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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sábado, 25 de fevereiro de 2012

Que a Saúde se difunda sobre a Terra

Descrição da imagem: o profissional de pé trajando branco, o cliente sentado, olhos nos olhos. Lembra a acolhida e o compromisso do profissional de saúde gerando uma relação de confiança.


A CNBB foi muito feliz ao adotar a defesa da saúde pública para a Campanha da Fraternidade 2012, que leva como tema o título deste texto e é extraído da Bíblia em Eclesiástico 38.8. Se tem algo que a Igreja não compreende, tanto quanto os miseráveis clientes do SUS, é o Brasil investir apenas 3,24% do PIB em Saúde ao passo que países com bons sistemas aplicam em média 6,7%. Coerentemente defende a 'EC 29 como alternativa para enfrentar essa problemática'. Assim como foi certeira ao afirmar que a conversão desse Sistema 'pede que as estruturas de morte sejam transformadas'. Estruturas de morte, referência e contra referência.

Faz preciosas considerações sobre doença, saúde e salvação. Conseguiu exprimir um sentimento muitas vezes percebido por mim, o de que aquele corpo com AIDS não era meu corpo. Aquele corpo com deficiência não era meu corpo. Aquele corpo com câncer não era meu corpo. 'Um outro independente, rebelde e agressor. Ninguém escolhe ficar doente. A doença se impõe. Ela pode tolher nosso direito de ir e vir. A doença é, por isso, um forte convite à reconciliação e à harmonização com nosso próprio ser.' Não poderiam ter sido mais precisos, tanto na dificuldade quanto na oportunidade. Mais um déjà vu. A vernacular relação entre saúde e salvação, presente no grego e no latim dente outras línguas antigas, reconhece que para a promoção da Saúde é necessário à sociedade 'curar-se do medo de se aproximar do outro, de se tornar próximo do outro, pois isto implica aceitar tornar-se frágil nas mãos de outrem.'

Confesso que, mesmo tendo sérios questionamentos sobre alguns princípios e práticas da Igreja Católica, fiquei emocionado pela profundidade com que a Ação Evangelizadora norteará a Igreja para que 'aconteça uma conversão pastoral que a coloque em estado permanente de missão.' E essa missão passa por refletir sobre a Saúde no Brasil e mobilizar a comunidade por melhorias do SUS, especialmente seu justo financiamento, o que implica em qualificação de lideranças comunitárias em direitos humanos e controle social. 

Destaca as Pastorais da Saúde (e nossas Pastorais da AIDS) como agentes prioritários na capilarização de toda essa Campanha. Elas deverão ser criadas em todos os rincões e fortalecidas onde já existem. E já vem com propostas bem claras para o SUS:

•Priorizar a atenção básica em relação aos outros níveis de atenção à saúde, fortalecendo as redes especializadas de atenção à saúde.
estudar uma forma de co-participação ou contribuição à saúde pública dos setores empresariais que usufruem ou estimulam hábitos inadequados à saúde
•criação, no Poder Judiciário, da ‘Vara da Saúde’, para atendimento especializado e eficaz neste segmento.
•estimular a ‘quarentena política’ (proibição de se candidatar, durante certo período, a cargos) aos gestores técnicos que deixarem o cargo, no governo.
A CNBB faz menção especial a crianças e idosos, trata de hábitos e todo tipo de contrapartida social e individual para a efetivação do Sistema, menciona a AIDS como uma de suas prioridades mas não toca no assunto prevenção a epidemias. Chamaram-me atenção as considerações sobre a dignidade de viver e morrer:

'•Antes de existir um direito à morte humana, há que ressaltar o direito de que a vida possa ter condições de ser conservada, preservada e desabrochada plenamente.
•Precisamos de sabedoria e ética samaritana para cuidar das pessoas que estão se aproximando do final de suas existências. O desafio ético é considerar a questão da dignidade no adeus à vida. É a obstinação terapêutica (distanásia) adiando o inevitável, que acrescenta mais sofrimento e vida quantitativa que qualidade de vida.'
Precisamos da mesma sabedoria e ética para cuidar das pessoas que estão se acotovelando nos postos de saúde e hospitais atrás de atendimento digno e integral. E também para cuidar de gestores e profissionais de saúde descomprometidos com a saúde pública. E que essa tal distanásia se transforme na dedicação esperada pelos padroeiros de todas as disciplinas envolvidas na atenção à saúde da comunidade.

Parabéns à CNBB por essa campanha que é a cara do Brasil.
Para que a Saúde se difunda sobre nosso país.
Amém.

Beto Volpe

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