uma informação ao colega do lado ao mesmo tempo. A gente acaba dando conta, o mundo moderno nos exige isso, mas não há condições orgânicas para arquivamento do que aconteceu. Mas outro tipo de memória está sendo apagado à medida em que nossos minúsculos aparelhos de comunicação têm a sua aumentada. É a memória histórica, a simples existência de algo antes do agora.

Engraçado como os filmes e séries de ficção científica estão sendo atropelados pela realidade. Tecnologias previstas para um futuro distante já estão disponíveis ou prestes a fazer parte do arsenal tecnológico desenvolvido pela raça humana. Dos celulares e raios faser do capitão Kirk aos videofones e andróides de Blade Runner conseguimos antecipar várias dessas maravilhas que facilitam nossa comunicação e nossa vida. Acabei lembrando de 'Fuga do Século 23' onde o controle de população seria possível através da política 'para cada humano que nasce um deve morrer' onde em um show cultural gigantesco,  o Carrossel, acontecia a apoteótica eliminação daqueles que completassem 30 anos, transformando-se em uma sociedade obcecada por juventude e para a qual não existia história anterior e muito menos perspectivas de uma futura.

Será que não estamos também antecipando os pesadelos sociais que normalmente regem esses mundos futuristas? Afinal, já somos uma sociedade obcecada por formas físicas e padrões BBB que ai, se eu te pego! Já estamos apagando nosso passado de forma a tornar fatos históricos de grande relevância em uma mitologia moderna que um dia descolorirá. É muita informação, é muito relacionamento real e virtual, não dá para armazenar tudo. Com isso, 140 toques passam a ser suficientes para dar forma a uma idéia e o que ultrapassar esse limite não tem vez. Tudo bem, eu adoro escrever para uma amiga que atua nos Médicos sem Fronteiras no Congo e ela responder em instantes. Amo poder escrever minhas bobagens neste blog e ter leitores assíduos nos cinco continentes. Mas as relações reais não são baseadas nas obviedades. A imensa diversidade de sutilezas é o verdadeiro tesouro do ser humano. Da mesma forma que um sabor sucede a outro em uma gastronomia elaborada, nós estamos sempre aprendendo mais sobre o outro e sobre nós mesmos. E isso, em 140 toques, não é possível.

As pessoas ficaram muito mal acostumadas com o pronto atendimento de suas necessidades, praticamente tudo que existe pode ser acessado através de um botão. Controles remotos, micro ondas, disk tudo, smart phone, ir a uma reunião virtual, tudo já vem pronto e rápido para nosso deleite. O problema é que passamos a esperar isso de nossos semelhantes nas relações sociais. Eu quero, porque quero, uma companheira que seja a metade da minha laranja. Eu quero, porque quero, que a sociedade seja do jeito que eu acho que deveria ser. Eu quero, porque quero. E quando damos de cara com uma realidade que não tem nada de simples mulheres são assassinadas por seus ex companheiros, rapazes são mortos por conta de sua forma de amar. A intolerância cresce porque não houve um conhecimento prévio, houve um preconceito. E a banalização aumenta porque, no final das contas, tudo será descartado.

Da mesma forma que as pessoas de 30 anos eram voluntariamente descartadas no Carrossel do século 23. Para elas só existia o agora, o antes já era e o futuro nunca será. Sim, porque quando a gente admite que o certo seja descartar o que passou está se condenando ao mesmo destino. E me desculpem, por mais aberto a novidades e praticidades que eu seja, não consigo me adaptar a esse estilo de vida. Eu quero sentir cada sabor, cada aroma, cada sensação, cada palavra em toda sua profundidade e não em 140 toques. E se o futuro não permitir isso, vou arrumar um jeito de fugir do século 21 antes que eu seja descartado.

Beto Volpe

3 comentários:

  1. Oi Beto, nem acabei de ler o texto, mas procuro há anos essa referência sobre o Carrosel, lembro-me frequentemente da série e reflito sobre o tema desde que há vi - no século passado. Obrigada, amei! Agora vou acabar de ler. bjks mil.

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  2. E a sociedade do consumo acaba por consumir-se.... e... fico a pensar: "logo serei regurgitada numa crise bulímica de alguém, ou de alguma instituição, ou ainda - que medo - de mim mesma, que tb sou dessa sociedade". Bom que temos com quem pensar sobre e saber que a solidão mental, etc é menor uqe eu supunha ser. Gracias, amigo.

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  3. Esse Carrossel me assombrou por muito tempo, rsrs... a própria idéia de ser jogado fora me deixou alerta, algo me dizia que eu seria um dos excluídos por vários motivos. O que não contavam é que eu gosto mais de montanha russa que de carrossel, rsrsrs... Beijos.

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