Total de visualizações de página

Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Sem título

Pessoal, um intrigante artigo (não titulado) de Rodolfo Viana que, a despeito de ser de 2011, é atual, uma vez que as pessoas com HIV do Brasil estão ansiosas pela chegada do Truvada.
Beto Volpe


Estamos mais próximos da cura da Aids. Para chegar lá, nós abraçamos com mais força nosso preconceito sexual e ignoramos a existência dos gays. Eles não existem. Pelo menos é o que indica o comportamento de estudiosos que buscam a tão sonhada cura para os portadores do vírus HIV. Dois estudos recentes sustentam a ideia de que drogas usadas no tratamento de pacientes soropositivos previnem que heterossexuais sejam contaminados. Sim, há esta especificidade: heterossexuais.

Um dos estudos foi divulgado na última quarta-feira. Conduzido pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, ele envolveu mais de 1,2 mil mulheres e homens sexualmente ativos e soronegativos em Botswana. Metade do grupo tomou Truvada, um medicamento produzido pela Gilead Sciences Inc. e dirigida a pacientes com HIV; a outra metade recebeu placebo. Do primeiro grupo, apenas quatro indivíduos foram infectados pelo vírus; do segundo, o número subiu para 19. Os “gênios” concluíram: Truvada corta o risco de infecção em 78%.
Um homem, uma mulher e todo um passado de sexo sem segurança. Eles sim estão "certos".
O segundo estudo foi financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e conduzido pela Universidade de Washington. As cobaias foram 4.758 casais heterossexuais ugandenses e quenianos com um dos parceiros infectado pelo vírus. Aos soronegativos, deram Truvada ou Viread, também um medicamente para o tratamento da Aids – e também produzido pela Gilead. Resultado: 13 infecções entre aqueles que tomaram Truvad, 18 entre aqueles sob Viread e 47 entre os infelizes que estavam à base de placebo. O resultado é digno de comemoração: as chances de infecção caíram entre 62% e 73%.
Regozijai-vos, pois! Vós, que estais de acordo com os “padrões”, sereis recompensados pelo bom comportamento sexual.
Não discuto se Gilead é o messias prometido ou o demônio em forma de pessoa jurídica. Convenhamos: em uma realidade com mais de 33 milhões de homens, mulheres e crianças soropositivas, não podemos nos dar à ignorância do preconceito em relação a uma corporação que se presta a amenizar o sofrimento causado pelo mais maligno dos vírus. Ok, os engravatados da Gilead lucraram US$ 2,9 bi entre 2010 e 2011 e subiram muitos degraus na lista das 500 maiores companhias segundo a Fortune (do 444º lugar em 2009 para o 299º em 2011). Mas em que parte do contrato social da Gilead está escrito “entidade sem fins lucrativos”?
Truvada te salvará. A menos que você ame pessoas do mesmo sexo.
Eles que lucrem. E que continuem a desenvolver pesquisas do gênero e a produzir seus elixires. Vida longa à Gilead! O que me faz queimar neurônios é: por que raios excluíram os gays dos estudos? Os resultados atuais são um pequeno passo para alguns homens, mas poderiam ser um grande passo para a humanidade. Não foi dessa vez.
Preconceito velado e a imprensa omissa
A Organização Mundial de Saúde afirmou, há menos de um mês, que os gays do sexo masculino têm 20 vezes mais risco de serem infectados pelo vírus HIV em comparação com héteros – palavras do braço da Organização das Nações Unidas dirigido à saúde. O governo brasileirocorrobora esses dados sobre a relação entre gays e HIV. Um estudo realizado no ano passado constatou que, entre homens de 15 a 49, a taxa de prevalência do HIV era de 0,8% – entre jovens gays com mais de 18 anos, a incidência era de 10,5%.
Conclusão: a epidemia pode ser mais difundida entre os homossexuais. Isso não é preconceito meu – são dados estatísticos. Gays estão morrendo e as corporações estão queimando notas de Benjamin Franklin com as pessoas erradas.É como fazer um Bolsa Família para a classe média ou como querer matar a fome do bairro de Pinheiros.
Enquanto isso, a imprensa gringa mostra-se bastante feliz com os resultados dos estudos. Não é para menos. Mas nenhum veículo de comunicação se propôs a indagar: “Por que os gays foram excluídos?” A omissão da imprensa se justifica: falar de gays é feio. Mais feio do que falar de Aids. Mas nós, os héteros, não nos preocupamos. Nós temos a Gilead.

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Tiro pela culatra



Doutor Fabio Mesquita, você sabe que sou um grande admirador de seu trabalho, especialmente em nossa região. Nem ameaças de grupos conservadores, nem mandados de prisão foram suficientes para que você, Telma de Souza e Davi Capistrano recuassem em suas crenças e inovassem no enfrentamento à epidemia de AIDS, mostrando ao mundo o modelo a ser seguido. Oferta de testagem, acolhimento, adesão a tratamento integral e defesa de direitos humanos. 

Sabemos que, falando em AIDS, o que excede de um lado prejudica o outro. Se mostrarmos que viver com HIV é a nona maravilha do mundo moderno, a prevenção vai por água abaixo. Da mesma forma, se dissermos que a AIDS mata e que ela vai te pegar, os direitos humanos das pessoas com HIV vão pelo ralo da intolerância. E que, segundo tudo que li desde que iniciei no ativismo, a forma com que a pessoa é acolhida após um resultado reagente para o HIV influirá, em muito na maneira com que ela vai se relacionar com a nova situação.

Aí, em recente entrevista a uma emissora mineira, você diz que até o final do ano o teste de HIV estará disponível na farmácia mais próxima e que tudo será muito mais simples. Será?

Eu me lembro muito bem daquele final de novembro de 1989, quando soube que minha vida tinha acabado. Sim, porque as primeiras palavras que me ocorreram foram 'acabou tudo'. O tempo passou, muita água rolou por cima e por baixo da ponte, o coquetel está aí, as pessoas puderam se esconder e, sob esse manto de invisibilidade todo mundo começou a pensar em doença crônica, sob controle, UM MUNDO SEM AIDS!!!

O que os técnicos parecem ter esquecido é que por trás de cada meta, de cada algoritmo, de cada planilha, existem vidas. Lembro do Congresso de Prevenção realizado em Brasília, em 2010, onde havia um stand com a menina dos olhos do Ministério da Saúde naquele ano: o teste rápido. Eu e um grupo de ativistas estávamos andando pelas redondezas e vimos um rapaz sair de lá, meio que cambaleante, como quem não tem rumo a tomar ou, se preferir, quem perdeu o chão. Aproximamo-nos dele e, questionado sobre seu bem estar, ele disparou:

- Tô com AIDS. O que faço da minha vida agora?

Peraí, pára tudo. Naquele evento havia somente pessoas cadastradas, que de alguma forma trabalhavam na luta contra a AIDS. E uma dessas pessoas, que não é ignorante com relação a conceitos e atualidades da epidemia, perdeu completamente o chão quando recebeu o diagnóstico reagente. Nesse mesmo stand também houve um sério constrangimento quando a enfermeira chamou insistentemente e em voz alta o Aderbal da Silva. Aderbal da Silva. ADERBAL DA SILVA. E levantou uma loira espetacular dizendo que seu nome social estava no documento de identidade. Enfim, é que nem aqueles restaurantes baratos: se é sujo daquele jeito na área dos clientes, imagina a cozinha... Se é assim na vitrine do Departamento Nacional, imagina no SUS.

Nesses catorze anos que tenho de ativismo já acolhi muita gente com diagnóstico recente de HIV. Na ONG, em palestras, pela internet, de tudo que é forma. Pessoas de todos os tipos, mulheres e homens de todas as orientações sociais, faixas etárias, classes sociais, credos, travestis.... Mas eles têm uma coisa em comum, quando me abordam: ainda não sabem onde pisar. Se lembrarmos de nossa adolescência, nunca foi fácil se adaptar a uma nova escola. E nessa escola, a morte é o fiscal do corredor. Muita coisa mudou na história da AIDS. Menos receber o diagnóstico, quando a racionalidade dá lugar a todos os medos que um dia julgara dissipados.

Fábio querido. O Conselho Federal de Psicologia colocou-se frontalmente contrário a essa iniciativa, por desconsiderar os aspectos sócio psicológicos daquela pessoa que irá comprar um teste e fazê-lo em casa. As pessoas com HIV, em sua maioria, estão temendo por seus futuros companheiros de trajetória, se é que esses irão a algum equipamento de saúde. Vivemos a era da conveniência, não é mesmo? Talvez seja mais fácil rasgá-lo, enfiar no fundo da caixa de recordações que fica no armário. Ou, quem sabe, após uns goles e umas carreiras sair correndo. Só Deus sabe se para a janela do oitavo andar ou se para a baladinha mais próxima. E o tiro sairia pela culatra.

Beto Volpe

Família é tudo de bom



Ter câncer é algo que todos temem, desde os tempos 'daquela coisa ruim', quando seu nome era impronunciável. Muita coisa mudou, novas descobertas científicas e sua disponibilização, ao menos nos grandes centros. O SUS tratou de expandir o tratamento pelo Brasil, mas também mudou a quantidade de gente que ali 'freqüenta'. São cada vez mais e mais e mais pessoas, espantando até mesmos os profissionais que ali trabalham.

Segundo estudos, ao receber o diagnóstico de câncer a pessoa passa por uma situação de estresse pós traumático, pois a mente está povoada de mitos e informações ultrapassadas, dificultando o próprio processo do tratamento. E, mesmo desmistificando a doença, resta a sociedade, sempre e cada vez mais disposta a excluir as diferenças. Aí mora o grande perigo: a pessoas acreditar que é diferente e que não faz jus à tal da felicidade e que ela nunca baterá em sua porta.

Mas ter câncer também é ter a oportunidade de ver sua vida com outros olhos, o olhar da urgência. Até as menores ações, os mais discretos desejos passam a ter data de validade e a geladeira tá cheia deles. Ter câncer, viver com HIV ou com deficiência, ser feito refém de um grupo de assaltantes... São experiências radicais, das quais não se sai do mesmo jeito que entrou. E, para tudo, são só duas alternativas: fazer agora ou deixar de fazer. Não existe mais o fazer daqui a pouco, ano que vem.

E quando você decide fazer agora, a despeito de péssimas probabilidades e estatísticas, parece que tudo passa a conspirar para que as coisas dêem certo. Pessoas interessantes começam a se aproximar, novos caminhos se abrem apresentando novas possibilidades na vida. Você passa a conviver mais e se solidarizar com pessoas na mesma situação, seu nível de informação aumenta e, não mais que de repente, você se olha e se enxerga um Cidadão, assim mesmo, com C maiúsculo.

Enfim, ontem tive a certeza de que na consulta do dia 20 receberei minha segunda alta para ‘essa doença’ rsrsrs... Em 2003 fui surpreendido por um linfoma que gostou tanto, mas tanto de mim que resolveu se espalhar pelo corpo todo: medula, pescoço, pulmão, fígado, baç, retroperitônio e virilha.. E essa festa foi banida através de uma super quimioterapia com todos os seus desconfortos, por assim dizer. Em 2008, nova surpresa, um carcinoma no reto, com uma super rádio que devastou o play tanto quanto aquele play de Hiroshima. 

Mas estou vivo. Vivo e feliz, pois há tempos descobri que a força está dentro de mim. Bem como a fraqueza. A tristeza também passa por aqui, mas eu recebo mais vezes a felicidade. Tenho minha mãe adorada, fundamental em todos os percalços bem como sempre tive meu pai e irmão.. Por fim, e não menos importantes, tenho amigas e amigos que me enchem de coragem e alegria. O suficiente para a anestesia fazer efeito no meio de uma piada, rs... Amizades, a família que a gente escolhe. 

Obrigado, família linda!!!
Amo muito vocês!

Amo a Vida!
Viva a Vida!!!

Beto Volpe

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O beijo

Pessoal, compartilho com vocês um belo artigo de Wilson Gomes no blog Clipping LGBT.
Beto Volpe

Descrição da imagem: desenho de um homem negro e um branco se beijando e pensando: Marco Feliciano, essa é pra você.

1. Não é por causa de um beijo, é por direitos. Mais ainda: é por reconhecimento. Não deve haver amor ou desejo que não possa beijar, na intimidade ou à vista de todos, na telinha ou na alcova. Se todo mundo pode beijar, na vida ou na ficção, por que apenas aos gays da ficção televisiva, do nosso melodrama audiovisual preferido, não se reconhecia o direito ao beijo de amor?
2. É por causa de um beijo, sim. Se pode amar, por que não pode beijar? Na narrativa sentimental todo par amoroso se destina a um grande beijo, o definitivo, aquele que encerra os conflitos, as agonias, as peripécias, as buscas e, claro, as embromações. Se há pares amorosos gays, emoldurados numa ternura de timbres e olhares que dispensou até a convenção dos violinos, como poderia não haver beijos? No beijo de ontem, as narrativas sentimentais se reconciliaram com a verossimilhança. Aristóteles teria curtido.
3. Não era questão de um beijo, era uma questão de política e democracia. Foram tantas as pessoas que ontem murmuraram ou gritaram “já era hora!” e tão poucas as que sussurraram “pouca vergonha!” que até pareceu que uma das controvérsias morais e políticas mais resilientes tinha se resolvido em favor de um dos lados da comunidade política. Não é bem assim, mas o fato é que a ficção televisiva ontem foi a arena central de uma luta política entre o campo conservador e o campo liberal. A luta por representações justas, respeitosas, adequadas é uma luta por direito e por conhecimento, do ponto de vista liberal; e por valores, do ponto de vista conservador. Ontem não estava em causa apenas o desfecho de uma trama sentimental no melodrama das oito; ontem, meus amigos, o beijo entre dois homens nos três últimos minutos do folhetim da Globo (juntamente com a entrega amorosa derradeira de um pai homofóbico aos cuidados e ao amor de seu filho homossexual) foi política no sentido mais pleno do termo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Vai ter Copa: argumentos para enfrentar quem torce contra o Brasil

Concordo com cada linha escrita.
Beto Volpe


Profetas do pânico: os gupos que patrocinam a campanha anticopa
 
Existe uma campanha orquestrada contra a Copa do Mundo no Brasil. A torcida para que as coisas deem errado é pequena, mas é barulhenta e até agora tem sido muito bem sucedida em queimar o filme do evento.

Tiveram, para isso, uma mãozinha de alguns governos, como o do estado do Paraná e da prefeitura de Curitiba, que deram o pior de todos exemplos ao abandonarem seus compromissos com as obras da Arena da Baixada, praticamente comprometida como sede.

A arrogância e o elitismo dos cartolas da Fifa também ajudaram. Aliás, a velha palavra “cartola” permanece a mais perfeita designação da arrogância e do elitismo de muitos dirigentes de futebol do mundo inteiro.

Mas a campanha anticopa não seria nada sem o bombardeio de informação podre patrocinado pelos profetas do pânico.

O objetivo desses falsos profetas não é prever nada, mas incendiar a opinião pública contra tudo e contra todos, inclusive contra o bom senso.

Afinal, nada melhor do que o pânico para se assassinar o bom senso.

Como conseguiram azedar o clima da Copa do Mundo no Brasil

O grande problema é quando os profetas do pânico levam consigo muita gente que não é nem virulenta, nem violenta, mas que acaba entrando no clima de replicar desinformações, disseminar raiva e ódio e incutir, em si mesmas, a descrença sobre a capacidade do Brasil de dar conta do recado.

Isso azedou o clima. Pela primeira vez em todas as copas, a principal preocupação do brasileiro não é se a nossa seleção irá ganhar ou perder a competição.

A campanha anticopa foi tão forte e, reconheçamos, tão eficiente que provocou algo estranho. Um clima esquisito se alastrou e, justo quando a Copa é no Brasil, até agora não apareceu aquela sensação que, por aqui, sempre foi equivalente à do Carnaval.

Se depender desses Panicopas (os profetas do pânico na Copa), essa será a mais triste de todas as copas.

“Hello!”: já fizemos uma copa antes

Até hoje, os países que recebem uma Copa tornam-se, por um ano, os maiores entusiastas do evento. Foi assim, inclusive, no Brasil, em 1950. Sediamos o mundial com muito menos condições do que temos agora.

Aquela Copa nos deixou três grandes legados. O primeiro foi o Maracanã, o maior estádio do mundo – que só ficou pronto faltando poucos dias para o início dos jogos.

O segundo, graças à derrota para o Uruguai (“El Maracanazo”), foi o eterno medo que muitos brasileiros têm de que as coisas saiam errado no final e de o Brasil dar vexame diante do mundo - o que Nélson Rodrigues apelidou de “complexo de vira-latas”,  a ideia de que o brasileiro nasceu para perder, para errar, para sofrer.

O terceiro legado, inestimável, foi a associação cada vez mais profunda entre o futebol e a imagem do país. O futebol continua sendo o principal cartão de visitas do Brasil – imbatível nesse aspecto.

O cartunista Henfil, quando foi à China, em 1977, foi recebido com sorrisos no rosto e com a única palavra que os chineses sabiam do Português: “Pelé” (está no livro “Henfil na China”, de 1978).

O valor dessa imagem para o Brasil, se for calculada em campanhas publicitárias para se gerar o mesmo efeito, vale uma centena de Maracanãs. 

Desinformação #1: o dinheiro da Copa vai ser gasto em estádios e em jogos de futebol, e isso não é importante

O pior sobre a Copa é a desinformação. É da desinformação que se alimenta o festival de besteiras que são ditas contra a Copa.

Não conheço uma única pessoa que fale dos gastos da Copa e saiba dizer quanto isso custará para o Brasil. Ou, pelo menos, quanto custarão só os estádios. Ou que tenha visto uma planilha de gastos da copa.

A “Copa” vai consumir quase 26 bilhões de reais.

A construção de estádios (8 bi) é cerca de 30% desse valor.

Cerca de 70% dos gastos da Copa não são em estádios, mas em infraestrutura, serviços e formação de mão de obra.

Os gastos com mobilidade urbana praticamente empatam com o dos estádios.

O gastos em aeroportos (6,7 bi), somados ao que será investido pela iniciativa privada (2,8 bi até 2014) é maior que o gasto com estádios.

O ministério que teve o maior crescimento do volume de recursos, de 2012 para 2013, não foi o dos Esportes (que cuida da Copa), mas sim a Secretaria da Aviação Civil (que cuida de aeroportos).

Quase 2 bi serão gastos em segurança pública, formação de mão de obra e outros serviços.

Ou seja, o maior gasto da Copa não é em estádios. Quem acha o contrário está desinformado e, provavelmente, desinformando outras pessoas.

Desinformação #2: se deu mais atenção à Copa do que a questões mais importantes

Os atrasos nas obras pelo menos serviram para mostrar que a organização do evento não está isenta de problemas que afetam também outras áreas. De todo modo, não dá para se dizer que a organização da Copa teve mais colher de chá que outras áreas. 

Certamente, os recursos a serem gastos em estádios seriam úteis a outras áreas. Mas se os problemas do Brasil pudessem ser resolvidos com 8 bi, já teriam sido.

Em 2013, os recursos destinados à educação e à saúde cresceram. Em 2014, vão crescer de novo. 

Portanto, o Brasil não irá gastar menos com saúde e educação por causa da Copa. Ao contrário, vai gastar mais. Não por causa da Copa, mas independentemente dela.

No que se refere à segurança pública, também haverá mais recursos para a área. Aqui, uma das razões é, sim, a Copa.

Dados como esses estão disponíveis na proposta orçamentária enviada pelo Executivo e aprovada pelo Congresso (nas referências ao final está indicado onde encontrar mais detalhes).  

Se alguém quiser ajudar de verdade a melhorar a saúde e a educação do país, ao invés de protestar contra a Copa, o alvo certo é lutar pela aprovação do Plano Nacional de Educação, pelo cumprimento do piso salarial nacional dos professores, pela fixação de percentuais mais elevados e progressivos de financiamento público para a saúde e pela regulação mais firme sobre os planos de saúde.

Se quiserem lutar contra a corrupção, sugiro protestos em frente às instâncias do Poder Judiciário, que andam deixando prescrever crimes sem o devido julgamento, e rolezinhos diante das sedes do Ministério Público em alguns estados, que andam com as gavetas cheias de processos, sem dar a eles qualquer andamento.

Marchar em frente aos estádios, quebrar orelhões públicos e pichar veículos em concessionárias não tem nada a ver com lutar pela saúde e pela educação.

Os estádios, que foram malhados como Judas e tratados como ícones do desperdício, geraram, até a Copa das Confederações, 24,5 mil empregos diretos. Alto lá quando alguém falar que isso não é importante.

Será que o raciocínio contra os estádios vale para a também para a Praça da Apoteose e para todos os monumentos de Niemeyer? Vale para a estátua do Cristo Redentor? Vale para as igrejas de Ouro Preto e Mariana? 

Havia coisas mais importantes a serem feitas no Brasil, antes desses monumentos extraordinários. Mas o que não foi feito de importante deixou de ser feito porque construíram o bondinho do Pão-de-Açúcar? 

Até mesmo para o futebol, o jogo e o estádio são, para dizer a verdade, um detalhe menos importante. No fundo, estádios e jogos são apenas formas para se juntar as pessoas. Isso sim é muito importante. Mais do que alguns imaginam. 

Desinformação #3: O Brasil não está preparado para sediar o mundial e vai passar vexame

Se o Brasil deu conta da Copa do Mundo em 1950, por que não daria conta agora? 

Se realizou a Copa das Confederações no ano passado, por que não daria conta da Copa do Mundo? 

Se recebeu muito mais gente na Jornada Mundial da Juventude, em uma só cidade, porque teria dificuldades para receber um evento com menos turistas, e espalhados em mais de uma cidade?

O Brasil não vai dar vexame, quando o assunto for segurança, nem diante da Alemanha, que se viu rendida quando dos atentados terroristas em Munique, nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972; nem diante dos Estados Unidos, que sofreu atentados na Maratona Internacional de Boston, no ano passado.

O Brasil não vai dar vexame diante da Itália, quando o assunto for a maneira como tratamos estrangeiros, sejam eles europeus, americanos ou africanos.

O Brasil não vai dar vexame diante da Inglaterra e da França, quando o assunto for racismo no futebol. Ninguém vai jogar bananas para nenhum jogador, a não ser que haja um Panicopa no meio da torcida. 

O Brasil não vai dar vexame diante da Rússia, quando o assunto for respeito à diversidade e combate à homofobia.

O Brasil não vai dar vexame diante de ninguém quando o assunto for manifestações populares, desde que os governadores de cada estado convençam seus comandantes da PM a usarem a inteligência antes do spray de pimenta e a evitar a farra das balas de borracha.

Podem ocorrer problemas? Podem. Certamente ocorrerão. Eles ocorrem todos os dias. Por que na Copa seria diferente? A grande questão não é se haverá problemas. É de que forma nós, brasileiros, iremos lidar com tais problemas.

Desinformação #4: os turistas estrangeiros estão com medo de vir ao Brasil 

De tanto medo do Brasil, o turismo para o Brasil cresceu 5,6% em 2013, acima da média mundial. Foi um recorde histórico (a última maior marca havia sido em 2005).

Recebemos mais de 6 milhões de estrangeiros. Em 2014, só a Copa deve trazer meio milhão de pessoas. 

De quebra, o Brasil ainda foi colocado em primeiro lugar entre os melhores países para se visitar em 2014, conforme o prestigiado guia turístico Lonely Planet (“Best in Travel 2014”, citado nas referências ao final).

Adivinhe qual uma das principais razões para a sugestão? Pois é, a Copa.


Desinformação #5: a Copa é uma forma de enganar o povo e desviá-lo de seus reais problemas

O Brasil tem de problemas que não foram causados e nem serão resolvidos pela Copa.

O Brasil tem futebol sem precisar, para isso, fazer uma copa do mundo. E a maioria assiste aos jogos da seleção sem ir a estádios. 

Quem quiser torcer contra o Brasil que torça. Há quem não goste de futebol, é um direito a ser respeitado. Mas daí querer dar ares de “visão crítica” é piada.

Desinformação #6: muitas coisas não ficarão prontas antes da Copa, o que é um grave problema

É verdade, muitas coisas não ficarão prontas antes da Copa, mas isso não é um grave problema. Tem até um nome: chama-se “legado”.

Mas, além do legado em infraestrutura para o país, a Copa provocou um outro, imaterial, mas que pode fazer uma boa diferença. 

Trata-se da medida provisória enviada por Dilma e aprovada pelo Congresso (entrará em vigor em abril deste ano), que limita o tempo de mandato de dirigentes esportivos.

A lei ainda obrigará as entidades (não apenas de futebol) a fazer o que nunca fizeram: prestar contas, em meios eletrônicos, sobre dados econômicos e financeiros, contratos, patrocínios, direitos de imagem e outros aspectos de gestão. Os atletas também terão direito a voto e participação na direção. Seria bom se o aclamado Barcelona, de Neymar, fizesse o mesmo.

Estresse de 2013 virou o jogo contra a Copa

Foi o estresse de 2013 que virou o jogo contra a Copa. Principalmente quando aos protestos se misturaram os críticos mascarados e os descarados.

Os mascarados acompanharam os protestos de perto e neles pegaram carona, quebrando e botando fogo. Os descarados ficaram bem de longe, noticiando o que não viam e nem ouviam; dando cartaz ao que não tinha cartaz; fingindo dublar a “voz das ruas”, enquanto as ruas hostilizavam as emissoras, os jornalões, as revistinhas e até as coitadas das bancas.

O fato é que um sentimento estranho tomou conta dos brasileiros. Diferentemente de outras copas, o que mais as pessoas querem hoje saber não é a data dos jogos, nem os grupos, nem a escalação dos times de cada seleção.  

A maioria quer saber se o país irá funcionar bem e se terá paz durante a competição. Estranho. 

É quase um termômetro, ou um teste do grau de envenenamento a que uma pessoa está acometida. Pergunte a alguém sobre a Copa e ouça se ela fala dos jogos ou de algo que tenha a ver com medo. Assim se descobre se ela está empolgada ou se sentou em uma flecha envenenada deixada por um profeta do apocalipse.

Todo mundo em pânico: esse filme de comédia a gente já viu

Funciona assim: os profetas do pânico rogam uma praga e marcam a data para a tragédia acontecer. E esperam para ver o que acontece. Se algo “previsto” não acontece, não tem problema. A intenção era só disseminar o pânico e o baixo astral mesmo.

O que diziam os profetas do pânico sobre o Brasil em 2013?  Entre outras coisas:

Que estávamos à beira de um sério apagão elétrico.

Que o Brasil não conseguiria cumprir sua meta de inflação e nem de superávit primário.

Que o preço dos alimentos estava fora de controle.

Que não se conseguiria aprontar todos os estádios para a Copa das Confederações.

O apagão não veio e as termelétricas foram desligadas antes do previsto. A inflação ficou dentro da meta. A inflação de alimentos retrocedeu. Todos os estádios previstos para a Copa das Confederações foram entregues.

Essas foram as profecias de 2013. Todas furadas.

Cada ano tem suas previsões malditas mais badaladas. Em 2007 e 2008, a mesma turma do pânico dizia que o Brasil estava tendo uma grande epidemia de febre amarela. Acabou morrendo mais gente de overdose de vacina do que de febre amarela, graças aos profetas do pânico.

Em 2009 e 2010, os agourentos diziam que o Brasil não estava preparado para enfrentar a gripe aviária e nem a gripe “suína”, o H1N1. Segundo esses especialistas em catástrofes, os brasileiros não tinham competência nem estrutura para lidar com um problema daquele tamanho. Soa parecido com o discurso anticopa, não?

O cataclismo do H1N1 seria gravíssimo. Os videntes falavam aos quatro cantos que não se poderia pegar ônibus, metrô ou trem, tal o contágio. Não se poderia ir à escola, ao trabalho, ao supermercado. Resultado? Não houve epidemia de coisa alguma.

Mas os profetas do pânico não se dão por vencidos. Eles são insistentes (e chatos também). Quando uma de suas profecias furadas não acontece, eles simplesmente adiam a data do juízo final, ou trocam de praga.

Agora, atenção todos, o próximo fim do mundo é a Copa. “Imagina na Copa” é o slogan. E há muita gente boa que não só reproduz tal slogan como perde seu tempo e sua paciência acreditando nisso, pela enésima vez. 

Para enfrentar o pessoal que é ruim da cabeça ou doente do pé

O pânico é a bomba criada pelos covardes e pulhas para abater os incautos, os ingênuos e os desinformados.

Só existe um antídoto para se enfrentar os profetas do pânico. É combater a desinformação com dados, argumentos e, sobretudo, bom senso, a principal vítima da campanha contra a Copa.

Informação é para ser usada. É para se fazer o enfrentamento do debate. Na escola, no trabalho, na família, na mesa de bar.

É preciso que cada um seja mais veemente, mais incisivo e mais altivo que os profetas do pânico. Eles gostam de falar grosso? Vamos ver como se comportam se forem jogados contra a parede, desmascarados por uma informação que desmonta sua desinformação.

As pessoas precisam tomar consciência de que deixar uma informação errada e uma opinião maldosa se disseminar é como jogar lixo na rua. 

Deixar envenenar o ambiente não é um bom caminho para melhorar o país.

A essa altura do campeonato, faltando poucos meses para a abertura do evento, já não se trata mais de Fifa. É do Brasil que estamos falando.

É claro que as informações deste texto só fazem sentido para aqueles para quem as palavras “Brasil” e “brasileiros” significam alguma coisa.

Há quem por aqui nasceu, mas não nutre qualquer sentimento nacional, qualquer brasilidade; sequer acreditam que isso existe. Paciência. São os que pensam diferente que têm que mostrar que isso existe sim.

Ter orgulho do país e torcer para que as coisas deem certo não deve ser confundido com compactuar com as mazelas que persistem e precisam ser superadas. É simplesmente tentar colocar cada coisa em seu lugar.

Uma das maneiras de se colocar as coisas no lugar é desmascarar oportunistas que querem usar da pregação anticopa para atingir objetivos que nunca foram o de melhorar o país.

O pior dessa campanha fúnebre não é a tentativa de se desmoralizar governos, mas a tentativa de desmoralizar o Brasil.

É preciso enfrentar, confrontar e vencer esse debate. É preciso mostrar que esse pessoal que é profeta do pânico é ruim da cabeça ou doente do pé.

(*) Antonio Lassance é doutor em Ciência Política e torcedor da Seleção Brasileira de Futebol desde sempre.

Mais sobre o assunto:

A Controladoria Geral da União atualiza a planilha com todos os gastos previstos para a Copa, os já realizados e os por realizar, em seu portal:


Os dados do orçamento da União estão disponíveis na proposta orçamentária enviada pelo Executivo e aprovada pelo Congresso.  

O “Best in Travel 2014”, da Lonely Planet, pode ser conferido aqui.

Sobre copa e anticopa, vale a pena ler o texto do Flávio Aguiar, “Copa e anti-copa”, aqui na Carta Maior: 

Sobre o catastrofismo, também do Flávio Aguiar: “Reveses e contrariedades para a direita”, na Carta Maior.

Sobre os protestos de junho e a estratégia da mídia, leiam o texto do prof. Emir Sader, "Primeiras reflexões".

sábado, 25 de janeiro de 2014

Psicanalista comenta sobre o que há de verdadeiro e oculto acerca do Programa Brasileiro de AIDS.

Pessoal, compartilho com vocês artigo de meu querido amigo George Gouvea sobre o que se vê e o que está oculto nos discursos e práticas do Ministério da Saúde. Espero que o Dr. Arthur Chioro o leia.
Beto Volpe


É verdade que o Programa Brasileiro de AIDS tem avançado em questões importantes para o combate à epidemia. Universalização do acesso aos antirretrovirais, disponibilização de drogas mais modernas, testagem e cobertura de tratamento para soropositivos com 500 de CD4, ou mais, maior acesso a profilaxia pós-exposição, a pílula de dosagem única, entre outras medidas. Todas elogiáveis.

Mas não podemos nos enganar com a miragem do discurso oficial e com ufanismo desmedido. Subjacente ao discurso governamental ocultam-se os escombros das mortes, dos adoecimentos e das novas infecções. Entre 2007 até 2012, os números de novas infecções empacaram em, aproximadamente 40.000 novos casos. No mesmo período, os casos de óbitos estacionaram em 12.000. Vidas ceifadas pela indiferença. Apregoam a estabilidade, como se a mesma fosse um fenômeno natural, contra o qual nada pode ser feito. Mostram, sem nenhum pudor, números mágicos baseados em crescimento populacional e outras explicações mirabolantes. Esquecem que estamos falando de vidas humanas!

Não obstante as promessas, elas não se realizam. Aonde está a pílula de dose única, anunciada em belíssimo discurso oficial? Por que é tão difícil, quase impossível, acessar a profilaxia pós-exposição? Qual a explicação para a falta de leitos, médicos, consultas que demoram meses para se realizar, exames que demoram o triplo de tempo daqueles feitos na rede privada? O que justifica a falta de remédios para doenças oportunistas e efeitos colaterais? É sabido que muitas das questões são das esferas municipal e estadual, mas o poder central, com toda sua capacidade de persuasão, assiste a tudo, impassível.

O programa nacional adota uma política com viés biológico, esquecendo que a parceria com o movimento social de AIDS foi responsável pela resposta brasileira à epidemia. Desconsideram a história e se arvoram ao direito de detentores da razão, ocultando a verdade. Propagam um numero que parece ter sito retirado da cartola, sobre o numero de casos de soropositivos no país.

Diagnósticos tardios são responsáveis por inúmeras mortes, contudo, a testagem se resume ao espetáculo dos grandes eventos, servindo de vitrine para um programa que tem falhado com as pessoas vivendo com HIV e AIDS. Ong’s AIDS cerram suas portas por todo o Brasil, mas o programa assiste a tudo parecendo torcer, em surdina, por isso.

Esta realidade, caso não haja uma mudança de curso, desembocará inevitavelmente, num recrudescimento da epidemia de AIDS em nosso país, com todas as consequências já sabidas, ou seja, um aumento do número de novos casos, novas mortes, sofrimento e dor.

George Gouvea

Psicanalista

Vice-Presidente do Grupo Pela Vidda/RJ

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

De quantos mortos precisa o Brasil para reagir contra a homofobia?

Com muita tristeza compartilho artigo de Jean Wyllys sobre o assassinato (mais um) brutal de um adolescente gay, em Sampa. Lamentável, sob diversos pontos de vista.
Beto Volpe



Mais um. Em outros países, o brutal assassinato de um adolescente homossexual de 16 anos de idade seria uma notícia que comoveria a sociedade e nos chocaria a todos como poucas notícias nos chocam. Um garoto que ainda estava na escola, com toda uma vida pela frente, arrancado da existência, despojado de toda humanidade, com todos os dentes arrancados e uma barra de ferro dentro da perna. Um menino cheio de futuro que acaba seus dias com traumatismo craniano e intracraniano, com o corpo todo sujo, abandonado sem vida numa avenida da região central de São Paulo. Em outros países, seria manchete de capa de todos os jornais. A Presidenta falaria em cadeia nacional. O país inteiro reclamaria justiça. Os poderes públicos reagiriam de imediato. No Chile, um crime semelhante mudou as leis do país e fez governo e oposição coincidirem na necessidade de políticas públicas para enfrentar o preconceito contra a população LGBT. 

Daniel Zamudio, falecido no dia 27 de março de 2012 depois de vinte dias de agonia em um hospital de Santiago, acabou dando seu nome à lei contra a homofobia que o próprio presidente Piñera (um empresário católico de direita) se decidiu a apoiar. Daniel tinha sido golpeado até ficar inconsciente. Apagaram cigarros no corpo dele, desfiguraram seu rosto, o apedrejaram reiteradas vezes, arrancaram parte de sua orelha, bateram com uma garrafa na cabeça dele, quebraram suas pernas fazendo alavanca com elas até o limite da resistência dos ossos e desenharam três cruzes esvásticas na sua pele com troços de vidro. O país inteiro reclamou justiça e os assassinos, quatro jovens como ele que acreditavam que, por ser gay, não merecia viver, foram condenados pela justiça num processo histórico. O líder do grupo recebeu prisão perpétua. 

Mas no Brasil, Kaique Augusto Batista dos Santos é mais um, só mais um. Um dado mais numa estatística que, de tão terrível, já passa despercebida. Em 2012, o mesmo ano em que Daniel Zamudio perdeu a vida no Chile, 338 pessoas foram assassinadas por serem gays, lésbicas, travestis ou transexuais no Brasil, 27% mais que no ano anterior, que registrou 266 homicídios homo/lesbo/transfóbicos, 317% mais que em 2005, quando o Grupo Gay da Bahia contabilizou 81 casos. E esses números são apenas o pouco que sabemos, porque o Estado não investiga. São estatísticas informadas por uma organização da sociedade civil, recolhidas de matérias publicadas na imprensa e informação das famílias. O número real, portanto, deve ser maior. Kaique é mais um nessa estarrecedora lista de mortos com a qual o Brasil convive com naturalidade. Sua morte não é uma exceção, não surpreende ninguém, não abala o país. 

A Presidenta, como sempre, não disse nada. Para o governo Dilma, aliado do fundamentalismo religioso e das máfias que pregam o ódio contra todos aqueles que amam diferente, a morte desses meninos não é um fato importante, que mereça a atenção do Estado. A própria Presidenta já disse, justificando o cancelamento de políticas públicas de prevenção e combate à homofobia e ao buyilling nas escolas, que não faria "propaganda da homossexualidade", como se aquilo fosse possível. Vocês já imaginaram um governante dizendo, para explicar por que se opõe a qualquer política pública contra o racismo, que não admitirá a "propaganda da negritude"? Como eu já escrevi tempo atrás, em ocasião de outros assassinatos como este, em cada caso aparece, como pano de fundo, o discurso de ódio alimentado por igrejas caça-níquel e pela bancada fundamentalista no Congresso federal, que em 2013 ganhou de cínico presente, com o apoio da bancada governista, a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. 

É claro que a violência é praticada por pessoas violentas e os agressores são responsáveis por seus atos, mas não é por acaso que as vítimas dessas agressões sejam, repetidamente, jovens homossexuais, e que muitas vezes as pancadas venham acompanhadas por citações bíblicas. A culpa não é da Bíblia, mas dos charlatães que, em nome de uma fé que não têm, distorcem seu texto e seu contexto para usá-la contra a população LGBT, pregando o ódio e convocando a violência. Eles fazem isso por dinheiro e poder — ou você acha que realmente acreditam em alguma coisa? — e o resultado é um país que já se acostumou a assistir no Jornal Nacional à morte de mais um jovem gay, mais uma jovem lésbica, mais uma travesti ou uma pessoa transexual, vítimas do ódio irracional que os fundamentalistas promovem. Essa loucura tem de parar! E tem que parar a hipocrisia e o oportunismo dos políticos sem coragem que fazem de conta que não veem o que acontece e continuam subindo fazendo acordos com o fundamentalismo para ganhar minutos de TV e palanques na campanha. Isso custa vidas! Semanas atrás, o Senado federal enterrou o PLC-122, um projeto de lei que pretendia equiparar a homofobia ao racismo, agravando as penas dos crimes de ódio contra a população LGBT e punindo as injúrias homofóbicas e a incitação à violência e ao preconceito. 

É público que eu tenho diferenças de concepção com o texto desse projeto, porque acho que não é apenas pela via do direito penal que vamos acabar com a homofobia e porque acredito que o aumento do estado penal, inclusive nesses casos, não é uma boa ideia. Acredito que a homofobia deve ser crime, sim, e que não pode receber um tratamento diferente ao que recebem os crimes de motivação racista. Acredito, também, que os crimes violentos cometidos por motivo de ódio contra alguma das "categorias suspeitas" que o direito internacional reconhece (negros, judeus, mulheres, homossexuais, transexuais, estrangeiros de nacionalidades estigmatizadas, pessoas com deficiência etc.) devem ter suas penas agravadas, e que as injúrias e atos discriminatórios não-violentos devem receber penas alternativas — não a cesta básica ou a simples multa, mas penas socioeducativas que sirvam para "curar" essa doença social que chamamos preconceito. 

Contudo, também acredito que com isso não basta e que o direito penal não pode ser o eixo da política pública contra esse problema: precisamos de programas contra o buylling nas escolas, de campanhas nacionais contra o preconceito, de investimento público em políticas em favor da diversidade, de uma legislação que permita às pessoas se defenderem da discriminação no trabalho, no acesso aos serviços públicos e em outros âmbitos da vida social. Precisamos de uma forte e decidida ação dos poderes públicos para acabar com a violência homofóbica e com todas as formas de discriminação legal que a legitimam, por isso meu mandato impulsionou a campanha pelo casamento igualitário e a lei de identidade de gênero e promove regras para a inclusão e políticas afirmativas que favoreçam as minorias estigmatizadas. 

Contudo, a decisão do Senado de enterrar o PLC-122 não foi motivada por uma discussão séria sobre qual é a melhor política contra a homo/lesbo/transfobia, mas pela decisão da maioria dos senadores de que não haja nenhuma política contra ela. Não é por acaso que o pastor Silas Malafaia, um dos líderes do Ku Klux Klan antigay brasileiro, parabenizou os senadores e, em especial, o senador Lindberg Farias, um dos líderes da causa homofóbica no governista Partido dos Trabalhadores. E o enterro do PLC-122 veio coroar uma política de Estado, implementada pelo governo Dilma, que incluiu o cancelamento do programa "Escola sem homofobia", a destruição de todos os programas e projetos contra a discriminação no âmbito da saúde pública, a oposição ao casamento igualitário (regulamentado pelo Conselho Nacional da Justiça após uma ação promovida pelo meu mandato junto ao PSOL e à ARPEN-RJ, mas ainda engavetado no Congresso), além daquela desastrada declaração da Presidenta sobre a "propaganda homossexual", em linha com a retórica internacionalmente repudiada do governo russo de Vladimir Putin. 

Em meio a tudo isso, Kaique foi morto. Mais um. E mais outros virão. Quantos? De quantos mortos o Brasil precisa para reagir? Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que "desce o pau", como o pastor Malafaia pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um Kaique é morto. Eles também são assassinos. Como deputado federal, mas também como cidadão gay desse país, e antes disso tudo, como ser humano não consegue conviver com a violência e o ódio como se fossem naturais, ficarei à disposição da família e dos amigos de Kaique e farei tudo o que puder para que esse e outros crimes sejam esclarecidos e não fiquem impunes. Como dizia o poeta Pablo Neruda, chileno como Daniel Zamudio, "por esses mortos, nossos mortos, eu peço castigo".

Jean Wyllys é deputado federal pelo PSOL.