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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nossos ídolos não são mais os mesmos (e as aparências enganam, sim...)


Descrição da imagem: foto do senador sendo ungido pelo pastor em um templo religioso.

Quando vi a foto do Senador da República Lindberg Farias, ex liderança da UNE e dos caras pintadas, recebendo a unção do pastor Silas Malafaia, notório fundamentalista religioso, achei que, enfim, havia chegado o fundo do poço. O poço das decepções e tristezas ao ver tanta insanidade partindo de gente que um dia eu idolatrei, fervi na primeira fileira de shows e de quem absorvi muito ensinamento e paixão pela vida, louca vida. Gente que um dia me fez acreditar em um mundo melhor, que nos agrupando em partidos e organizações seríamos capazes de transformar o mundo. E nesse frio, úmido e profundo buraco em que me encontro o som que me vem à lembrança é que, assim como Belchior, hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus, contando vil metal.

Há um bom tempo acho que Caetano Veloso vem dando sinais de uma inversão em seus históricos valores libertários e humanistas. Primeiro ele defendeu os violentos mascarados das manifestações populares afrontando a recém falecida Norma Benguell e tantas outras bravas pessoas que, em plena ditadura militar, saíram às ruas com os rostos expostos, em um tempo que haveria motivos para o anonimato. Tirou foto mascarado e tudo, arrotando liberdade. Agora ele e outros artistas igualmente marcantes em minha vida como Chico, Gil, Roberto e o Tremendão entre outros e outras, querem proibir biografias que não sejam por eles autorizadas. Ah, tá. Então só vale a palavra do biografado, é isso? Coisinha mais Geisel, onde está o 'é proibido proibir'? O nome disso é um só, CENSURA. Por isso cuidado, meu bem... Há perigo na esquina.

Lobão embalou muita noitada nos tempos em que morei em Sampa, década de oitenta. Tudo a ver com avenidas, luzes, agitação e drogas, muitas drogas. Uma dependência com gosto de liberdade. Mas, como nem sempre se vê lágrimas no escuro, eu também não via um grande reaça debaixo daquela pele de transgressão. Falar que os torturadores da ditadura militar são perseguidos e que eles apenas arrancaram algumas unhas é um ultraje aos fatos trazidos à tona pela Comissão da Verdade, fatos que são uma verdadeira vergonha da história recente do Brasil. Fora várias outras insanidades em seu livro que deveria se chamar "Decadence sans elegance", apropriado para um oportunista de mão cheia... de dedos.

O que dizer do companheiro maior apertando a mão de Maluf? Aquilo foi uma lufada que abalou minha estrutura familiar. Meus pais são malufistas desde a ARENA e eu PT de primeira hora e agora ando pela hora da morte. Nossa relação foi um tanto tumultuada em minha juventude até que a maturidade nos trouxe o entendimento na discordância. Aí o Roberto Jefferson vai na CPI e, súbito, o discurso da ética caía em cheio no colo da direita que tanto abomino e que meus pais tanto se identificaram. Ter que ouvir 'Cadê a ética de seu partido?' a cada noticiário e/ou refeição doeu demais, acreditem.

Não bastasse isso foi sacramentada em nome do Pai a composição da base governista com os partidos liderados por fundamentalistas religiosos. E a fúria de Levíticos caiu sobre as ações de prevenção à AIDS e se estabeleceu na Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional, na forma de Vanessão. Nesse caso até que houve uma compensação, emergiu um cara que eu admiro um bocado e que me faz pensar em seu partido com mais simpatia, Jean Wyllys, até agora irrepreensível em sua atuação. Mas ele e alguns poucos outros são uma ilha libertária em um mar de intolerância.

Ao contrário do senador Lindberg, o ateu ungido. Pre candidato ao governo do Rio de Janeiro pela mesma macabra coligação federal, o ex cara pintada aparece com a cara mais deslavada do mundo junto com o ícone do fundamentalismo, raivoso defensor de inúmeros retrocessos sociais com dois claros objetivos: riqueza e poder. A primeira eles já conquistaram através da melhor forma de pagamento ou  da venda de óleos de Jesus e sandálias ungidas, dentre uma miríade de produtos. Lembro de Persépolis e tremo de medo do Brasil virar um Irã às avessas.

Enfim, viver é melhor que sonhar e ainda acredito que o amor seja uma coisa boa. Ainda consigo sentir no vento o cheiro da nova estação, mas ela parece um pouco mais distante quando vemos bastiões da liberdade se deixando corromper pelo sistema.

É, nossos ídolos não são mais os mesmos e as aparências enganam, sim.

Beto Volpe

4 comentários:

  1. Muito bom texto, Beto. Mas não há surpresa. Procure no Google com o nome do político e os principais líderes fundamentalistas-religiosos do Rio, filtrando para o ano de 2012 que você encontrará mais coisa. Um grande abraço.

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  2. Confira o clipe de apresentação da série gay POSITIVOS que fala de um grupo de amigos soropositivos e sua relação com o HIV. O Site:www.soropositivos.com
    http://www.youtube.com/watch?v=8mMFtVrsWKc

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  3. Beto, você como sempre genial!

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  4. Beto, você, como sempre, genial!

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