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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

De boas intenções...

Pessoal, compartilho algumas reflexões sobre testar, tratar e banalizar, publicadas hoje na Agência de Notícias da AIDS.
Beto Volpe




 O Ministério da Saúde acaba de lançar a campanha de prevenção à aids para o Carnaval deste ano, focada no público jovem, que é o segmento que apresenta o maior crescimento no número de infecções pelo vírus HIV. A peça publicitária para a televisão é, apropriadamente, de linguagem bem dinâmica e dá ênfase ao atual mantra do Departamento Nacional de DST/Aids/Hepatites Virais, o de testar e tratar. Essa estratégia foi adotada desde dezembro último e preconiza a facilitação do acesso aos testes rápidos para a detecção do vírus e a introdução do coquetel de medicamentos a partir da primeira consulta, seja qual for o estado clínico e laboratorial do indivíduo.
Seria tudo muito interessante, pois tanto o diagnóstico precoce quanto a supressão da carga viral são mecanismos importantes para a redução dos vergonhosos 40 mil novos casos por ano apresentados pelo Brasil. O problema está na forma com que essa recomendação internacional está sendo aplicada em terras tupiniquins, desconsiderando todo o conhecimento em diagnóstico, acolhimento e adesão ao tratamento que foi acumulado nessas décadas de epidemia.
A facilitação do acesso inclui a realização de exames em locais e ocasiões inapropriadas para tal, como boates e eventos festivos, além da temerária disponibilização de testes na farmácia ou na agência dos Correios mais próxima de você. Decisão essa que foi veementemente criticada pelo Conselho Federal de Psicologia e que a partir deste mês estará implementada em Curitiba (PR). Imagine-se você, leitor, preparado para descer as ladeiras de Olinda com seus amigos, resolve fazer o teste e vê seu emocional rolar ladeira abaixo. Ou, abalado pelo fim da relação, compra um kit na farmácia e descobre, em seu apartamento no nono andar em uma noite chuvosa, que, além de um par de chifres, também herdou a infecção pelo HIV.
Vamos supor que tudo tenha dado certo, a pessoa tenha conseguido manter o equilíbrio, procurou o SUS para fazer seu acompanhamento e o médico lhe disse que teria de iniciar com os medicamentos, já que boa parte dos médicos não sugere, prescreve e que venha o próximo, por favor. Pois bem, já que o Ministério da Saúde adora dados produzidos no hemisfério norte, por que ele não menciona uma vírgula sequer sobre o estudo recém publicado pelo “Journal” do The American Medical Association. Nele, foi demonstrado que um em cada cinco jovens infectados pelo HIV abandona o tratamento pelo medo de transformações físicas, da rejeição em seu círculo de amizades e pela certeza juvenil de que nada vai lhe acontecer de ruim.
Fazer isso seria um tiro pela culatra, afinal, mais vírus resistentes estariam em circulação, complicando ainda mais o tratamento e as expectativas de vida das pessoas com HIV, além de impactar negativamente nas estratégias de prevenção. Vale lembrar que o governo federal também está descentralizando a assistência em aids para a rede básica de saúde, sacramentando o fim de qualquer projeto de adesão ao tratamento.
De boas intenções, o inferno está cheio e o brasileiro também. Somos o país dos atalhos, onde o jeitinho e a fé costumam resolver os problemas temporariamente, mas apresentam um enorme custo no final. Também somos o país da governabilidade, em que os preceitos técnicos da luta contra a aids são sobrepujados pelos interesses da base aliada, que impõe ao governo federal uma lista do que pode e do que não pode ser veiculado em campanhas públicas. S
Somos o país da comodidade, em que a solução biomédica para a epidemia de aids tira de cena os aspectos sociais e psicológicos do indivíduo e do grupo, além de oficializar o desprezo do Ministério da Saúde pela opinião da sociedade civil e das pessoas com HIV.
Acho que nem Satanás aguenta mais o país do Carnaval...
* Beto Volpe é ativista e um dos fundadores da ONG Hipupiara, de São Vicente (SP)

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