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Sou muito humorado. Se bem ou mal, depende da situação...

Em 1989 o HIV invadiu meu organismo e decretou minha morte em vida. Desde então, na minha recusa em morrer antes da hora, muito aconteceu. Abuso de drogas e consequentes caminhadas à beira do abismo, perda de muitos amigos e amigas, tratamentos experimentais e o rótulo de paciente terminal aos 35 quilos de idade. Ao mesmo tempo surgiu o Santo Graal, um coquetel de medicamentos que me mantém até hoje em condições de matar um leão e um tigre por dia, de dar suporte a meus pais que se tornaram idosos nesse tempo todo e de tentar contribuir com a luta contra essa epidemia que está sob controle.



Sob controle do vírus, naturalmente.



Aproveite o blog!!!



Beto Volpe



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Xingamentos

Belo texto de Gregório Duvivier sobre formas de xingamento. Muito legal.
Beto Volpe


Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: "Brother, essa Dilma é uma piranha". Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?

Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: "Essa eu comeria fácil" ou "Até que não é tão baranga assim". O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores.

Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: "O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou." Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.

Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?

Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa.

Gergório Duvivier é ator e escritor e também criador do portal Porta dos Fundos

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

Excelente texto extraído do blog de Daniel Duclos, brasileiro que atualmente mora na Holanda. De uma lucidez impressionante.




A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.
Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.
Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).
Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade. Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções -  estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando o chefe não dá ordens – o que fazer, agora?
Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil a) um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).
Porém, a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. É inquestionável que a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira. Claro que aqui há violência – pessoas são assassinadas, há roubos. Estou fazendo uma comparação, e menos violenta não quer dizer “não violenta”.
O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.
Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Primeiro porque acredito firmemente que a profissão de alguém não têm qualquer relação com o valor pessoal. O fato de ter “estudado mais”, ter doutorado, ou gerenciar uma equipe não te torna pessoalmente melhor que ninguém, sinto muito. Não enxergo a superioridade moral de um trabalho honesto sobre outro, não importa qual seja. Por trabalho honesto não quero dizer “dentro da lei” -  não considero honesto matar, roubar, espalhar veneno, explorar ingenuidade alheia, espalhar ódio e mentira, não me importa se seja legalizado ou não. O quanto você estudou pode te dar direito a um salário maior – mas não te torna superior a quem não tenha estudado (por opção, ou por falta dela). Quem seu paí é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.
Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.

NOTA DA ANAIDS EM RELAÇÃO A TESTAGEM PARA HIV

Pessoal, compartilho com vocês nota da ANAIDS sobre a política de diagnósticos em ONGs. Faltou apenas aproveitar e falar da testagem em farmácias.
Beto Volpe


A ANAIDS – Articulação Nacional de Luta Contra a AIDS – colegiado que reúne os Fóruns e Articulações de ONG AIDS dos 27 estados brasileiros, redes e demais representantes do Movimento Nacional de Luta Contra a AIDS, que por sua vez representam mais de 500 organizações, vem através desta nota se manifestar sobre a ampliação da estratégia de testagem em ONG promovida atualmente pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde:


Entendemos que o acesso ao exame de HIV é um direito do cidadão e como tal deve ser respeitado e ofertado dentro dos limites éticos e de responsabilidade estabelecidos pelo SUS e pelos conselhos profissionais de classe.

Considerando que o momento da revelação sorológica é de extrema importância para a adesão ao tratamento, bem como para minimizar os possíveis efeitos psicológicos que tal resultado poderá trazer, todo o processo de testagem deve ser efetuado com garantia de acompanhamento profissional de qualidade e, sobretudo, garantia de rápido ingresso no sistema de saúde e de retaguarda para efetivo tratamento/acompanhamento posterior.

Portanto, a atual estratégia do Ministério de Saúde de realização da testagem por ONGs, utilizando profissionais nesta prestação de serviços, configura flagrante desvio de função e precarização das relações de trabalho pois, utiliza mão de obra voluntária ou remunerada abaixo dos pisos das categorias, para um serviço que deve ser exercido por profissionais habilitados e garantido pelo Estado.

Este entendimento da ANAIDS está alinhado com as deliberações do XVII Encontro Nacional de ONG Aids – ENONG, realizado em Salvador em novembro de 2013, onde se decidiu pela não adesão das ONGs a esta estratégia e pela defesa do SUS integral com valorização profissional e qualidade nos atendimentos:

A1-3 e A2-5: Ofertar e garantir o teste rápido exclusivamente pelos serviços de saúde, garantindo o pré e pós-aconselhamento qualificados (para Gestão Municipal, Distrital, Estadual e Federal), com abordagem sobre gestão de riscos, uso de novas tecnologias e autonomia responsável das pessoas, incluindo os casais sorodiscordantes, para além do modelo impositivo do uso do preservativo, bem como não vender o teste rápido para HIV em farmácias. (grifo nosso) 

A5-5: - Defender a saúde pública com gestão pública e como direitos de todos. (grifo nosso)

Estamos acompanhando as iniciativas governamentais de atração de organizações para esta prestação de serviços, inclusive a contratação direta sem qualquer tipo de licitação e a qualificação rasa que esta sendo oferecida aos que aderiram a proposta, banalizando a revelação de um resultado que pode influenciar numa mudança de vida radical da pessoa testada.

Brasília, 06 de janeiro de 2014

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Previsões para o futuro do Brasil: os neopentecostais e o fim do Estado Laico

Tem mais gente preocupada com o que vem por aí...
Beto Volpe


Desde tempos imemoriais o homem tenta a partir de meios mágicos ou sobrenaturais prever o futuro. Em muitas sociedades tanto de caçadoras e coletoras como já sedentarizadas tinham sacerdotes especializados para esse fim. Essa tradição chegou aos dias de hoje e muitas pessoas buscam indivíduos com “poderes” especiais para lhes dizer o que acontecerá: “terei fortuna”, “um grande amor”, “felicidade”, “como está a minha saúde?”. Além disso, muitos olham seu “horóscopo” e, por incrível que pareça, guiam seu dia por aquilo o que lerem no jornal (que sempre é algo genérico e que poderia ser aplicado a qualquer pessoa).

A Ciência sempre se afastou de tais “previsões”. A História repudia completamente qualquer tipo de “previsibilidade”. Somos treinados desde sempre de que a História não prevê o futuro. Além disso, somos preparados a não questionar o “e se...”. Ou aconteceu ou não aconteceu: “e se Hitler tivesse ganhado a Segunda Guerra”. Ele não ganhou, portanto não se perde tempo com isso.

“A moral da História” é que não existem meios mágicos para se prever o futuro. No entanto, duas áreas das Ciências Humanas e Aplicadas têm o objetivo de auxiliar a compreensão do presente e buscam estabelecer modelos prognósticos sobre o que pode acontecer no futuro. Percebam que não é a previsão do futuro, mas perceber o que pode acontecer através do conhecimento e análise do passado e do presente. Refiro-me à Ciência Política e à Economia.

Logicamente, essas duas Ciências não são uma “futurologia”, mas tem uma função social de nos mostrar o que pode acontecer política e economicamente, nos dando as bases de compreensão e como agir nos piores cenários. É dentro desse cientificismo que economistas tentam prever as famosas crises cíclicas do capital

É dentro dessa visão que Alexis de Toqueville no século XIX fez previsões que até hoje faz com que os estudiosos se perguntem “como ele conseguiu isso”. Me refiro às previsões relativas às conturbações francesas e que abalaram o mundo em 1848 (a Primavera dos Povos) e em 1871 (Comuna de Paris, que ocorreu doze anos depois da morte de Toqueville). Além disso, ainda previu na obra “A Democracia na América” que o século XX seria dominado por duas potências: Estados Unidos como uma democracia e Rússia com um governo autoritário. Como ele fez isso? Tinha uma “bola de cristal”? Não, ele analisou friamente os acontecimentos do passado próximo e do presente para tentar ver possíveis cenários.

É isso que tentarei fazer adiante, sabendo que há uma grande margem para o erro.

Como já dei aula para os dois cursos vou colocar de lado o meu viés de historiador (que não se preocupa em traçar modelos para o futuro) e tentar ver um prognóstico político-econômico para o Brasil nos próximos anos. A base da minha reflexão será a questão do laicismo do Estado e o crescimento das seitas neopentecostais.

Minhas previsões não são das mais alegres, ao contrário, partem de um pressuposto bastante tétrico: estamos deixando de ser um Estado Laico e entrando nas brumas do determinismo religioso. O que mais gera temor é que não estamos no século XI e sim no XXI!

Quando olhamos o crescimento das seitas evangélicas nos assustamos. Em 1980 representavam 6,6% da população. No senso de 2010 já representavam 22% da população. Quando se analisa os dados percebe-se que o crescimento é vertiginoso e, principalmente, entre as pessoas sem instrução. Em outras palavras, os evangélicos crescem entre os grupos excluídos culturalmente e que são as vítimas históricas da exclusão social no Brasil.

Por outro lado, as seitas neopentecostais seguem uma lógica capitalista extremista em oposição ao anticapitalismo tradicional católico. Sim, essas seitas retomam o princípio do cristianismo primitivo (com raízes no judaísmo) de forma deturpada. No judaísmo e cristianismo primitivo (pré-catolicismo) ter dinheiro significava que essa pessoa era abençoada. Logicamente, havia um princípio de que essa pessoa deveria ajudar o próximo (como acontece com judaísmo). No entanto, no princípio neopentecostal colocou-se que a igreja precisa ser rica (“abençoada por Deus”) e que seus fiéis devem enriquecer a instituição. Dessa forma, os fiéis têm obrigação de doar parte de seus rendimentos.

As igrejas crescem (e suas diversas facções) como empresas capitalistas voltadas para o lucro e a exploração em “nome do Senhor”. Controlando ideologicamente a forma de pensar das pessoas para garantir que sigam seus preceitos e sempre doando dízimos. Como empresas tentam atrair seus “clientes”. Tentam “fidelizar” seus e roubar os clientes de outras seitas ou até mesmo credos.

O objetivo é o lucro. Para isso vendem a felicidade. Por outro lado “operam milagres”: trazem uma voz de esperança e muitas vezes garantem que as famílias com problemas se reestruturem de vícios. Na ausência do Estado isso é um verdadeiro milagre. Em outras palavras: em uma família com problemas de vícios eles garantem a regeneração e se antes a família perdia 70-90% do seu capital para o vício (como drogas e álcool), ela se reestruturando e entregando 10-30% da sua renda ela ainda sai no lucro. É um “verdadeiro milagre do Senhor”.

Imagina isso expandido para uma potencialidade de no mínimo 43% da população (classes D, E e F) isso sem contar com uma parcela da classe média baixa (que deve representar outros 25-30%). Isso garante para essas igrejas um potencial de no mínimo 60% da população que são suscetíveis ao seu discurso e controle ideológico.

Ou seja, hoje eles representam 22%, mas podem chegar em menos de duas décadas 60% da população. Como possuem um visão determinista atacam outros grupos como as igrejas afro e os espíritas, tentando cooptá-los (como já tem uma religião podem ser convertidos). Os católicos pobres já são um alvo primordial do discurso neopentecostal, tendo em vista a incapacidade da Igreja de Roma em sensibilizar os pobres com o seu discurso, que evoluiu muito entre o período medievo e sua posterior perda de domínio na Era Contemporânea. A Igreja Católica não vende terrenos no céu e não “garante” o favor do senhor a partir de dízimos. Ao contrário, a Igreja Católica vai dizer que são as boas ações que levam ao paraíso: crer em Cristo, fazer a caridade e auxiliar ao próximo. Mas isso, não traz alento para quem vive em uma favela ou região desassistida pelo Estado.

Dessa forma, o discurso católico não chama a atenção afora as camadas da população com melhores condições financeiras e uma conscientização maior. Porém, as populações carentes aspiram por algo que lhes dê segurança. Por isso, o catolicismo perde espaço: ele não vende esperança, ele preconiza boas ações.

Não entrarei no debate vinculado aos ateus – esses são vistos como encarnação “pura do demônio”. Como raramente podem ser convertidos são uma ameaça à empresa capitalista neopentecostal. Todos os outros grupos podem ser seduzidos ou anulados, menos os ateus.

Do ponto de vista político-ideológico percebe-se que as seitas neopentecostais crescem vertiginosamente tanto no controle do pensar dos brasileiros como também no Parlamento. No Parlamento são uma força supra-partidária que está presente em praticamente todos os partidos. Ao mesmo tempo, possui uma força política grande, embora sejam inoperantes até o presente momento, pelo menos do ponto de vista de atividade e proposições de impacto social. No Congresso Nacional possuem atualmente 12,2% das cadeiras (são 63 entre 513 deputados). No Senado o número é menor, possuem apenas 3,7% (são 3 entre 81 senadores).

Colocando esses números no papel podemos perceber que no Congresso são verdadeiros “fiéis da balança” se levarmos em consideração a polaridade dos campos opostos PT-PSDB: 12,2% pode garantir a vitória em questões importantíssimas. Não é a toa que percebemos os dois lados flertando com a Bancada Evangélica (Feliciano não foi escolhido ao acaso para a Comissão de Direitos Humanos e sim através de uma articulação do PMDB com um “fechar de olhos” estratégico do PT). Se olharmos as duas últimas eleições, entre a de 2006 e 2010 os evangélicos dobraram a sua participação e para 2014 podem aumentar ainda mais a sua participação. Talvez até dobrando o número de 2010!

Se dobrarem o número de cadeiras terão nas mãos praticamente ¼ do Parlamento. Esse ¼ do Parlamento terá ideias altamente radicais e anti-laicistas.

Levando em consideração que a laicidade do Estado é uma pedra para o desenvolvimento e controle político dos neopentecostais na sociedade, pois os princípios básicos do Estado Laico vai contra as “verdades” das interpretações bíblicas que os neopentecostais fazem, tentarão agir contra ele. Seguindo o rastilho de pólvora, para 2018 os evangélicos poderão abocanhar entre 50% até um teto de 60% do Parlamento. Aí a “casa” vai cair, pois poderão fazer leis de acordo com os seus princípios. O Estado Laico dentro do jogo da democracia dará espaço para a teocracia. Os exemplos do passado recente mostram o que pode acontecer com o radicalismo religioso tomando de assalto o Estado.

Lembrem-se do Fundamentalismo Islâmico no Oriente Médio a partir de 1970. Isso é o que se coloca no horizonte para o Brasil. O que vai se esboçar na eleição de 2018: a disputa entre neopentecostais e o “resto” e isto pode ser a pá de cal sobre o Estado Laico em 2022. Por isso minha previsão é que no máximo em 2022 a eleição não vai ser entre esquerda e direita e sim entre deterministas religiosos e laicos (desde católicos, luteranos, judeus, umbandistas, espíritas, agnósticos e ateus).

Estes laicos serão o último bastião da liberdade no Brasil. Depois disso, se o cenário não se alterar em um futuro breve o determinismo religioso vai se apossar do Estado e todos os males do Estado Teocrático assumirão proporções bíblicas. O Legislativo sofrerá o primeiro golpe, em seguida o Executivo. Tomando o Executivo o Judiciário cairá em pouco tempo, pois é o Executivo quem escolhe os ministros do STF.

Depois disso, tenho até medo de pensar no que pode acontecer. Queria que esse não fosse o prognóstico que se coloca diante de nós no horizonte. Desejo do fundo do meu ser estar errado. Gostaria de chegar em 2018 e 2022 e pensar aliviado: “eu estava errado”.
Essa é a minha esperança...

Rodrigo Oliveira no blog 'Nada além da verdade'

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Entre a cruz e a caldeirinha

Artigo publicado no portal Agência de Notícias da AIDS com algumas reflexões sobre o ano que vem e a luta contra a AIDS.
Beto Volpe

Descrição da imagem?: imagem de uma cruz em cinza versus uma caldeirinha prateada com detalhes em dourado.



No horóscopo chinês, o ano de 2014 será representado pelo Cavalo de Madeira, cujas características são o movimento, a capacidade de transformação e a rapidez com que tudo isso acontece. No Brasil será o ano do Cavalo Louco, em que o país calçará suas chuteiras para a ‘maior Copa do Mundo de todos os tempos’ e muitos candidatos a cargos representativos serão ungidos em troca da vida eterna ao lado do trono, sabe-se lá de quem. Em meio ao leilão do poder, onde leva o apoio quem oferece maiores vantagens, um Ministro da Saúde demissionário e um diretor nacional em Aids bem intencionado, porém precipitado em algumas decisões, banalizam a epidemia de Aids ao ponto de considerá-la básica. Esse ano que inicia pode significar o fim de muito pelo que se lutou durante 30 anos de conhecimento da Aids e joga por terra a saudosa e tão benéfica sinergia entre governo e sociedade civil que já fez o Brasil ser reconhecido como o melhor programa do mundo.


É sabido que o Ministro da Saúde não apita muito na área de Aids, ele é embalado pelo mau humor da bancada evangélica do Congresso Nacional, que já o obrigou a censurar três campanhas de prevenção e direitos humanos para jovens, gays e prostitutas. Oras, se falar em gays e prostitutas em um ano comum é tido como prejudicial a qualquer político, imaginem em ano eleitoral. Tanto o atual ministro, virtual postulante ao governo do estado de São Paulo, quanto aquele que o suceder não moverão uma palha para esses segmentos sociais e, por sua vez, o atual diretor do Departamento de Aids, Dr Fábio Mesquita, que chega do sudeste asiático ao Brasil após uma série de mal entendidos entre o antigo diretor e o ministro, anuncia que o país irá adotar novas tecnologias de diagnóstico, prevenção e assistência.



O fato é que já está decidido: a partir do segundo semestre teremos testes de HIV na farmácia mais próxima e muita gente se pergunta: o que foi feito com o conhecimento acumulado sobre revelação de diagnóstico? Um estudo da USP em 2010 demonstrou que 81% das mulheres que receberam o diagnóstico de câncer de mama, de impacto similar ao da Aids, desenvolveram estresse pós traumático. O que acontece é que pessoas, com ou sem HIV, que atuam no combate à Aids presenciaram uma grande evolução no conhecimento que passaram a ver a doença ‘assim como uma diabetes’. Outros, em cargos técnicos ou em eternas representações no movimento social, perderam o contato com suas bases e não percebem que uma coisa não mudou com o tempo: o chão some quando se recebe esse diagnóstico. As pessoas com HIV gritaram, o Conselho Federal de Psicologia manifestou sua ‘enorme preocupação’, mas a estratégia foi considerada positiva por notórias lideranças do movimento, algumas delas com visíveis intenções partidárias.



E se a Aids é ‘assim como uma diabetes’, por que não tratá-la nas UBSs? Segundo o ministro e o diretor elas estão preparadas para absorver a demanda e é preciso abrir as portas do SUS para a Aids. Oras, senhores, uma rede básica mal remunerada, desestimulada e atolada em afazeres, que não conseguiu dar cabo da sífilis congênita e da tuberculose, como conseguirá colher bons frutos com a Aids? Ainda que dê conta, como ficará o sigilo do diagnóstico em uma sociedade cada vez mais repleta de preconceitos? E a atenção multidisciplinar? E a vigilância em eventos adversos? São perguntas demais para uma ação com conseqüências devastadoras na vida das pessoas com HIV.



O governo fala muito sobre a falta de diálogo com as ONGs e Redes, mas esse diálogo foi corrompido desde que o próprio governo passou a ser o financiador de um movimento que deveria fiscalizá-lo. Cooptações de lideranças, viagens, representações e dinheiro fizeram com que um movimento outrora transgressor se transformasse em um punhado cada vez menor de ONGs e de pessoas cada vez menos comprometidas com sua missão e cada vez mais com objetivos pessoais ou mesmo governamentais. Há quem diga que o movimento de luta contra a Aids irá acabar e talvez isso seja necessário, para que outro irrompa com maior comprometimento. Uma pena pelas poucas ONGs e pessoas que dão sua vida pela luta.



Mas, sem dúvida, o que irá marcar o ano novo será o esperado avanço do fundamentalismo religioso na cena política brasileira. Ligações perigosas com esse setor acabaram por deixar a democracia refém de um grupo que tem clara sua meta: tornar o Brasil um país cristão. E com as atenções voltadas aos patrióticos gramados tudo vira moeda de troca para garantir a elegibilidade e a governabilidade. Recentemente perguntei ao deputado Jean Wyllys sobre seu prognóstico com relação ao assunto e ele foi taxativo ao dizer que é o pior possível. Ano que vem será um ano decisivo para o futuro do país em longo prazo, se iremos reafirmar o desejo de uma sociedade livre ou se iremos entregar o poder a aiatolás tropicais envoltos em casos policiais que vão de corrupção até estupro e para os quais não há ano novo, pois só há um conveniente retrocesso. 



A República Cristã do Brasil está encaminhada e com ela o fim das liberdades individuais e, fatalmente, da luta contra a Aids nos moldes que a conhecemos. Sob o manto sagrado da Copa e a unção das eleições majoritárias, o povo brasileiro se vê entre a cruz e a caldeirinha, onde a ameaça vai além de se perder mais de 30 anos de conhecimento sobre a epidemia. É a de ver o fim de mais um tênue lapso de democracia na conturbada história política brasileira.



Deus nos livre!



Beto Volpe é ativista e um dos fundadores da ONG Hipupiara, de São Vicente-SP. 

Jarbas Barbosa avalia 2013 como um ano positivo na resposta à aids e critica resistência do estado de São Paulo à expansão do tratamento na atenção básica

Senhor Jarbas, ultrapassado é não ouvir o público alvo antes de fazer a primeira bobagem que acha viável. O pior é que o Ministério da Saúde fez um piloto no município de Bragança Paulista, interior de SP, cujos resultados foram relatados no Congresso de Prevenção do ano passado, em Sampa: trágicos, segundo a então coordenadora da área no município. Gargalos na referência e contra referência, falhas na comunicação e perda de contato com pacientes que abandonaram o tratamento em função da mudança. Eles sequer consideram evidências técnicas produzidas por eles apenas para dizer que o Brasil é moderninho e tem um sistema de saúde que funciona às mil maravilhas. Não é o que dizem todos os noticiários em todas as mídias a todo tempo. Com todo o respeito ao Arrelia e a todos os palhaços do mundo, isso é uma palhaçada!
Beto Volpe


27/12/2013 - Agência de Notícias da AIDS


O secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, considera “muito positiva” a resposta do governo ao enfrentamento da aids em 2013. Em entrevista durante o Fórum Aids e o Brasil, realizado recentemente em São Paulo, ele reforçou a retomada do diálogo com a sociedade civil e enalteceu a decisão da Pasta de passar a oferecer antirretrovirais para qualquer pessoa infectada.



Sobre a proposta federal de atender parte dos pacientes com HIV na atenção básica - já contestada pelo secretário de estado da Saúde de São Paulo, David Uip - Jarbas disse esperar que o estado não mantenha essa “posição ultrapassada”. Para ele, a resistência do secretário paulista é reação a uma ideia nova. “Só porque é uma coisa nova, e ele prefere trabalhar naquela zona de conforto à qual está acostumado”, comentou. Leia a seguir a entrevista completa:


Agência de Notícias da Aids: Que balanço o senhor faz da resposta governamental contra a aids em 2013?


Jarbas Barbosa: Foi um ano muito positivo por vários motivos. Primeiro, porque conseguimos intensificar o processo de diálogo com a sociedade civil. Realizamos, ao longo do ano, três fóruns regionais com uma participação estimada em cerca de 1.500 pessoas, entre elas, pesquisadores, ativistas, representantes dos serviços de saúde. Eles participaram opinando, dando sugestões e ideias. Tivemos, também, a decisão da sociedade civil de retornar aos mecanismos de diálogo, como na Comissão Nacional de DST, Aids e Hepatites Virais (Cnaids) e na Comissão de Articulação com Movimentos Sociais em HIV/aids e Hepatites Virais (Cams), que são espaços essenciais. Podemos ter discordâncias e isso faz parte do processo democrático, mas é importante mantermos os mecanismos de diálogo que construímos. O Brasil é um dos poucos países do mundo em que temos a possibilidade de representantes da sociedade civil opinarem, criticarem e cobrarem políticas públicas em relação ao HIV e à aids. Quando o movimento social decidiu retornar, consideramos isso extremamente positivo. 



E, em terceiro lugar, tivemos o lançamento do novo protocolo de tratamento - creio que esse seja um passo adiante que o Brasil dá. A partir de agora, as pessoas que forem diagnosticadas com HIV, independentemente de como esteja o seu sistema imunológico, já têm a possibilidade de receber o tratamento. Isso é bom para ela porque terá uma qualidade de vida melhor, mas é bom também porque ajuda a reduzir as possibilidades de transmissão. Somos o primeiro país em desenvolvimento a aplicar essa nova estratégia. Temos a certeza de que vários outros países, com o nível econômico semelhante ao do Brasil, vão, a partir de agora, cogitar, debater e implantar também essa medida, porque ela pode fazer uma diferença tremenda. Utilizar o tratamento como prevenção é extremamente importante. Hoje temos cerca de 150 mil brasileiros que são portadores do HIV e não sabem. Essas pessoas podem estar transmitindo o vírus todos os dias. Essa estratégia, junto com outras medidas de prevenção, pode fazer uma diferença muito grande no futuro da aids. A partir de agora, a gente pode sonhar com uma redução drástica na transmissão do HIV nos próximos anos.


Agência Aids: Quando o senhor ressalta que a sociedade civil retornou para algumas instâncias, isso significa que, um dia, ela foi embora. Segundo representantes do movimento social, 2013 foi um ano muito crítico. Houve vetos, por parte do Ministério da Saúde, de algumas campanhas de prevenção. Como fazer para que em 2014 seja retomada a ousadia do programa brasileiro de Aids diante das pressões impostas pela bancada fundamentalista no Congresso?


Jarbas: Nós estamos fazendo uma inovação tremenda, que é o tratamento como prevenção. Isso tem evidência científica de que funciona e reduz a infecção. Também temos sempre como enfoque buscar campanhas para as populações específicas. Por exemplo, para a campanha deste 1° de dezembro, fizemos materiais específicos para travestis, que foram, digamos assim, estrelados por uma travesti. Fizemos também um material para profissionais do sexo, que é estrelado por uma prostituta, e materiais específicos para jovens gays. O que ocorreu no Departamento, de alguma maneira, foi uma certa confusão sobre qual é o papel do Estado e qual é o do movimento social. O Departamento de DST/Aids é parte do Ministério da Saúde e, como tal, temos regras de comunicação que têm de ser observadas. Eu, como secretário, não posso chegar num lugar e decidir colocar a marca do governo em qualquer tipo de ação que não seja avaliada dentro das regras da assessoria de comunicação do Ministério e assim por diante...


Agência Aids: O Departamento errou, então?


Jarbas: O Departamento errou de maneira reiterada (referindo-se à divulgação da campanha voltada às prostitutas. Leia aqui.). Um grupo de 12 pessoas, por mais bem intencionadas que sejam, não pode decidir, reunidas em João Pessoa em nome do Ministério da Saúde, fazer um tipo de campanha que, inclusive, se questiona a própria eficácia. Por exemplo, dizer que a prostitua é feliz... Eu não sei se isso diminui o preconceito ou se aumenta... Creio que as prostitutas brasileiras estão mais felizes agora ao terem a possibilidade de receberem, por exemplo, testagem de maneira mais direta nas unidades móveis, de terem acesso ao tratamento de forma mais ampliada... Isso são medidas concretas. Nós temos é de nos basear em ações que tenham evidências fortes e vão funcionar. E apoiar a sociedade civil para que ela fale uma linguagem clara e direta. Temos materiais pelo Brasil inteiro de organizações que trabalham com prostitutas, gays, lésbicas e falam com linguagens diretas. Estes materiais têm apoio do Ministério e nós não mudamos uma linha nisso. Mas campanhas voltadas à população em geral, se também não dialogarem de maneira correta com a sociedade inteira podem ter efeitos contrários, incentivando o preconceito e a rejeição.


Agência Aids: Outra medida recente do Ministério é a expansão do tratamento antirretroviral, em alguns casos, para a atenção básica. No estado de São Paulo, o secretário David Uip se posicionou contra essa iniciativa. Ele também já fez críticas ao programa federal Mais Médicos. Tendo em vista que o ministro Padilha é um possível candidato ao governo de São Paulo pelo PT, a decisão de atender ou não aos pacientes com HIV nas unidades básicas de saúde em São Paulo não pode se transformar numa questão política?


Jarbas: Eu acredito que não. O secretário David Uip é infectologista e conhece bem o tema aids. O que acontece é que toda inovação e toda mudança geram resistência. Eu creio que esse é um processo natural. Quando a gente pensa numa nova estratégia, tem de considerar que algumas pessoas serão contra só porque é novidade e elas preferem trabalhar naquela zona de conforto a que estão acostumadas. Eu fico muito feliz de ver, por exemplo, o que aconteceu na sexta-feira passada, quando eu estava reunido com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, com secretarias municipais e infectologistas que trabalham desde o começo no enfrentamento da epidemia... Alguns vieram me dizer que este modelo baseado só em Serviços de Atenção Especializada em DST/Aids (SAEs) foi criado para uma época e hoje está ultrapassado. 
Precisamos pensar o futuro. Eu creio que este é o espírito atual e espero que o estado de São Paulo, que sempre foi vanguarda, não fique ao contrário, numa posição ultrapassada. Ninguém está propondo desativar SAEs, ninguém está propondo que um paciente com muitas infecções oportunistas ou um quadro clínico que exige uma atenção especializada seja atendido na atenção básica. Mas nós não vamos atingir todas as pessoas se não levarmos aquelas que não têm nenhum comprometimento do sistema imunológico, como esses que agora serão incluídas no protocolo, para os centros de atenção básica, que contam com vários médicos, psicólogos, assistentes sociais. Qual é a razão de não fazer isso? Toda vez que a gente concentra diagnóstico e tratamento a gente coloca barreiras. Vou citar um exemplo de outra doença, mas que pode ser usado também para a aids. Temos hoje, em toda a região metropolitana de Salvador, uma única unidade que faz o diagnóstico e o tratamento da hanseníase. 
É uma unidade de excelência, de altíssimo nível. Fizemos uma pesquisa este ano e descobrimos que uma pessoa que mora na periferia pobre de Salvador gasta R$16 para ir a essa unidade. Se a gente não descentralizar o acesso aos testes e ao tratamento para aquelas pessoas que têm uma condição clínica que permita isso, sob a supervisão dos SAEs, acredito que criaremos uma barreira. E creio que não é esse o desejo da população de São Paulo e de nenhum outro lugar do Brasil. Com diálogo e esclarecimento, todo o Brasil vai começar a se preparar para esse futuro. Para a gente ter uma atenção básica bem qualificada, tem de começar agora, pois isso leva anos. E nós já temos experiências boas. Curitiba já faz isso de maneira consistente, treinando os profissionais da atenção básica com a supervisão técnica dos SAEs, mas dando a oportunidade e a opção para aqueles portadores de HIV, que moram na periferia e não têm doença grave, de serem tratados num centro de saúde mais próximo da sua casa. Os pacientes podem ter esse direito. Obrigar uma pessoa a se deslocar para onde a gente acha que ela deve ir creio que é uma atitude arrogante e desrespeitosa com os direitos que de elas decidirem plenamente onde querem ser atendidas.


Agência Aids: O Ministério da Saúde está preparado para tratar 100 mil novos pacientes com HIV num ano?


Jarbas: Nós já esperávamos ter 40 mil novos casos de pessoas em tratamento entrando no sistema. Além desses casos, queremos mais 60 mil. E, para isso, vamos ter de fazer um esforço muito grande de testar essas pessoas. Os estados e municípios têm de estar preparados para isso. Não falta apoio do Ministério. A nossa parte na compra de antirretrovirais está toda programada. Vamos começar agora usando no Rio Grande do Sul e no Amazonas o ‘três em um’ (três substâncias antirretrovirais em um comprimido). E a partir do segundo semestre de 2014 teremos em todo o país esse remédio para as pessoas que vão começar o tratamento. Ou seja, toda a parte nossa está pronta. Estados e municípios vão ter, provavelmente, um acréscimo de 10% a 20% no número de novos pacientes, o que é um incremento absolutamente suportável e pode dar um impacto tremendo na resposta à epidemia. Com o tempo, nós vamos fazer com que 150 mil pessoas que hoje não sabem que são portadoras do HIV e, por isso, transmitem o HIV, parem de transmitir. O impacto em médio prazo compensa largamente esse investimento um pouco maior no tratamento.



Lucas Bonanno

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

STJ manda igreja a devolver R$ 74 mil a ex-fiel

Pois é, gente boa. Isso abre um belo precedente pra quem se sentir insatisfeito com os resultados de tanta oração e dízimos, não é possível que essa pilantragem continue impune. Notícia publicada no Blog do Josias.
Beto Volpe

Descrição da imagem: um coração vermelho com uma pomba branca ao centro (logo da 'empresa'), esta segurando com o bico uma cédula verde com vários cifrões. E a inscrição 'Templo é dinheiro'.


O STJ determinou à Igreja Universal do Reino de Deus que devolva a uma mulher de Brasília doação de R$ 74 mil. A cifra é de 2004 e terá de ser corrigida monetariamente. O caso escalou a Corte superior graças a um recurso da igreja, que tentava derrubar sentença proferida pelo Tribunal de Justiça do DF. Como que decidido a provar à ex-fiel que existe, Deus ficou do seu lado.
Quando fez a doação, a beneficiária do veredicto era contadora. Em 2003, recebera uma quantia alta por um trabalho que realizara. Um pastor da Universal passou a pressioná-la pelo dízimo. Pedia “um sacrifício em favor de Deus.” Conforme demonstrado no processo, o pastor fez marcação cerrada.
Além de disparar telefonemas, o representante da Universal realizava visitas à casa da fiel endinheirada. Ela acabou cedendo. Doou os R$ 74 mil em duas parcelas. Na sequência, o pastor-zagueiro sumiu da igreja. E a vida da doadora virou um inferno. Desempregada, ela comeu o pão que o Tinhoso amassou. Em 2010, foi à Justiça para reaver o dízimo.
No recurso ao STJ, a Universal alegou que as doações constituem parte de sua liturgia. Sustentou que a Bíblia prevê as oferendas a Deus. Argumentou, de resto, que o Judiciário não deveria se meter na encrenca, sob pena de ferir a liberdade de crença e criar obstáculos ao exercício do culto religioso. Não colou.
Prevaleceu o artigo 548 do Código Civil. Nesse trecho, a lei reza que é nula a doação quando o doador não reserva para si renda suficiente à própria subsistência. A igreja ainda tentou argumentar que a ex-fiel não doara tudo o que tinha. Restaram-lhe casa, carro e parte do dinheiro que amealhara.
Divina providência: o STJ informou que não pode rever as provas nesse estágio do processo. Para que a sentença fosse reformada, seria necessário que houvesse uma falha gritante. Algo que os magistrados não encontraram.
A decisão do STJ anota: “Dos autos se extrai um declínio completo da condição da autora, a partir das doações que realizou em favor da ré, com destaque para a última, que a conduziu à derrocada, haja vista que da condição de profissional produtiva, possuidora de renda e bens, passou ao estado de desempregada, endividada e destituída da propriedade de bem imóvel.”
Amém.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

“O Brasil está chocando o ovo da serpente”

Pois é, nada a acrescentar.
Beto Volpe


Frei Betto diz que bancada evangélica se assemelha aos regimes nazista e fascista: “O Brasil está chocando o ovo da serpente”

A bancada evangélica e seu discurso, tido como fundamentalista por muitos, foram alvos de severas críticas do teólogo e escritor frei Betto, que comparou a postura do movimento político no meio evangélico com o surgimento dos regimes nazista e fascista na Europa do século XX.
“Estamos assistindo a certos segmentos religiosos chocarem o ovo da serpente, expressão que vem do nazismo dos anos 30, na Alemanha: depois que a coisa esquentou é que muita gente se deu conta”, afirmou.
O discurso contrário à agenda da bancada evangélica aconteceu durante o 9º Encontro Nacional Fé e Política, realizado no campus da Universidade Católica de Brasília (UCB), de acordo com informações do jornalista Roldão Arruda, do jornal O Estado de S. Paulo.
“O Estado e os partidos não devem ter religião, mas respeitar a diversidade do pluralismo religioso”, disse, manifestando preocupação com a associação de igrejas a partidos políticos: “No Brasil, determinados segmentos religiosos estão cada vez mais partidarizados. Existe no Congresso Nacional a bancada evangélica. Não tenho nada contra os evangélicos, tenho contra essa bancada”, pontuou.
Frei Betto, que no passado foi ligado ao Partido dos Trabalhadores – afastou-se do PT durante o primeiro mandato de Lula – comparou o atual momento da política ao ambiente que resultou no surgimento do fascismo na Itália: “Precisamos abrir o olho porque está sendo chocado no Brasil o poder fundamentalista de confessionalização da política. Isso vai dar no fascismo”.
Ilustrando seu argumento com a postura adotada por Jesus em seu ministério, frei Betto explicou que o ideal é que os governantes sejam oriundos do povo e semelhantes a este: “Quem governa seja como aquele que serve. Esse é o maior testemunho de Jesus. O maior ato de Jesus foi quando ele se ajoelha para lavar os pés dos seus discípulos. Isso é o poder, colocar-se a serviço”.
Há dois anos, o pastor Ricardo Gondim adotou postura semelhante ao criticar a intenção de lideranças religiosas estabelecerem uma maioria evangélica no Brasil a todo custo. Segundo o líder da Igreja Betesda, os representantes do segmento estariam à beira de invocar uma “guerra santa”.
“A esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para ‘ser do Senhor Jesus’, o Brasil tem que virar ‘crente’, com a cara dos evangélicos [...] Um Brasil evangélico significaria o triunfo do ‘american way of life’, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos [...] Deus nos livre de um Brasil ‘evangélico’”, criticou.
Por Tiago Chagas, para o Gospel+

sábado, 14 de dezembro de 2013

Por 2014, Planalto freia projeto que criminaliza homofobia

Sentindo-me enojado com tanta sujeira em troca da tal governabilidade, compartilho notícia publicada nesta sexta feira 13. Aproveito e publico novamente um texto meu, 'República Cristã do Brasil'. Nascido ficcional, hoje é o retrato de uma dura realidade.
Beto Volpe


Pelo telefone, a ministra Ideli Salvatti orientou bancada a só votar a proposta depois das eleições, condição imposta por evangélicos em troca de apoio para a reeleição da presidente

Preocupado com o risco de ficar sem o apoio de evangélicos na campanha para a reeleição da presidente Dilma Rousseff no próximo ano, o governo começou a orientar a base no Senado a ceder ao desejo dos religiosos e não votar neste ano do projeto que criminaliza a homofobia (PLC-122).
Como parte da estratégia para orientar a bancada, a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, entrou em campo nesta semana. Ela telefonou para senadores governistas para pedir que a proposta fosse deixada para depois das eleições ou, de acordo com relatos de senadores, quando houver consenso sobre o assunto.


Elza Fiúza/ ABr
Ministra Ideli Salvatti orientou bancada a só votar a proposta depois das eleições


O acordo pedido pela ministra teria que conciliar interesses das igrejas e dos gays, até agora considerados pelos dois lados como inconciliáveis. A proposta também é um pleito histórico no PT, que se antecipou à movimentação do Planalto e divulgou na semana passada uma nota na qual reforça a posição em favor da votação do projeto.
“O Planalto tem afirmado que se houver ameaça a liberdade de expressão das igrejas, o relatório deve ser melhorado”, defendeu o líder do PT no Senado, Wellington Dias (PT-PI). “Não acredito que haja alguma igreja que defenda o ódio”, argumentou.
O pedido de Ideli atende diretamente às exigências dos religiosos que não querem permitir avanço na tramitação da proposta. Na quarta-feira (11), na reunião da Comissão de Direitos Humanos, o senador e relator, Paulo Paim (PT-RS), driblou as manobras tentadas pelos evangélicos para protelar a votação e conseguiu ler o relatório.
Os evangélicos, que haviam tentado esvaziar o quórum necessário para a votação, tiveram que recorrer para o último pedido de vista do documento. Regimentalmente, os evangélicos não podem mais se utilizar deste recurso para protelar as votações. “Foi uma vitória poder ler o relatório e ainda fazer com que os evangélicos usassem o pedido de vista. Li e colocamos em votação. Ainda temos a próxima semana para colocar o texto em votação”, considerou Paim.
A presidente da comissão, senadora Ana Rita (PT-ES), informou que está disposta a colocar o relatório em votação na próxima sessão da comissão, na quarta-feira (18).
Divergências
A posição do Planalto a favor do adiamento da votação ocorreu mesmo após a flexibilização da proposta apresentada por Paim. Para tentar aprovar seu relatório na comissão até o fim deste ano, Paim retirou do texto a palavra “homofobia”, incluiu artigos que resguardam a liberdade de expressão em eventos religiosos e que definem o “respeito” a templos e eventos religiosos no caso da manifestação de afetividade por parte de homossexuais. O senador também ampliou os tipos de preconceito a serem tratados na lei.
Consenso sobre o assunto não há nem entre gays e religiosos, nem entre senadores da base, nem entre senadores do próprio PT que integram a comissão. Ana Rita e Paim são os únicos titulares petistas a defenderem a aprovação da proposta. O senador Walter Pinheiro (PT-BA), que é evangélico, se alinha à posição defendida pelo Planalto nos bastidores e à de Wellington Dias, a favor do adiamento da votação até que se forme o consenso.
Paim acredita que tem como aprovar seu texto na comissão com apoio da maior parte do colegiado. Em apoio ao relatório, já se manifestaram informalmente os senadores Roberto Requião (PMDB-PR), Randolfe Rodrigues (PSOL-AC), Lídice da Mata (PSB-BA), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Paulo Davim (PV-RN).
Condição
O condicionamento do apoio à reeleição de Dilma Rousseff à rejeição ou adiamento da votação da proposta foi apresentado ao Planalto por senadores que estão na linha de frente do lobby das igrejas. Um deles é o senador Magno Malta (PR-ES), pastor da Igreja Batista. Malta não faz segredo da exigência.
“Não adianta na época de eleições tomar café com pastor, visitar as igrejas e depois de eleitos, defenderem projetos contra a família, da forma que foi concebida por Deus. Nós vamos nos posicionar contrários aos políticos que defendem essa ideologia homossexual. No segundo turno das eleições, andei este país inteiro com a Dilma, mas agora ninguém vai me usar mais”, reclamou o senador.
Na semana passada, Wellington Dias, que é católico, viajou ao Espírito Santo para se encontrar com Magno Malta. Os dois trataram da estratégia para barrar a aprovação da proposta e Malta aproveitou para colocar sua posição em relação ao apoio dos evangélicos na corrida eleitoral para a Presidência da República.
Gim Argello (PTB-DF) foi relator da lei que incluiu a música gospel entre os projetos culturais que podem ser financiado pela Lei Ruanet. Ele também manteve interlocução com o Planalto exigindo que a proposta não fosse levada a frente.
Outro senador que tem atuadopara barrar a proposta é Eduardo Lopes (PRB-RJ), pastor da Igreja Universal, que substituiu no mandato Marcello Crivella quando o bispo se licenciou para assumir o Ministério da Pesca no governo de Dilma Rousseff.
Eduardo Lopes argumentou que a proposta de criminalização não deveria ser tratada fora das alterações no Código Penal e que, por isso, deveria ser arquivada na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado. O projeto já foi aprovado na Câmara e antes de chegar ao plenário do Senado terá que ser aprovado pela CDH e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
Fonte: Portal IG

REPÚBLICA CRISTÃ DO BRASIL
Descrição: silhueta feminina fumando, tendo ao fundo a noite que entra por uma janela entreaberta.

Recentemente assisti a um filme que está disponível para exibição na internet e que deveria ser transmitido em cadeia nacional no horário nobre: Persépolis. É uma animação francesa em preto e branco que relata o processo de transformação da república iraniana para um estado religioso. Acho que a presidenta Dilma também deve tê-lo assistido, daí as lágrimas durante a posse do religioso Marcelo Crivella como ministro de seu governo. Um indivíduo que abertamente rejeita os consensos científicos, avanços sociais e que representa toda uma legião de lideranças religiosas a destilar ódio contra homossexuais, a inferiorizar a mulher e a demonizar outras religiões e culturas através de concessões públicas de TV e rádio. Não é o primeiro sinal de que a democracia e as liberdades individuais no Brasil correm o sério risco de serem banidas pelo pior tipo de ditador que existe: aquele que diz representar a Deus.

Voltando a Persépolis (capital da antiga Pérsia, atual Irã), Marjane é uma menina de classe média que acompanha, em 1979, a insatisfação de comunistas e liberais com o regime corrupto do Xá Reza Pahlevi. Porém, esses segmentos progressistas sozinhos não seriam capazes de mudar o sistema o que os levou a formar alianças com religiosos, pois que a religião era a única unanimidade em uma região diversificada em etnias. E deu certo, o povo atendeu ao chamado e derrubou um regime que se perpetuava de pai para filho que, como dito, era corrupto e representava as ameaças ocidentais à cultura local. 

O que a classe média e a esquerda não contavam é que, ao tomarem o poder, os representantes de Deus na Terra iriam se sentir o próprio Deus e, com o apoio do povo, estabeleceram uma república islâmica liderada por aiatolás, radicalmente rígida nas leituras do Islã, onde liberdades individuais são muito limitadas. Que ao destilar ódio contra homossexuais, a inferiorizar a mulher e a demonizar outras religiões e culturas transformaram uma nação desenvolvida, apesar de corrupta, em uma ditadura retrógrada econômica e socialmente, sempre envolta em conflitos.

Como perguntaria nosso novo Ministro da Pesca, o que a minhoca tem a ver com o anzol? Tem tudo. O processo de aproximação entre a esquerda e as religiões cristãs no Brasil, em nome da governabilidade, foi ratificado na aliança para eleição da presidenta Dilma. Líderes evangélicos, em especial, passaram a ter trânsito em todas as esferas governamentais e a ocupar cargos majoritários no poder, muitas vezes sem nenhuma afinidade com a pasta. Como Crivella, que sequer sabe colocar minhoca em anzol e que colocará em risco uma série de pesquisas, uma vez que evolução não existe, tudo era como está e sempre o será. Só falta o sucessor de Mercadante ser analfabeto funcional. Esse trânsito facilitado fortaleceu o lobby religioso ao ponto de unir duas vertentes do cristianismo, evangélicos e católicos, tradicionalmente adversárias na luta pelos direitos autorais de Cristo. E com resultados surpreendentes, dentre eles a censura ao vídeo de prevenção à AIDS no carnaval deste ano voltado ao público homossexual jovem, vídeo esse motivado por dados epidemiológicos.

Acredito que da parte do governo nada será feito para inverter ou, ao menos, estancar essa chaga que se espalha pelos bastidores e no palco do poder brasileiro. Somente a sociedade civil organizada em todos seus segmentos terá condições de empunhar a defesa do Estado Laico no Brasil como principal bandeira de luta, pautando esse tema como prioridade na luta pelos direitos humanos. Sob pena de vermos nossos direitos sendo desrespeitados em nome da Fé.

A Fé tem o poder de ampliar o espectro de visão de qualquer pessoa, mas a fé deturpada pode cegá-la. Quantas e quantas famílias de cidadãos honestos e solidários discriminam seus filhos e filhas homossexuais e travestis por conta de sucessivas traduções, versões e leituras propositadamente errôneas da Bíblia Sagrada? Quantas e quantas pessoas de bem asseguram sua permanência ao lado do Divino pela eternidade através da quitação de um carnê, como se Deus fosse Samuel Klein e o Paraíso uma super loja das Casas Bahia? Quantas e quantas grandes mulheres são oprimidas e brutalizadas em seus lares e comunidades por estar escrito que seu lugar é atrás do grande homem? Quantos e quantos políticos bem intencionados são envolvidos em um projeto de governabilidade que sabemos ser necessário, mas a que preço e risco?

Imagino, pelas incontidas lágrimas, as noites de insônia que Dilma deve estar atravessando e se questionando se estaria realmente transformando o país para melhor ou colocando em risco tudo pelo qual lutara por toda sua vida. Será que, em seus poucos momentos de sono, não estaria a presidenta tendo pesadelos envolvendo queimas de livros científicos, doutrina religiosa nas escolas, perseguições sanitárias a terreiros e centros espíritas, o aumento da AIDS pelo fim das ações de prevenção e a conversão do São João e Carnaval em grandes retiros espirituais? Ou a volta da censura e de aparelhos de repressão na República Cristã do Brasil, reativando endereços e métodos que ela um dia pensou fazer parte de seu passado, tudo conduzido pelo DOPS - Doutrina da Ordem pela Palavra do Senhor - e seu comandante e líder espiritual Jair Bolsonaro, Ministro da Cidadania. Myriam Rios, Sylas Malaraya, companheira Dilma, companheira Dilma...

COMPANHEIRA DILMA, ACORDA!
VOCÊ NÃO ESTÁ TENDO UM PESADELO !
ESTADO LAICO, JÁ!!!

Beto Volpe