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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vamos acabar com a guerra às drogas !

Concordando em gênero, número e grau, assinei. Já somos quase quatrocentas das quinhentas mil assinaturas necessárias. Acenda, ops, assine você também!

Beijos

Beto Volpe


Descrição da imagem: anúncio em estilão anos 50 do produto Marijuana escrito acima de um rapaz que fuma, muuuuito sorridente, um cachimbo sobre os dizeres: "enfim, não é crack' (alusão à política de redução de danos no uso de drogas).


Em dias nós podemos ver o começo do fim da 'guerra às drogas'. O tráfico ilegal de drogas é a maior ameaça à segurança da nossa região, mas essa guerra brutal falhou completamente em conter a praga da drogadição, ao custo de inúmeras vidas, da devastação de nossas comunidades e do afunilamento de trilhões de dólares em violentas redes de crime organizado.Especialistas concordam que a política mais sensata é acabar com a guerra às drogas e legalizá-las, mas a maioria dos políticos tem medo de tocar no assunto. Em dias, uma comissão global incluindo antigos chefes de estado e altos membros da política externa do Reino Unido, União Europeia, Estados Unidos e México irão quebrar o tabu e pedir publicamente novas abordagens, inclusive a descriminalização e legalização de drogas.


Este pode ser um momento único -- se um número suficiente de nós pedir um fim a essa loucura. Políticos dizem que entendem que a guerra às drogas falhou, mas alegam que a sociedade não está pronta para uma alternativa. Vamos mostrar a eles que não apenas aceitamos uma política sã e humana -- nós a exigimos. Clique abaixo para assinar a petição e partilhe com todo mundo -- se nós alcançarmos 1 milhão de vozes, ela será entregue pessoalmente aos líderes mundiais pela comissão global: http://www.avaaz.org/po/end_the_war_on_drugs_la/?cl=1087067598&v=9225 Nos últimos 50 anos as políticas atuais de combate às drogas falharam em toda a América Latina, mas o debate público está estagnado no lodo do medo, da corrupção e da falta de informação. Todos, até o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, que é responsável por reforçar essa abordagem, concordam -- organizar militares e polícia para queimar plantações de drogas em fazendas, caçar traficantes, e aprisionar pequenos traficantes e usuários – tem sido completamente improdutivo. E ao custo de muitas vidas humanas - do Brasil ao México, e aos Estados Unidos, o negócio ilegal de drogas está destruindo nossos países, enquanto a drogadição, as mortes por overdose e as contaminações por HIV/AIDS continuam a subir.


Enquanto isso, países com uma política menos severa -- como Suíça, Portugal, Holanda e Austrália -- não assistiram à explosão no uso de drogas que os proponentes da guerra às drogas predisseram. Ao invés disso, eles assistiram à redução significativa em crimes relacionados a drogas, drogadições e mortes, e são capazes de focar de modo direto na destruição de impérios criminosos. Lobbies poderosos impedem o caminho da mudança, inclusive militares, polícias e departamentos prisionais cujos orçamentos estão em jogo. E políticos de toda nossa região temem ser abandonados por seus eleitores se apoiarem abordagens alternativas. Mas pesquisas de opinião mostram que cidadãos de todo o mundo sabem que a abordagem atual é uma catástrofe. E liderados pelo presidente Cardozo, muitos Ministros e Chefes de Estado manifestaram-se pela reforma depois de deixar seus cargos.


O momento está finalmente chegando de discutir novas políticas na América Latina, Estados Unidos e outras partes do mundo que estão devastadas por essa política desastrosa. Se pudermos criar uma manifestação global nos próximos dias para apoiar os pedidos corajosos da Comissão Global de Política sobre Drogas, nós poderemos superar as desculpas estagnadas para o status quo. Em nossas vozes está a chave da mudança -- assine a petição e divulgue:http://www.avaaz.org/po/end_the_war_on_drugs_la/?cl=1087067598&v=9225 Nós temos uma chance de entrar no capítulo final dessa 'guerra' violenta que está destruindo milhões de vidas. A opinião pública irá determinar se essa política catastrófica será finalizada ou se políticos continuarão a nos usar como desculpa para evitar a reforma. Vamos nos unir com urgência para empurrar nossos líderes para fora da dúvida e do medo, para cruzar a fronteira e entrar no domínio da razão.

Com esperança e determinação, Luis, Alice, Laura, Ricken, Maria Paz e toda a equipe Avaaz


FONTES:


Drogas e Democracia: Rumo a uma mudança de Paradigma, Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democraciahttp://www.drogasedemocracia.org/Arquivos/livro_port_03.pdfAvaliação da Política sobre Drogas dos Estados Unidoshttp://www.drogasedemocracia.org/Arquivos/peter_reuter_portugues.pdf/Drogas. Alternativas à "guerra"http://www.idpc.net/pt-br/publications/drogas-alternativas-a-guerra“Guerra às drogas mostrou-se ineficiente”, afirma presidente da Fiocruzhttp://www.planetaosasco.com/oeste/index.php?/2011051613610/Nosso-pais/guerra-as-drogas-mostrou-se-ineficiente-afirma-presidente-da-fiocruz.htmlInovações Lesislativas em Políticas sobre Drogashttp://comunidadesegura.com.br/pt-br/node/47715Os maiores massacres promovidos pelo narcotráfico no Méxicohttp://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/05/20/os-maiores-massacres-promovidos-pelo-narcotrafico-no-mexico-924507620.aspDrogas arrastam mulheres para o comando do tráficohttp://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=973987A insustentável guerra às drogas http://www.brasildefato.com.br/node/5269A Comissão Mundial sobre Política de Drogas, que vai pedir à ONU para acabar com a guerra contra as drogas (em Inglês)http://www.globalcommissionondrugs.org/Documents.aspx

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Encontro das Águas



Amazônia, terra das águas, da ópera e das lágrimas. Lágrimas que banharam, além do meu, os rostos de boa parte da audiência presente à mesa de abertura do 5º Encontro Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS em Manaus. O representante dos jovens à mesa, o eloquente e gatíssimo José Rayan provocou lágrimas de orgulho, alegria e esperança que, ao invés de salgadas e com gosto de soro caseiro, corriam docemente como que promovendo um novo encontro das águas com o mesmo significado: Vida!


O dia de ontem foi bem agitado com a chegada de vários participantes de todo canto do país ao som de gritos e gritinhos, de saudades sendo apagadas. No meio da tarde pegamos um barco muito agradável onde a galera não parou de agitar, conversar, dar pinta no microfone até o momento mágico e esperado acontecer: o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, um espetáculo emocionante que nos fez sentir cruzando uma fronteira natural, um portal sabe-se lá para onde. Clichê que sou, não resisti e entoei Ebony and Ivory (M. Jackson & P. McCartney) celebrando o momento. No retorno fomos surpreendidos por um evento raro por aqui, chuva forte. Era água por todo lado, parecia que a natureza estava dando sinais do que viria à noite.


Composta a mesa foi possível observar a diversidade e o comprometimento dos atores ali presentes. Eduardo Barbosa, representando o Departamento Nacional DST/AIDS e Hepatites Virais, deu o tom destacando o evento como um "momento ímpar" da história da luta contra a AIDS lembrando de ativistas como Bete Franco que participaram há muito tempo (neste nosso universo relativo) do processo de empoderamento dos adolescentes e jovens com HIV rumo à cidadania. Processo que pudemos observar durante o encontro da Rede Nacional de Pessoas com HIV realizado aqui mesmo, em Manaus, no ano de 2007. Sete jovens aqui estavam e já haviam dado pinta de que isso acabaria em Rede. A Rede Nacional de J&A Vivendo com HIV/AIDS, presente em toda sua maravilhosa diversidade cultural, étnica, de gênero e de amor.


Que também se emocionaram com a fala de Disney, representando o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, que nos enlevou com sua simples, delicada, forte e motivadora forma de lutar. A mesma comoção foi provocada pela representante do Ministério da Educação que, professora que é, externou sua felicidade em estar presente e que o evento significa na prática o que se espera fortalecer no ambiente escolar: "saber o significado do que é ir além". E não é possível deixar de destacar a aclamada presença de Fransérgio, conselheiro nacional da juventude, que chacoalhou a galera, incentivando o protagonismo e proatividade de jovens e adolescentes nos espaços de articulação, devidamente aparteado por Thiago, jovem de MG que frisou a importância de estimular e efetuar, além da ocupação, a qualificação de J&A sobre o funcionamento desses espaços para uma maior incidência política.


Mas o grande momento da noite foi mesmo a primeira fala da mesa. a de José Rayan. Havia muito tempo que alguém não me arrancava lágrimas tão densas pela esperança e pela fé renovadas em um futuro mais justo e harmonioso. A eloquência e propriedade com que ele discorreu sobre o histórico e papel da Rede, o carinho e delicadeza com que expressava sua preocupação com o bem estar de todos e todas e, principalmente, a força e indignação ao discorrer sobre problemas enfrentados para uma assistência integral citando, para matar de orgulho e paixão este pobre e modesto leonino, o episódio de desabastecimento de medicamentos do ano passado e o uso terapêutico das vuvuzelas na abertura do Congresso de Prevenção, considerado inadequado pelo então ministro e por alguns 'ativistas'.


Rayan, e quando eu digo Rayan digo para toda a Rede J&A, você tem toda razão ao dizer que o/a jovem que vive com HIV/AIDS não é somente isso, mas é um ser que trabalha, ama e deseja, que tem conflitos e esperanças. Esperanças mais do que fundadas, pois vocês têm características que podem transformar a acomodação que vivemos com relação à epidemia. A urgência e a indignação da juventude são a urgência e a indignação que precisamos retomar para combater a AIDS e garantir os direitos conquistados nos espaços de articulação. A apropriação dos recursos tecnológicos atuais que , a despeito do que pensam alguns seres pré históricos, são um espaço legítimo para se articular em rede e tomar decisões rápidas como o HIV faz. Em outras palavras, vocês são tão rápidos quanto as eternas mutações da epidemia de AIDS. E o poder, como você mencionou, de sinalizar um caminho mais eficiente para os demais segmentos do MOVAIDS, todos com eventos políticos durante este ano.


Esperança, vida, águas.


Obrigado, Amazônia, Obrigado, jovens e adolescentes vivendo com HIV/AIDS que estão me proporcionando, como disse Edu, um momento ímpar em minha vida. Momento de segurança, pois minha vida está em boas mãos. De que, doravante, as lágrimas terão o doce gosto da Vida e da Cidadania.


Beto Volpe

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Pé na Taba, galera!!!



Descrição da imagem: desenho da cúpula do Teatro Amazonas com duas grandes asas de penas brancas com uma bandeira brasileira estilizada como base e abaixo o nome do evento.


Pés e mente na Taba. O 5º Encontro Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS, a rolar entre amanhã e domingo, já demonstrou para mim o que eu esperava: presteza desde os primeiros contatos, um receptivo de primeira no aeroporto e hotel e a galera já a milhão, programando-se para as atividades vindouras. Como a chegada ao hotel foi já pela madruga acabei acordando tarde e perdendo o café da manhã. Após o almoço onde conheci os demais membros da comissão organizadora dei uma escapadela para conhecer o Teatro Amazonas, sonho antigo. E fui surpreendido pela notícia de que de hoje a sexta acontecerão os ensaios para a apresentação de sábado, ao ar livre (super estrutura armada na lateral do teatro), de trechos de peças líricas já apresentadas no Amazonas, como Tristão e Isolda, Caminho das Carmelitas e outros. Quem diria que os jovens me proporcionariam oportunidade tão rara.

Eu imaginaria. Pois foi com esse raciocínio que declarei, ao final da reunião das redes de pessoas com HIV ao encerramento do Congresso de Prevenção de Brasília, que a rede de jovens tem muito a ensinar às demais sobre o enfrentamento à epidemia. A juventude de hoje tem um componente essencial para o sucesso da luta: a rapidez. A presteza e agilidade dos 140 caracteres é a velocidade do vírus e creio seja o principal legado que se espera desse evento que, em minha visão, pode apresentar aos demais eventos políticos deste ano uma forma mais apaixonada e direta de se combater o HIV e muitos de seus efeitos colaterais.



Muita agitação, organização dos kits de material, listas disso e daquilo... E vi que todos terão o mesmo tratamento que eu: caloroso como Manaus e com direito a ópera!!! Visitem o site do encontro: http://encontromanaus2011.webnode.com/cedeca-pe-na-taba/



Parabéns ao CEDECA Pé na Taba do Amazonas, Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS e todos os parceiros que possibilitaram esse encontro.



Hoje à noite a idéia é pirarucu, vamos ver...



Beto Volpe

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Walt Disney previu tudo...



Como proteger sua vagina da umidificação satânica...

Pessoal, não onsegui resistir e posto esse serviço de utilidade púbica para que minhas amigas também fiquem sequinhas em Cristo. Como Cleyciane, a fofa da foto ao lado, uma serva de Deus. Ela dá dicas de como fazer uma péssima higiene íntima e extrair de nossos corações e mentes o pecado do amor. Erros de grafia por conta da autora.
Beto Volpe


Descrição da imagem: Cley com as mãos espalmadas e olhos fechados e com um sorriso enigmático. Não se sabe se é por conta da unção ou se ela está satanicamente umidificada..



Toda mulher ungida sabe que quando a vagina fica molhada é porque Satanás está por perto!! Quando eu era Oca até quando via dois cachórros fornicando na rua eu ficava com a vagina umidificada, molhava tanto que até aparecia na calça jeans.
Hoje como sou uma mulher ungida, tomo alguns cuidados para que isso não aconteça. Pois ao presenciarmos qualquer tipo de fornicação, a vagina fica úmida como se Satanás a tivesse regado com pecado e nem as mulheres de bem estão livres disso.
Por isso fiz uma listinha de dicas para todas as mulheres ungidas. Dicas valiosas para que Satanás nem ouse chegar perto de sua vagina.



Vamos conferir:
- Evite lavar a vagina com os dedos ou chuverinho, prefira a lavagem rápida e superficial, sem muito toque;- Não olhe para a língua das lésbicas masculinas;
- Evite comer bananas, cenoura e outros legumes com formato de pênis. Se for comer, os corte de olhos fechados, para que você não veja o formato do vegetal;
- Não use bidê após defecar;
- Não deixe eu namorado colocar as mãos em seus seios, vagina, ânus, braços, pescoço, barriga... permita apenas que ele pegue em suas mãos, pois o fogo satânico pode subir e sua vagina molhar;- Só coma linguiças e salsichas se elas forem picadinhas;
- Não escute músicas de cantores fornicadores como Fábio Junior, Maria Gadú, Leonardo e outros;- Não chupe picolé, prefira sorvete de massa com colherzinha;- Não use calcinhas que entrem em sua vagina;
- Não deixe homens e lésbicas masculinas a encoxarem em coletivos, como ônibus, metrô, trem... se sentir uma aproximação desvie o quadril ou se solte um gás intestinal para que o agressor se distancie;- Em dias quentes não refresque a vagina com gelo;
- Evite usar o celular no vibra call (chamada vibratória em inglês)- Não coloque travesseiro entre as pernas para dormir;
- Desvie o olhar ao ver cachórros fornicando;
- Não use absorvente de introdução;- Ao acordar, coloque a mão sobre sua órgã sexual, ore em línguas e peça para que o Senhor a proteja de todo o mal;
- Evite olhar para o volume da calça de homens negros;
- Não marque consulta com ginecologista do sexo masculino;
Alguns dizem que Deus faz com que a nossa vagina fique molhada para que o pênis entre mas fácil, mas isso é mentira!! Se for fazer sexo reprodutivo com o seu varão, lubrifique sua vagina com óleo ungido para dar proteção e para que o esperma fecundador dele chegue todo feliz em Cristo em seu úngido óvulo!!


Espero que tenham gostado de minhas dicas, pois elas também servem para a anti-sensualização!! Ai, como adoro passar conhecimento!!

Cley é inteligente, Cley é exemplo, Cley é ungida!! Cley é sequinha em Cristo!

terça-feira, 17 de maio de 2011

COMPROMISSO PÚBLICO

Descrição da imagem: silhueta humana à beira de um penhasco tendo ao fundo um grande e alaranjado Sol e acima uma revoada de aves... Não se sabe ao certo se ele está em êxtase com o cosmo ou à beira do suicídio, na verdade... Fonte: stelaravreluk.blogspot.com



Eu, Beto Volpe, leonino de 1961, nascido e residente na Ilha de São Vicente, litoral de SP, tabagista desde 1976, firmo aqui meu compromisso em parar de fumar tão pronto termine o maço em uso. São seis cigarros para a abstinência de nicoina. Caso eu incorra no rompimento desse compromisso, autorizo punições virtuais ou físicas, menos falar da mãe e bater na cara. Podem dar lição de moral, xingar, algemar, chicotear que eu aceitarei o castigo. Dou preferência aos físicos.

Esse ímpeto aconteceu ontem em conversa com meu grande amigo Edson que me relatou visita por ele feita a um amigo policial cujo pé fôra amputado por conta do entupimento de uma artéria no pescoço. Seu olhar com jeitão premonitório me pegou tão fundo quanto essa união aparentemente escrúxula que é a do pé com o pescoço. E firmamos esse compromisso mútuo em parar de fumar, só cumprir essa tabela final.


São 35 anos de união, acabamos de celebrar nossas Bodas de Coral. O cigarro fez parte dos mais prazerosos e dos mais terríveis momentos de minha vida., a cada gozo e a cada lágrima. Mas que chegou ao final. Naturalmente que continuarei a usar nossa aliança, mas para acender outras coisas que não cigaros de nicotina.

Amigas e amigos, assim como abri as portas para me bullynarem, abro-as para mensagens de incentivo. Elas somarão aos adesivos, à ioga, aos exercícios que foram retomados para o que espero seja a pedra fundamental de um renascimento.


Mais um, rs...

Beijos confiantes

Beto Volpe

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sein Kampf

Concordo com os que dizem que não devemos dar visibilidade a esse tipo de gente, mas essa carta ao deputado Jair Messias Bolsonaro enviada pelo professor José Ribamar Bessa Freire é absolutamente genial.

Beto Volpe

Descrição da imagem: caricatura de Bolsonaro com uniforme, bigodinho, topete e pega rapaz de Adolf Hitler. Fonte: blogdogutosantos.blogspot.com



Quando o finado Waldick Soriano entrava no centro de lazer ‘Lá Hoje’, emManaus, cantando o bolero A Carta, as meninas iam ao delírio, especialmentecom a frase final: “Espero que um dia / tudo se combine / e a quem ama nãoseja negado / o direito de ser amado”. Ele dava uma paradinha em “ser” eesgoleava: “aaaaamado”. Esse modelo epistolar do cantor baiano inspirou aforma e o conteúdo da carta abaixo enviada ao deputado Bolsonaro (PP- vixe,vixe!). Ai vai.


Manaus, 15 de maio de 2011

Excelentíssimo Sr. Deputado Jair Messias Bolsonaro.

Saudações.

Escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que senti na última quinta-feira, quando vi sua imagem na TV, atrás da senadora Marta Suplicy (PT-SP). Ela concedia entrevista sobre o projeto de lei que tipifica como crime a homofobia. V. Ex.ª , muito enxerido, interrompeu-a comu m panfleto antigay, promovendo o maior arranca-rabo com a senadora Marinor Brito (PSOL-PA). Sua truculência, deputado, me faz lembrar o Nego Valdir, da Rua das Flores, no Bairro de Aparecida. Nem seu Anquises nem dona Almerinda entendiam porque Valdir, o filho caçula, odiava tanto os homossexuais. É verdade que, na década de 1950-60, quase todo mundo era preconceituoso, os moleques riam, debochavam, faziam piadinha, mas ninguém era tão fervorosamente e tão visceralmente virulento como o Valdir. Quando ele via um cara mais delicado, um fiu-fiu, sentava logo a porrada, proclamando sua própria macheza aos quatro ventos. Parece que bater em gays o tornava mais macho.

Era um ódio doentio. Um dia, num banho coletivo de igarapé, sem mais nem menos, Valdir quase mata afogado no bosteiro de São Vicente o Heraldinho Bebê, suspeito de ‘correr na floresta’, segundo as más línguas. O que é que Valdir perdia ou deixava de ganhar com a existência de mariquinhas? Nada. Emque o fato de alguém desmunhecar prejudicava a vida dele? Em nada. Então, por que tanta violência? Mistério. O certo é que o Nego Valdir, durante algum tempo, foi uma espécie de Bolsonaro amazonense, aterrorizando qualquer um que fosse suspeito de ‘carregar bandeja’.

Deputado Bolsonaro, V. Ex.ª, em entrevista no ano passado, deu a receita para acabar com as bichas, preconizando surras: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho leva um coro, ele muda o comportamento dele. Tem muita gente que diz: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”. V. Ex.ª acha que o homossexualismo é uma doença que se cura com porrada. Não sei se V. Ex.ª apanhou muito, se está falando por experiência própria. Mas esse era também o pensamento do Valdir, sua alma gêmea. Macho pacas!

A raiva descabida do Nego Valdir contra os homossexuais, como a sua, deputado, também foi transferida, muitas vezes, para as mulheres. V. Ex.ª já agrediu várias delas em público. O seu discurso, contraditoriamente, exalta sempre a própria masculinidade. Na briga com a senadora paraense Marinor, V.Ex.ª declarou aos berros:- Já que está dificil ter macho por aí, eu estou me apresentando como macho. Ela (Marinor) deu azar duas vezes: uma, que sou casado, e outra, que ela não me interessa. É muito ruim. Não me interessa.


Pois é, com idêntica fúria proclamando macheza, o Nego Valdir também dizia que mulheres não o interessavam. Com unhas afiadas como navalha, Valdir arranhou um dia as costas de uma das paraibanas, filha do seu Walter Cordeiro, e ainda ameaçou dar porrada na minha irmã Tequinha, quando ela protestou. Taí a Tequinha que não me deixa mentir.


V. Ex.ª insinuou razões estéticas para justificar a falta de interesse na senadora Marinor. Será? E a atual ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário (PT-RS), inteligente e sensível, de beleza unanimemente estonteante? Em vez de lhe dar merecidos carinhos, V. Ex.ª discutiu com ela, em novembrode 2003, diante das câmaras de televisão, chamou-a de “vagabunda”, empurrou-a e ameaçou esbofeteá-la. Macho pacas! Como o Valdir, sua alma gêmea. V. Ex.ª não sabe lidar com o sexo feminino, da mesma forma que não sabe conviver com homossexuais. Por isso, tantas bravatas, gritos e ameaças. Pai de quatro filhos homens, se tivesse tido pelo menos uma única filha ou um filho declaradamente gay, poderia, talvez, ser educado por eles, que certamente estariam cantarolando em casa a música do Pepeu Gomes:


“Olhei tudo que aprendi / e um belo dia eu vi / Uh! Uh! Uh! / que ser um homem feminino / não fere o meu lado masculino / Se Deus é menina e menino / Sou masculino e feminino”.


Quando não tem um gay ou uma mulher por perto, o objeto de sua agressão pode ser qualquer um, desde que seja frágil. Serve negro, como Preta Gil, ou índia como Joênia Wapaixana. Num pronunciamento em audiência na Câmara dos Deputados sobre a demarcação da terra indígena Raposa/Serra do Sol, V. Ex.ª declarou que os índios eram todos “fedorentos e não educados, não falantes de nossa língua” e, por isso, não tinham direito à terra. “O índio devia comer capim para voltar às suas origens”. Na ocasião, V. Ex.ª interrompeu o debate, adiando a decisão sobre uma questão vital para o Brasil. A advogada Joênia Wapichana respondeu à agressão descabida, dizendo: “Temos cheiro de terra, porque da terra é quevivemos”. O sateré-mawé Jecinaldo Barbosa perdeu a paciência e fez o que quase todo o Brasil gostaria de fazer: jogou um copo de água na cara de V.Ex.ª. V. Ex.ª não gosta de gays, de mulheres, de índios, nem do debate. Faz um discurso que seria apenas burro, ‘folclórico’ e ‘troglodita’ se não incitasse à violência e ao crime. O antropólogo da UFBA, Luiz Mott, registrou 205 assassinatos de gays no Brasil de janeiro a novembro de 2010.


De onde vem tanto ódio e tanta intolerância com a diversidade e a diferença? O seu, eu não sei. Mas o seu Anquises e dona Almerida descobriram que o do Valdir, sua alma gêmea, era pura inveja. Olhe só o que aconteceu, deputado. Aos 15 anos, Valdir, o terror dos gays de Aparecida, resolveu escancarar, assumindo corajosamente a sua homossexualidade e aí sim, foi macho pacas. Saiu do armário. Adotou o nome de Katya Cylene, assim com dois ipisilones. Pintou as unhas com cores berrantes, vestiu roupas com toques femininos, calçou sapato alto e se tornou uma pessoa adorável, tolerante e alegre. Deixou de agredir mulheres e gays. Todas as tardes, Valdyr Katya Sylene, com tres ipisilones, comparecia à banca de tacacá da dona Alvina, levando de casa sua própria cuia personalizada, uma peça artística de Santarém, feita pelas índias de Monte Alegre, toda bordada, onde aparecia a imagem de uma iara poderosa saindo das águas de um lago amazônico, com a cara da Charufe Nasser, a sultana dos seringais.


Um dia, senhor deputado, em 2006, caminhando pelas ruas de Quito, Equador, para onde fui participar de um evento, vi uma pichação com letras garrafais num muro próximo à Praça de Armas, que me enterneceu:


“Hetero de costumbre, gay de corazón”.


É isso aí, deputado, Vossa Excelência não corre qualquer “perigo”, pode ser gay apenas de coração, se humanizando, e convivendo com quem é diferente. Mas se quiser seguir o exemplo de sua alma gêmea, nós, que somos gay de coração, damos o maior apoio a V. Ex.ª, não deixaremos ninguém espancá-lo. Deputado, seja mais Messias e menos Bolsonaro. Vá tomar tacacá, deputado. Se precisar, Manaus te oferece uma cuia bordada com florzinhas e toda sua solidariedade


Amos. Atos. Obros.


Taquiprati.


O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dosPovos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em MemóriaSocial (UNIRIO).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A HISTÓRIA DOS AMIGOS, ou A AIDS NA MINHA CASA

Compartilho artigo de autoria de Cláudio Monteiro sobre o museu de grandes novidades da AIDS. Saboreiem.


Beto Volpe


Descrição da imagem: dois saborosos homens de costas, sob um guarda chuvas, observando o horizonte oceânico e provavelmente imaginando o infinito de seu amor...


Domingo a noite. Ano de 2011.
Um amigo que não via há poucos meses me procura, precisando conversar.
Motivo: a recentíssima descoberta de que é soropositivo.
Conheço Chico[1] há pelo menos cinco anos, e ele descobriu-se viver com o HIV aos vinte sete. Há um ano atrás Chico comunicou-me estar feliz com o novo namorado, estar fazendo planos de conjugalidade, mas que, havia um ponto de insegurança: Fernando, seu companheiro, é soropositivo. Fiz o que se faz nessas horas: vamos com calma, com muita calma trabalhando esta situação de uma suposta sorodiscordância conjugal, de forma a que, não só o sexo seja protegido, mas que, principalmente se proteja o amor. E no momento certo, Chico fez o teste. E o casal revelou-se positivamente soroconcordante. E todas as evidencias nos levam a crer que Chico infectou-se antes de conhecer Fernando.
Surpresa!
Para Chico, para Fernando, e para mim.
E num domingo a noite materializou-se na minha frente, sentada em meu quarto, talvez a mais desconcertante das tendências atuais da epidemia de HIV/AIDS: a crescente incidência de casos novos de AIDS entre os gays. Gays jovens.
Chico tem menos tempo de vida do que a epidemia de AIDS no Brasil.


Mas a história de Chico, talvez por meu comprometimento emocional com ela ser muito forte (Chico é o amigo com o qual passamos o Natal, com o qual podemos contar na organização de todo Primeiro de Dezembro[2], e que tem a liberdade de nos visitar sem telefonar antes), antes de me lançar em divagações epidemiológicas, me jogou numa espécie de túnel do tempo, ou de queda no vácuo, como se de repente, representasse uma síntese das inúmeras vezes que passei por esta situação: a de acolher – como profissional de saúde – a uma pessoa cujos vínculos antecedem a revelação diagnóstica.
Ou, de forma pragmática: por todos saberem que trabalho com AIDS, meus amigos, ao se descobrirem soropositivos, me procuram para conversar.
A primeira vez que fui procurado por um amigo para este fim, foi ainda em 1985.
E de lá para cá:
1985, Isaac, morto em 1991, aos 27 anos.
1986, Ivan. Um dos maiores casos de longevidade pós diagnóstico. Vivo.
1897, Eduardo, morto em 1996, aos 56 anos.
1988, João Carlos, morto em 1994, aos 37 anos.
1989...1995...2000...2011...
Constatei que perdi as contas...


E a história de Chico fez com que minha constatação fosse, minimamente, patética. Pois no mesmo momento, me dei conta de que esta não havia sido a última vez, que virão os Luizes, os Thiagos, os Victors.... E eu disse isto a Chico.
As gerações de amigos se sucedem, e a mesma situação também. Ou seja, mudam-se os conceitos, não há mais grupos de risco, mas, pessoas mais ou menos vulneráveis; não há homossexuais, mas seres integrantes de um bizarro universo amplamente denominado HSH[3]. E todas estas inovações interpretativas ainda que possam ter mascarado, ou minimizado a ascendente “nova onda da AIDS entre os gays”, agora, a evidenciam.
E a evidencia histórica é inegável. Os gays são, e sempre foram mais suscetíveis (e, obviamente estamos nos referindo a uma suscetibilidade social, e não biologicamente determinada) à AIDS. Tanto que nos nada saudosos anos oitenta foram culpabilizados pelo espalhamento da nova peste, comparáveis aos ratos que disseminaram a Peste Negra.


Se há muito tempo não se fala mais em “peste gay”, é porque, em parte, a invisibilidade conferida à AIDS por sua rotinização, cai como uma luva em uma população que a sociedade – como o lixo varrido para baixo do tapete – insiste em invisibilizar: os gays. E esta teimosia social só amplia a vulnerabilidade destes quanto a AIDS, pois, o que não aparece não pode ser alvo de nada. Nem das ações preventivas.
E se os gays antes eram farisaicamente apontados como “culpados” (pela AIDS), hoje, estes mesmos gays (ainda que em outras gerações) podem, com toda justiça, se apresentarem enquanto “vítimas” de uma “cegueira social” imposta a todos pelos mesmos fariseus (as gerações de fariseus sucedem-se também, naturalmente).
A história de Chico teve, por si, o poder atávico de me lançar em queda livre, no vão mais livre ainda que forma a parte interna de uma espiral. Uma espiral formada pela linha do tempo, e, em que cada volta rapidamente visualizo o que foi invibilizado: Isaac, Humberto, Eduardo, João Carlos, Chico...
Em nossa hipocrisia baixamos a guarda.
E agora pagamos – caro – por isso.

Cláudio C. Monteiro Jr é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e mestre em Infectologia em Saúde Pública pelo Instituto de Infectologia em Emílio Ribas. Atua desde 1985 no enfrentamento ao HIV, em organizações governamentais e não governamentais, sendo membro da Pastoral da AIDS, CNBB.

[1] Todos os nomes próprios citados são ficcionais.
[2] Em 1987 o dia Primeiro de Dezembro foi instituído como o Dia Internacional de Luta Contra a AIDS
[3] Homens Que Fazem Sexo Com Homens: Categoria epidemiológica que agrupa os homossexuais e bissexuais masculinos, travestis, transexuais e homens que se definem enquanto heterossexuais, embora eventualmente mantenham relações sexuais com outros homens.

sábado, 7 de maio de 2011

A FAMÍLIA CRESCEU

Artigo publicado na edição de hoje do jornal 'A Tribuna do Litoral Paulista' acompanhando reportagem sobre a decisão do STF. Apesar das alianças terem oxidado nesses anos todos, acho que ainda cabem em um par de dedos calejados..
Descrição da imagem: duas alianças nas cores do arco íris entrelaçadas.

“É como dizer: se o corpo se divide em partes, tanto quanto a alma se divide em princípios, o Direito só tem uma coisa a fazer: tutelar a voluntária mescla de tais partes e princípios numa amorosa unidade. Que termina sendo a própria simbiose do corpo e da alma de pessoas que apenas desejam conciliar pelo modo mais solto e orgânico possível sua dualidade personativa em um sólido conjunto, experimentando aquela nirvânica aritmética amorosa que Jean-Paul Sartre sintetizou na fórmula de que: na matemática do amor, um mais um... é igual a um”

Feliz o país que tem um ministro do Supremo Tribunal Federal que resgata a cidadania de milhões de brasileiros e brasileiras citando Sartre, Jung e Chico Xavier em seu voto.. O relator Senhor Ayres Britto nos deu a certeza da vitória já no início da sessão desta quinta feira e que se confirmou histórica pela unanimidade e por fundamentos como os expostos acima. O reconhecimento da união homo afetiva como ‘família’ resgata mais de cem direitos humanos que eram restritos à população heterossexual. E é um significativo passo rumo ao fim do preconceito e da discriminação que ainda vitima cruelmente tantos homossexuais, tantas lésbicas e travestis em nosso país.

Religiosos e bolsonaros de todo o país estão se revirando nas trevas em que vivem e proclamam o fim da família e da sociedade como a conhecemos. Fala-se muito da luta pelos direitos dos heterossexuais e que existe uma ditadura gay que ameaça, inclusive, nossas crianças com cartilhas nos colégios. Por mais repugnantes que sejam seus argumentos, essas pessoas são bem vindas, pois nos alertam que a vigilância constante é o preço da liberdade, como a própria Bíblia Sagrada diz. Sabemos que comportamentos não mudam com a simples adequação jurídica. A sociedade irá acompanhar a Lei na medida em que for mais esclarecida e sensível à convivência com o diferente.

Não é por acaso que o arco íris simboliza a luta pelos direitos da diversidade sexual. Ele é a prova natural, ou Divina, de que as diferenças, quando em sintonia, produzem resultados espetaculares. Para que isso se torne realidade, bem vinda seja essa vitória no STF que demonstrou em manchetes para todos os leitores, ouvintes e telespectadores do Brasil que somos uma população digna de respeito, pois que somos humanos e humanas como todos e todas os demais. E que não somos uma ameaça para a família convencional. Pelo contrário, acabamos de ser reconhecidos como família também. A família brasileira cresceu em sua diversidade. E na diversidade todos têm a ganhar.

Viva a Constituição! Viva a Família! Viva o Amor! Viva a Vida!

Beto Volpe
Homossexual, ativista e consultor em Direitos Humanos

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Motivação baseada em adversidades

Pessoal, compartilho com vocês um delicioso retorno de atividade desenvolvida junto à Associação Brasileira de Recursos Humanos - ABRH em companhia de minha amiga Denise Rodrigues. Confesso que fiquei muito emocionado e mais motivado que nunca. Obrigado, pessoal da ABRH e contem comigo.



Beto Volpe






Na manhã do último dia 27 de abril, fomos recebidos pela simpática Profa. Miriam na FATEC – Praia Grande, para darmos continuidade aos TEMAS EM DEBATES promovidos mensalmente pela ABRH-SP Regional Baixada Santista e CIESP – Regional de Santos. Além da receptividade, neste dia, tivemos a alegria e a satisfação de assistir a palestra Motivação Baseada em Adversidades, proferida por Beto Volpe com muito bom humor e exemplo de força e superação.O palestrante, Beto Volpe, é articulista da Folha de São Paulo Tribuna do Litoral Paulista e Agências de Notícias da AIDS. À medida que nos acomodávamos nas cadeiras várias perguntas pairavam em nossas cabeças, uma delas: O que fez com que um homem que contraiu HIV há mais de duas décadas, contrariando a medicina, estivesse a nossa frente bem vivo, e ainda mais, esbanjando bom humor?


Talvez o segredo tenha sido a Resilência - “Arte de transformar toda energia de um problema em uma solução criativa”. Assim como dizia o primeiro slide de sua apresentação. Bem humorado Beto inicia sua palestra dizendo que em 1989, quando tinha 28 anos, contraiu o HIV, e que naquele momento viu a sua morte decretada. Nos sete anos seguintes usou e abusou das drogas e da saúde que lhe restava. Os excessos levaram Beto a ter pneumonia, neurotoxoplasmose e candidíase no aparelho digestivo. Então pensava se os amigos estavam morrendo de AIDS, o jeito era gastar-se até a última gota que lhe restava. Contou-nos dos abismos por onde andou, dos 34 kilos, do rosto ”chupadinho”, das 19 cirurgias e todas as adversidades que enfrentou.Com o surgimento de um coquetel de medicamentos vinha a esperança de continuar vivo e lutando contra as adversidades. Para Beto o jogo só termina quando acaba, e ele sobreviveu com a ajuda do coquetel.


E vieram mais adversidades! As pernas e os braços foram afinando e o rosto ficando “chupadinho”. E veio juntamente a depressão, a vontade de não mais sair de casa. E aí então mergulhou em outra droga, agora numa droga do bem, uma tal internet. E surgiram os bate-papos virtuais com outros soropositivos, e juntamente a vontade de criarem uma ONG. E hoje já se foram mais de dez anos de militância, atividade renovou as suas forças e a vontade de viver.Mais a diante quando teve câncer, comenta que já contou piada na primeira sessão de quimioterapia. É alto astral demais para morrer!


Ele falou da história e fundamentos da AIDS e também nos falou da doença no contexto atual com a sociedade e das relações da AIDS com o trabalho.Beto valoriza cada uma de suas dores, e como ele diz sempre, o bicho que veio para matá-lo virou sua fonte de energia. Aprendeu que o sentido da vida é enfrentar as dificuldades com bom humor, e que a vida é muito maior que a AIDS. Pensa que se morresse há 20 anos ninguém sentiria sua falta. Mas que hoje fez a sua história e deixa sua marca no planeta, com ações de ajuda a outros soropositivos, sempre semeando o bem e expandindo esse amor para o próximo. Tem a saúde frágil, mas é mais forte do que antes.


Além do humor e do o amor, ele faz questão de ressaltar a importância do apoio da família na sua recuperação. Preservar a alegria, a motivação pela vida os bons sentimentos faz bem à saúde, e Beto é a prova viva desta tese.O Tema de hoje nos possibilitou muitas reflexões. Muito obrigada Beto pelos seus ensinamentos sobre a vida e superação! Nisto você é mestre!


Por Nadir Paes – Coordenadora de Comunicação e Marketing da ABRH-SP Regional Baixada Santista


Visite o blog do Beto Volpe - www.cargaviral.blogspot.com

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PELO DIREITO À CURA! Publicado em 27/07/2010

Muitas pessoas têm me perguntado, ultimamente, sobre a cura da AIDS. Decidi então republicar este artigo que originalmente o fôra em http://www.aidsedeficiencia2010.blogspot.com/



Descrição da imagem: duas mãos junas em conchinha ofertando um átomo enloouquecido.

A vuvuzela brilhou no país da valsa, depois de roubar a cena na terra do samba. Lá, como cá, ela confirmou aos governos e às agências internacionais que acertaram em cheio na escolha dos temas. ‘Viver Direitos’, no recente Congresso de Prevenção em Brasília, e ‘Direitos Aqui e Agora’, na recém realizada Conferência Internacional de AIDS em Viena, demonstraram uma grande sintonia entre a estratégia brasileira e os objetivos mundiais no enfrentamento è epidemia e que grandes avanços foram feitos, mas ainda falta muito para suprir o básico. Porém, uma vez mais, a virologista Françoise Barré-Sinoussi se destacou ao coordenar uma discussão especial durante a Conferência de Viena, voltando os holofotes para um campo de pesquisas desprezado depois da descoberta do coquetel: a Cura da AIDS. Um Santo Graal esquecido até mesmo pela maioria de nós, por maior que seja nosso desejo de que em um belo dia tudo isso acabe.


Desde que Sinoussi e a equipe de Luc Montagnier isolaram o HIV nos primórdios dos tempos, muito se avançou na ciência e nas ações de enfrentamento à epidemia. No início era o caos, pois até nossos médicos possuíam grandes interrogações em seus olhares. Uma descoberta terapêutica aqui, uma ONG acolá e uma fundamental bandeira: O MUNDO TEM PRESSA NA CURA DA AIDS! Não era possível para a humanidade conviver com uma enfermidade tão sorrateira e cruel que ameaçava não somente aos então rotulados grupos de risco, mas à estabilidade econômica mundial. Era uma bandeira única, todos tinham pressa na cura da AIDS porque ela assustava todo o mundo, desde quem vivia com HIV até as mais altas instâncias das Nações Unidas.

“AIDS: um mundo, uma esperança”. Esse era o lema da Conferência de Vancouver em 1996, demonstrando o desejo de que tudo tivesse fim. Não era à toa, os números daquela época foram os mais negativos até hoje, as internações eram feitas em corredores e recepções dos hospitais e as perspectivas não eram das mais otimistas. Então: FIAT LUX! O mundo foi apresentado a uma estratégia de combate ao HIV, o coquetel, que se mostrava eficaz e aparentemente segura. Parecia o fim da terceira guerra mundial, tamanho o regozijo entre todos nós. E, festejando o fim do pesadelo, passamos a lutar pelo acesso a tal maravilha, a aprofundar questões relacionadas aos direitos humanos e... Esquecemos da cura. E não fomos somente nós, por outros motivos os laboratórios e os investidores também deixaram de lado a solução definitiva e passaram a destinar recursos para o controle da doença, muito lucrativa. Já não havia tanta pressa assim. Afinal, a AIDS tinha se tornado crônica.


Li a frase em 2008 pela primeira vez nesta década, em uma apresentação de teatro da Rede de Pessoas com HIV de Jundiaí, Ao final da peça era descerrada uma faixa com o que surpreendeu a todos por ser o óbvio: O MUNDO TEM PRESSA NA CURA DA AIDS, Como pudemos esquecer disso? Desde então alguns ativistas tornaram essa uma bandeira prioritária de luta e manifestações foram feitas nesse sentido, como no Congresso da Sociedade Brasileira de Infectologia em Goiânia. Agora vem Viena, traz à luz da sociedade algumas promissoras perspectivas nesse sentido e parece que o mundo lembrou, também, que a humanidade não pode conviver com a AIDS, ainda mais com a crescente complexidade que ela vem apresentando. O que falta, para variar, é dinheiro e falta de vontade corporativa. Que avancem as pesquisas em tratamentos, mas que se volte a investir maciçamente em pesquisas para que seja garantido nosso maior direito: o Direito à Cura da AIDS!


Soem as vuvuzelas!!! Tenho AIDS, tenho pressa! A CURA me interessa!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O PULSO AINDA PULSA

Descrição da imagem: visão em primeira pessoa de uma estrada que leva a um lugar ensolarado, mas ainda sob forte tormenta representada pelas nuvens escuras que pairam ameaçadoras.

Foto: apenasfrases.blogspot.com

Ontem pela manhã, mal refeito da maratona Reatech, a maior feira de equipamentos e tecnologias inclusivas para pessoas com deficiência da América Latina, recebi uma péssima notícia pelo Facebook: um amigo de Sampa teria seu pé amputado. Como? Semana passada havíamos comemorado sua última sessão de quimioterapia para combater um câncer que ainda não se sabe de onde veio e as perspectivas eram as melhores! Pois uma trombose decorrente do tratamento havia obstruído as finas artérias do pé e não seria possível preservá-lo. E meu amigo, matriculado no serviço público de tratamento em AIDS, na oncologia de um renomado hospital, agora está pensando em como encarar mais esse desafio de paciência e perseverança que é uma reabilitação para minimizar os impactos de uma deficiência física.

Um tanto angustiado, subi a serra logo após o almoço e após uma pequena espera fui autorizado a entrar na UTI, onde finalmente cheguei a seu leito. Muito magro, fios por todo lado (brincamos sobre sua noção de conectividade), o pé em questão coberto pelo lençol e.... O brilho no olhar! Ele estava lá, ainda que um pouco ofuscado por uma situação extrema para qualquer ser humano, mas estava lá. E era o brilho de uma pessoa que, cortejada pela Morte, insiste em sua relação com a Vida. Isso acalmou meu coração uma barbaridade, o princípio ativo estava mais ativo que nunca e a conversa transcorreu em clima de resignação e otimismo. Mas na hora da despedida não conseguimos evitar uma troca de olhares mais turvos, preocupados com o que virá amanhã.

Voltei para casa bastante abatido, fazia muito tempo que uma situação alheia não me atingia tão duramente Nem tanto pelo episódio de meu amigo, tenho certeza que ele irá superar isso tudo de forma gloriosa. Mas onde iremos parar? Os cortejos mortais têm sido cada vez mais assertivos e qualquer hora dessas não será possível resistir. Por mais que os nervos sejam de aço, a carne é fraca. Primeiro foram as oportunistas, que ceifaram muita gente querida. Aí veio a lipodistrofia, mostrando no espelho que a ameaça ainda estava por perto. Danos ósseos, problemas cardiovasculares, hepáticos, renais, tumores, hanseníase, alterações metabólicas, deficiência e demência. Dentro de pouco tempo nosso prontuário médico mais parecerá a letra de Arnaldo Antunes, da qual pincei o título deste desabafo. Música que, apesar de elencar tudo que é doença, enfatiza que o pulso ainda pulsa.

E enquanto houver pulso, há Vida.

Beto Volpe

terça-feira, 12 de abril de 2011

No mundo da Lua

Descrição da imagem: manchete de jornal americano 'Man Enters Space' (o homen entra no espaço).

Há exatos 50 anos o homem finalmente rompia a barreira que o separava da Lua e das estrelas: Yuri Gagarin fazia o primeiro vôo orbital sobre a Terra ganhando, além de um grande trunfo para a União Soviética na corrida espacial, um admirador com apenas cinco meses de vida intra uterina., onde não existia o azul por ele visto. Oito anos mais tarde Neil Armstrong dava o primeiro passo da humanidade em solo lunar, pendendo a corrida para os americanos e conquistando uma entre milhões de crianças que, absolutamente deslumbradas, tinham sua vocação determinada: ser astronauta. Era verdadeiramente encantador ver o mundo como uma esfera solta no Universo, condenando a raça humana ao convívio entre diferenças, à sobrevivência sem subterfúgios e ao amor sem conveniências.

Claro, não pensei nisso tudo àquela época, mas a sensação de que somos membros de uma só civilização virou certeza, assim como o Fiat Lux passou a ser Big Bang e Adão & Eva uma inspiração para meus futuros pecados. Julio Verne reforçou essa crença de que somos todos iguais perante a Deus e ao DNA e os Secos & Molhados deram o start para a loucura, enchendo minha cabeça de vermes da Lua Cheia. Devorava os livros de astronomia, mas me preocupava minha pouca afinidade com matemática e física. Mas ainda alimentava o sonho de ser astronauta e, apesar de já ser bulinado há tempos (nos diversos sentidos possíveis, incluindo bulling), ver a Terra com espaço para todo o mundo.

Daí em diante a Vida encarregou-se de destruir meus sonhos de astronauta. Meus temores educacionais se concretizaram e tomei o rumo da comunicação, essa sim uma afinidade que carrego no tal DNA. Com muita tristeza vi que meus pés jamais sairiam da Terra e foi aí que decidi que jamais tiraria minha cabeça da Lua, conhecendo Janis, Rita e Raul. E o mundo gritou que não era um só batendo, literalmente, à minha cara com a afirmação de minha sexualidade. Naquela época não se batia com lâmpadas, mas ficou bem claro para mim que o mundo não era universal e que eu fazia parte da banda que não era aceita.

Das duas tristezas a maior, sem dúvida, foi a de não pertencer ao mundo. Eu sabia que, mesmo estando tão distante da Lua e das estrelas, eu continuava pertencendo ao Universo e às suas Leis Naturais. Ao passo que, em um mundo norteado pela conveniência e pelos subterfúgios, a convivência social torna-se bem complicada. Ainda bem que eu decidi continuar com a cabeça no mundo da Lua, mas com os pés bem fincados no chão. Almejar um mundo melhor sem perder a consciência de que vivemos em um ambiente degradado sob todos os aspectos. Sim, a maioria é boa mas é silenciosa e entregue à inércia. Assim como Gagarim quando orbitou a atmosfera terrestre em sua Vostok.

A diferença é que ele tinha as melhores expectativas para seu planeta, ao passo que as nossas parecem cada vez mais próximas de um buraco negro.

Beto Volpe

sexta-feira, 1 de abril de 2011

PRIMEIRO DE ABRIL !!!

Descrição da imagem: desenho de jovem jornaleiro empunhando exemplar de jornal com a manchete "EXTRA".



Causou-me surpresa a declaração de hoje do deputado federal Jair 'Tudo de Ruim" Bolsonaro onde o mesmo se desculpa por suas recentes declarações contra negros, mulheres, gays e pelo menosprezo ao movmento LGBT. Ao final da nota ele diz que faltou com a verdade ao declarar admiração pelos generais presidentes do período da ditadura e que gosta mesmo é de um bom pagodão de laje, junto com a comunidade.

Foi, finalmente, normalizdo o acesso aos sites e listas de discussão relacionados à luta contra a AIDS que haviam travado devido à intensa repercussão a mais um episódio de desabastecimento de medicamentos do coquetel, com representações de todo o país se posicionando e tomando atitudes propositivas, mantendo a bela tradição do movimento de luta contra a AIDS de combatividade e de resultados magníficos. O incalculável número de mensagens e e-mails motivou a paralisação dos servidores.


Outra excelente notícia: a Convenção das Nações Unidas pelos Direitos das Pessoas com Deficiência foi, enfim, regulamentada no Brasil, abrindo caminho para a plena cidadania das pessoas com deficiências e colocando o país em um patamar bastante elevado perante a comunidade internacional. Para que esse fato histórico tenha sido possível foi fundamenal a participação proativa de José Sarney, tradicional aliado pelos plenos direitos das PcD, junto ao Congresso Nacional que, como sempre, respondeu prontamente ao clamor social.

É mesmo um dia iliuminado. O Departamento Nacional DST/AIDS/Hepatites Virais do Ministério da Saúde declarou en reunião junto à sociedade civil, à qual estive presente a convite do próprio Ministério, que um Grupo de Trabalho formado por diversas áreas do Ministério da Saúde e de laboratórios farmacêuticos está elaborando para daqui a um mês um diagnóstico sobre o fluxo de compra e distribuição de remédios. E que, com base nos resultados será possível identificar os pontos críticos desse processo e evitar futuros desabastecimentos do coquetel.

Doutor Greco, as pessoas pelas quais eu falei ontem na reunião, aquelas que já se deitaram com a Morte, que carregam no corpo as cicatrizes da AIDS e que estão sempre em situação limite no que diz respeito a resistência viral e combinação de medicamentos, esperamos que não seja mais um primeiro de abril, como os parágrafos anteriores e também experiências anteriores quando o assunto é assistência farmacêutica. Reafirmo minha empatia e crença nos nobres objetivos de sua pessoa e de seu adjunto, pessoa que me é referência em muitos aspectos. Mas a Vida das pessoas com AIDS tem mais primeiros de abril do que primeiros de dezembro e o doutor assumiu, junto com seu cargo, todas essas nossas histórias de dor, superação e expectativas em tempos mais tranquilos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Vem aí... CAÇA ÀS BRUXAS


Biografia sobre Gandhi o retrata como homossexual e xenófobo

Por essa nem aqueles que acreditam que o mundo é gay esperavam...

Beto Volpe



Descrição da imagem: fotografia de Gandhi


Washington, 28 mar (EFE).- Uma polêmica biografia sobre o ícone pacifista e líder independentista hindu, Mahatma Gandhi, o retrata como homossexual e ressalta seus supostos comentários xenófobos, entre outros aspectos desconhecidos, informa a imprensa local nesta segunda-feira. O livro, intitulado "Great Soul: Mahatma Gandhi and his struggle with Índia" (Uma grande alma: Mahatma Gandhi e sua luta com a Índia, na tradução), foi escrito por Joseph Lelyveld, antigo editor do "The New York Times". De acordo com alguns trechos da biografia divulgados nesta segunda-feira no "The Wall Street Journal", Gandhi estava profundamente apaixonado pelo fisioterapeuta alemão Hermann Kallenbach, pelo qual deixou sua esposa em 1908. Segundo os mesmos trechos, Gandhi escreve para Kallenbach: "Como tomaste completamente posse do meu corpo? Isto é uma verdadeira escravidão". Além disso, explica que seu retrato "é o único que tem na estante" de seu dormitório.


O casal, no entanto, se viu obrigado a se separar em 1914 quando, após o início da Primeira Guerra Mundial, Gandhi retornou à Índia, para onde Kallenbach não pôde viajar por ser alemão. Lelyveld cita outras cartas nas quais Gandhi faz Kallenbach prometer-lhe que não olharia "com luxúria para nenhuma mulher". Em outra carta de 1933, o líder da independência da Índia reiterava sua lembrança de Kallenbach ao escrever: "Sempre estás em minha mente". O livro de Lelyveld, quem ganhou o prestigioso prêmio Pulitzer de Jornalismo em 1986, também semeia dúvidas sobre o humanismo de Gandhi, ao destacar supostos comentários xenófobos e racistas durante os anos que passou na África do Sul no início do século XX. "Podíamos entender não estar classificados como os brancos, mas situar-nos no mesmo nível que os nativos sul-africanos era demais. Kaffirs (como são chamados os nativos negros da África do Sul) são por norma incivilizados. São problemáticos, muito sujos e vivem como animais", escreve Lelyveld na biografia de Gandhi.


Além disso, Gandhi era consciente da importância de suas declarações e exigia que os jornalistas "não utilizassem as palavras que tinham saído de sua boca, se não uma versão autorizada por ele próprio após a profunda e frequente revisão das transcrições". A obra de Lelyveld é fruto de seu trabalho como jornalista na Índia durante a década de 1960 e na África do Sul, onde trabalhou para o "The New York Times" nos anos 1980. A biografia que, segundo o "The Wall Street Journal", não deixa de mostrar uma profunda admiração por Gandhi, é equilibrada e procura apresentar uma visão mais humana do personagem, embora seja mais provável que decepcione seus admiradores.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Usina de confusões - Revista Isto É - nº 2159

Governo demite toda a diretoria da CNEN após descobrir que reatores atômicos operam sem licenças e que Angra 2 não tem autorização definitiva para operar

Por: Claudio Dantas Sequeira

Descrição da imagem: capa da falecida revista Manchete da década de setenta com visão aérea da então recém instalada usina nuclear brasileira.

Há exatamente uma semana che­gou à mesa do ministro da Ciên­cia e Tecnologia, Aloizio Mercadante, um relatório explosivo contra membros da cúpula do programa nuclear brasileiro. Com base nas denúncias do documento assinado pelas associações de servidores dos principais órgãos ligados ao programa (a CNEN e o Ipen), Mercadante pediu uma imediata investigação in­terna. Em poucos dias convenceu-se de que a situação era, de fato, grave e decidiu agir. A primeira medida será a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves, e de toda a direção do órgão. Gonçalves é responsabilizado, dentre outras coisas, pelo atraso no licenciamento da usina de Caetité que paralisou a extração de urânio e obrigou o Brasil a comprar 220 toneladas do minério no Exterior, ao custo de R$ 40 milhões.

Para Mercadante, trata-se de um constrangimento, já que o País detém uma das maiores reservas de urânio do mundo. Caetité, no entanto, é apenas a ponta de um enrolado novelo que se tornou o pro­grama nuclear. Mercadante ficou chocado ao saber que quatro reatores nucleares utilizados para pes­quisa funcionam sem licença em três campi universitários. O processo de certificação desses reatores foi engavetado pelo presidente da CNEN e por seu diretor de radioproteção e Segurança Nuclear, Laércio Vinhas. “Dá muito trabalho e os reatores estão muito bem”, teria dito Odair Gonçalves, segundo relato de funcionários. Gonçalves nega. “Nosso pessoal está sobrecarregado”, justifica. Mas a gota d’água, para Mercadante, foi saber que Angra 2 opera há mais de uma década sem a “autorização de operação permanente”.

Além das questões técnicas, há críticas sobre o suposto excesso de viagens internacionais de Gonçalves e de nomeações de amigos para cargos de chefia. Seria o caso da física Maria Cristina Lourenço, que chefia a área internacional da CNEN e acompanhou Gonçalves em 11 das 14 viagens que ele fez em 2010. Odair Dias Gonçalves está à frente da CNEN desde 2003. Nesse período, entrou em choque com autoridades do setor e com o corpo de fiscais nucleares. Nem o Itamaraty o tolera e pouco fez em defesa de sua candidatura para cargos na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Foram três tentativas frustradas em 2010. “É um caso raro de unanimidade às avessas”, afirma um assessor de Mercadante. No final do ano passado, Gonçalves filiou-se ao PT. Mas nega interesse na carreira política.

quinta-feira, 24 de março de 2011

GENI, O ZEPELLIN E OS TEMPOS DE INIQUIDADE

“Quando vi nessa cidade tanto horror e iniquidade, resolvi tudo explodir.”
Chico Buarque de Hollanda em ‘A Ópera do Malandro’
Descrição da imagem: Geni, em atmosfera de névoa, observa o dirigível que se aproxima, em vôo rasante e ameaçador.

Desde que me maravilhei com a letra de Geni e o Zepellin, uma das músicas da desafiadora ópera brasileira nos anos de chumbo da ditadura militar, atribuí à tal iniquidade um sentido equivocado, eu a associava a desigualdade e ponto. Nas últimas eleições majoritárias eu recebi um vídeo de um pastor evangélico do Paraná onde o mesmo criticava duramente uma das candidaturas, mas o que me chamou a atenção foi a parte evangelizadora do vídeo na qual o pastor pregava contra a iniquidade. E aprendi que uma sociedade vive uma situação de iniquidade quando os valores por ela eleitos como norteadores do que é ou não aceito se deterioram a tal ponto que, além de passarem a acontecer de forma rotineira e democratizada, passam a vigir como o novo código dessa sociedade.

Não é preciso filosofar nada a respeito, muito menos abrir nossas caixas de ferramentas para se constatar que vivemos um estado de iniquidade nos dias de hoje. Basta olhar ao nosso redor, seja no trânsito, no supermercado, nas relações de trabalho e de confiança, no público alvo de ações e projetos da sociedade civil e do governo. Mais que o comportamento, os valores mudaram. São valores efêmeros, imediatos e convenientes, não existe mais uma idealização de um mundo melhor para além da comodidade. Saramago diz que ‘estamos nos acostumando tanto a ter direitos que esquecemos que para cada direito existe um dever correlato.’ E quando o direito é de outrem, o dever passa a ser nosso e essa dinâmica simplesmente é apagada do código social. Dia desses participei de uma cena e assisti a outra pela televisão: dei uma bronca pública em uma mulher que quase foi atropelada quando ‘ensinava’ sua filha de uns oito anos a atravessar no sinal fechado para o pedestre e à noite vi pela TV uma manifestação em protesto ao atropelamento de uma criança que voltava do colégio de bicicleta, não respeitou a sinalização e morreu atropelada.

Juro que não quero parecer amargo, quem me conhece sabe que minhas mais conhecidas características são o bom humor e a confiança em dias melhores. Mas fica difícil acreditar neles quando se vê, por exemplo, o bulling tomando conta de nossas crianças da mais tenra idade e as mulheres sendo cada vez mais banalizadas, brutalizadas e vitimadas por malucos que as amam demais (sic). A iniquidade é tão sorrateira e tem tanto poder de propagação quanto a AIDS, atinge até os santuários de onde se espera a resistência que perpetuou nossa civilização até os dias de hoje, mesmo diante das catástrofes por nós mesmos criadas. Hoje atravessamos mais um episódio de falta de medicamentos anti HIV e nada plausível foi dito pelo Ministério da Saúde que ao menos tentasse justificar o injustificável. Afinal, é normal ter problemas no processo de abastecimento que vão se somando, se somando, se somando....

Agora, o que mais entristece, para não dizer revolta e emputece (desculpem o termo), é o silêncio da sociedade civil sobre o assunto. Perdeu-se o sentido de urgência que a AIDS tem em suas vísceras. Os mesmos passivistas que se esconderam por detrás dos pilares do auditório Ulysses Guimarães continuam atrás das cortinas, rezando para que não falte seu medicamento ou, quem sabe, sua quimioterapia. A mesma sociedade civil que me apaixonou pela vida social, pelas noções de direitos e deveres, por ser pro ativo e saber a importância que isso tem para a comunidade. O mesmo movimento social organizado do qual me afastei bastante contrariado e artigos anteriores meus podem dar maiores detalhes a respeito. E não sou somente eu, outras pessoas, Ativistas, também estão afastadas e cada vez mais contrariadas com a iniquidade que impera no MOVAIDS.

É, pessoal... Na plenária do Encontro de Pessoas com HIV/AIDS ocorrido em 2007 na cidade de Manaus eu disse, em tom de ironia, que qualquer dia seria formada a Rede de Pessoas Sequeladas pela AIDS, que traria de volta ao movimento o sentimento de urgência tão defendido por Betinho na luta contra a fome. Não uma rede, mas uma horda de famintos que estão em sua última formulação possível do coquetel, pessoas que rodam em suas cadeiras, enxergam ou se apóiam em suas bengalas, pessoas que já deitaram à mesma cama que a Morte e que combinaram com ela que só iriam se alguém pisasse na bola. E tem muita gente pisando feio na bola. Daí o convite para você que se encaixa em alguma das características citadas neste parágrafo, seja no aspecto clínico ou da indignação: queira, por favor retirar seu bilhete em meu guichê no Facebook e embarcar no Zepellin da Resistência.

Chega de tanto horror e iniquidade porque nossa fome é de Vida.

Beto Volpe

sexta-feira, 18 de março de 2011

Qual é a sua, doutor?

Descrição da imagem: perfil de cabeça vermelha, olho destacado com um quebra cabeças colorido onde deveria haver um cérebro. Fonte: 3.bp.blogspot.com
Uma vez mais pipocam alertas de falta de medicamentos do coquetel em várias regiões do país, comprometendo a vida das pessoas com HIV.. Uma vez mais o governo federal emite uma nota técnica recomendando sua substituição para adequar o tratamento de milhares de pessoas às sempre surpreendentes necessidades do Estado. Uma vez mais a resposta da sociedade civil organizada é burocratizada por lideranças mais preocupadas com o formato do que com a essência da luta. E, uma vez mais, o diretor do Departamento Nacional de DST/AIDS/HVs surpreende e diz que ‘"falar isso (que a falta de medicamentos teria virado rotina) de um programa que distribui 20 remédios para pacientes de todo o País é quase uma provocação.".

Doutor Greco, o senhor nem parece o mesmo gestor que há tão pouco tempo igualmente surpreendeu e deu um sonoro puxão de orelhas na sociedade civil, a qual o senhor julgara ‘acomodada’ em relação ao controle social de políticas públicas em AIDS no país, opinião à época compartilhada pela UNAIDS do Brasil. Nem parece o mesmo técnico que garantiu que os problemas de desabastecimento faziam parte do passado e que já haviam sido solucionados com a aquisição de estoques estratégicos de medicamentos. E novamente o Ministério da Saúde afronta as pessoas que vivem com HIV e os profissionais envolvidos em seus tratamentos com problemas nos estoques do Atazanavir, Saquinavir e Didanozina, utilizados por cerca de 40 mil pessoas em todo o Brasil.

Só não afronta algumas lideranças do movimento nacional de luta contra a AIDS e não é de hoje. Vale lembrar que em junho do ano passado, ao final de um longo desabastecimento de diversos medicamentos, houve manifestação na abertura do Congresso Nacional de Prevenção em Brasília, manifestação essa considerada ofensiva pelo (sic) representante das pessoas com HIV para o evento e por diversas ‘lideranças’ através de furtivos olhares por detrás dos pilares do Auditório Ulysses Guimarães. Vale também recordar que as redes de pessoas com HIV não redigiram qualquer manifesto formal, ao contrário de outras redes presentes ao congresso. Tais quais os três macaquinhos, taparam os olhos, os ouvidos e especialmente a boca, compactuando com o então ministro Temporão de que havíamos sido ‘mal educados’ e que a manifestação teria sido inapropriada.

E agora, além de mal educados, os que se atrevem a se indignar são considerados provocadores. Não era isso que o doutor queria? Que a sociedade civil fosse incômoda ou invés de acomodada? Ou agora o senhor está a fazer média com o novo chefe e ao repetir os mesmos equívocos do passado nem satisfações nos dá, apenas diz que "Não há uma justificativa única. Foi uma junção de atrasos, problemas que foram se somando". Lamento discordar, doutor Greco, mas há uma única justificativa, sim, que aglutina e potencializa todos os fatores que ocasionam essa sucessão de desastres: a incompetência. Incompetência em administrar uma logística que está implantada há 15 anos no país e em dar tranqüilidade aos cidadãos brasileiros que dela dependem para viverem suas vidas.

Este ano temos os encontros políticos do movimento. A sociedade civil organizada em AIDS terá a árdua missão em decidir se é acomodada ou provocadora. Se existe para soar vuvuzelas ou para tapar o sol com as próprias mãos.

sábado, 12 de março de 2011

Carta aberta para Sandy

Por Tica Moreno*

Pessoal, lá vai um texto que achei bem interessante. Ainda pela Semana da Mulher. Há muita controvérsia, mas é disso que é feita a evolução, não?
Beto Volpe
Descrição da imagem: foto de Sandy com camiseta da cerveja em referência.

Quando eu estava no ensino médio, você fez um desserviço pras meninas da minha idade, que é a mesma idade que a sua.Foi a época da “garota sandy“: uma jovem, bonita, magra, de cabelo liso, a filha que todo pai e mãe queria ter, rica…. e virgem. E que afirmava que queria casar virgem.A garota sandy era aquilo que nenhuma de nós éramos, mesmo que a gente tivesse uma ou outra característica dessas aí de cima. A verdade é que a gente nem queria ser daquele jeito.Foi a primeira vez (que eu me lembre) que eu me vi sendo comparada com um modelo de mulher que eu não queria ser. E eram os outros que nos comparavam. Aí a gente foi se sentindo inadequada, umas mais, umas menos.Qual era (qual é) o problema de não casar virgem? (Isso pra não perguntar qual é o problema de não querer casar…)Você não acha um problema de fato, até porque há alguns anos você afirmou que não tinha casado virgem. Fico até aliviada por você, porque imagina se não fosse bom com seu marido? Ainda mais se a relação de vocês for monogâmica e conservadora… Não desejo uma vida sem orgasmo nem pro meu pior inimigo.Mas voltando. O padrão “garota sandy” não foi uma reportagem qualquer que saiu na revista da folha. Reforçou um padrão que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres vivam sua sexualidade a vida inteira de forma passiva, em função do desejo e do prazer do cara, que faz as meninas e mulheres que são donas do seu desejo serem consideradas vadias, vagabundas, putas, devassas.O machismo faz isso: separa as mulheres entre santas e putas, “valoriza” as santas e puras e desqualifica, discrimina, violenta as “putas”.Deve ter algum motivo pra você se afirmar como santa, e não como puta, numa época da sua vida.E daí eu vou te dizer, caso você ainda não tenha entendido o porquê dessa carta aberta, seu segundo desserviço pras mulheres. Ser a nova garota devassa.Pra quê?? De dinheiro você não precisa.Você não estudou psicologia? [Não, me disseram aí nos comentários que ela estudou Letras, mal aê - mas eu lancei um google e vi que na época do meu ensino médio, de onde eu tirei a memória pra escrever esse post (ano 2000), circulou ainformação da psicologia, rs.] Deveria ter aprendido alguma coisa sobre sexualidade teoricamente, além da prática (que, de novo, espero que seja boa pra você).Nem as santas, nem as putas, são donas do seu desejo, do seu corpo, da sua sexualidade. O símbolo da devassa, e o imaginário que essa cerveja construiu – e que você vai propagandear – é o de uma mulher feita nos moldes do que a maioria dos homens tem tesão por. Importa o tesão deles, e não o nosso.As revistas femininas (e as masculinas) fazem isso também. Sabe aquelas dicas da Nova pra fazer qualquer mulher deixar qualquer homem louco na cama? Então. É o mesmo machismo, a mesma submissão.Você de alguma forma tá querendo apagar a imagem de santa, usando a idéia de que você pode ser devassa?Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.

* Tica Moreno é formada em Ciências Sociais, foi do DCE da USP e do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CEUPES). Atualmente trabalha na Sempreviva Organização Feminista, SOF. Tica é militante da Marcha Mundial das Mulheres.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Admirável Mundo Velho

Pessoal, não é falta de criatividade, não. Mas nesta Semana Internacional da Mulher reedito um artigo meu de julho do ano passado, justamente por nada haver mudado, ao contrário. É só trocar os nomes para Lavínias, Vanessas, Marias de toda sorte. Lamentavelmente não dá para celebrar um feliz dia das mulheres... Mas é de desejar o fortalecimento daquelas e daqueles que atuam em área tão traumatizante como a da violência contra a mulher. Muitas felicidades a todas e todos que atuam nessa luta, para que um dia possamos dizer:
Feliz Dia Internacional da Mulher!!!
Beto Volpe

Descrição da imagem: mulher sentada no chão de uma calçada, com os braços ao redor das pernas, cabeça abaixada, cabelo cobrindo todo o rosto, foto em branco e preto.

Está atrasado quem pensa que o mundo está mudando. Ele já mudou. É outro, completamente diferente, com tantas inovações que sequer imaginávamos desfrutar. Quem é de minha época lembra que somente o Capitão Kirk e a tripulação da Enterprise usavam telefones portáteis do tamanho da palma de suas mãos. O desejo Divino de união da raça humana teve um grande reforço com a rede mundial de computadores e todos os benefícios dela advindos. Mas algumas coisas parecem não mudar ou as mudanças estão acontecendo em ritmo muito mais lento do que a ciência. A vulnerabilidade da mulher nas relações afetivas é uma das mais tristes constatações de que vivemos um admirável mundo velho. Um mundo onde os avanços tecnológicos nos permitem ter a real noção do quanto ainda guardamos dos tempos da barbárie.

Os noticiários do país não conseguem mudar de pauta. São Eloás, Mércias e Elizas que diariamente inundam nossas vidas de tristeza e, a despeito dos valores envolvidos, encontraram no amor um cruel caminho para seu fim. Cruel porque esse caminho teve a traição e a violência como principais características, seja ao mantê-las confinadas em um apartamento sob a mira de um revólver, seja covardemente lançando o carro em uma represa, seja ardilosamente propondo um acordo para uma suposta paternidade. E a morte trágica e solitária como destino comum.

Não há como negar que mudanças aconteceram no âmbito social. Maria da Penha mostrou o caminho e hoje muitas mulheres se valem de diversos recursos para que seus direitos como seres humanos sejam respeitados por quem vive ou viveu a seu lado. A livre manifestação de pensamentos continua sendo a maior aliada para a expansão e garantia desses direitos, mas algo mais mudou. O TER parece ter vencido a batalha contra o SER. Não importa o que eu seja, importa ter meus desejos satisfeitos. E se o outro estiver no caminho deles, é natural que eu passe por cima desse outro da forma como for mais conveniente para mim. Eu tenho uma namorada. Eu tenho mulher e filhos. Eu tenho. E já que tudo me pertence, é meu direito dispor e descartar quando eu bem entender.
E assim convivemos com situações que, de tão terríveis, nos parecem saídas de um filme de terror classe B, muito diferentes das perspectivas anunciadas pela série Jornada nas Estrelas. A diferença é que estamos dentro da tela e não mais na platéia. E, mesmo fazendo parte da produção, não estamos conseguindo mudar o final desse filme. Um filme que, de tantas vezes visto, passa perigosamente a fazer parte de nossa rotina. Assim como as viagens espaciais os telefones celulares, a internet e outras maravilhas de um mundo novo ainda nada admirável.
Beto Volpe

O verdadeiro pai

Isso é postura de campeão! Não as bobagens homofóbicas que frequentemente escutamos em entrevistas esportivas. Deliciem-se!
Beto Volpe

Descrição da imagem: criação artística de Klaus Bernhoeft com Toninho Cerezzo ao fundo, sua filha Lea T. em primeiro plano e entre os dois o menino Leandro, todos cercados por uma linda revoada de borboletas coloridas. Um ursinho de pelúcia sobre a cama completa o quadro.

"A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade, filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independente da sua orientação sexual [...] Apesar de notar as diferenças, percebi também que nada poderia fazer, e tudo o que poderia dar a ela/ele era o meu amor incondicional [...] Você, Lea T. Cerezo, sabe muito mais que embaixadinhas. Teve coragem de, elegantemente, tentar quebrar paradigmas e mostrar ao mundo que devemos aceitar as diferenças [...] Menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim”. Esse depoimento emocionante foi dado pelo pai da transexual Lea T. - uma das top model do momento - para a revista LOLA deste mês. A elegância das ideias nos remete ao baile com bola no pé que a seleção canarinho de 1982 deu para o mundo durante a Copa da Espanha. O pai de Lea T., Toninho Cerezo, junto com um time de craques como Falcão, Sócrates, Júnior e Zico formaram uma seleção que mesmo não vitoriosa naquele ano, ficou eternizada pelos passes e pela magia de um futebol arte que o Brasil parece perder a cada ano. Para quem não viu Garrincha driblar ou a seleção de 70, esse time foi o mais próximo do que podemos chamar de “o sublime no futebol”. E isso é maior do que qualquer Copa.Toninho Cerezo é forma e conteúdo. Por isso, ele sempre será o patrão da bola. A arte de seu futebol se estendeu para sua vida. Dá pra entender a chateação que Lea T. teve com a imprensa brasileira logo depois que ela começou a aparecer nos noticiários internacionais. A top ficou magoada com os comentários que seu pai não a aceitava e não a entendia. É lógico, o certo é pensar que o ambiente machista do futebol também estivesse presente na cabeça de seus jogadores. Mas erraram todos, menos o pai e seu sentimento amoroso que passa por cima de todos os preconceitos até dos tão esclarecidos jornalistas. Toninho driblou a todos por amor a sua filha.
Vitor ângelo para o Blogay da Folha.com

quinta-feira, 3 de março de 2011

Agite em Paz, Júlio.

Com o tempo fica mais fácil conviver com a morte. A nossa morte. A perda de pessoas queridas ainda é muito dolorosa, ainda mais quando sabemos ser uma pessoa irmã de sangue. Resta continuar acreditando que tudo tem um sentido e um propósito, já que tudo é consequência de algo, a Natureza nos demonstra isso com frequência.
Com a passagem de Júlio Rodrigues, o Júlio da ONG Katiró de Manaus-AM perdem os amigos e amigas, companheiros e companheiras de luta pelos direitos humanos na área da Saúde. Mas perdem, também, as populações ribeirinhas, de fronteira e, especialmente, as pessoas vivendo com HIV não só da Amazônia, mas de todo o Brasil. Você fará falta entre nós, Júlio. Mas tenho certeza que irá agitar sua nova comunidade. Agite em Paz, meu amigo.
Beto Volpe
Descrição da imagem: laço da solidariedade na cor preta.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Arca da Esperança

“Depois de mais sete dias, Noé novamente enviou a pomba e ela voltou com uma folha de oliva no seu bico e então ele soube que as águas tinham abrandado.”
Bíblia Sagrada

Descrição da imagem: desenho de arca com os bichos, ladeada por uma baleia e emoldurada por um belo arco íris.

Mesmo não morando na região metropolitana de São Paulo, todos sabemos o que é um dilúvio e o que ele pode fazer com nossas vidas. Todos também conhecemos a passagem bíblica onde Noé foi chamado por Deus para construir uma arca onde coubessem exemplares de sua Criação, que seriam salvos das águas. Porém, por muitas vezes nos deparamos com verdadeiros dilúvios a inundar nossas vidas de dor, de perdas e que se tornam um verdadeiro teste para nossa resistência e nossa fé. Olhar ao redor e não enxergar um porto seguro não é nada fácil, o que nos resta é a esperança, A esperança de que um dia uma pomba retornar com a anunciação do fim do dilúvio. E do começo de uma novo período em nossas vidas, devidamente adubadas pelas turbulentas águas da adversidade.

Era novembro de 2008 e lembro de uma mesa sobre vacinas em um encontro de pessoas vivendo com HIV onde, ao final das apresentações e aberto o debate, inquiri sobre a recém divulgada.cura de um inglês com a tecnologia das céulas tronco. Causou-me espanto a resposta de um dos palestrantes quando disse que ‘por esse motivo que nós, pesquisadores, não gostamos de adiantar resultados, eles despertam esperança nas pessoas’. Naturalmente que se seguiu uma saraivada de protestos, afinal, de que acham que nós vivemos? O que acham que as pessoas com HIV respiram a cada tomada de medicamentos? Não fosse a esperança em dias melhores teríamos uma adesão ao tratamento muito mais comprometida, maior banalização na prevenção e muito mais problemas a serem resolvidos tanto por nós quanto pelos gestores e os próprios cientistas.

E de Pernambuco vem uma bela pomba trazendo em seu bico uma proteína que pode resultar em uma vacina terapêitica para quem já vive com o vírus. A parceria de três universidades públicas produziu um conhecimento que pode nos aliviar da enorme carga de medicamentos e nos propiciar melhor qualidade de vida. Mais que uma provável vacina, um estímulo e tanto para que nos cuidemos ao máximo, pois grandes novidades estão sendo trazidas à luz. Alem da descoberta brasileira e a cura do inglês, grandes avanços têm sido apresentados nas áreas da genética e nanotecnologia, quebrando o monopólio do saber hoje nas mãos dos laboratóros farmacêuticos.

Sim, é cedo demais para sairmos às ruas celebrando um resultado que pode nem chegar tão cedo. Mas devemos, sim, festejar mesmo que intimamente cada avanço da ciência no caminho da cura da AIDS, ou ao menos de um manejo menos agressivo dessa enfermidade. É essa fé em dias melhores que faz com que os medicamentos desçam nossa goela abaixo, mesmo que saibamos os sérios danos que eles podem nos causar. É essa esperança, por vezes tão ausente mesmo de cautelosos ativistas, que nos faz acreditar que um dia acordaremos e leremos na internet:

DESCOBERTA A CURA DA AIDS !

Será mais que a pomba, será o próprio arco íris anunciando uma nova vida para as pessoas com HIV e um novo mundo para toda raça humana.