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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Pau de galinheiro

Descrição da imagem: um narcisista galo marrom claro, com crista vermelha empunhando um espelho de cabo, pouco se importando com o imundo pau de galinheiro que paira sobre um rolo de papel higiênico.

Publicado hoje na Agência de Notícias da AIDS.
Por Beto Volpe

As recentes atitudes tomadas pelo Ministro da Saúde, Dr. Alexandre Padilha, demonstraram claramente que a luta contra a aids no Brasil não é uma prioridade de um governo que zela por sua ‘governabilidade’, ou seja, a troca de favorecimentos por votos em plenário. Em nome dela, acordos e apertos de mãos espúrios são firmados, comissões estratégicas do Congresso Nacional são entregues nas mãos de seus algozes e instituições tradicionalmente contrárias à política nacional em aids passam a ter uma forte incidência sobre essa área técnica, derrubando campanhas, gestores e trazendo um cenário sombrio, mais que para a manutenção das ações em aids, mas para as liberdades individuais no Brasil.

O primeiro sinal veio no carnaval do ano passado, onde uma campanha voltada para o público gay foi suspensa sem explicações. O movimento social protestou, mas o estrago já havia sido feito e com direito a comemorações públicas de fundamentalistas cristãos aos brados de ‘VITÓRIA!’. Na mesma época a UNAIDS, órgão da ONU voltado para as questões da área, e o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos também declararam sua preocupação com essa interferência religiosa em assuntos técnicos. Interferência que continuou a se fazer presente com a suspensão das cartilhas informativas para adolescentes no início deste ano e, esta semana, da campanha pelo Dia da Prostituta, episódio que causou a exoneração do primeiro escalão do Departamento de Aids no Ministério da Saúde. O ex-diretor, Dr. Dirceu Greco, não se fez de rogado e declarou que existe ingerência religiosa no Ministério da Saúde e que isso faz mal à saúde pública. A mesma saúde pública defendida pelo ministro quando da Reforma Sanitária e redemocratização do país, se é que o Dr. Padilha se lembra disso.

O mais significativo dessa exoneração é que o comunicado não foi feito diretamente pelo ministro, mas sim por um de seus secretários. Igualmente não houve o menor respeito para com o movimento brasileiro de luta contra a aids, artífice e principal protagonista da resposta brasileira à epidemia, que claramente apoiava a manutenção da gestão e das políticas em HIV/Aids no país. Em outras palavras, a luta contra a aids no Brasil está mais suja do que pau de galinheiro às vistas do Ministério da Saúde, segundo a ótica da tal governabilidade.

O governo, uma vez mais, mostrou o caminho: a ruptura. Não é mais possível que as ONGs e Redes de Pessoas Vivendo com HIV continuem a legitimar esse governo que não nos legitima. É inadmissível sentar-se à mesa de reuniões após tamanha mostra de desprezo por tantas vidas dedicadas ao enfrentamento à epidemia, sempre se baseando em critérios técnicos e sociais. É o momento para que todos os segmentos que compõem a luta contra a aids esqueçam suas diferenças e se unam em defesa de um bem maior: a liberdade do povo brasileiro, ameaçada pelo Estado Teocrático.

Para quem não era nascido, no final dos anos setenta o Irã era uma nação moderna, porém corrupta, cuja liderança se perpetuava no poder a despeito das sucessivas tentativas da esquerda e dos liberais em tomá-lo. Até que alguém teve a idéia de se aliar aos fundamentalistas islâmicos e assim lograram a conquista do poder. O que os comunistas e liberais não contavam é que, quando da posse, os representantes de Deus na Terra iriam se sentir o próprio Deus, exterminando e prendendo seus aliados e proclamando uma república islâmica, reconhecidamente retrógrada e envolta em sucessivos conflitos. E essa transformação social ocorreu há apenas três décadas, trazendo a pena de morte para homossexuais, servidão para as mulheres e demonização da diversidade religiosa, incluindo os cristãos. Em nosso país não é difícil imaginar a suspensão do direito ao aborto de anencefálicos, da união de pessoas do mesmo sexo e uma futura revisão da ‘rigorosa’ lei Maria da Penha.

Ocupemos ruas e praças, sensibilizemos e mobilizemos sindicatos e organizações progressistas, acionemos as cortes nacionais e internacionais por tratados dos quais o Brasil é signatário e que estão sendo rompidos. Precisamos mostrar que quem está mais sujo do que pau de galinheiro nessa história toda é um governo que hoje cospe no prato que o elegeu e coloca em risco o espírito democrático retomado a muito custo, após décadas de ditadura militar.

E, se há uma coisa pior que uma ditadura militar, só mesmo uma ditadura em nome de Deus. Li, bem recentemente, em uma publicação de um assessor político em minha cidade:

- Esta noite sonhei com a Voz do Brasil iniciando com ‘A paz do Senhor’.

Deus nos livre!

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